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RIP Chico Anysio, e minha maior lembrança de infância do humorista

Postado em 24 March 2012 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Nos últimos dois uo três anos, o tuíter se tornou um obituário em tempo real. Quando alguém importante morre, pode ter certeza que a galera dessa rede social fica sabendo antes de qualquer meio de publicação.

A hivemind do tuíter nem sempre acerta, claro; algumas mortes fictícias já foram reportadas lá, quase sempre no espírito de trollagem.  Houve uma época que matavam o Jeff Goldblum toda semana, o coitado já devia estar exausto de tanto morrer.

Enfim: o defunto da vez foi o Chico Anysio. E dessa vez, infelizmente, não era hoax.

A bem da verdade, eu não era muuuuuito fã do humor do Chico quando era moleque. O maior expoente do trabalho dele, ao menos pra turma da minha idade, era a Escolinha do Professor Raiumundo, que passava todo dia de tarde na Globo. Eu não curtia muito o programa, achava o humor meio besta, e os personagens tão caricatos que era como se eles contassem as mesmas piadas todo dia.

Eu era uma criança estranha em relação a isso, aliás. Eu era meio particular em relação ao tipo de humor que eu curtia. Lembro-me que fui OSTRACIZADO na escola, tal qual um leproso, por confessar que havia odiado o sucesso humorístico do ano, Debi & Lóide. Achei o filme imbecilíssimo, insuportável, e olha que eu mal tinha lá meus 10 ou 11 anos.

Tenho certeza que se assistir hoje, iria curtir. Assim como hoje gosto de ver vídeos da Escolinha — e dos outros trabalhos do Chico — no YouTube. Sempre achei curioso esse fenômeno de ser exigente quando criança e expandir meu paladar humorístico quando mais velho. Deveria ser o contrário, né?

Enfim. Uma anedota relevante em minha memória do Chico Anysio (e da Escolinha, por associação) é a raiva que minha mãe sentia do cara.

Eu nem entendia o motivo, visto que (como expliquei anteriormente), eu não assistia o programa dele. Só sei que sempre que a Escolinha começava, minha mãe passava a criticar o cara. Sempre que seu nome ou a Escolinha eram mencionados, ela esculachava o cara, dizendo que era um mau caráter ou algo parecido. E eu não entendia bem por que.

Até que um dia, algum adulto inquisitivo estranhou a insatisfação da minha mãe com o comediante. “Ué, mas ele não é conterrâneo de vocês? Como você pode ter tanta raiva do cara?”.

Era um argumento válido. Morávamos na época no Paraná; como é costume de todo expatriado (sim, o glorioso Ceará é uma pátria soberana), havia um sentimento ufanista forte em nosso domicílio. E isso se manifestava, comumente, na apropriação de celebridades que compartilhavam nossa procedência.

“Ah, o Tom Cavalcante? Ele é lá da terrinha, sabia?” dizia meu pai, com tom de orgulho (e com o Tom de Cavalante) entre amigos sulistas.

“Sabia que o Renato Aragão é cearense igual a mim, né?” eu reportava pra turminha da escola. Sendo o Didi um herói televisivo da molecada, eu esperava que parte de sua notoriedade passasse pra mim.

Ok, a maioria dos cearenses famosos são comediantes. Isso não visto por nós como uma desvantagem, na realidade — exceto quando gerou a infeliz expectativa de que eu tinha que ser o mais engraçado garoto da sala, porque era “sobrinho do Didi ou algo assim”. Como essa molecada do diabo exagera.

Enfim, retomando a história. Quando o amigo dos meus pais perguntou como minha mãe podia detestar tanto um conterrâneo, essa espécie de gente que até então era promovida por nós como um misto entre Jesus Cristo e o cara que curou a poliomelite.

Minha mãe explicou que, num momento de insatisfação com um de seus alunos na Escolinha, o Professor havia chamado um deles de “baitola”. O personagem tinha esse hábito de, em momentos de exasperação, usar algum termo obscuro pra xingar seus alunos. Considerando o contexto Sul/Sudeste dos anos 90, “baitola” era uma expressão relativamente desconhecida.

Não para minha mãe, obviamente. Sendo extremamente religiosa, ela achou um absurdo o cara usar tal termo na TV, supostamente protegido pelo fato de que a maioria dos telespectadores não entenderiam o real significado da palavra tão ofensiva.

E essa é a maior lembrança de infância que tenho do artista. Curiosa, né?

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Categorias: Minha infância

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)