Dizem que nostalgia é uma forma de escape, não muito diferente da literatura ou da cinefilia. Os sábios (e os auto-proclamados sábios, o que é bastante diferente) pregam que a nostalgia é um reflexo da sua falta de habilidade de encontrar felicidade na sua vida atual.
Supostamente, quando o sujeito é muito insatisfeito com a sua condição presente, a mente se apega a eras passadas, romantizando aquele período como se fosse o melhor da sua vida – a despeito do fato de que provavelmente não era.
Discordo desse prognóstico, porque eu me considero bastante satisfeito com a minha vida atual. Entretanto, se os intelectuais estiverem certos, eu devo ser MUITO infeliz, porque eu tenho saudade de MUITA coisa.
Tenho saudade da TV Colosso.
Tenho saudade de assistir programas e filmes em minha língua nativa.
Tenho saudade de estar inteirado a respeito da mídia nacional. Nomes de artistas novos e programação recente é uma incógnita pra mim.
Tenho saudade de poder andar na rua de bermuda, camiseta e chinelos durante qualquer mês do ano.
Tenho saudade daquelas tardes na casa da minha avó, enfiado em livros do Monteiro Lobato enquanto tirava uma folga de um dia inteiro soltando pipa.
Tenho mais saudade ainda de quando minha vó aparecia do nada na sala com uma bandeja cheia de coxinhas de frango e um copão de suco de maracujá.
Tenho saudade da época que eu podia segurar meus primos e primas recém nascidos no colo. Hoje os moleques têm 13, 14 anos, e provavelmente poderiam me segurar no colo.
Tenho saudade de ter uma família bem definida.
Tenho saudade da época em que a inocência era tamanha que ouvir pela primeira vez a frase “Deus não existe” significou a quebra de um paradigma, quase um trauma.
Tenho saudade de quando “contas”, “aluguel” e “cartão de créditos” eram conceitos extremamente intangíveis.
Tenho saudade de ir à casa dos meus primos e passar a tarde inteira jogando PC games clássicos, ou lendo a revista Superinteressante que minha tia assinava, ou aprontando aventuras inacreditáveis, como aquele dia em que eu fiz um flamethrower caseiro. Eduardo, Pedro Henrique (meus primos), se vocês estiverem lendo isso, me cobrem um post a respeito.
Tenho saudade daquele computador IBM XT do meu pai, idêntico a este aqui, que me deu a chance de entrar em contato com tantos jogos clássicos que marcaram minha infância.
Tenho saudade daquelas tardes que eu passava com a turminha do bairro na frente da locadora, conversando sobre videogames numa época em que o Playstation 1 era novidade totalmente fora do nosso alcance. Aqueles momentos galvanizaram minha personalidade nerd de hoje.
Tenho saudade de pedir alguns reais pra ir à banca de jornal e comprar revistas da Turma da Mônica, ou a revista Herói. Aliás, a revista Herói foi outra responsável pela minha nerdização.
Tenho saudade daquele tempo em que o máximo contato sexual que eu tinha experiência eram aquelas apertadinhas no bumbum das namoradinhas casuais, que eram sempre respondidos com um pronto tapa. Eram os melhores 0.35 segundos da minha vida.
Tenho saudade da época em que “fitas” eram sinônimo de “jogos”, uma prática que meu pai (nerd técnico) sempre corrigia com indignação. “Fita?! Como assim fita? Não há ‘fita’ alguma lá dentro! Fita é VHS, moleque.”. Eu mal sabia na época que estava sendo moldado pra me tornar um futuro nerd espertalhão arrogante também.
Tenho saudade de jogar bafo na escola, um esporte versátil cujas regras variavam de grupo pra grupo.
Tenho saudade de segurar o controle com a camisa, pra facilitar o deslize entre os botões.
Tenho saudade de chegar da escola, tirar o uniforme, me dirigir a minha preciosíssima gaveta de jogos, puxar um cartucho qualquer (quase sempre era Super Mario World, previsivelmente) e jogar literalmente o dia inteiro, um hábito que eu perdi há mais de uma década.
Tenho saudade daquele meu deslumbramento ao ver Super Mario World pela primeira vez; eu achava interessantíssima a noção de que as fases estavam organizadas de forma mais ou menos não-linear num “mundo virtual” em que você podia passear se quisesse. Aliás, eu passei horas andando pela Dinosaur Land.
Tenho saudade da época em que ser o irmão mais velho significava que o Controle 1 era minha posse vitalícia; ai do meu irmão se ele pensasse que podia jogar com o Mario ou com o Diddy Kong.
Tenho saudade dos antigos programas brasileiros de games, como o StarGame com sensacional Cristiano Gualda. Aliás, achei o cara no orkut há algum tempo, muito gente boa o sujeito.
Tenho saudade de correr pra pegar um caderninho quando ouvia a chamadinha do StarGames, pra anotar cheat codes que eu normalmente precisaria comprar revistas pra ter acesso.
Tenho saudade da época da desinformação, quando a falta da internet nos permitia inventar e proliferar inúmeras lendas sobre os nossos jogos favoritos.
Tenho saudade da época em que o corpo feminino simbolizava um mistério que eu aspirava um dia desbravar.
Tenho saudade daqueles álbuns de figurinha bem underground, vendidos nas quitandinhas da esquina por um real, e que ofereciam prêmios bem fajutos pra quem os completasse.
Tenho saudade da geração pulso único.
Tenho saudade de scripts, Ctrl + K seguido por dois números aleatórios, DCC send, gamagames, empacotamento de inimigos, ircontros, e falar pros noobs que /quit [insira alguma frase em inglês, pra maior autenticidade] melhorava a conexão, registrava um canal, ou mudava o nick deles.
Tenho saudade de esperar até meia noite pra conectar à internet, apesar de ter aula na manhã seguinte.
Tenho saudade do Super11, do iG, e de outros provedores dial-up grátis que surgiram em meados do ano 2000.
Tenho saudade do tempo que “baixar música na internet” era um conceito tão recente que apenas os true nerds conheciam.
Tenho saudade do Napster e a ausência da função de resume nas primeiras versões do programa, o que me presenteou com muitas músicas que acabavam pela metade.
Tenho saudade do GetRight, e do tempo em que um download a 8kbps merecia até um screenshot (salvo no Paint, em formato .bmp).
Tenho saudade daquela época quando eu tinha acabado de descobrir os emuladores, algo que BLEW MY FUCKING MIND. A idéia de que eu poderia jogar QUALQUER jogo de SNES no computador de graça foi provavelmente um dos pontos mais memoráveis de toda a minha infância.
Tenho saudade do meu antigo espírito empreendedor infantil, que me deu a idéia de vender ROMs de SNES em disquetes por 5 reais durante o recreio. E COMO vendeu, rapaz.
Tenho saudade do tempo em que conectar à internet num dia que não fosse sábado (após às duas da tarde) ou domingo significava aquele medão da mãe precisar usar o telefone e descobrir sua traquinagem.
Tenho saudade daqueles malucos que vendiam CDs lotados com programas e jogos pirateados. Eu comprei um que trazia jogos que eram lançamentos da época – Age of Empires, Delta Force, Outlaws e Grande Theft Auto.
Tenho saudade de disquetes de 1.44mb, e da época que apenas ROMs de SNES que cabiam neles tinham a chance de se popularizar na escola.
Tenho MUITÍSSIMA saudade das Revistas do CD ROM, daquela interface bem cafona que variava todo mês, e dos inúmeros copycats que surgiram em seguia – CD Expert, Globo CD, Max Games, etc.
Tenho saudade dos jogos que vinham com os KITS MULTIMÍDIA, um meio de distribuição de games que deu a muitos da minha geração a chance de conhecer clássicos point and click da Lucasarts.
Tenho saudade das homepages, e suas descrições que sempre incluiam “…downloads, muitas taglines, vários papéis de parede e muitas ROMs de Super Nintendo. Assine o guest book!”.
Tanto eu quanto os leitores cujos olhos se encheram de lágrimas ao ler este texto tivemos a melhor infância do mundo.





“Tenho saudade daquele meu deslumbramento ao ver Super Mario World pela primeira vez; eu achava interessantíssima a noção de que as fases estavam organizadas de forma mais ou menos não-linear num “mundo virtual” em que você podia passear se quisesse. Aliás, eu passei horas andando pela Dinosaur Land.”
Wow, eu também achei sensacional isso, ficamos eu e meus irmãos hipnotizados.
“Tenho saudade do tempo que “baixar música na internet” era um conceito tão recente que apenas os true nerds conheciam.”
Lembro quando esperei algumas noites para baixar e ver 60 segundos de clips de bandas no meu pentium. E eu achava o máximo em vez de ver na TV.
Lembrei de tanta coisa agora. :’) best post ever.
Me identifiquei com algumas partes.
Mas a maior parte das coisas foi como se eu tivesse visto de fora.
[...] atrás, o Kid fez um post gigante listando coisas das quais ele tinha saudade. Me interessei pela idéia, já que muito do que ele listava era, de uma certa forma, o mesmo tipo [...]
Como me identifiquei com o seu post! Tenho saudades especialmente da Internet “de antigamente” e do tempo em que a vida era (quase) só jogar games.
Tive uma infância mto boa, mas tb não concordo com esses sábios. Atualmente estou passando por uma das melhores fases da minha vida, mas continuo mto, mto nostálgica.
Aliás, o design deste blog é fatal para nostálgicos como eu! =D
[...] do Tio Solid, do Graveheart e do Quide, chegou minha vez de postar saudozismo a nossa infancia [...]
“… quando minha vó aparecia com uma bandeja cheia de coxinhas de frango e um copão de suco de maracujá.”
Com minha mãe,amigos.
“Tenho saudade de chegar da escola, tirar o uniforme, me dirigir a minha preciosíssima gaveta de jogos, … um hábito que eu perdi há mais de uma década.”
Mesma coisa.
Tenho saudade da época em que o corpo feminino simbolizava um mistério que eu aspirava um dia desbravar.
As que mais me marcaram…
Obrigado por este post, cara. Obrigado mesmo.
nunca fui fuito fanático por video games não. mais eu sinto saudades de muitas coisas, uma delas e a principal, sinto saudades de ser criança.
Sudades da época quando eu ganhei um Playstation e ninguém o conhecia… Daí meu melhor amigo ganhou um Saturn, mas na verdade mesmo ele queria era um Play =D
Saudades de Jaspion, Sharivan, Changeman e do Esquadrão Winspector! E saudades também da época que eu esperava para começar “Os Cavaleiros do Zodíaco” na Manchete mas não assistia nem cinco minutos, porque minha mãe achava violento demais!
Saudades da época que eu ouvia os LP’s do meu pai, sendo o clássico disco do Europe (The Final Countdown), as trilhas sonoras de Top Gun e Rocky IV, e Thriller do Michael Jackson eram meus favoritos. Eu adorava colocar o disco para tocar e já sabia exatamente onde ficava o solo de guitarra de Van Halen em Beat it.
Saudades de meu 486 DX-4, que funcionava até uns anos atrás. A carcaça dele foi-se embora, mas eu ainda guardo com muito carinho o processador em minha gaveta.
Saudades da época onde Megaman era meu herói master! Da época onde eu jogava o x4 e chegava na Final Weapon, mas nunca derrotava Sigma. E da emoção de quando consegui zerar pela primeira vez! :’D
E como eu sinto falta da TV Colosso! Ela representava a minha alegria de todas as manhãs e eu NUNCA vou me esquecer de uma vez, quando eu era bem criancinha mesmo, eu acordei justamente na hora que o cozinheiro chamava a cachorrada para o almoço e eu comecei a chorar porque não tinha assistido.
Ah, como eu sinto saudades da época que meu pai me ensinou a gostar de muita coisa que eu cultuo hoje. Lembro-me como hoje, quando ele pôs a fita casssete de “O Exterminador do Futuro” e eu o assisti pela primeira vez. Kyle Reese virou meu personagem favorito entre os filmes de ação. E saudades também de quando eu vi o mágico DeLorean que se deslocava no tempo pela primeira vez e, como eu tinha um carrinho de brinquedo que abria as portas de forma parecida, eu dizia que ele era meu DeLorean. Como eu chorei no dia que um garoto quebrou o meu. Mas eu dei o troco nele meses depois, teve um bazar na igreja e a mãe dele pôs lá o carrinho dele, exatamente igual ao meu exceto pela cor (o meu era branco e o dele, amarelo) e eu comprei por 5 conto! Como ele chorou e pela primeira vez na vida, eu tive a sensação do que é saciar uma vingança.
Saudades de quando eu comecei a desbravar os anos 80 e desejava febrilmente poder voltar no tempo e viver a época do meu pai. Se bem que esse desejo me acompanha até hoje, crecendo a cada dia.
E também, saudades da minha coleção de bonecos dos Comandos em Ação! Tinha todos!
Enfim, saudades da minha infância! E muito obrigado, Kid, por me proporcionar um breve momento de alegria puramente inocente, relembrando a melhor parte do meu passado!
Ah, como eu sinto saudades da época que meu pai me ensinou a gostar de muita coisa que eu cultuo hoje. Lembro-me como hoje, quando ele pôs a fita casssete de “O Exterminador do Futuro” e eu o assisti pela primeira vez. Kyle Reese virou meu personagem favorito entre os filmes de ação. E saudades também de quando eu vi o mágico DeLorean que se deslocava no tempo pela primeira vez e, como eu tinha um carrinho de brinquedo que abria as portas de forma parecida, eu dizia que ele era meu DeLorean. Como eu chorei no dia que um garoto quebrou o meu. Mas eu dei o troco nele meses depois, teve um bazar na igreja e a mãe dele pôs lá o carrinho dele, exatamente igual ao meu exceto pela cor (o meu era branco e o dele, amarelo) e eu comprei por 5 conto! Como ele chorou e pela primeira vez na vida, eu tive a sensação do que é saciar uma vingança.
Ahaha meu pai fez o MESMO comigo: Terminator (1 e 2), Back to the Future, Die Hard, Aliens… virei fã desses clássicos por influência dele.
Tenho saudade de scripts, Ctrl + K seguido por dois números aleatórios, DCC send, gamagames, empacotamento de inimigos, ircontros, e falar pros noobs que /quit [insira alguma frase em inglês, pra maior autenticidade] melhorava a conexão, registrava um canal, ou mudava o nick deles.
Tenho saudade de esperar até meia noite pra conectar à internet, apesar de ter aula na manhã seguinte.
Tenho saudade do Super11, do iG, e de outros provedores dial-up grátis que surgiram em meados do ano 2000.
Tenho saudade do tempo que “baixar música na internet” era um conceito tão recente que apenas os true nerds conheciam.
me identifiquei muito com isso… muita saudade do pulso único, do IRC, versões novas de mIRC, NUKES, IRCOPs, OPs de canais de cidade.
sem falar nos episodios de dragon ball z de 12mb cada que tinha que deixar baixando a noite no getright pois vinha numa velocidade lastimável….
nunca tinha lido esse post, valeu pelo tweet
Lendo esse post ativou minha mente e fez a mesma viajar no tempo uns 15~20 anos.
Agora fiquei com saudade de muita coisa :~
Na época do post eu já tava entrando na faculdade (eu sou de 76), mas ainda assim, saudade demais de muita coisa escrita tanto no texto original quanto nos comentários. Valeu demais.
Nossa… O engraçado é que eu não me identifiquei com quase nada do texto, mas você descreveu tão bem que me deu uma baita saudade dessas coisas que eu não vivi.
Nossa, agora veio um turbilhão de coisa na cabeça, que saudade dessa época que tinha que esperar um tempão pra carregar o prince of persia ou o Indi no 386, usar manha pra colocar sangue no mortal kombat do master system, de surtar de empolgação ao conseguir virar super sonic, de jogar gta 1 ou carmaggedon e tentar não atropelar ninguém qdo minha mãe estivesse olhando, de ser nintendista desde pirralho e defender o meu n64 dizendo que era muito mais foda que o PS, pq o grafico era melhor, e rolava de colocar 4 controles, apesar de que enquanto nego tinha 20 jogos de ps1, eu tinha 4 de n64, eahuwheua.
porra, esse texto foi foda, to emocionado aqui, eahwuhewuia
Oi Kid!
Primeiramente gostaria de dar os parabéns pelo blog. Parece ser bastante informativo!
Estou mandando essa mensagem pois acabei de publicar um jogo para IPhone inspirado no Almanaque dos Anos 80:
http://itunes.apple.com/us/app/almanaque-anos-80/id377590471?mt=8#
Talvez seja do seu interesse ou dos seus leitores.
Abraço!
Eu lembro que quando instalou a internet na minha cidade eu fui um dos primeiros a ter. Eu esperava até a meia noite pra conseguir usar. Levava uns 3 minutos pra carregar o site e 1 minuto pra carregar 1 link. Muitas vezes não conseguia acessar mesmo depois da meia noite. Não carregava imagens do site de jeito nenhum. Fotos nem pensar.