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Surra de Mangueira

Postado em 3 outubro 2009 Escrito por Izzy Nobre 188 Comentários

Eu estava passeando pelo Market Mall, o shopping favorito da minha patota graças a localização geográfica conveniente, quando vi uma cena pitoresca que me fez pensar duas – não, três – vezes antes de por uma criança neste mundo miserável.


Quanto mais eu olho pra essa foto, mais tenho vontade de enfiar o pé na cara desse moleque

Na frente de uma loja de videogames, uma mulher literalmente arrastava pelo chão uma criança (presumivelmente, sua prole) que estribuchava, berrava e tentava se apoiar em qualquer objeto que estivesse ao seu alcance, pra oferecer resistência contra o caminhar da mãe.

Já ouvi falar que filhos são um peso que você tem que carregar por anos, e com muito divertimento eu vi que naquele exato instante, essa expressão não era figurativa nem exagerada.

Jamais saberei a série de eventos que culminou naquela cena, mas ao menos fui abençoado o bastante pra estar lá e testemunhar a coisa. A mãe continuava a marcha inexorável, arrastando o moleque pelo braço com uma pegada tão severa que eu imaginei que a mão do infeliz estaria ficando roxa.

Me virei pra noiva e falei “vocês gringos inventaram essa história de ‘abuso contra menores’ e taí o resultado, a molecada cresce sem aquele saudável medo dos pais e toca o terror quando seus desejos mais imbecis não são prontamente atendidos”.

Minha querida canadense protestou e argumentou que ela, assim como suas irmãs, apanharam bastante quando mais novas – ou seja, certamente minha análise dos hábitos paternos canadenses era equivocada.

Lancei um olhar cético, e loirinha insistiu que em sua casa a chibata comia. Dei uma risadinha bem arrogante (como se o que eu estava prestes a falar fosse algo digno de orgulho) e falei em tom confiante que DUVIDAVA que ela tivesse experimentado a fúria paterna tanto quanto eu. “Meu amor”, eu disse em inglês com prepotência quase teatral, “em minha casa o cacete descia frequentemente, e em intensidade máxima, por mínima provocação. O calibre das surras que meu pai aplicava em mim é algo que sua delicada cutis canadense só conhece por fábulas”.

“Não exagera, vai! Era tão ruim assim?”

“Por algum acaso já te contei sobre o dia em que meu pai me bateu com uma mangueira de jardim?”

“LOLWUT? Estás de putaria, certamente”.

“Nope. Aconteceu mesmo. Foi o seguinte…”

Era o ano 2000. Eu tinha 15 anos, e estava prestes a terminar o ensino médio e embarcar numa jornada universitária que foi simultaneamente insatisfatória e fútil (eu acabei detestando meu curso, e dali a três anos eu estaria dando adeus ao solo nacional de qualquer forma. Entrar na faculdade foi puramente inútil, ainda bem que foi de graça).

Em algum momento da minha infância, meus pais decidiram adquirir uma cama dágua. Essa relíquia cafona dos anos 70 (pelo menos como camas dágua são vistas aqui fora) era considerado um item de luxo no Brasil.

Por causa do clima ártico aqui do extremo norte canadense, uma cama dágua implica num grande problema logístico – sem um poderoso sistema de aquecimento, dormir numa cama dágua durante o inverno não seria muito diferente de dormir em cima de um cubo de gelo.

Já no Brasil (especialmente, no Ceará) esse “problema” se tornava uma vantagem desejada, pois a cama dágua removia a necessidade de um ar-condicionado no quarto dos donos. E há a possível vantagem nas modalidades sexuais, que é algo que eu não quero especular já que estamos falando dos meus pais afinal de contas.

A grande desvantagem da cama dágua é a mão-de-obra requerida durante mudanças. Você tinha que drenar o colchão (o que demorava um bocado), desmontar a cama – que tinha uma estrutura bem diferenciada, especialmente projetada pra aguentar as centenas de quilos/litros do colchão -, montar tudo de novo na nova casa e encher o colchão novamente. Era uma chateação.

E a história que eu estou prestes a contar aconteceu durante uma dessas operações.

Então, era o ano 2000, e nós tínhamos nos mudado pra São Luís, no Maranhão. Não consigo lembrar se o outro personagem na história era meu irmão ou um amigo, então vou supor que era meu irmão.

Meu pai, tendo provavelmente coisas mais importantes pra fazer, sempre delegava a mim a missão de monitorar o enchimento do colchão. E eu, aproveitando os últimos anos que eu ainda tinha algum tipo de controle sobre meus irmãos caçulas, ordenava ao meu irmão que me fizesse compania.

Após desafiar o moleque a beber a água do colchão (ele não bebeu), comecei a vadiar fingindo que ia me jogar na cama. O moleque se desesperava, sabendo que qualquer pressão aplicada no colchão naquele momento faria a água transbordar pelo buraquinho onde a mangueira havia sido precariamente encaixada. Eu ria e continuava a brincadeira.

Eis que no meio dessa traquinagem eu perdi o equilíbrio e acabei realmente caindo em cima da cama. A pressão ejetou a mangueira, além de ejacular uma torre de água do buraquinho lá. A água caiu por cima do colchão, encharcando a colcha da cama, o chão, as paredes, tudo. Na melhor das hipótesas eu tinha retardado o processo de enchimento do colchão em umas duas horas.

Eu mal havia me levantado do colchão, todo encharcado, quando vi que meu pai estava na porta do quarto, me olhando com a expressão mais WHAT THE FUCK que já vi no rosto dele.

Naquele momento eu sabia que iria apanhar. Me levantei da cama desajeitadamente, pensando na melhor forma como me desculpar, quando vi meu pai se inclinando pra apanhar a mangueira.

Pensei inicialmente que ele estava fazendo aquilo pra impedir que a água molhasse mais ainda o chão do quarto dele. Quando ele empunhou a mangueira na minha direção, vi que eu estava profundamente enganado.

Corri pro canto do quarto futilmente. Meu pai sentou-me uma porrada nas pernas com a mangueira, que simultaneamente castigava minha pele E molhada ainda mais o quarto do véio. Em sua fúria ele nem pensou em fechar a torneira antes.

Duas ou três porradas mais tarde ele notou que estava esmerdalhando a situação mais ainda ao me bater com a mangueira ligada – já devia ter água até no teto naquela altura do campeonato -, e a surra acabou.

Escrevi este texto inteiro com um grande sorriso no rosto. Quem diabos pode dizer que já apanhou de MANGUEIRA LIGADA?

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Categorias: Minha infância

188 Comentários \o/

  1. ForPlayers » Blog Archive » [Continue »] [Resenha] Mass Effect disse:

    [...] boba e juvenil. Tanto em termos de história quanto de mitologia e universo, Mass Effect dá uma surra de mangueira ligada em Star [...]

  2. Daniel disse:

    Eu não era muito de aprontar quando criança, nem meus pais de bater. Mas já apanhei de cinto, chinelo, vara de goiaba e tapa de mão aberta. Lembro que minha irmã apanhava mais. Uma vez meu pai deu uma surra com o cabo do ferro de passar (ele tava passando roupa pra ir pra igreja, e minha irmã teimou que não ia…). Minha glória (e eu conto isso pra todo mundo) foi quando meu pai correu atrás de mim pra dar uma boa surra, mas eu fui mais rápido e me tranquei dentro do quarto. Meu pai deu u m soco na porta que do outro lado pude ouvir um estalo e um grito. Ele quebrou o dedo na brincadeira (“deus castiga, pai!” kkkkk).

  3. Carol disse:

    Já apanhei com um cabo do computador. Fiquei com nota baixa e minha mãe falou que a culpa era do computador/internet (pode até ser, mas eu sou vagabunda ao extremo, odeio estudar, mesmo sem computador não encosto nos livros/cadernos). Daí ela me mandou desmontar o computador, e ficou me vigiando, daí dei uma resposta mal criada, pra alguma coisa que não lembro, e pá, levei porrada. q Fiquei marcada por bastante tempo, principalmente na perna, só podia andar de calça. E quem disse que aprendi a lição?

  4. lais disse:

    GENTE, PRECISO URGENTE DE UM TELEFONE PARA DENUNCIAR MAUS TRATOS CONTRA UMA CRIANÇA DE 5 ANOS

  5. João disse:

    Apanhei no máximo de cinto. E acho que foi uma vez só. MAs lembro de amigos meus relatando surras até com a borracha da máquina de lavar roupa.

  6. gustavo disse:

    Ja apanheu de ESPADA DE SÃO JORGE!!!