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Aí eu fui numa balada gay

Postado em 27 julho 2011 Escrito por Izzy Nobre 82 Comentários

Ok. Deixa eu explicar logo essa história.

ANTES DE MAIS NADA, UM AVISO: eu não sou homofóbico, quem me conhece sabe disso muito bem — aliás, eu duvido bastante que um cara realmente homofóbico sequer cogitasse ir a uma boate gay com uma cambada de homossexuais que ele acabou de conhecer. Se alguns dos meus comentários soarem maldosos ou preconceituosos, lembre-se que preconceito é literalmente “ignorância”, e de fato eu era até o fim de semana passado completamente ignorante a respeito de uma boate gay. Por isso, os comentários talvez soem “preconceituosos” mesmo, mas jamais intolerantes ou odiosos.

Favor não se ofenderem.

Tudo começou no último sábado. Estava eu lá no trabalho quandAahhhh, quer saber? Vou contar esta fábula por intermédio de uma rage comic. Tou viciado em desenhar essas porras. Acompanhe:

Pois foi isso aí, amigos. A muié me liga no trabalho, convida-me para ir à balada pós-serviço, eu aceito prontamente e em seguida ela informa — como se fosse um detalhe completamente irrelevante —  que trata-se de um estabelecimento noturno para simpatizantes da causa homobaitolística.

Como uma reação involuntária, recusei.

Pô, boate gay? Sei não…” arrisquei.

Bom, que diferença faz pra você? Tu não tá indo pra balada pegar ninguém, então dá no mesmo. E eu poderei dançar com as meninas tranquilamente sem maluco escroto dando em cima de mim“.

Diante uma lógica tão infalível, fui obrigado a aceitar. Além disso, gosto de me imaginar como um sujeito progressivo, tolerante, então pensei “bom, se eu afirmo achar homossexualidade normal e digo ser a favor de direitos gays mas fico com ”nojinho’ de ir à uma boate gay com a mulher e suas amigas, estou sendo hipócrita. E de qualquer forma, é melhor sair à noite que voltar pra casa e estudar sozinho no apartamento escuro.”

Meu cotidiano ultimamente se resume ao trabalho e aos estudos. Há algum tempo que não saio com os amigos, que andam igualmente ocupados, então achei que seria uma boa opotunidade pra fazer algo diferente, quem sabe estreitar um pouco os laços de amizade com as amigas da minha patroa. Muié valoriza muito essas paradas, né, quando o cara se dá bem com as amigas dela. Achei que deveria valer a pena, nem que fosse só por isso.

Ok, vamo lá“.

Ficou combinado que eu iria à casa dos amigos dela após o trabalho, e então de lá iríamos todos juntos à tal Twisted alguma coisa — a boate gay preferida lá dos amigos da menina.

Como eu trabalho de noite e durante os fins de semana, não é raro a muié me convidar pra algum programa noturno e eu recusar por estar cansado. Como que para me deixar despreocupado, ela sempre adicionava “não se preocupa, os caras que tão indo com a gente são tudo gay!”.

Não que fizesse grande diferença, eu não sou um cara ciumento, por mim ela pode ter todos os amigos homens que quiser. Entretanto, sempre achei que esse papo de “os caras que estarão lá com a gente são tudo gay, nenhum deles tentará me beijar” era conversa fiada dela com desígnio de evitar que eu aja como o namorado ciumento padrão e vete a saída dela.

Pois bem, não era. Chego na casa dos cupades lá e de fato, são tudo gay. Ela não estava mentindo.

Passada a rodada de apresentações, as meninas começam os preparativos pra saída. Uma maquiagenzinha aqui, uma troca de roupa de última hora, essas coisas. O clima na casa era de festa e, apesar de não conhecer quase ninguém daquela turma, me senti imediatamente parte do grupo.

Como eu sou infame entre nossos círculos sociais por não beber, evidentemente todo mundo tenta me embebedar o mais rápido possível. Uma das melhores amigas da minha mulher aparece do nada com um copo de uma bebida qualquer com gosto de perfume e já vai enfiando o receptáculo na minha boca, pondo a mão embaixo do meu queixo já antecipando que eu me babe todo e molhe o chão. Achei o gesto quase maternal.

Tomaí Izzy! Hoje tu vai passar mal! Hahaha!

Bebo a parada rapidamente e sinto uma náusea na hora. Eu só consigo aturar bebidas “de menininha” — até hoje sou zoado por ter ficado bêbado no Desencontro à base de Smirnoff Ice, mas o que posso dizer? Fui criado em ambiente estritamente religioso, não ia pra shows nem festa quando moleque, nunca adquiri o gosto por álcool.

A cena se repetiu umas três vezes. As meninas pareciam competir em quem seria capaz de me embebedar primeiro. Eu estaria mentindo se dissesse que não gostei de toda a atenção e adulação das meninas.

Alguns minutos mais tarde, já tava todo mundo etilicamente calibrado e os ares começaram a se tornar mais, digamos, libidinosos.

Vertendo vodca na boca da amiga usando os peitos, por que não.

Pois bem, foi aí que nossa pequena comitiva — éramos uns 10 ao todo, acho — os dirigimos ao bar. Eu era o único homem heterossexual da trupe, pela primeira vez pertencia a uma minoria sexual.

Chegamos ao clube. Na fila, uma visão bastante incomum pra mim, muito diferente do que estou acostumado a ver nas boates em que (raramente) vou — algumas drag queens, homens abraçados, homem de maquiagem, alguns casais de lésbicas (algumas estonteantemente pornográficas, mas a maioria era gordinha e/ou com cara de homem — e homem mal-encarado ainda por cima). Posicionamos-nos ao fim da fila, mas um dos nossos amigos conhecia o segurança da boate e subitamente fomos arrebatados da calçada diretamente pra dentro da boate.

A foto tá uma merda, eu sei

Já dentro do clube, adotei uma postura quase científica. Manja os cinegrafistas do Discovery Channel que são colocados em algum local completamente inóspito e encarregados de documentar toda a fauna em seu redor, prestando bastante atenção para os relacionamentos entre as espécies?

Caralho, eu sei que certamente alguém vai se ofender todo com essa comparação, mas era assim que eu me sentia mesmo: completamente fora do meu elemento e presenciando algo completamente inédito (pra mim) em um ambiente potencialmente perigoso. Sim, porque eu estava tenso a cada momento.

E tentando prestar atenção em TUDO pra relatar aqui no blog depois.

Qualquer esbarrada, qualquer mínimo contato acidental contra qualquer superfície me fazia pular e investigar os arredores suspeitíssimo. Invariavelmente era sempre algum folião que encostou em mim acidentalmente e imediatamente pedia desculpas. Em mais de uma ocasião, foi apenas uma cadeira.

O clima de festa que começou na casa manteve-se na boate. Do nada aquela loira da foto lá de cima me aparece com duas Ices na mão. “Pra você“, ela disse rindo e esfregando às mãos na saia, pra enxuga-las da condensação da garrafa. “Hoje eu quero te ver bêbado!“.

É o que todo mundo costuma fazer quando descobre que eu não bebo. Já me acostumei.

Comecei a virar as garrafas, me sentindo progressivamente mais tonto. Volta e meia uma das amigas me estendia sua própria bebida, com olhares maliciosos e inviolável recusa de me informar do que exatamente tratava-se o drink. “Bebe aí, bebe!“, repetiam. Um pequeno gole e eu sentia o líquido queimando meu esôfago, uma sensação quase insuportável de ânsia.

Whiskey. Resisto bravamente à vontade de vomitar a parada, aliviado por ter tomado um gole pequeno.

Num determinado momento, as meninas queriam ir pra pista. Acontece que a pista é cercada por um bar em que a galera se senta pra bebericar seus drinks enquanto observam a massa dançante e as luzes estroboscópicas. O bar circundeia a pista inteira, e como a boate estava muito lotada, circunavegar todo o seu diâmetro até chegar à sua  abertura estava fora de cogitação.

Sem cerimônia, as meninas apenas se agaixaram e passaram uma a uma por baixo do bar, reaparecendo segundos mais tarde no meio da pista. Tendo todas atravessado a divisa, viram-se pra mim e me chamam.

Avalio a situação. Estou cercado de gays. Pra passar por baixo do bar, eu teria que me abaixar, posicionando meu rosto na altura das virilhas adjacentes. “Perigo“, pensei.

Vou dar a volta, pera que já chego aí“. disse, obstinado. Mas era sem chance — àquela altura a massa dançante já estava vazando da pista para a região adjacente, e portanto minha segunda opção de travessia resumia-se a “passar por osmose entre os casais gays que se esfregavam por ali, boa parte dos quais já encontrava-se àquela altura sem camisa“.

“Foda-se”, pensei. “Vou me agaixar aqui e seja o que Satanás quiser” vaticinei. Imediatamente arrependi-me desta expressão; conhecendo a reputação de Lúcifer, o que ele desejaria naquele momento é o inverso do que eu desejaria.

Emergi do outro lado do bar, ileso e rodeado pelas meninas. Elas me puxaram pelo braço pro meio da boate. Dancei com todas as amigas da patroa — elas pareciam muito dispostas a dançar comigo; tenho a impressão de que apesar da ida à boate gay ser em parte pra evitar o assédio masculino, a provocativa natureza feminina ainda gosta de arrancar reações de desejo; sendo eu o único homem hetero do local, o jeito era dançar comigo.

Pelo menos essa é a minha teoria. Posso (devo) estar errado.

Três ou quatro Ices mais tarde, eu já estava sentindo bem mais tonto e completamente indiferente ao fato de que eu dançando me assemelho a uma lagartixa epilética. E aí ocorreu o impensado.

Comecei a sentir vontade de mijar.

O pavor dominou meu ser. Já ouvi histórias sórdidas sobre o tipo de putarias que acontecem nos lavatórios de boates do gênero. Enquanto até o momento a bicharada do ambiente mostrou-se extremamente respeitosa (talvez porque me viram dançando com a mão na bunda da mulher — e talvez das amigas? Não lembro exatamente), mas como saber se este pudor seria mantido nos banheiros?

Viro-me praquela a loira da foto acima (chamarei-a de R), que àquela altura etílica já era minha melhor amiga e futura madrinha dos meus filhos, e explico a ela meu dilema.

Por que você não vai no banheiro das meninas?” ela falou, rindo. Não consegui detectar se ela estava bêbada ou não, ela ri bastante mesmo sóbria.

O QUE?” gritei no ouvido da menina. Senhor Deadmau5 tonitruava nas caixas de som do ambiente e impedia qualquer diálogo a menos que você depositasse sua mensagem aos berros a menos de 5mm de distância do tímpano do interlocutor.

Sem titubear, R pega meu rosto com as duas mãos — senti um imediato arrepio; esse tipo de toque é estranho vindo de uma garota que não seja minha mulher — e, com os lábios pressionados contra meu lóbulo esquerdo, repete:

Vai no banheiro das meninas. Não tem problema!

Afasto-me dela, pensativo. Ousaria eu penetrar o Santo Santíssimo vestíbulo sanitário feminino?  Se eu precisava de uma desculpa pra fazer isso, AGORA era a hora. Talvez notando minha indecisão, ela vai e acrescenta:

De repente cê até vê umas gostosas se pegando lá” e pisca, maliciosamente. Dito isto ela se vira e começa a dançar com um dos broders que veio à boate conosco, esqueci o nome do cara.

Desci ao porão da boate, me apegando ao corrimão como se minha vida dependesse disso. Já tava consideravelmente alto àquela altura.

Diante o lobby dos banheiros, um momento de indecisão — devo realmente entrar no banheiro feminino…? E se a R falou zoando, ou influenciada pela bebida? Poderia eu ser chutado da boate por tamanha empáfia…? Um pensamento aterrorizador cruzou minha mente — o que será que fazem pra punir homens que quebram as regras neste estabelecimento?

Decidi não arriscar. Respirei fundo, tentei lembrar rapidamente todos os movimentos que aprendi naquelas aulas de kung fu anos atrás, concentrei meus últimos neurônios sóbrios numa tentativa de erguer meu nível de alerta e prontidão, e com um passo incerto adentrei o banheiro masculino da boate gay.

E lá dentro… nada. Um cara no mictório, outro ajeitando o cabelo no espelho. Um terceiro entrou depois de mim e, observei estupefato, obedeceu as convenções heterossexuais de ocupar o mictório mais distante daquele já ocupado.

Eu entrei no banheiro esperando uma reprodução contemporânea da decadência sexual dos tempos de Calígula e invés disso vi um banheiro indistinguível de qualquer outro banheiro masculino que já vi na vida. Foi quase decepcionante o quanto a minah expectativa estava errada.

Um outro carinha esbarra em mim acidentalmente ao sair — justamente o tipo de contato não-intencional que me atemorizava, considerando o contexto geográfico — e apenas diz “opa, desculpa cara!” enquanto me dá um tapinha no ombro.

Aproximei do mictório pra aliviar-me e então finalmente ergui os olhos para inspecionar o ambiente. Todos os outros caras se ocupavam nas próprias funções e não conversavam nem nada. Eu é que parecia o baitola do local, olhando pra todo canto como se procurasse ali um amor homossexual. Quando atentei-me para a ironia daquele fato, desviei os olhos de volta ao meu mictório.

Termino de mijar e volto para a pista. Reencontro as amigas e os broders, danço novamente com mais uma delas, mais uma Ice materializa-se em minha mão. Àquela altura eu tinha comprado UMA bebida, mas já tinha virado pelo menos umas cinco. Começo a pensar que, se um dia começar a realmente gostar de beber, continuarei pregando a ladainha sobre crescer em lar evangélico e afastado dos prazeres da carne — seria uma excelente forma de economizar nas noitadas.

Ao fim da noite, eu já estava perdidamente inebriado. Todos estávamos em variados níveis de embriaguez, sendo a R a mais resistente do grupo. Comecei a bater papo com os broders gays, eram todos extremamente amigáveis e muito gente fina. Descobri na manhã seguinte que havia sido adicionado por eles ao Facebook.

Passamos por um fast food qualquer — que eu não lembro de forma alguma qual era; a fachada do local escapa completamente da minha mente. Num instante eu estava vomitando na calçada, no outro estava sentado a uma mesa, ladeado pelas meninas, comendo batatinha frita. Minha mulher estava muito bêbada pra dirigir, então dormimos na casa da R.

E essa foi minha primeira vez numa boate gay. Em retrospecto percebo que era completamente imbecil o receio de ser agarrado por algum gay contra minha vontade simplesmente porque os caras gostam de pirocas. Mulheres também gostam e até hoje nunca fui agarrado por nenhuma ninfomaníaca numa boate hetero. Achar que eu seria sexualmente molestado pela bicharada chega a ser presunção minha.

No fim das contas, gostei de receber tanta atenção das meninas — algo que jamais havia acontecido em nenhuma outra noitada nossa –, os broders são muito gente boa, o ambiente era bacana e eu retornaria à boate sem hesitar.

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Categorias: Morando no Canadá

82 Comentários \o/

  1. @carolina_crs disse:

    Perfeito o texto, mas e a parte do cara que passou a mão no seu rosto?

    Beijo Kid

  2. Amanda disse:

    Kid, vc é muito bobinho de achar ir pra uma boate gay seria uma má ideia (logo quando a patroa propôs)
    Considerando o seu histórico (sim, eu li o post falando sobre os 2 pares de peitos q vc ganhou de presente certa vez) o “pior” que poderia acontecer seria a mulher arrumar mais um par de peitos por lá pra te dividir! :P

  3. pedro disse:

    blz kid, você ousou ir em um lugar onde nós, machos reprotudores, nunca imaginamos um dia ir, tirei o meu chapéu

  4. Caio disse:

    Sou gay e não me ofendi em momento nenhum. Muito pelo contrário! Achei engraçadíssimo!

    Também me senti assim na primeira vez que fui numa boate (gay). Mas por ser nerd mesmo, haha. Fiquei observando e achei mó estranho como as pessoas chegavam do nada uma nas outras, e logo depois já tavam se beijando.