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Retrospectiva de quase 10 anos morando no Canadá

Postado em 26 outubro 2011 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Lembro como se fosse ontem.

Meu pai entra na nossa casa com um sorriso no rosto e um envelope grande, de onde ele removeu nossos passaportes. Um por um os documentos foram abertos e inspecionados, pra conferir o importante carimbo do consulado canadense nos nossos vistos. Depois de muitos meses de planejamento, formulários, viagens e entrevistas, finalmente toda a família tinha vistos canadenses.

Eu já havia viajado para o exterior antes — a família inteira fez um  mega tour pelos EUA em 1999, dirigimos pelo país inteiro quase –, mas isso aqui era diferente. Uma coisa é você visitar um país por 30 dias e depois voltar à sua zona de conforto e familiaridade; outra coisa totalmente diferente é dar adeus permanentemente a tudo que você conheceu a vida inteira: a cultura, a língua, a família, essas coisinhas que definem quem você realmente é.

Essa foi nossa primeira casa no Canadá. A foto foi tirada pelo meu irmão; aquele indo em direção à porta da frente sou eu. Meus pais e minha irmã tão tirando algumas roupas de dentro do nosso Chevy Venture.

Vale lembrar que essas roupas que você vê na foto eram nossas únicas posses naquele momento. Havíamos vendido tudo pra vir “tentar a vida” no Canadá. Naquela primeira noite na casa vazia, dormimos todos juntos no chão do quarto, usando as jaquetas como cobertores pra tentar se aquecer (a calefação da casa só seria ligada no dia seguinte).

Essa casa ficava num condomínio chamado “Sarasota Village”, pelo qual hoje você pode passear graças à magia do Google Street View.

A data na foto lá de cima é 28 de dezembro de 2003, mas àquela altura já estávamos no Canadá há um mês. Naqueles primeiros  30 dias, moramos em um motelzinho em uma cidade próxima chamada Scarborough.

Aqui cabe um parêntese: motéis aqui não são a mesma coisa que motéis no Brasil. O “motel” aqui é um hotel mais humilde, geralmente em beira de estrada, pra servir viajantes — ou, no nosso caso, uma família de imigrantes.

Lembro da primeira neve. Acordei um dia naquele quarto de motel (que, quando você divide com outros quatro membros da família por um período logo de tempo, se torna cada vez mais claustrofóbico) e noto uma claridade maior vinda da janela. Abro a cortina e lá está aquele tapete branco cobrindo o mundo inteiro lá fora.

A tal claridade maior se devia, no caso, ao fato de que a neve branca reflete muito mais luz solar que o mundo “normal” — uma realização que jamais havia passado pela minha cabeça antes. Foi uma das minhas primeiras descobertas aqui.

Eu já havia visto neve antes, na tal viagem de 1999. Acontece que há uma diferença imensa entre ver neve como um fenômeno incrível e isolado que você experimentará uma vez na vida durante as férias, e a realização de que aquilo será a partir de agora um fato da sua vida. Neve seria a partir de agora a mesma coisa que vento ou chuva — um fenômeno metereológico trivial, senão inconveniente.

Quando meu pai recebeu seu primeiro pagamento, precisou ir a um banco abrir uma conta corrente. A mulher que o ajudou sugeriu que procurássemos casas para alugar na cidade de Oshawa, e é pra lá que fomos.

É curioso pensar que aquele evento completamente casual mudou minha vida permanentemente. Se meu pai tivesse optado por outro banco, ou se tivesse sido ajudado por outra pessoa lá, talvez eu jamais tivesse pisado em Oshawa — e assim nunca teria conhecido minha mulher.

Este sou eu e ela, (com 19 anos e 15 anos, respectivamente), no porão da casa do Andy. Andy era o moleque que dava todas as festinhas da nossa turma, e todo fim de semana estávamos lá. Quando esta foto foi tirada, eu e a Rebecca (que vocês conhecem afetivamente como “Bebba”) nem namorávamos ainda, era só pegação ocasional nos fins de semana e xavecadas no MSN.

Meu inglês não era dos melhores, diga-se de passagem. Mas sei lá como, apesar deste pequeno problema começamos a namorar. No começo, nos víamos só nas tais festinhas. Com o passar do tempo o relacionamento foi ficando um pouco mais sério, e nos encontrávamos na casa um do outro.

Aquelas primeiras festinhas eram um negócio mágico pra mim, aliás. As house parties nos moldes que conhecemos por filmes eram uma das coisas da vida norte-americana que eu estava muito curioso para experimentar.

Essa foto foi tirada quando eu estava indo para a minha primeira festa de Halloween — mais uma das inúmeras características da vida norte-americana que eu só conhecia pelos filmes. A garota na foto é a Kelli, uma amiga da irmã da minha mulher. Poisé, eu já fui magro e tinha cabelo meio longo.

Eu estava, obviamente, sem dinheiro pra comprar uma fantasia. Essa garota da foto me deu essas anteninhas felpudas, e falou que eu podia ir de “fada”. O que no Brasil passaria como profunda baitolagem aqui pega mais como uma piada auto-depreciativa. E fui desse jeito pra festinha.

Esse aí é meu primeiro quarto. Na porta do armário, um poster do Foo Fighters que eu ainda tinha até pouco tempo atrás. O computador era umFrankenPC montado pelo meu pai, e aquelas caixinhas de som eu ainda uso no meu desktop até hoje.

E teve a escola, também.

 

Google ao resgate novamente

Essa é a Durham Alternative, uma high school pra adultos desajustados onde, sabendo o que eu sei hoje sobre o Canadá, eu jamais teria pisado.

O negócio é o seguinte: eu precisava converter meu boletim pras notas canadenses, e não sabia onde fazer isso. Me disseram que essa escola fazia esse serviço, então me matriculei lá pra ganhar alguns créditos extras enquanto a escola avaliava meu boletim brasileiro.

O que acontece é que foderam a avaliação. Eles não me deram créditos pelas notas que eu tinha no Brasil, apenas “equivalências”. As tais equivalências atestam que eu completei o segundo grau, mas sem as notas é impossível entrar numa faculdade (e evidentemente, eu só fui descobrir isso muitos anos mais tarde, quando tentei me matricular numa faculdade).

O motivo dessa cagada com meu boletim está no nome da escola. No “Durham Alternative”, a palavra “alternativa” significa “se você foi expulso de todas as outras escolas, esta aqui é a única que te aceitará”. Era uma escola pra vagabundos, estudantes com passagem pela polícia, membros de gangues, meninas que engravidaram aos 17 anos, essas coisas. A escola era meio barra pesada.

Aula de sei lá o que. Tá vendo o rapaz de preto lá na frente? Esse foi o cara que me apresentou à minha mulher, o Chris

E eu tive que ir pra lá porque, tendo àquela altura 20 anos, as high schools “convencionais” não me aceitavam. O problema é que a filosofia dessa Durham Alternative era mais “vamos dar a estes vagabundos um papel que prova que eles completaram o segundo ano”, e não “vamos prestar atenção pra que a grade curricular deles sirva pra algum estudo pós-secundário”.

Ou seja: invés de analisar o boletim e converter minhas notas, essencialmente imprimiram um papel que atestava que eu cursei o segundo grau — mas sem nenhuma nota. Expliquei a situação em maiores detalhes aqui.

Tirei essa screenshot assim que conseguimos conexão na internet lá em casa, absolutamente impressionado com a velocidade da conexão. No Brasil, eu já achava minha ADSL da Velox de 256kbps impressionantemente rápida; ao chegar no Canadá fui recepcionado por uma conexão de 1.5mpbs.

E note que eu tava baixando ICQ, pra você ter uma noção de quanto tempo faz. Hoje em dia, esta é minha conexão:

Se meus downloads hoje ficarem em 321kbps eu desisto do meu provedor.

No dia 28 de novembro de 2013, completarei 10 anos de Canadá. É incrível olhar pra trás e notar quanto tempo se passou, e o quanto minha vida mudou após a mudança pro Canadá. Eu definitivamente não sou a mesma pessoa que era em 2003.

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Categorias: Morando no Canadá

Um comentário \o/

  1. Helio disse:

    parabens Izzy