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[ Pergunta do Dia ] Você já teve um momento tiete?

Postado em 30 April 2014 Escrito por Izzy Nobre 7 Comentários

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Este é o Something Awful, um site humorístico americano que existe desde 1999 (!). O fórum do SomethingAwful foi o berço de inúmeros instituições clássicas da internet, como o “all your base are belong to us“, o tourist guy, o “deal with it“, as piadas de Chuck Norris — aliás, já que estamos falando delas: estamos em 2014, gente. Parem com essa porra, já deu –, o próprio 4chan, entre outros.

Sempre fui muito fã do criador do site e principal colunista, um sujeito chamado Richard “Lowtax” Kyanka. O seu humor cínico, absurdista e exagerado foi, em muitas formas, uma imensa influência pro tipo de escrita que eu pratico aqui no HBD. E o fórum do Something Awful foi um ambiente virtual que, lá nos idos de 2003-2007, era meu habitat natural. Eu passava o dia INTEIRO lá batendo papo com os outros “goons”, o apelido carinhoso dos outros leitores do site.

A propósito, “goon” significa “capanga”. O apelido veio por causa do fato de que quando o Lowtax criava caso com alguém, sua legião de seguidores não hesitava em tomar partido dele, e assim Lowtax e seus “goons” acabaram conhecidos pela internet afora como um exército virtual que aprontava mil e uma confusões.

Eu gostava MUITO dos textos do Lowtax (e dos outros colunistas também, mas principalmente dele). Ele escrevia resenhas de filmes, de games, e tinha uma habilidade fora do comum de pegar algo totalmente trivial da sua vida e transformar num texto engraçadíssimo, como nesta ocasião em que ele foi arrastado pra um jogo de volei da sua sobrinha.

Este foi o cara que me ensinou que mesmo uma história imbecil, como ir parar no hospital após cair da cama ou cagar no tapete do banheiro, pode virar algo divertido.

Então. Lá nos idos de 2003 ou 2004, eu era um típico “imigrante recém chegado fodido” aqui no Canadá. Não falava a língua, não tinha um centavo no bolso, não conhecia ninguém… era uma existência de merda. Tive minha fase de “empregos de merda” (uso a expressão com liberdade lírica; em verdade vos digo que nenhuma profissão honesta é indigna e etc), como a ocasião em que eu me encontrei vendendo picolés no Canadá.

Era um emprego que só não entrava na classificação de escravidão por tecnicalidades mínimas. Eu trabalhava entre 11 e 12 horas por dia, e ganhava apenas comissão sobre o que era vendido — uma patética comissão de 25%, se me lembro bem. No meu melhor dia, eu voltei pra casa com 40 dólares — após trabalhar 12 horas, de 9 da manhã até 9 da noite. Ou seja, menos de 4 dólares por hora, sendo que o salário mínimo era 7 dólares por hora.

(Durante o verão, o sol se põe às 11 horas, por isso não era estranho estar ainda vendendo picolés às 9 da “noite”)

Apesar de ser um emprego miserável que não pagava quase nada, eu não me incomodava. Era uma chance de sair de casa, onde eu vivia enfurnado pela falta de um círculo social ativo e dinheiro.

Você deve estar se perguntando o que isso tudo tem a ver com o Something Awful. É que esse site, e por extensão seu criador, me ajudou a tornar um emprego de bosta — sem dúvida a pior coisa que já fiz por dinheiro e olha que eu já trabalhei em telemarketing! — algo suportável.

Foi o seguinte. A mãe da minha esposa ganhou uma impressora que trazia de brinde um Palm Zire 21. Este troço aqui:

palm_zire_21

Estou com preguiça de buscar as especificações técnicas, mas garanto que o hardware dessa porra era apenas marginalmente melhor que um ábaco.

A sogra não tinha uso pro negócio; como todo bom nerd fissurado em tecnologia eu sempre quis um Palm. A mãe da minha namorada (hoje minha esposa <3) percebeu minha fascinação pelo aparelho desde o momento em que ela abriu a caixa, e me ofereceu o brinquedinho.

Depois de baixar tudo quanto era joguinho e aplicativo pro aparelho, me veio o estalo: e se eu puder baixar textos nesse negócio, pra ler offline? Evidentemente, eram textos do Something Awful que eu tinha em mente.

Fucei mil fóruns e achei o MobiPocket, um aplicativo que me permitia fazer justamente isso. Salvei ANOS de contéudo do site pra memória do aparelho; como eram só textos, deu pra colocar tudo na limitada memória do Zire 21.

E desse dia em diante, meu trabalho como picolezeiro ficou imensamente mais suportável. Eu passava o dia inteiro relendo meus textos favoritos, e explorando os artigos que eu ainda não conhecia. Nesse dia eu entendi perfeitamente como alguém sentado na frente do computador descrevendo a própria vida com piadinhas pode mudar a vida de alguém pra melhor.

Nos anos que se passaram, eu meio que perdi o hábito de ler o SA (também pudera, o Lowtax abriu mão da posição de colunista do site e passou a trabalhar mais na parte logística/administrativa). Mas acabei reencontrando o autor no Twitter, e mesmo me sentindo intimidado pelos seus 20 mil e poucos seguidores — o que reduziam as chances dele ler minhas mentions –, dei um alô pro cara.

Chega a ser engraçado que o “tamanho” do cara me intimide, porque ironicamente eu hoje tenho um público BEM maior do que o dele. O fórum SA continua imenso, mas ele já é uma comunidade totalmente a parte do contéudo do Lowtax. Em se tratando do que o Lowtax produz atualmente, a influência dele reduziu bastante. Ele tem pouco mais que 20 mil seguidores no Twitter, e apenas 27 mil inscritos no YouTube.

E receber uma resposta dele foi emocionante. Falei pra ele tudo que contei pra vocês nesse texto, porque eu queria muito que ele soubesse o quanto o seu site foi uma influência positiva na minha vida. Foi um momento bem fanboy mesmo, admito.

Já tive a oportunidade de conhecer muitos famosos da esfera nerd nesses eventos que eu vou, mas nenhum nunca me animou. Já trocar alguns tweets com o Lowtax me deixou feliz o dia inteiro.

Você já teve um momento tiete?

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Categorias: pergunta do dia

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

7 Comentários \o/

  1. Rafael Lorenzo says:

    Se eu ja tive um momento tiete? HAhaha acho que voce sabe a resposta pra essa pergunta 😛

    Hint: Calgary Expo.

    :S

  2. Catu says:

    Você falou que seria um post LONGO e eu acreditei… ¬¬ hehehe
    Sobre tietagem… eu sempre lidei muito bem em interagir com pessoas as quais admiro (seja na música ou na internet). Já fiquei amigo de integrantes de banda (Ok, era banda pequena, mas tocou no Rock in Rio 3! :), já peguei carona com podcasters (alô Affonso e Beto!) e já até participei de hangout com o IzzyNobre, veja você…
    As vezes a gente esquece que a pessoa que admiramos nada mais é que um ser humano igual a todo mundo!

  3. Mauricio says:

    Eu acompanho o trabalho de bastante gente na internet, mas raramente tive oportunidades de conhecer essas pessoas. Algumas já me responderam no twitter, por e-mail ou em seus próprios sites (como você mesmo, Izzy) mas isso aí é normal. É a ferramenta de comunicação do cara com seu público sendo usada da forma para qual ela foi construida.

    No ano passado fui à um evento em São Paulo com alguns amigos. No último dia já indo pra casa demos de frente com o Azaghal na saída do evento. Eu o reconheci, dei um sorriso de lado e me contentei porque não sou desses fãs histéricos que persegue as pessoas (Porra isso deve ser chato pra caralho), mas um amigo meu reparou e foi lá chamar ele pra tirar uma foto. O cara foi super atencioso e parou pra falar com a gente numa boa.

    Essa atitude por menor e mais corriqueira que possa ter sido pra ele (Afinal de contas a quantidade de nerds por metro quadrado no estande deles era absurda) me fez mudar completamente a visão que eu tinha sobre o cara e me deu uma inspiração incrível.

    Num dia você tá na frente do computador assistindo os vídeos do cara pensando em como aquilo seria inalcançável pra você e no outro se vê de frente pra ele, como uma pessoa comum igual a você. É indescritível.

  4. Lucas says:

    Uma simples pergunta.
    Como você encontrou o Something Awful naquela epoca?

  5. André says:

    “A mãe da minha namorada (hoje minha esposa <3)"

    Porra, KID, vc se casou com a mãe da sua namorada.