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Carta aberta a Hollywood

Postado em 26 março 2008 Escrito por Izzy Nobre 56 Comentários

Oi, Hollywood. Sou eu, Israel Nobre, conhecido pelos cidadãos da internet como Kid, porém mais frequentemente por alcunhas impublicáveis que na maioria das vezes se referem à minha mãe. Certamente você lembra de mim, ou ao menos dos milhares de dólares que eu gasto todo ano frequentando os cinemas locais pra duas horas de escapismo regadas a Sprite e pipoca absurdamente cara.

Assistir filmes é um dos meus maiores hobbies, vício herdado do meu pai (assim como tantas outras de minhas características. Eu sou a prova viva de que nossos filhos acabam sendo versões 2.0 de nós mesmos) que era do tipo que colecionava trezentos VHSs com três filmes em cada um, devidamente catalogados com ajuda de adesivinhos amarelos da Verbatim na frente da fita.

Cinematografia é um de meus maiores interesses, ao ponto de que eu cheguei a entreter por algum tempo a fantasia de trabalhar na indústria de produção cinematográfica (edição/direção/essas merdas). Tal sonho foi abandonado em prol de uma ocupação mais edificante (assistir câmeras de vigilância enquanto treino Pokemons no meu Nintendo DS).

O motivo pelo qual escrevo essa carta é porque algumas coisas que você vem empurrando em cima da gente filme após filme começaram a irritar não apenas a mim, mas a muitos outros cinéfilos como eu. Tire um tempinho em sua ocupada agenda de lançar versões cinematográficas de seriados dos anos 70 estrelando Johnny Knoxville (pra que a turminha de 14 anos consiga se identificar com o filme) e leia essa pequena listinha que eu organizei pra você.

Que tal parar com essa onda de filmes de vampiros que tentam ser Matrix?

Sim, estou olhando pra vocês, Blade e Underworld. E pros inevitáveis copycats que aparecerão nos próximos anos por influência de vocês.

No finzinho dos anos 90, um filme escrito por irmãos de nome estranho com efeitos especiais mirabolantes e trama com diversas referências filosóficas revolucionou o cenário pros filmes de ação que o seguiriam. Estou falando de um dos meus filmes favorito, talvez O meu filme favorito – Matrix. A iconografia do filme (casacos pretos, trocas de tiros em câmera lenta, óculos escuros) foi “emprestada” por praticamente todo outro filme de ação lançado em seguida.

Pouco tempo depois, em alguma mansão na Califórnia, um executivo inescrupuloso decidiu que de todos os gêneros que poderiam se beneficiar dessa visão estilística, os filmes de vampiros seriam os mais indicados pra emular Matrix. O sujeito apanhou um guardanapo e passou imediatamente a escrever sequências de ação com um bonequinho-palito com uma inscrição dizendo “esse aqui é o caçador de vampiros”, e várias linhas saindo deste, indicando balas voando em direção a vários outros bonequinhos-palitos, entitulados “esses aqui são os vampiros”.

O problema óbvio com essa trama (“caçador de vampiros usando sobretudo e óculos escuros metralha oitocentos vampiros em 5 segundos”) é que vampiros, como você deve saber, não são pessoas como eu, você ou o seu primo Chiquim. Vampiros são, e estou citando diretamente do meu livro de Vampiro a Máscara, “cadáveres reanimados por rituais mágicos”. A parte “cadáver” garante que objetos como balas não os causam muito dano, já que eles já estão mortos. E a parte “rituais mágicos” garante que eu ou você ou o seu primo Chiquim estaríamos todos inevitavelmente fodidos se nos encontrassemos com um vampiro na vida real, queiram tenhamos uma metralhadora ou não.

Em outras palavras, vampiros são essencialmente imunes a danos físicos, e ainda que não fossem, eles têm milhares de truques escondidos na manga justamente praquela situação em que alguém quer encher suas bundas de bala.

Pra tornar possível o cenário de um caçador de vampiros metralhando os bichos, introduziu-se o conceito da “bala de prata”, e/ou misturada com essência de alho. É a única forma mais ou menos verossímil pra mostrar um vampiro sofrendo danos ao ser atacado pelo portador de uma arma de fogo. Afinal, vampiros têm aversão a tanto prata como alho, tornando-os efetivamente alérgicos a bala.

Aí que reside o problema. Ao contrário de um ser humano, ao ser atingido por uma bala de prata e/ou alho um vampiro literalmente explode. Não importa se você acertou o cara no meio do olho esquerdo ou se a bala passou raspando no dedinho do pé, o resultado é o mesmo. Se você assistiu algum desses filmes, deve ter chegado à mesma conclusão que eu – os vampiros nesses filmes são MAIS frágeis que os humanos que eles supostamente dominam. Um humano qualquer pelo menos tem a chance de sobreviver a um tiro.

Talvez seja por isso que os vampiros dos filmes sempre insistem em manter o mistério ao respeito da própria existência, o que parece um contrasenso já que eles se dizem ser tão mais poderosos que seres humanos. Tão com medo de um zé mané qualquer derreter os garfos da mãe e em seguida colocar a raça vampírica em extinção.

Eu já vi a explosão, não preciso-lo reve-la em cinquenta ângulos diferentes

Como você deve saber, fazer filmes custa caro. E algumas cenas costumam custar mais caro que outras. Grandes cenas de explosão, por exemplo. Se as imagens resultantes não foram conforme esperado, os produtores terão que desembolsar mais alguns milhares de dólares pra explodir outro barco/carro/Casa Branca em miniatura.

A solução pro problema é filmar a cena da explosão usando cinquenta câmeras e ângulos diferentes. A precaução garante que ao menos UMA sequência ficará boa e poderá ser usada no filme.

Acontece que por algum motivo que eu simplesmente não consigo compreender, na fase de edição do filme os caras falam pra si mesmos “sabe duma coisa? acabou acontecendo que todos os shots da explosão ficaram perfeitos. Vamos usar todos então!”. E por causa disso você é obrigado a assistir cenas de explosão três ou quatro vezes, de todos os ângulos diferentes. Talvez porque eles não tenham certeza que você entendeu a cena da primeira vez.

Então, vamos parar com isso? Se é realmente preciso enxertar uma cena desnecessária que só dura alguns segundos, por que não substituir as explosões por nudez gratuita? Tentem aí, garanto que ninguém vai reclamar, tenta aí. Visualizem: o mafioso entra em seu carro, bota a chave na ignição, o carro explode. Corta pra uma cena da Scarlett Johanson em nu frontal por 10 segundos. Volta pro filme.

Eu pagaria pra ver esse filme. Duas vezes, até.

Pessoas caminhando em slow motion em direção à câmera – já deu, né?

Não sei se a culpa é do John Woo ou do Jerry Bruckheimer, e é difícil estabelecer o pioneiro dessa “técnica” porque praticamente qualquer filme de ação, naquele momento que precisa estabelecer que os heróis são SUPERCOOL, apela pra tradicional “vamos todos andar lado a lado em câmera lenta em direção à câmera”.

É clichê. Não é sequer legal. Alguém por aí decidiu que isso é legal, mas alguém por acaso consultou a gente? Certamente não me incluiram nessa pesquisa.

Bruce Willis como um personagem que não seja um assassino, militar, ou policial? BLASFÊMIA!

Você esteve assistindo filmes ultimamente? Sim? Ah, então você vai me ajudar. Dá pra tu me indicar aí um filme em que o Bruce Willis não tenha interpretado um dos três papéis típicos aí em cima?

Sim, eu sei que ele fez filmes interpretando personagens diferentes. Mas se você somar todos, o número não chegaria nem na metade da quantia de filmes com os personagens clichês. Caso você não se lembre, vou aqui fazer as continhas pra não acharem que estou exagerando. Confiram aí embaixo.

Die Hard (a série inteira) – Policial

The Last Boyscout – Policial

Moonlighting – Detetive, que em interpretação é quase a mesma coisa que um policial se você parar pra pensar

Last Man Standing – Assassino de aluguel

In Country – Militar

The Jackal – Assassino de aluguel

Mercury Rising – Policial

The Siege – Militar

16 Blocks – Policial

Hart’s War – Militar

The Whole Nine Yards – Assassino de aluguel

Striking Distance – Policial

The Whole Ten Yards – Assassino de aluguel

Planet Terror – Militar

Lucky Number Slevin – Assassino de aluguel

Hostage – Policial

Tears of the Sun – Militar

Sin City – Policial

Astronaut Farmer – Militar

Perfect Stranger – Assassino, não necessariamente alugável

E isso são só os filmes que já saíram. Uma passada rápida no IMDB revela os próximos projetos dele, que incluem…

The Surrogates

Plot Outline:
Set in a futuristic world where humans live in isolation and interact through surrogate robots, a cop (Willis) is forced to leave his home for the first time in years in order to investigate the murders of others’ surrogates.

O cara praticamente nasceu pra interpretar homens intimidantes que andam armados. Ou pelo menos é isso que cineastas estão tentando convencer a gente há uns vinte anos. Algumas pessoas dizem que existem vários atores que só conseguem interpretar o mesmo personagem (Will Ferrel ou Samuel L Jackson, por exemplo). Mas na verdade esses caras interpretam vários personagens diferentes, DA MESMA FORMA. O Bruce Willis, coitado, sempre recai nos mesmos três personagens clássicos – militar, policial, assassino.

Vamos lá Hollywood, você consegue largar esses vícios. Fé em Deus, rapaz.

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Categorias: Cinema

56 Comentários \o/

  1. Doug disse:

    O que não me agrada nos filmes de BOLLYWOOD é que grande maioria são musicais. Tirando essa parte são legais.

    E pra quem gosta de filmes de um estilo mais streets, os filmes franceses são bons. Mas apenas para este estilo.

  2. Luiz Angioletti disse:

    Hum…

    Bruce Willis fez filme da Disney, fez filme de psicólogo, fez filme de casaisinhos. Mas ganhou dinheiro mesmo como o McLane. Será coincidência, ou ele é foda mesmo quando tá dando tiro e fazendo piadinhas sarcásticas?

    Quanto ao Steven Seagal.. acho que ele banca os próprios filmes. E ele é o único nome que se reconhece nos créditos, todos os outros atores são random().

    Hollywood só não faz merda quando faz uns filmes como Matrix, 300 de Esparta, e outras super-produções de mesmo conteúdo previamente conhecido.

    Cinema francês é chato? Você tem assistido filmes de que década? 60 ou 70? Albergue Espanhol é um exemplo de cinema francês recente, que não se enquadra no clichê “ninguém entende filme francês”. Filmes alemães e espanhóis também são muito bons. Die Untergang é um puta filme, com cunho histórico. Tudo bem… Alemães têm em seu sub-consciente coletivo a culpa e a vontade de matar judeus, por isso temos tantos filmes de Segunda Guerra, nazismo, neo-nazismo e preconceito saindo da vermelha-amarela-e-preta Deutschland, repetindo sempre as mesmas frases e os mesmos temas. Excetuando os filmes que tratam dos temas acima, filmes como “A Massai Branca” são muito bons.

    Enfim.. falei pra caralho. Mas porra, vivo lendo esse treco e nunca falo nada…. =P

  3. Luiz Angioletti disse:

    Esqueci de comentar sobre um filme Português, muito bom.

    Não me lembro o nome agora, mas no final a mãe e a criança morrem. Tipo o filme é nada. Uma mulher e a filha entram num navio pra ir de Lisboa a Atenas, onde encotrarão seu marido e pai, respectivamente. O filme todo é rodado dentro do navio, e John Malcovich (ele interpreta o capitão do navio) fala um pouquinho de português. 10 minutos antes do final, soa um alarme de bomba a bordo, todos saem, menos a mãe e a criança, porque a jumenta da muleka de 8 anos foi buscar o ursinho, e a frouxa da mãe não teve pulso pra aprumar a menina.

    As duas ultimas coisas que você vê, do ponto de vista dos botes salva-vidas são: a mãe e a menina, numa porta do navio, olhando pro pessoal indo embora; e um clarão, seguido de silêncio.

    Só filme lusitano pra ser assim, digamos, elaborado. =)

  4. Kelb disse:

    Não sei se alguém já comentou (preguiça de ler tudo), mas o Bruce Willis faz um prisioneiro “louco” no “Os 12 macacos”.

    Mas quem sabe ele foi pra prisão por matar alguém? Aí volta pra categoria de assassino :T

  5. Anonimo disse:

    Esse post me lembrou dum site muito bom sobre clichés que os escritores (não só de filmes) gostam de usar: http://tvtropes.org/

    Só tomem cuidado com o efeito wikipedia

  6. Anonimo disse:

    Corrigindo o link que saiu errado, efeito wikipedia: http://xkcd.com/214/

  7. Raymond disse:

    Em pulp fiction o Bruce era um boxeador.

  8. Pala disse:

    Kid, fazendo um comentário totalmente irrelevante ao post: Estou pensando em comprar um Archos 605 e queria pegar umas informações com alguém que já tenha experiência com o aparelho. É coisa besta, só queria saber qual a autonomia da bateria acessando à internet e se ele tem alguma função de zoom para facilitar a leitura de sites, feito o Touch.

    Agradeço desde já.

  9. Victor disse:

    Hollywood e seus clichês centenários. Ainda bem que temos pessoas como você com tal coragem de enfrenta-la e reclamar. Viva la revolution no cinema! (tá bom, tá bom… até parece que vai mudar…)

    Interessante aqui. Prazer, Victor.

  10. Kenshin Br disse:

    Flatou o quinto elemento. No filme ele era um militar (ou policial, sei lá) da reserva.

  11. Kid disse:

    @Pala

    Sim, tem uma função de zoom, mas não tão sofisticada como a do touch. Ele só tem tem dois níveis de visualização, dá um clique duplo na tela e ele pula pro zoom.

    E a autonomia de uso do wifi eu desconheço, porque nunca usei por mais de uma hora.

  12. M disse:

    A do Bruce Willis foi boa

  13. [...] lançamento. Tipo alguém chegar no Bruce Willis e dizer “Cara, você precisa interpretar um policial, um militar ou um assassino!” . .. … …. ….. Nãããão, ela deve ser burra pra caralho [...]

  14. michelli disse:

    … Bruce tb já foi perfurador naquele do fim do mundo, armagedon.
    mas assino embaixo disso td!

  15. lucassimaoo disse:

    john McLaine rula

  16. Dan disse:

    Kid, sem querer ser chato e sem querer defender um filme ou outro, mas Blade é de 1998 e Matrix é de 1999. Será que isso não é pra ser levado em consideração? Quem copiou quem, afinal?