Deixa eu começar esse texto justificando o uso (aparentemente presunçoso) do título original em inglês, ao invés da escolha das distribuidoras brasileiras.
“Vingador do Futuro” é um nome incrivelmente tosco. Além da breguice deixar explícito pro espectador que o filme se passa no futuro (qual a necessidade disso, sinceramente?), o simples fato de que a adição de “do futuro” torna o título muito parecido aos outros filmes do Xuáza deveria ter servido pros tradutores reconsiderarem a nomenclatura.
Apesar do chilique, Total Recall é memorável porque faz parte de um panteão de clássicos característicos dos anos 80/90. Meu pai sempre foi muito fissurado em cinema, e por influência dele eu acabei me tornando muito fã dos filmes da época. Aliens, Predador, Exterminador do Futuro, Um Tira da Pesada, Guerra nas Estrelas, De Volta para o Futuro, Duro de Matar…
(Aliás, a tradução de “Die Hard” – que significa “obstinado/aquele que vai contra as circunstâncias ou as dificuldades” – pro simplório “Duro de Matar” dava outro chilique, mas chega por hoje.)
Meu pai tinha todos esses clássicos – e muitos outros – em várias fitas VHS, sempre embaixo da TV com aqueles adesivinhos da TDK e os nomes escritos em letra de forma com caneta esfereográfica azul.
Essas memórias me remetem a um tempo de descoberta, quando os clássicos não eram franquias conhecidas universalmente e você ainda estava tentando entender as tramas como as histórias completamente novas que elas eram pra você. Lembra quando você não entendia direito o que a Força era? Ou por que o Bishop sangrava “leite”?
Enfim.
Total Recall conta a história de Douglas Quaid (originalmente Douglas Quail, mas alterado pra não soar como Quayle, o vice-presidente americano na época em que o filme foi lançado), um peão de construção sem grana ou disposição – leia-se “permissão da esposa” – pra tornar realidade seu sonho de visitar Marte.
Por isso ele contrata os serviços da Rekall Inc (“recall” não significa “ligar de novo” seu animal, mas sim “relembrar”), uma empresa especializada em implantar memórias falsas. Através dela, o cliente experimentaria uma viagem de férias por um preço mais acessivo, e sem os riscos ou inconvenientes relacionados a viagens.
O problema é que a linha que separa a realidade das memórias falsas (será que eram falsas mesmo? Ih caralho…) começa a borrar, e o Quaid se vê envolvido numa trama de espionagem e pá e tal. E pior, às vezes parece que ele não é sequer ele mesmo – a identidade que ele PENSA que tem pode ter sido um outro implante, feito por inimigos pra esculhambar a missão dele. Imagina você descobrir de repente que você não é você mesmo, e que suas memórias são falsas.
Ou algo assim. O filme é confuso pra caralho, não lembro dos detalhes com clareza, e até HOJE se discute o final do filme, que termina com ambiguidade.
O filme foi pelo Paul Verhoeven, o mesmo cara que assinou RoboCop e Starship Troopers. Ou seja, dá pra notar que o cara curte uma ficção científica mais galhofada e ultra-violenta – e com um tom mais subversivo até, eu diria.
O que é uma pena, porque a história foi escrita pelo Philip K. Dick, um autor de ficção que curtia muito a temática do real versus ilusório. Não acho que o Paul Verhoeven foi a melhor escolha prum filme desse tipo.
Acordei de madrugada e, sem nada pra fazer, fui reassistir Total Recall. Durante toda a primeira metade do filme, um aspecto da trama me perturbou tanto que eu tive que ligar o netbook na calada da noite pra escrever esse texto.
A questão é – quem diabos iria querer implantar memórias falsas em si mesmo?
Pensa bem. Lembre aí de tudo que você fez ontem. Você acordou, tomou café, foi pro trabalho, tomou uma mijada do chefe porque fez alguma merda no dia anterior, ficou puto e começou a pesquisar empregos no Catho, voltou pra casa e jogou GTA4 online, foi jantar, e finalmente caiu no sono na sala enquanto se masturbava assistindo um filme pornográfico.
Agora, imagine que tudo isso não aconteceu de verdade, era apenas uma memória falsa. Suponha que na memória falsa você interagiu com um amigo, mas quando conversa com ele sobre o fato, ele faz cara de dúvida e afirma que vocês nem se viram ontem.
Ou que você pegou aquela menina que sempre sonhou em comer, mas que tudo se tratava de uma ilusão e ela não entende o motivo desse seu comportamento afetivo na próxima vez que vocês se encontram.
Ou que seu chefe nunca te deu aquela bronca e acha completamente estranho o fato de que você se demitiu abruptamente, alegando não aguentar mais trabalhar pro cara.
Uma memória falsa não ia apenas te deixar completamente louco, sem nunca mais conseguir distinguir fantasia da realidade. O que é realmente assustador é que as lembranças implantadas alterariam suas próximas decisões REAIS, tendo potencial pra esculhambar sua vida de forma irreversível.
Qualquer ato que você executasse que usasse como referência uma memória implantada teria potencial pra ser catastrófico. Imagina se todo dia você acordasse e baseasse suas ações no sonho que teve na noite passada, sem saber que a coisa se tratava de uma simulação virtual na tua cabeça?
E isso porque estamos considerando uma memória falsa de apenas um dia. No filme, os pacotes oferecidos são de duas semanas. Imagina quantas coisas acontecem ao longo de duas semanas, e quantas ações suas se baseam no que vocês fez nas últimas duas semanas.
Pior ainda, no filme é estabelecido que a empresa produz artefatos (cartas, fotografias, etc) que corroboram suas memórias. Ou seja, por mais que seus amigos tentassem te convencer que você não realmente passou as últimas duas semanas surfando no Havaí, o seu álbum de fotografias te diz o contrário. Em quem confiar?
E aliás, num mundo em que memórias falsas são lugar comum, como os amigos de alguém que experimentou essas “viagens” se comportariam quando você chegasse contando algo pra eles que obviamente não aconteceu? Todo mundo apenas acenaria e concordaria com tudo que tu diz? Seria como viver com um bando de malucos!
Quando comentei no twitter que memórias falsas teriam o potencial de estragar sua vida pra sempre, o @ThiagoSiqueiraF comentou “o Wolverine que o diga!”. É verdade, boa parte da história do pobre canadense lida com o fato de que ele nunca sabia que memórias dele eram reais, e quais haviam sido implantadas.
Não saber distinguir fantasia da realidade é um dos meus temas favoritos, tanto que Matrix e Inception figuram posição alta na minha lista de filmes favoritos de todos os tempos.
Aliás, o recente (e excelente) Inception solidificou a posição do Christopher Nolan como um diretor habilidoso com o tema. Só posso imaginar que sensacional seria um remake de Total Recall dirigido pelo Nolan.
Infelizmente, o tal remake já tá acontecendo, e será dirigido pelo Len Wiseman. Tudo que o cara tem no currículo é a série Underworld e o último Die Hard, ou seja, não tou muito confiante de que sairá algo muito bom ou fiel à temática da história original.
Bom, contanto que eles dêem um nome diferente de O VINGADOR DO FUTURO quando chegar ao Brasil, já foi uma melhoria.





KI BOM..
Vou ser sincero..
prefiro os titulos de diehard e total recall em português.
são muito mais clássicos e pomposos além de ser titulos que personificam os anos 80/90 e toda essa porradaria que era com Stallone, Arnold, Bruce Willis, Van Damme, Mel Gibson,etc.
Esse negócio de tradução de títulos pra pegar os desavisados sempre foi assim nos anos 80. Lembro que todo filme do Van Damme tinha “Dragão” no título.
Já no tema do filme, eu acho muito válido o implante de memórias pra diversão. Basta que tudo nas memórias seja falso tambem. Não chega nem a ser muito diferente de uma jogatinha imersiva com 3D e gráficos fotorealistas. A polêmica que o filme levanta é justamente o potencial nocivo pra esse tipo de diversão.
E quanto ao filme, ele até que envelheceu bem, se discontarmos o cenário de papelão e a maquiagem de latex. normal pra uma época sem CGI.
“Lembramos Para Você por Atacado!”
WTF? Acreditem se quiserem, foi a primeira tradução para “Total Recall” no Brasil. Não do filme, mas do conto do Phillip K. Dick, publicado no Magazine de Ficção Científica da Livraria do Globo, nos anos 70. Pulp science fiction, feita daquele papel q amarela c o tempo. Sou o feliz proprietário de uma raridade dessas, priceless.
As memórias do Wolvie foram implantadas num sistema mais fundo de quintal, tinha até um set de filmagem, lembra?
Mas enfim, foi implantado do mesmo jeito, no final dá na mesma.
Adoro esses filmes que vc fica em dúvida sobre o que é realidade ou não, pra mim o fodástico Inception é um mix de Matrix, Ilha do Medo e Vanilla Sky/Abra Los Ojos.
Phillip MY DICK
Esse filme é facilmente explicado pela projeciologia, a troca de consciências durante uma projeção astral ocorre quando o arco do corpo astral cruza com a soma de outra pessoa.
Como os alienígenas que construiram o reator são seres mais evoluídos espiritualmente eles auxiliaram Quaid a completar a tarefa que Deus lhe atribuiu.
Implante de memória é uma alusão às drogas. Você só vai usar se sua vida estiver uma m*rda. Se o delírio for melhor que a realidade, independentemente das consequências. Ou então se você for burro mesmo.
Kid apenas explicou porque um “homem de bem” não deve usar entorpecentes…
Aqui vai um link com uma coletânea dos Contos do P. K. D.
Dentro de um mesmo arquivo .doc tem uns três ou quatro contos, mas esse que inspirou o Total Recall tá junto com o do Minority Report.
http://www.easy-share.com/1912409690/Philip K. Dick.rar
ou
http://www.megaupload.com/?d=EXHSGY5F
Duas opções de Download, Easy-Share ou MegaMenager, a escolha. O arquivo é o mesmo nos dois servidores.
Sabe um dos caras malvados que vão atrás do Quaid? Bom, o de cabelo branco foi meu técnico de Boxe. Enquanto eu morei nos EUA eu treinava boxe com ele, mas ele nem comentava da carreira de ator. Depois que eu descobri que era ele, sou um grande amigo dele e considero ele uma excelente pessoa. Enfim, sei que não tem nada haver eu comentar isso aqui, mas não sei porque me deu vontade de compartilhar isso, pois ele foi um cara importante na minha vida.
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CARALHO! Outro remake? Fala sério! Odeio esses remakes imbecis puta que paril! Um remake ali e outro ali que se salva, mas todos os filmes que citaste não merecem remakes, merecem remasterização e nada mais porque eles são foda DEMAIS pra um remake! Já imaginou um remake do De Volta Para o Futuro? Quão estúpido seria eim!
Ahh, mais um post onde eu me identifico bastante com o Kid
Vai dizer também que o filme “The Truman Show” também está na lista dos seus filmes favoritos?
Pra mim o filme Memento (“Amnésia” é muito simplório e o personagem no meio do filme fala “It’s not amnesia”, taquilpariu, distribuidores brasileiros) vai ainda mais fundo na questão das memórias reais e as fictícias. Nolan realmente firma-se como o melhor diretor da atualidade.
O Dark City parece que lida com umas loucuras dessas de distorção de memória também. No final dos anos 90 esse tema pipocou forte no cinema.
E o Nolan é foda, já tinha afirmado no Dark Knight e reafirmo de novo depois do Inception.
schuazinéguer nao me seduz
Não tem tanto a ver com a discussão, mas a verdade é que as “Falsas memórias” fazem parte das nossas vidas mais do que imaginamos. Pesquisas (que eu não tenho em mãos agora, sorry) apontam que muitas pessoas são altamente influenciáveis e podem criar memórias de fatos que nunca aconteceram. Um exemplo clássico foi uma pesquisa onde dois grupos de pessoas (separados, claro) assistiam a um vídeo de um acidente de trânsito. Para um grupo se perguntava “Você viu pedaços de vidro voando no vídeo?” e para o outro “Nessa forte batida você viu pedaços de vidro voando no vídeo?”. No vídeo em questão não havia vidro algum voando, mas as pessoas do segundo grupo em sua maioria diziam que tinham visto sim, chegando a descrever com detalhes o acontecimento e os vidros “vistos”.
[...] dos meus filmes favoritos de infância era De Volta para o Futuro. Como já falei em outros textos, meu pai sempre foi um grande apreciador do cinema, e por causa dele tive um grande contato com as [...]