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O dia em que eu me fodi, conclusão

Postado em 5 fevereiro 2009 Escrito por Izzy Nobre 90 Comentários

A ambulância estacionou na parte traseira do hospital, um detalhe que eu só vim perceber quando os paramédicos puxaram minha maca pra fora – não dá pra ver absolutamente nada do mundo exterior quando você está deitado na traseira de uma ambulância.

Cerrei os olhos sob a claridade do ambiente exterior. Quando abri novamente, a namorada tava do meu lado, carregando minhas roupas. Os paramédicos trocaram palavras rápidas e saíram em direções opostas; o Jeff passou a empurrar a maca em direção à entrada. Imaginei que os outros caras tinham alguma papelada pra preencher em relação ao meu resgate.

A maca parou às portas de vidro do hospital. Através da mágica do sensor infravermelho passivo, elas se abriram permitindo nossa passagem.

O cheiro detestável de gente velha e doente permeava o ambiente e ofendeu minhas narinas no instante que entramos no local. O Jeff me empurrou num cantinho do corredor, e em seguida levou a namorada pro balcão, pra fazer o meu check-in ou seja lá qual o termo usado no contexto hospitalar. A namorada colocou as minhas roupas embaixo da maca, fazendo sinal de “já volto”. Ela me deu um beijo na testa e saiu.

Tentei ver onde exatamente ela colocou as tralhas, se estavam apoiadas em algum suporte na parte inferior da maca ou no chão mesmo, mas as drogas que os meus resgatadores injetaram na minha mão impedia de me mover muito, por mais que eu tentasse. Profeticamente, visualizei a namorada vindo pegar minhas roupas e deixando o iPhone cair do bolso da calça. Suspirei enquanto uma velhinha passava lentamente ao meu lado, com uma daquelas haste com uma bolsa de soro intravenoso a tiracolo.

“Eu podia estar twittando isso agora mesmo”, pensei. Imaginei como descreveria a velhinha caquética, de aparente 400 anos de idade, enquanto ela perambulava aparentemente sem rumo na ala de emergência do hospital.

Joguei o braço pro lado da maca, numa tentativa fútil de alcançar o celular que jazia embaixo da maca. Esta ficava a mais ou menos um metro de distância do chão. Não havia chance de alcançar o negócio, caso ele estivesse no chão. Desencanei da porra do celular.

Comecei a imaginar como é que eu explicaria a porra do acidente ao meu chefe, quando fosse requisitar o inevitável dia de folga pra recuperação. Nisso eu ouço a enfermeira no plantão repetir, com aquele tom na voz que deixava claro que ela acreditava não estar entendendo a história.

“Mas ele caiu da cama?”

“Sim”, era a voz da namorada. O ângulo em que me colocaram no corredor não me permitia ver a cena “ele estava arrumando a cama e caiu. Caiu no chão. Enquanto arrumava a cama.”, ela continuou.

Não dava pra ver a cara da namorada, mas eu consigo imaginar exatamente o semblante que ela esboçou. É tipo aquele quando você trás um sujeito novo pro grupo de amigos, e o infeliz passa a noite inteira fazendo aquelas piadas incrivelmente sem graça que provocam um clima de constrangimento que dura vários segundos.

Em outras palavras, eu imagino que naquele momento ela exibia o clássico olhar “meu deus, que vergonha de me associar com esse retardado”.

“Mas quantos metros de altura tem essa cama?” perguntou a enfermeira. Não consegui distingir se ela usou tom de sarcasmo brincalhão, ou provocativo.

Ouvi uma risadinha sem graça da namorada. Alguns momentos de silêncio, e de repente a menina se materializa do meu lado.

“Já preenchi tudo pra você, já já eles te levam pro atendimento. Como você está?” ela interpelou.

“Mas que porra de pergunta ein minha filha” falei. E em seguida, “Já estive melhor”, arrematei, meio arrependido da minha hostilidade. Ela notou que eu coçava a mão furiosamente.

“Pára, menino!” ela falou, puxando meu braço pra longe do catéter. E sim, eu sei que houve uma reforma na língua portuguesa e que “pára” não tem mais acento e blá blá blá por que você não vai chupar uma piroca, ein? Tou contando uma história aqui, caralho.

“Tá coçando demais essa desgraça” falei distraidamente enquanto escaneava o local “vai demorar muito isso aqui?”

“A enfermeira falou que já já vão te levar pro atendimento. Não deve demorar muito”

“Tou com fome. Me dá meu iPhone aí” eu disse, num total non-sequitur.

A namorada se abaixou pra pescar o celular das minhas calças. Ela se levantou com a calça nas mãos, e então eu ouvi o barulho claro de um objeto de plástico caindo no chão e quicando algumas vezes. “Aiii…”, falou a menina.

“Mas puta que o PARIU…” falei baixinho. Uma enfermeira passava perto no momento, me ouviu e fez cara feia. Suspirei e cocei o cateter de novo.

A namorada se abaixou pra pegar o celular. Ela limpou a tela com a blusa, ligou-o e destravou a tela. “Olha, ainda funciona direitim, fica com raiva não amor ^_^”.

Minha mulé é um personagem de anime ambulante.

“Pera que eu vou comprar uma bobagem qualquer pra você comer” ela disse e saiu, certamente tentando me recompensar por ter estatelado a porra do celular no chão.

Apanhei o bicho, abri o cliente de twitter e informei meus amiguinhos de que no momento eu me encontrava fodido e num hospital. A namorada apareceu logo em seguida, com um saquinho de salgadinhos aleatórios.

Poucos segundos depois, apareceu uma enfermeira com uma prancheta na mão.

“Izzy?”

“Opa, é nóis dona enfermeira” foi o que eu não falei. Ao invés disso, eu disse apenas “sim”.

“Opa, tudo bom? Sou a Tracy. Vamos lá” foi o que ela disse, de forma alegre e meio misteriosa. Mas vamos lá ONDE, mulher?

Ela me levou pra uma ante-sala (tem hífen nessa porra? Eu lá entendo dessa merda de reforma) com várias camas separadas por cortinas. Deitei-me em uma das camas, sob olhar cuidadoso da enfermeira lá. Ela fechou uma cortina ao meu redor e falou que um médico iria me atender em breve.

Nisso eu pensei naquela tal responsabilidade jornalística que eu vivo mencionando, e decidi que seria uma boa hora de imortalizar aquele dia de merda em formato .jpg. Eis as imagens:

Fiquei lá sozinho com meus pensamentos e meus salgadinhos (que eram uma merda, já que você pergunta), apesar da orientação da enfermeira de que eu não deveria comer nada antes de ver o dotô. Talvez seja por isso que eu fiquei meio envergonhado quando uma segunda enfermeira veio falar comigo e esboçou claro desgosto ao me ver ignorando a orientação da outra.

“Você tem alguma alergia?” ela foi direto ao ponto, sem o usual bom humor que parece uma constante na galera da profissão médica. Não pude deixar de notar que a mulé era estonteante. O cabelo loiro dela tava preso, aquele glorioso rabo de cavalo balançando atrás dela. O jaleco dela era modesto, mas os traços de mamas gloriosas eram claramente visíveis por baixo dele.

O que estou querendo dizer é que a mulé parecia uma enfermeira, sim, mas o tipo que estou acostumado a ver em formato Divx com uma URL do naughty-america.com no cantinho inferior direito.

Pensei tudo isso antes de responder “não, nenhuma alergia”. Ela fez uma anotação numa pranchetinha.

“Toma algum medicamento controlado?” porra, a mulé precisa usar esse tom de descaso? Que escrotinha. Ou estaria apenas de mal humor naquele dia específico? Jamais saberei.

“Não, nenh…”

“Seu endereço é (…)?”

“Isso”

“O doutor vem ver você já já” ela disse, colocando a pranchetinha numa prateleira. E se virou pra ir embora, me lembrando mais uma vez por que eu adoro a Lululemon.

Lululemon é uma grife local que faz roupas esportivas. A despeito do preço ridiculamente abusivo (calças da Lululemon custam na faixa de 150 dólares, enquanto calças idênticas porém com outros logos se encontram por menos de 30), a marca é extremamente popular aqui na cidade.

Esse é o tipo de roupa que eles vendem.

E era isso que a enfermeirinha estava trajando.

Minutos depois o médico aparece. O cara mal olhou pra mim; ele devia ter ouvido a história da cama e concluído que eu não poderia estar tão machucado assim. Ele me entregou uma cartela de Oxycontin, um poderoso analgésico, e uns papéis explicando sobre o quão perigoso o tal medicamento é, porque aparentemente vicia com muita facilidade.

Tomei uns ali mesmo, curioso sobre o efeito do famoso remédio. Nunca fui muito de experimentar drogas, então imaginei que seria uma reação interessante.

E como foi. Ao longo dos próximos 5 dias, sempre que as costas começavam a doer mais, eu metia um comprimido na goela. Em questão de minutos, tava LOMBRANDO. A reação inicial era uma de sono; eu me sentia sonolento, mas não estava realmente com vontade de dormir. Em seguia vinha um alívio fortíssimo pelo corpo inteiro, a melhor forma de descrever a sensação é dizendo que dava a impressão de que se eu não me controlasse ativamente, me mijaria, cagaria e gozaria todo se desse o menor espirro.

Trevor – como bom amigo filho da puta que é – já havia contado pra todos os nossos colegas de trabalho sobre como eu me acidentei ARRUMANDO A CAMA, e jazia caído no chão de cuecas, na mais triste figura, esperando ser socorrido por paramédicos.

E sempre que algum colega de trabalho que ainda não havia ouvido a história me perguntava como eu me acidentei, eu me lembrava do conselho que dei no começo desta série – se você for se acidentar, tente não se acidentar de forma vergonhosa.

E pra tornar a coisa ainda mais engraçada (pra vocês), anteontem chegou a conta da ambulância. O plano de saúde federal cobre tudo, MENOS viagem de ambulância.

Conta de 351 dólares. Com 10 dias pra pagar. Logo antes de uma viagem pra outro país.

Eu só me fodo mesmo.

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Categorias: Sagas intermináveis

90 Comentários \o/

  1. swk disse:

    já viu esse rendezvous no vimeo?
    http://vimeo.com/1989082?pg=embed&sec=1989082
    antes de ver pensei q teria algo a mais.
    lembra Halo e A Esfera.

  2. Turcão disse:

    essa sequencia de posts foi uma das mais engraçadas que já li uehueheuehue

  3. [...] No final eu acabo com uma cama toda torta (o que adiciona bastante personalidade ao ambiente, embora acabe me enviando pro hospital às vezes) vários aviãozinhos de papel, e um monte de parafusos extras que eu não [...]

  4. Edison disse:

    @izzynobre – Comparado à porcaria do SUS, até vale a pena pagar $350 pelo transporte de ambulância. http://migre.me/c9Sm

  5. [...] subindo na mesma e sacodindo o cobertor até que toda a cama estivesse coberta. Como vocês sabem, essa técnica me custou muito caro quando eu errei o passo na hora de descer da cama, e assim morreu uma mania que eu cultivava desde minha [...]

  6. naná disse:

    eu queria fazer parte disso !

  7. [...] – Terminei a saga da minha ida ao hospital graças a uma queda da cama. Foi a coisa mais patética de toda a minha vida, e aí está, exposta a milhares de desconhecidos. [...]

  8. Camilo disse:

    351 dolares por uma viagem de ambulancia ?

    isso da mais lucro que taxi !

    zifudeo izzy

  9. Issue disse:

    Cara que tosco. Tu paga a viagem de ambulanica? Se bem que aqui nem isso.

  10. Issue disse:

    PQP AMBULANCIA ****