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5 Brincadeiras Idiotas de Infância Que Só Podiam Dar Merda

Postado em 20 October 2011 Escrito por Izzy Nobre 7 Comentários

Além de curar cegos, andar por aí com prostitutas e definir o calendário da civilização ocidental, Jesus celebremente disse que o reino de Deus pertence às crianças.

A história aparece de novo no livro de Marcos, aliás. Inclusive, toda a idéia de que um cristão precisa “nascer de novo” faz alusão à idéia de que Jesus favorece a galerinha mais jovem.

Por muitos séculos, teólogos interpretaram a frase de Jesus da seguinte forma: o Reino de Deus pertence àqueles que forem puros e inocentes como criancinhas.

Entretanto, tenho outra teoria: Jesus sabia que criancinhas são malucas, com hábitos que beiram tendências suicidas, e por isso acabam indo ao Céu primeiro.

Ué, você tá duvidando? Você não lembra que brincava de…

Carrinho de rolimã

Deixa eu admitir logo: eu tenho muita saudade dos carrinhos de rolimã. Ou “rolemã”, sei lá.

A emoção de descer uma ladeira em alta velocidade (ok, não tão alta assim) com freios inexistentes ou ineficientes, dividindo a rua com carros que poderiam te esmagar como um rolo compressor. A única coisa mais incrível que a sensação de pilotar um carrinho de rolimã era o fato de que nossos pais nos deixavam fazer isso.

O carrinho de rolimã era um resultado do cálculo (três pedaços de madeira) + (quatro rolamentos) — (qualquer instinto de auto-preservação). Uma vez de posse de um deles, a gente saia caçando as melhores ladeiras do bairro. Se haviam dois ou mais moleques com carrinhos, a idéia era disputar corrida.

E como em qualquer tipo de automobilismo, os espetaculares acidentes são o que há de mais emocionante. Diz-se que os gringos só assistem Nascar por causa dos acidentes, aliás.

Eu tenho até hoje uma cicatriz no tornozelo esquerdo por causa de um carrinho de rolimã. Sabe o que acontece num carrinho de rolimã se você dá uma curva muito fechada indo em alta velocidade?

A mesma coisa que acontece com qualquer outro veículo. Este erro me mandou voando pelos ares como uma boneca de pano, me ralei todo quando o chão correu pra me acudir.

E quando alguém inventava de fazer uma rampa pros carrinhos? Como eles jamais atingiam velocidade suficiente para decolagem, o que acontecia era a) a tábua quebrava e enviava centenas de farpas na delicada cútis e olhos da criançada ou b) o carrinho chegava à beirada da rampa e em seguida despencava ao chão, fraturando cóccixes no processo.

Bombas

Essas bombas têm diversos nomes ao redor do Brasil. Em SP são chamados de “morteiros”, no RJ, essa cambada de racistas, a bomba se chama “cabeção de nego”. No Maranhão, isso se chama “bomba de murrão”. Em Minas chama-se as bombas de “trem que isprode, sô”.

Já no meu saudoso Ceará chamamos estas bombas de “rasga-lata”, porque este é o nome correto delas.

A rasga-lata consista num explosivo caseiro, vendido em mercearias de esquina por valores perigosamente acessíveis a crianças. E evidentemente, não havia nenhuma restrição etária para a compra das bombas. Eu devia ter uns 10 anos quando comprei minha primeira rasga-lata.

O maior pretexto pra utilização desses aparatos explosivos era a Copa do Mundo, mas no bairro da minha avó — o único bairro que frequentei constantemente por toda minha infância; minha família se mudava muito — a criançada brincava dessas coisas quase toda noite.

O nome do troço era uma sugestão de uso. A molecada comprava essas merdas e saia vasculhando o lixo do bairro inteiro procurando latas metálicas para explodir. Quando não conseguiam achar latas, servia qualquer outra coisa — garrafas plásticas de refrigerante, canos de PVC, e em uma ocasião um moleque particularmente suicida jogou uma rasga-lata dentro de um pote de vidro.

Eu, que sempre fui meio piromaníaco, adorava as rasga-lata. Quando meus primos iam lá em casa a gente juntava toda a grana, comprava uma porrada de bombas, e o mundo então adquiria outra aparência pra nós: tudo que víamos era explodível.

Como eu cheguei a adolescência com ambas as mãos intactas é um mistério.

E isso, novamente, com pleno conhecimento e consentimento paterno. Era outro mundo mesmo.

Mortal Kombat na cama

Nós gamers somos extremamente sensíveis à acusação de que videogames provocam violência no mundo real. Muitos anos tendo que lidar com essa caça-às-bruxas nos fizeram desenvolver argumentos afiados pra defender nosso hobby.

Até parece que nos esquecemos que há muitos anos atrás, em pé em cima da cama dos pais, nos engafinhamos com irmãos mais novos após berrar um alto e inspirado “FIIIGHT!”

Uso MK neste exemplo mas isso é apenas porque era nosso game de luta favorito na época. Qualquer jogo de luta era reproduzível em cima da cama dos pais, o equivalente infantil a um tatame gigante.

Numa dessas brincadeiras, eu caí da cama de cabeça no chão. Apaguei, e a próxima memória que tenho é dos meus pais me trazendo pra casa de volta do hospital — eu, encolhido no colo da minha mãe no banco da frente do carro, enquanto ela levantava o braço pra erguer a garrafinha do soro intravenoso.

Outra coisa que muito me impressionava eram aqueles incríveis saltos mortais que os lutadores do jogo davam. Obviamente tentei reproduzir a parada na cama dos pais, e arrebentei meu pé num baú que eles mantinham na cabeceira da cama.

Em outra dessas brincadeiras, uma porrada na cara do meu irmão com o travesseiro arrancou um dente dele.

O legal é que víamos a aparição de sangue nas brincadeiras como um sinal de que a imitação do jogo estava perfeita.

Espadachim de vassoura

Imagine a cena acima, exceto que sem qualquer instrumento de proteção, e com cabos de vassoura (que são muito maiores e mais pesados que floretes, portanto causam bem mais dano). Esses eram eu e meu primo.

Sei lá qual foi o filme ou videogame que nos inspirou a fazer isso — e em se tratando de brincadeiras de luta de moleque, pode ter certeza que foi um dos dois que nos deu a idéia –, mas toda vez que eu ia à casa dos meus primos a gente roubava as vassouras da empregada, removia aquela parte das cerdas, e tentava coreografar elaboradas cenas de luta na garagem.

Os resultados eram previsíveis: vigorosas vassouradas na cabeça, braços e ou pior ainda: nos dedos. O que acontecia é que… bem, permitam-me explicar com uma ilustração.

Esta é uma espada. Você deve ter notado que quase toda espada tem um curioso elemento de design ali perto do cabo. Aquela pecinha ali se chama crossguard.

Sabe qual a função dela? Impedir que a lâmina inimiga deslize até a sua mão, decepando seus dedos.

Agora olhe pra uma vassoura comum. Você perceberá uma notável ausência de qualquer tipo de crossguard.

Ou seja, uma tarde na casa dos meus primos significava levar trocentas vassouradas nos dedos. O moleque vinha com sede de sangue, travava a vassoura dele na sua, mas aí o ângulo da sua vassoura praticamente convidava a dele a percorrer toda a sua extensão, parando finalmente quando acertava seus dedinhos em cheio.

E meu irmão, uma vassourada no dedo já doi pra caralho, imagina levar três ou quatro seguidas no mesmo dígito. Não sei como não estou digitando este texto com a língua, isso é um milagre.

Pipa com cerol

Já escrevi um texto inteiro sobre minha carreira como exímio piloto de testes de pipas. Acontece que acho que aquele texto não captou bem a insanidade que é a prática do cerol, então cabe mencionar aqui

Caso você seja algum tipo de gringo maluco que achou este site e jogou no Google Translate (Oi Bebba!), deixa eu explicar: “cerol” é um produto caseiro aplicado na linha da sua pipa. A finalidade disto é cortar a pipa dos outros, porque afinal de contas qual a graça de empinar uma pipa sem ter a opção de sacanear alguém?

Cerol é fabricado da seguinte forma:  primeiro você rouba copos da cozinha. Depois, arruma um pote de cola. Tritura-se o vidro até que esteja praticamente inalável (nossa senhora imagina aí o horror que deve ser cheirar uma carreira de vidro em pó), aí mistura com a cola e aí está. Basta aplicar a parada na linha da pipa, esperar secar, e pronto. Você tem uma lâmina virtualmente invisível à distância e enrolável.

Não bastassem os dedos cortados no processo de moer o vidro e aplica-lo à linha, o real terror era o risco que o cerol trazia a ciclistas ou motoqueiros. Lembra que eu falei que a linha é virtualmente invisível? E que após a aplicação do cerol, é preciso coloca-la pra secar?

Não sei se os moleques eram incrivelmente retardados ou psicopatas em treinamento, mas o método que muitos elegiam pra secagem da linha era amarrando em postes, na altura do pescoço, e às vezes conectando postes em lados opostos da rua.

Ou seja: volta e meia alguém morria DEGOLADO porque não viu a linha cortante no meio da rua.

A corrida armamentista iniciada pelo uso do cerol fez com que alguns moleques mais engenhosos passassem a usar fios de cobre pras suas pipas, que não podiam ser cortados pelo cerol — mas que eram perfeitamente condutores, e ceifaram algumas vidas quando os fios tocavam nas linhas elétricas em postes.

Ahh, cê tá me achando muito sensível e bichinha, né? “Aff que baitolagem Kid, todo mundo brincava com cerol, não era esse horror todo“. Sugiro que você não procure “cerol” no Google imagens então. A parada causava estragos tão absurdos que é difícil crer que era produzido por um bando de moleque de 11 anos com um tubo de cola Polar e um copo velho.

Nossa geração desafiou Darwin, meus amigos.

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About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

7 Comentários \o/

  1. Lyncool says:

    Mortal Kombat na cama,varias cabeças na parede!

  2. eduardo says:

    po izzy, as imagens nunca aparecem nos seus posts

  3. Gabriel says:

    Poxa Izzy, faltou o Porradobol! Q tu até citou em um podcast do Azilator.

  4. Eduardo Araujo says:

    Muito bom Izzy….Ri muito… Criança atentada vc. . Kkk
    Nunca fui a for de pipas por causa desse uso do cerol, quase vi uma criança morrer por isso. Mas fora isso vejo a criançada brincar na porta de casa e me divirto muito lembrando da minha infancia de games e pique-esconde co primos e amigos…
    Flw Izzy… Um abraço…

  5. Na parte do carrinho de rolimã eu me lembrei deste vídeo: rel="nofollow">
    Esse cara é um conhecido meu de Palmares, cidade onde cresci no interior de Pernambuco. Eu considero esse cara um inventor. Sozinho ele adaptou uma Toyota Bandeirante pra utilizar óleo de soja usado como combustível!
    E de vez em quando ele faz umas doidiças, como a desse vídeo. Essa é uma das ladeiras mais longas de Palmares (conhecida como “ladeira da Cohab II”). Ele colocou esse carrinho na metade da ladeira e se danou a descer, e o resto a gente vê no vídeo.
    O cara é bem conhecido por lá, muito gente boa.

  6. João L. says:

    Izzy, aqui em Minas chamávamos estes artefatos explosivos, tivessem o tamanho e a potência que tivessem, de “bombinhas”. Um “rasga-lata” seria bombinha, uma dinamite seria bombinha também.

    Em meados dos anos 90, tinha um garoto na minha rua, o Michel, um pouco mais novo que eu e minha turminha de delinquentes mirins, que a gente zuava vez ou outra. Certa vez ele deixou comigo, enquanto ia ao banheiro, um boneco daqueles do Cavaleiros do Zodíaco cheio de armaduras, o preferido dele (acho que o único que ele tinha) e nós pegamos uma dúzia dessas bombinhas, amarramos no brinquedo, e quando a parada explodiu o boneco virou uma couve-flor de plástico…
    Ficará gravado na minha memória pra sempre a cara de imenso desprezo e desilusão com o mundo que o Michel esboçou ao se deparar com seu brinquedo preferido naquele estado deplorável, quase liquefeito.

    Me desculpe Michel, é que eu era uma criança maligna, como quase todas as outras!

  7. Nailson says:

    Vi as fotos de Cerol no Google e tomei uns sustos.

    Eu era outro piromaníaco. Sim, nossa geração desafiou Darwin.