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Trabalhando no Restaurante

Postado em 21 August 2006 Escrito por Izzy Nobre 8 Comentários

Todo dia, durante três horas, eu abandono as confusões virtuais em que vivo metido para o divertimento alheio em prol de um objetivo muito mais nobre – ganhar dinheiro.

Como expliquei uns dois ou três anos atrás, mandei o meu antigo chefe tomar em sua digníssima rabiola e me demiti do antigo trabalho de vendedor móvel de guloseimas congeladas. Após menos de um dia de exploração no extenso mercado trabalhístico de Oshawa (que vai desde colheita de morangos durante o verão a limpar neve de portas de casas alheias no inverno), encontrei uma nova ocupação, consideravalmente mais lucrativa que aquele marmotagem de andar de bicicleta pela cidade trocando picolés semi-derretidos por moedas de dois dólares.

Tornei-me um técnico aquático – que é o termo chique para “lavador de pratos” – de um respeitável restaurante no centro da cidade, literalmente vizinho à Worlds Collide (uma igualmente respeitável loja de RPG, revistinha em quadrinhos e DVDs de desenhos japonês que estrelam meninas menores de idade trajando calcinhas de algodão).

Eu me demiti da Frosty Freeze na quinta feira, por motivos que incluem – mas não se limitam a – minha vontade de derramar gasolina em cima do carro do chefe e/ou amarrar alguns pregos enferrujados em volta de uma granada de mão e jogar no escritório do desgraçado, anexo a um bilhete dizendo “alguém joguei gasolina na sua BMW, não sei quem fui”. Na manhã de sexta, livre da opressão que apenas um vendedor de picolés no Canadá poderia experimentar, saí distribuindo currículos pela cidade afora.

E dei sorte. Antes do fim do dia a turma do restaurante já tinha me ligado, pelo jeito as pilhas de pratos lá estavam atingindo o telhado e eles precisaram desesperadamente de um brasileiro pra resolver a situação.

E comecei na sexta feira mesmo.

O restaurante, cujo nome manterei em anonimato por motivo nenhum, é um estabelecimento praticamente histórico na cidade. Fundado em 1958, o lugar se tornou uma espécie de cartão postal da pequena cidade rural que é Oshawa. O restaurante é de longe o preferido entre os mendigos que habitam o centro da cidade, que pausam suas atividades diárias – conversar com placas de trânsito e lamber jornais velhos no bequinho atrás da igreja – temporariamente para saborear a culinária de Louie, meu chefe/chef. Ouvi inclusive alguns deles comentando em voz alta com amigos imaginários que as panquecas do Louie são consideravelmente mais saborosas que o caderno de Esportes, que tem misto sabor de urina de gato com cola de sapateiro (o favorito deles).

Nota mental: JAMAIS confuda a profissão do seu chefe com algo que define exatamente o que ele faz, como “cozinheiro”. Algumas pessoas precisam desesperadamente se apegar a títulos desnecessários para validar a própria profissão. Portanto, Louie é um “chef”, e não um “cozinheiro”, que é basicamente a mesma coisa mas com mais letras.

Seu computador está exibindo no momento uma imagem do meu ponto de vista de 5h às 7h da tarde, ou de 2h às 4h se você está lendo isso aqui no fim de semana. Os números representam as áreas em que a atividade de um técnico aquático é necessária, convenientemente definidas na listinha seguinte:

1) Overhead board
Essa é a área em que os objetos de valor que eu porventura trago ao restaurante devem ser mantidos. Não estou zoando; no primeiro dia de trabalho um dos cozinheiros viu meu palm e perguntou se eu planejava trazê-lo pro trabalho todo dia. Expliquei que o dispositivo era um prático visualizador portátil de pornografias, e que eu preciso carregá-lo pra onde eu for (nunca se sabe quando eu precisarei ter pornografia ao meu alcance). O cara então me aconselhou a manter todos meus pertences à vista, porque ele não confia em ninguém no restaurante. Em seguida ele deu um pulo, olhando pra trás desconfiadíssimo, como se a sua sombra estivesse tentando ouvir o que ele me dizia e em seguida roubar sua carteira.

2) Dish tray
Essa massa disforme esverdeada em que os pratos flutuam não é uma mera representação artística, não – ela é uma imagem bastante apropriada do ambiente que os pratos e talheres habitam enquanto não estão na prateleira do outro lado da cozinha, prontinhos para recepcionar outra porção de batatas fritas ou panquecas. Algumas vezes as garçonetes esquecem uma dessas bandejas (tray = bandeja?) embaixo do balcão da frente, e até que eu finalmente localize a porcariada, a massa de bactérias que toma conta dos pratos já desenvolveu classes sociais e partidos políticos.

A receita pra uma massa disforme esverdeada® é bastante flexível, não se limitando a restos de comida. Guardanapos, cigarros pré-fumados, bolas de ketchup endurecido, panfletos da Igreja dos Santos dos Últimos Dias, canetas estragadas, aparelhos auditivos, ou seja, praticamente qualquer coisa que caiba num prato e esteja ao alcance dos clientes acaba vindo parar na minha pia. É como se houvesse naquele restaurante um vortex onde tempo e espaço entram em colapso, atraindo pequenos itens domésticos em minha direção.

3) A pia
A pia é meu principal instrumento de trabalho. Após enchê-la até o topo com água na temperatura aproximada do Sol num dia particularmente quente, despejar alguns litros de solvente industrial e não usar absolutamente nenhum tipo de equipamento de proteção além de uma deprimente redinha pro meu volumoso cabelo (sim, eu uso uma rede pro cabelo tal qual uma cozinheira mexicana de meia idade), eu empurro pra dentro da pia os pratos cobertos em qualquer substância pegajosa que o restaurante esteja servindo nesse dia em particular e esfrego-os até que a substância pegajosa se torne menos perceptível. Essa parte do trabalho é a que exije maior atenção e esforço; se nesse dia eu estiver com menos vontade de trabalhar, a garçonete servirá um sorvete sabor calabresa a algum infeliz.

Vez ou outra o meu supervisor resolve ser inventivo e despeja alguns galões de água sanitária na pia, e eu vou te contar, nada revela cortes antes despercebidos como meter a mão em uma mistura fumegante de água sanitária, detergente e restos de comida em intermédio estado de putrefação.

4) The grease trap
Quando pedi pro Trunks ilustrar a cozinha, eu deveria ter especificado que também queria um desenho da grease trap. Como não expliquei pro moleque, no lugar do aparelho há uma espécie de explosão criada por formas geométricas do MS Word preenchido com um padrão de tijolos ou algo assim.

Não conheço o nome técnico do dispositivo na língua lusófona, então aí vai uma breve descrição do funcionamento do grease trap e de sua importância na sociedade geopolítica canadense.

Como o restaurante é famoso por servir hamburguers, batatas fritas, bacon e outros itens alimentícios que são o equivalente a mascar uma barra de gordura refinada de porco, boa parte dessa seboseira vai parar na minha pia. Grease trap é uma imensa caixa de plástico cheia de tubos e outros coisas que filtra a água que passa pelo ralo da pia, evitando que o volume astronômico de gordura foda o encanamento do lugar.

Romântico, né? E tem mais.

Toda semana a grease trap precisa ser limpa. Manualmente. Toda aquela sebozeira que ficou lá fermentando por sete dias até atingir o patamar de arma biológica precisa ser removida com o uso de uma panelinha asquerosíssima que é mantida ao lado do equipamento.

Palavras não fazem justiça à inigualável nojeira que é a abertura de uma grease trap. Pra você ter uma noção, a grease trap só pode ser aberta em momentos de baixo movimento no restaurante, ou há o perigo de espantar daquela área três futuras gerações de qualquer infeliz que esteja no lugar nesse momento mágico. O problema não é a gordura em si; é a espuma resultante da fermentação da parada. É uma espuma cinza, bastante espessa – praticamente sólida, aliás – e igualmente fétida.

Após transferir o desagradável conteúdo da grease trap pra baldes plásticos, tenho que carregá-los até o esgoto por trás do restaurante. Se ao menos uma gota do líquido espirrar nas suas calças, não haverá solução senão amputar a perna – isso se você tiver a sorte de não entrar em combustão instantânea ali mesmo.

5) Não sei o nome dessa área
É o local onde os pratos ficam pra escorrer. Após dar umas assopradinhas na louça e me assegurar de que não há quase nenhum pedaço grande de comida ainda visível, jogo os pratos nessa área aí, onde eles ficarão até que eu lembre que tenho que colocá-los de volta à disposição dos cozinheiros. O que geralmente não acontece em menos de meia hora após o momento em que eu deveria ter feito isso.

Fazer o que, eu não posso ser responsabilizado pelo que faço após inalar os vapores da grease trap.

6) Linen closet
É um pequeno armário pra onde nossos aventais vão após um longo dia de fingir que estamos lavando pratos e etc. Sim, caso você esteja seguindo a descrição, eu uso uma redinha pro cabelo E um avental. Se você achava que precisava de alguma boa idéia pra me aloprar, aí está.

Os aventais são lavados em cada Olimpíada, o que garante que você jamais encontrará um que não tenha um misterioso padrão de manchas multicores (e multisabores, basta esperar o chefe virar de costas e descobrir por si mesmo).

Isso é basicamente um resumo do meu ambiente de trabalho. Agora você sabe o que eu estou fazendo quando não estou online no MSN.

Aliás, tenho que tomar um banho já já. Meu turno começa daqui a duas horas. E hoje é dia de pagamento, o pior dia pra chegar atrasado.

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comments

Categorias: Vida maldita

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

8 Comentários \o/

  1. Bru says:

    Axu q eu amo meu trabalho!hahhahaha…
    e olha q eu faco a mesma coisa q vc fazia hein??hahahha

  2. Jovas says:

    Pelo visto você ainda lavava bem os pratos. Na minha universidade, as bandejas são lavadas com mangueira de pressão!
    Chegam as bandejas sujas e são amontoadas pelos próprios universitários, na entrada da área de “limpeza”. Como estamos em contato tanto interativo quanto visual com a área, vemos a galera limpando as bandejas apenas jogando água. Nada de sabão, esponja ou qualquer coisa. H2O e tome bandejas de volta ao uso. =D

  3. Ruskii says:

    …”a massa de bactérias que toma conta dos pratos já desenvolveu classes sociais e partidos políticos.”…

    kkkkkkkkkkkkk
    fico rindo aqui na frente do pc e minha mae pensa que eu sou doido do outro lado da porta

  4. izzynobre says:

    Retrospectiva HBD: quando eu trampava num restaurante http://hbdia.com/wordpress/2006/08/21/639/

  5. Eduardo says:

    Hhaha, não tinha visto ainda esse. Muito bom o post.

    Só imagino a nojeira que era. uehehu

  6. Gustavi says:

    Grease Trap = Caixa de Gordura, aqui no brasil, ja tive o desprazser de fazer o mesmo que você na da minha antiga casa =/

  7. Vanessa says:

    E o outro negócio dos pratos chama escorredor, hahaha, ótimo post.

  8. […] já trabalhei num restaurante, como contei aqui neste texto apropriadamente entitulado “Trabalhando no Restaurante“. Durante este período, eu fiquei terminantemente convencido de que todos os restaurantes do […]