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AH CARALHO, quero chegar logo no Brasil

Postado em 15 novembro 2009 Escrito por Izzy Nobre 65 Comentários

Meus caros amigos e inimigos, como os senhores sabem eu estou retornando triunfalmente à pátria amada idolatrada salve salve entre outras mil é tu Brasil, em virtude do casamento de minha querida prima Talita – que sempre foi uma das minhas mais próximas.

(Also ela tem um PHD em física – seguindo os passos da mãe, doutora na mesma ciência -, portanto respeitem e invejem o garbo e sofisticação acadêmica da minha família)

Por ter morado longe da terrinha por tantos anos (6 anos no Canadá, 3 no Paraná, 3 no Maranhão), acabei perdendo todos os importantes eventos familiares – aniversários, casamentos, formaturas, etc. Aquela sensação de distanciamento, por mais desligado da família e das suas raízes que você seja, acaba te afetando eventualmente.

E por mais que eu tenha vivido essa distância da família por boa parte dos meus anos formativos (e toda a minha vida adulta, na real), você nunca se acostuma totalmente com isso. Sempre que alguém fala que foi visitar a avó ou que estava passeando com o primo, bate aquela fortíssima inveja.

Quando a Talita me falou que estaria se casando em janeiro, pensei “Puta merda, que timing horrível – fica muito em cima da hora fazer outra viagem dessa em menos de um ano“. Eu só me fodo mesmo!

Pra quem não lembra do contexto, eu fui ao Brasil em março, duas semanas após perder meu emprego, e apenas porque tudo já estava pago mesmo (cartão de crédito é pra perdedores, o quanto mais rápido você aprender isso, melhor sua vida será). Meu futuro financeiro estava em dúvida naquela época, e definitivamente não havia como se comprometer a um retorno tão breve. Pra ilustrar a situação, uma passagem de ida e volta ao Brasil, partindo da minha cidade, custa mais ou menos 1800 dólares.

Haja vontade de rever a terrinha.

Mas isso seria lógico demais pra familiares que estavam felizes em se rever após meia década. Apesar de saber perfeitamente que provavelmente não teria os fundos pra retornar tão cedo assim (afinal, eu havia perdido o emprego, e estava disposto a finalmente retornar aos estudos, o que complica mais ainda), prometi a todos que estaria de volta em janeiro pro casamento da minha prima. “Daqui pra lá eu dou um jeito”, eu tentava me convencer.

Minha mulher, não captando minha “mentira”, empolgou-se e reiterava pra minha família (com o adorável português torto dela) que voltaríamos sem dúvida. E eles começavam a fazer planos – alugar uma casa de praia, leva-la a um forró* qualquer, etc.

Meses depois do nosso retorno ao Canadá – quando fui sortudo o bastante pra arrumar um emprego que não apenas pagava o mesmo que eu fazia antes no tribunal, mas que é também mais divertido -, comecei a verificar minhas finanças e repensar na promessa feita aos parentes.

E quando vi que a situação tava tranquila – faculdade sob controle, contas em dia, a poupança continua crescendo todo mês (eis minha segunda dica de orçamento – trate sua poupança como prioridade financeira máxima), pensei “por que não ir ao Brasil em janeiro, como prometi?”.

Expus a idéia pra noiva. Ao invés de pular de felicidade, ela se entristeceu.

Há algum tempo, minha patroa perdeu o emprego. A tal da crise parece ter finalmente chegado ao Canadá, porque a mulher demorou quase um mês pra achar outra função. Quando ela finalmente descolou posição de gerente de uma grife chique do shopping próximo, a grana dela já tava pelas últimas, e algumas outras despesas tomavam precedência.

E por isso, não daria pra ela me acompanhar dessa vez.

Ela se empolgou por saber que eu poderia cumprir a promessa feita meses antes pra família, mas dava pra notar que ela estava triste por não poder ir comigo.

Fiz um cálculo mental rápido e pensei “foda-se”. Tirei uma grana da poupança e comprei as duas passagens. Esta é a minha terceira filosofia financeira, aliás – cuidar da sua grana tem prioridade alta, mas nunca se esqueça que a gente só vive uma vez.

Da última vez que viemos ao Brasil, as forças misteriosas do destino substituiram nossas passagens por passagens de primeira classe. Os mimos de um vôo internacional de primeira classe são algo que tornam a sua viagem infinitamente mais prazerosa – e curta. Graças ao assento automático que vira uma cama, consegui dormir por 10 das 15 horas de vôo.

Não será o caso desta vez. Como todo bom plebeu, teremos que esperar os ricos embarcarem primeiro, e então seguir às nossas cadeiras microscópicas. A comida não é das melhores, as atendentes te tratam com muito menos sorrisos ou interesse, e as instalações sanitárias são consideravelmente menores e menos elegantes. A sua comida não é escolhida de um menu francês chique, e não há uma bolsinha com desodorante/pasta de dente/toalhinhas higiênicas/outras necessidades embaixo do seu assento.

Tentar dormir num assento econômico de vôo internacional de quinze horas é quase enlouquecedor – aquele momento em que você tira os sapatos é o último conforto que você terá em toda a viagem.

Pra começar, a poltrona só reclina metade de um grau. Humanos são experts em adaptação, mas dormir sentado é algo que nem os melhores entre nós conseguem fazer de forma satisfatória.

Aí começa a dança – na fútil tentativa de atingir uma posição mais agradável, você dobra os joelhos e põe os pés na cadeira, próximos ao peito. Achando por um segundo que essa postura é melhor que a anterior, você suspira, se vira pro lado direito, e fecha os olhos (ao mesmo tempo que tenta distribuir aquele cobertor de 20cm quadrados de forma que todo o seu corpo esteja protegido do frio).

O alívio dura aproximadamente seis segundos. Já com raiva, você tenta virar pro outro lado, como se essa simples manobra fizesse o assento aumentar 10cm magicamente.

Repita o procedimento umas 8 mil vezes e você terá uma idéia do que é viajar internacionalmente na classe econômica.

Foda-se. Ao menos verei minha família novamente.

* Meta o seu elitismo musical bem no meio do olho do seu cu. Forró faz parte da nossa identidade cultural, quer você more no Acre ou no Rio Grande do Sul. Não vou levar a mulher ao Brasil apenas pra leva-la em boates de playboy pra ficar ouvindo Chris Brown, Akon, Lady GaGa e outras coisas que ela já ouve por aqui.

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Categorias: Vida maldita

65 Comentários \o/

  1. Platos disse:

    Se o Kid vem para o Brasil sem a noiva, mesmo que por questoes financeiras, eu o chamaria de filisteu cafajeste escroto. Por mais que ela falasse nao ligar, ela ia ficar malzona. Afinal, 1800$ eh uma boa grana, mas sera que vale mais do que 6 anos de namoro/noivado/juntar os trapos?

  2. Higor disse:

    Belas dicas orçamentárias.

    Bom post!

  3. Cynthia disse:

    Encarei 10 horas de classe econômica pra chegar à Itália sem dormir, só com uns cochilos terríveis. No avião que eu vim ficava passando nos monitores a evolução do percurso em tempo real e outras informações (como tempo restante, distância, altura, velocidade). Eu só ficava olhando desesperadamente aquele aviãozinho que parecia não sair nunca de cima do lado de lá do Atlântico :P

  4. camilo disse:

    to loco pra ler o post prometido sobre como vc lida com tua grana ( tenho mto que aprender ) apresar de jah lidar bem melhor com o dinheiro doque a uns tempo atras :D

    a proposito pra ver a familia vale qualquer ( ou quase) sacrifício classe economica de avião ateh 10 horas de viagem de busão ¬¬’ que farei essi fim de ano pra ver a parentada no paraná

  5. i4nd disse:

    3 DIAS agora sim vc deve ta ancioso