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Altas expectativas e decepção

Postado em 6 julho 2008 Escrito por Izzy Nobre 102 Comentários

O fenômeno é antigo, mas eu só fui entender recentemente.

Se você participa de alguma comunidade virtual (fóruns, listas de discussão, canal de IRC, bate papo da UOL, seja lá o que diabo for), você já deve ter presenciado o ódio nerd resultante de más adaptações cinemáticas de quadrinhos.

Aliás, nem precisa ser necessariamente uma adaptação ruim – basta uma decisão duvidosa na escolha do elenco, ou omissões/adições injustificadas no canon do universo das histórias, e pode ter certeza que milhares de nerds ao redor do mundo estarão choramingando e prometendo que jamais passarão perto de um cinema que esteja exibindo o filme (o que é sempre uma mentira, já que os pobres geeks não conseguem resistir àquele anseio enrustido de ver seus personagens favoritos em carne, osso e spandex).

Tamanha choradeira por causa de um filme é um fenômeno à primeira vista patético, e que leva você a indagar quando teria sido a última vez que um participantes desse tipo de gritaria internética teve a esperança de um dia perder sua virgindade. Sob análise mais cuidadosa, esse tipo de comportamento se torna mais que compreensível. É a única reação que alguém poderia exibir quando vê uma história/personagens que ele tanto gostava sendo destroçada pelo bem maior – o enriquecimento dos responsáveis pela produção.

Nos últimos meses me tornei um nerd de quadrinhos. Como já comentei antes, era um “sonho” que eu acalentava há anos, e em outubro passado resolvi deixar de ler sobre os heróis apenas na Wikipédia e passei a investir em quadrinhos.

Como todo colecionador bicha, não perco a oportunidade de orgulhosamente exibir minha coletânea, e aí está:

Foto grandona aqui, caso você queira saber que revistinhas eu tenho especificamente.

Então. Quando alguém se torna fã de uma determinada história ou personagem, é muito difícil não experimentar um sentimento de “propriedade” sobre a obra. Esse é o SEU personagem favorito, aquele cujas aventuras você acompanha todo mês, e ai daquele que pegar o material e cagar em cima dele em troca de uma bilheteria de algumas dezenas de milhões de dólares no primeiro fim de semana.

Assistir Iron Man foi diferente de assistir qualquer outro filme. Por ser meu super herói favorito, eu sou inevitavelmente mais crítico em relação à adaptação, e me “relaciono” com a história num nível mais pessoal. É difícil explicar, você teria que ser fã de alguma coisa pra entender o laço emocional.

Esse é o problema – quando nos tornamos fãs de um certo material, a expectativa pra qualquer produção derivante dele se torna muito alta. Mesmo que a continuação seja boa, você não estará satisfeito, porque estava esperando mais. E como quase sempre as continuações carecem da qualidade do original…

Como mencionei há pouco tempo, eu li recentemente Rendezvous With Rama, e me apaixonei completamente pelo livro. Desde que eu era pivetinho lendo Monteiro Lobato não me enfiava com tanta força em um universo literário fictício. Temos outros fãs do livro por aqui, além do Cardoso?

Olha Rama aí. Pra quem não entendeu a imagem, é o seguinte – isso aí é essencialmente uma superfície planetária envolta (ou seria “envolvida”?) nas paredes internas de um cilindro. A faixa azul no centro é um mar, que eles chamam de Mar Cilíndrico. Os aglomerados cinzas são “cidades” (ao menos, é isso que os astronautas acreditam que eles são). O negócio tem um diâmetro de 20km, ou seja, o “teto” – que na verdade é um chão também – fica beeeeem alto no céu. Se é que você pode usar a palavra “céu” dentro do cilindro.

O cenário é muitíssimo intrigante, e há bastante explicações científicas dando embasamento à história, tornando o livro essencialmente obrigatório pra gente que curte uma boa ficção científica, como eu e o Speed Racer. O desenvolvimento dos personagens é consideravelmente superficial, mas você não consegue dar importância a isso porque Rendezvous With Rama não é sobre os astronautas – é sobre o cilindro.

E o livro termina com uma frase misteriosa que é essencialmente um soco de direita bem no seu estômago, te deixando completamente tarado pela inevitável continuação da obra.

E aí entra Gentry Lee, o “co-autor” das três continuações de Rendezvous. O termo “co-autor” está entre aspas porque qualquer pessoa que tenha lido alguma coisa do Clarke nota logo de cara que o estilo das continuações é completamente diferente. Enquanto Clarke é bastante conciso e aborda nada além dos dados científicos que tornam suas obras tão interessantes pra nós nerds, Gentry é verborrágico ao ponto do tédio, e seus livros parecem mais focado nos dilemas pessoais dos personagens do que na ficção científica que dá nome ao gênero do livro.

Eu não tenho a quem culpar. Praticamente todas as resenhas dos outros livros deixaram bastante claro que elas não fazem jus ao livro original, mas isso me impediu de comprar todos os outros livros no mesmo dia que terminei Rendezvous?

Comprei de qualquer forma, na esperança de que algum resquício da magia do original teria sido retida, e que por mais sofrível que a história fosse, uma revisitagem a Rama deveria fazer valer a leitura.

Amiguinhos… nem sem como expressar minha decepção. Pra você ter uma noção da enrolação do negócio, no primeiro livro os cientistas aterrissam em Rama na página 14.

Em Rama II, isso não acontece até a página 108.

E o que é pior, TODO o conteúdo anterior foi preenchido com dilemas pessoais absolutamente retardados enfrentados pelos astronautas ainda na Terra, me fazendo perguntar o que diabo Lee estava pensando quando decidiu que um leitor de ficção científica dá a mínima pro caso extra-conjugal de um dos exploradores espaciais.

Se aquelas cento e cacetada páginas extras trouxessem alguma coisa relevante à idéia da expansão espacial humana (que o primeiro livro detalha com maestria e concisão), ou revelasse o que aconteceu com os cientistas do primeiro livro, eu não estaria reclamando. Acontece que o foco do segundo livro é exclusivamente os insossos personagens, e foi com isso que o autor ocupou todas os capítulos (pelo menos até onde li).

Enquanto o primeiro livro abordava diretamente o cenário do planeta Terra e a sociedade humana no século XXII, e a exploração do cillindro logo após disso, Rama II se ocupa com os dramalhões românticos entre os astronautas. Por mais de CEM páginas. E olha que tou no comecinho do livro ainda.

Eu tava hoje no trabalho lendo o troço sem acreditar nos meus olhos. Naquelas cento e tantas páginas, não parecia que eu estava lendo um livro de ficção científica. Parecia que eu tava lendo um daqueles romances baratos que se encontram em livrarias de aeroporto. Foi, sem nenhum exagero, revoltante.

Pergunto novamente – por que esse infeliz achou que o público do primeiro livro gostaria de ser entretido com longas ladainhas a respeito dos problemas pessoais dos astronautas? Teria Gentry Lee levado as críticas sobre personagens superficiais muito a sério, e acabou errando pro lado do extremismo? Como já foi falado, apesar das continuações trazerem o nome do Arthur C. Clarke, ele teve pouquíssima influência no livro. Um título mais honesto teria sido “Escrito por Gentry Lee, baseado no universo criado por ACC”.

E agora PRECISO continuar lendo, porque já comprei os três livros e preciso ao menos chegar ao final e ver o que acontece. Mas algo me diz que eu vou apenas me decepcionar ainda mais.

Bom, ao menos o filme baseado no primeiro vai chegar em 2009, e com alguma sorte ajudará a tirar o gosto ruim dos outros livros. Só espero que não façam o que a Sierra fez em 1996 com Rama The Game – ou seja, mesclem a história do primeiro livro com o segundo.

Eu devia ter feito o que tantas resenhas no Amazon recomendaram – leia Rendezvous With Rama, finja que não houve continuações, e depois leia-o de novo.

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Categorias: Vida maldita

102 Comentários \o/

  1. PF disse:

    Comprei.

    Agora é arrumar tempo pra ler.