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CARALHO COMPREI UM CARRO

Postado em 5 outubro 2010 Escrito por Izzy Nobre 145 Comentários

Pra galera que assiste muito filme americano e presta atenção nos preços citados pros carros vendidos aqui (ou pro fato de que qualquer pivete de idade colegial nos EUA/Canadá tem seu próprio carro), era inexplicável a minha rejeição a ter meu próprio veículo automotor.

O motivo é simples: eu nunca quis ter um carro. Nem quando morava no Brasil. Não fui um daqueles moleques que aprendeu a dirigir quando tinha 17 anos e que pedia as chaves do carro do pai todo fim de semana. Além disso, há também outros dois fatores bem importantes.

Primeiro é o local onde eu morava. Deixarei o Google Maps explicar por mim:

oldhouse
Powered by MS Paint

O ponto vermelho representa minha casa antiga. O ponto azul é a estação Dalhousie, onde param os trens e ônibus. A linha amarela representa uma caminhada de, se eu estiver com muita preguiça, mais ou menos cinco minutos.

Morar tão perto da estação de trem foi uma grande vantagem por muitos anos. O transporte público aqui é bastante confiável, especialmente quando você tem várias opções de linhas diferentes pra chegar ao seu destino.

Além disso, o Maps do iPhone se integra com o sistema de transporte público de Calgary. Uso o GPS pra marcar o ponto onde estou, na segunda linha coloco o endereço onde quero chegar. O celular traça várias trajetórias levando em consideração o tempo exato em que o ônibus/trem chegará ou sairá de onde você está. Olha que bacana:

iphone

(Não estou esnobando ou sugerindo que isso não existe de forma alguma no Brasil, tou só explicando pra quem talvez nunca tenha visto coisa parecida, ou não tenha smartphones que desempenhem funções similares)

Tá vendo lá aqueles popups com um desenho de um ônibus? Aquilo ali indica onde tu troca de coletivo. “Departs at 8:57am” é pra tu saber quando o ônibus sairá daquela parada.

E falando nas paradas de ônibus, há um número e um código pra cada parada. Tu disca pra lá, pôe o código de 4 dígitos, e um sistema automatizado te informa o minuto exato que o próximo ônibus passará – e o ônibus depois deste, e o depois deste.

Em suma, dá pra se movimentar de forma bastante eficiente aqui sem ter carro. A proximidade da estação só tornava isso ainda mais simples. Bastava comprar um passe mensal (uma fração do que eu gastaria com manutenção/gasolina/seguro/possíveis multas) e pronto.

O outro motivo é o fato de que os gastos adquiridos com o carro me impediriam de manter o nível de gerenciamento financeiro que eu me acostumei nos últimos anos.

É o seguinte: tenho um hábito de dedicar uma porção do meu salário à poupança todo mês. Eu nem faço nada, a grana sai automaticamente da conta corrente e entra na poupança a cada quinzena.

A intenção não é lucrar com os juros (todo mundo pensa isso e sugere que eu invista em algo com mais rendimento), e sim pela indispensável educação financeira de 1) saber viver com MENOS do que você ganha, e 2) ter um  pé-de-meia pra “dias chuvosos” como dizem os ianques. O motivo pelo qual eu tenho uma vida confortável apesar de ter um emprego low end é porque que sei gerenciar meus trocadinhos. Não me falta nada, tenho tudo aquilo que quero, jamais atraso minhas contas.

(Claro, morar num país como o Canadá torna isso um pouco mais fácil, mas educação financeira se aplica a qualquer realidade. Enjoy se endividar loucamente sem necessidade)

Então. Fiz os cálculos há muito tempo e descobri que um carro significaria que meu depósito na poupança seria cortado pela METADE. É uma diferença drástica, especialmente considerando que eu não tinha real necessidade de ter um carro. Lembrem-se como falei no começo: nunca “sonhei” em ter carro. Eu sempre fui totalmente indiferente.

A situação ficou diferente quando me mudei pra este novo apartamento. A localização é ótima (bairro bom e seguro, bem perto dos meus amigos, do shopping, do cinema, supermercado, etc) e não fica tão longe da estação, mas o fato de que agora preciso pegar um ônibus pra chegar lá (esperando do lado de fora, num país em que faz -30/-40 no inverno) me fez repensar as coisas.

Eu e a mulher começamos a procurar carros. Como não sou aficcionado em carros e estou comprando por pura necessidade, não tinha preferência em relação a nada. Bastava ter um motor, rodas, e algum tipo de objeto sobre o qual eu possa me sentar.

Após vasculhar o Craigslist, eBay, jornal e etc, fomos ver alguns carros. E achamos um.

buick

Este não é o nosso carro – iremos pegar nesta quinta feira, dia 7 -, mas é o mesmo modelo e ano: um Buick Century 1997, com 160 mil km rodados. E antes de berrar que o carro é mais rodado que puta velha, lembre-se que 160 mil km nas estradas e rodovias norte americanas não é o mesmo que nas brasileiras.

O nosso é verde.

Esse carro tem:

  • Vidros e bancos elétricos (do tipo que esquenta sua bunda no inverno, e que você aperta um botão e ele vai pra frente, pra trás, pra cima e pra baixo);
  • Airbags frontais e laterais;
  • Direção hidráulica;
  • Câmbio automático;
  • Alarme;
  • CD player – parece bobagem mas TODOS os outros carros que vimos só tinham tocafitas…;
  • Cruise control (aka piloto automático);
  • Remote starter (outra feature importante no inverno. Você dá a partida remotamente enquanto se veste e isso liga o aquecedor interno. Sem isso, seria como dirigir uma geladeira);

Inspecionamos e dirigimos o carro. Tudo responde bem, nenhum ruído estranho, nenhum ponto de ferrugem. Os outros carros da mesma faixa de ano eram visivelmente menos bem cuidados, então a condição física desse Buick nos agradou logo de cara.

O preço? 1600 dólares canadenses. Pros curiosos, isso equivale a R$ 2726.

E aí entra a chilicagem.

Naturalmente, eu estava animado sobre a compra do carro, e comentei no tuíter como sempre faço. Não faltaram desafetos pra dizer que eu estava “pagando de rico” e “me gabando”… por comprar carro com treze anos de idade. Que pensamento mais vira-lata, puta que pariu!

É um carro velho, baratinho, que eu comprei apenas quando a necessidade se fez irredutível. E ainda assim, nego de alguma forma se sente inferiorizado e reage de forma agressiva. Como se eu tivesse comprado uma Ferrari e estivesse esfregando na cara deles.

Eu entendo que alguns sintam indignação ao saber que um reles funcionário de sex shop tem poder aquisitivo pra comprar, a vista, um carro com o que aparenta ser imenso conforto mas é apenas o padrão norte-americano, mas porra. Não exteriorizem isso, é muito ridículo ser chamado de “METIDO A RICO” porque comprei um carro que custa menos do que o seu iPhone aí.

E a cultura de carro aqui é diferente. É sabido que brasileiro é meio tarado por automóveis, por motivos que vocês talvez possam me esclarecer nos comentários. Não é bem a mesma coisa aqui.

Como vocês devem saber dos filmes e seriados, até pivetes de colegial têm seus carrinhos, comprados através de cortar grama, entregar pizza, ou qualquer outra bobagem do tipo. Às vezes os pais dão os carros velhos pros filhos, porque o lucro seria tão risível que nem compensa o trabalho de procurar comprador.

Ter um veículo não é lá um grande motivo de orgulho ou arrogância aqui (talvez entre adolescentes babacas e olhe lá). Assim como eu, compram-se carroS mais por necessidade do que por qualquer outra coisa.

E não há estigma em comprar carro usado, também, algo que eu atribuo ao estado de conservação das estradas daqui. Sei lá. Não sei porra nenhuma sobre carros.

Só sei que meus dias de pegar ônibus acabaram.

(Eu ia fazer alguma gracinha a respeito de que com a grana que eu comprei este carro, não dá nem pra comprar um FIAT Uno 1986 todo fodido aí no Brasil, mas do jeito que já chilicaram no twitter, vou deixar passar)

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Categorias: Vida maldita

145 Comentários \o/

  1. Victor disse:

    Eu gosto de carros porque acho legal pra caralho, estiloso. Cabeça de engenheiro, vai entender.

  2. @jahminho disse:

    cara não liga para o que os outros falam, sempre terá alguem para falar mal do seu sucesso. mas em fim, seu carro lembra muito as barcas da policia RESPECT +

  3. Camilo disse:

    por acressa que parivél o fiat uno 86 foi vendido …

    mas por favor quide, poste quando vc tiver que efetuar a primeira troca de pneu furado ou fica no meio da estrada por que uma correia ou whatever tiver quebrado, fico agradecido …

    enjoy your ipva …

  4. [...] Por que eu nunca tive? Porque custava quase 2 mil dólares. Nem meu carro custou 2 mil dólares. [...]