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Como se arrumar como um adulto

Postado em 16 January 2012 Escrito por Izzy Nobre 4 Comentários

“Vou começar a me vestir melhor”, eu disse do nada pra minha mulher sem nem tirar os olhos do iPhone. Apesar da minha súbita e quase espiritual epifania, a tarefa de comandar a trajetória de pássaros raivosos é um compromisso quase profissional. Às vezes nem pisco até que todos os suínos verdes sucubam embaixo dos escombros de seus arranha-céus de madeira.

Que péssima engenharia, aliás. Você imaginaria que depois daquele incidente com o Lobo Mau, a raça suína seria célebre no mundo animal como exímios construtores.

Sabe o que alguém que constrói uma casa de tábuas soltas de madeira tem mais que eu? Tem mais é que se foder

Onde eu estava mesmo? Ah sim, eu havia acabado de informar minha mulher — que encontrava-se do meu lado no sofá, assistindo uma das 80 séries atuais sobre vampiros — sobre minha decisão de vestir-me como um verdadeiro fidalgo. Minha amada balançou a cabeça distraidamente, emitindo aquele “humrum…” que faz parte do gesto universal de “nem ouvi o que você falou mas creio que concordar em silêncio fará você calar a boca”. Aparentemente os músculos abdominais do vampiro televisivo descamisado merecem mais atenção.

A minha epifania nem foi tão súbita assim. Estive pensando muito nisso ultimamente. Meu vestuário — e, por extensão, toda a atenção que dou à minha aparência — poderiam receber um upgrade.

Roupas não são apenas uma ferramenta para proteção contra os elementos da natureza ou para evitar que você seja banido do supermercado. O seu guarda-roupa é, também, uma forma de expressão. E como todo bom nerd, boa parte da minha indumentária reflete meu apreço por videogames e quadrinhos.

Dei uma olhada rápida no meu armário neste exato instante. Isto é o que estou vendo:

Nessa olhada de relance, identifiquei umas 8 camisetas com estampa de videogame ou revista em quadrinho. As camisetas são bacanas e tal, e feitas sob medida pra eventos nerds (você deve ter notado que em literalmente TODAS as fotos do Desencontro eu estou usando uma camiseta com estampa nerd), mas seria interessante ter um acervo comparável de roupas de “gente grande”.

O inverno está finalmente chegando em Calgary, e outro dia tive que tirar meu peacoat do fundo do armário. Peacoat, pra você que não sabe, é um sobretudo elegantíssimo que o frio ártico nos permite usar sem parecer um paga pau do caralho.

Sério meu amigo, 20 graus e tu sai todo agasalhado, de luva, cachecol, gorro e tudo? Vá tomar nesse seu fiofó sensível, pelo amor de deus. Sempre que eu vejo fotos de paulistas mais embrulhados que astronauta com aqueles termômetros rua atrás marcando 22 graus, sinto que metade da minha flora intestinal morreu de desgosto. Cadê a garra, cadê o espírito MacGyverzístico puramente tupiniquim, cadê aquele suíngue “sou brasileiro, aguento o que vier pela frente”?

Enfim. Outro dia fez frio, pus o peacoat e tirei uma foto para mostrar pra galera do tuinter.

Tirando a camada adiposa (acumulada ao longo de muitos anos de total desleixo com minhas artérias e com o fato de que provavelmente enviuvarei minha mulher bastante cedo), eu até fiquei bastante apresentável. “Apresentável”, permita-me ser o primeiro a apontar, é apenas um termo bondoso dedicado para feios arrumados. Mas vale o esforço.

Comecei aos poucos a pegar o gosto por me arrumar. Não é nem que eu vá largar mão das minhas camisetas nerds; o negócio é que pra algumas ocasiões mais formais (festas de fim de ano, por exemplo) você pintar no ambiente com uma camiseta comemorando nostalgia pelo Mario é virtualmente indistinguível de usar como camisa um saco de batatas com buracos para os braços.

E assim meu guarda-roupa começou a ficar mais respeitável. Dispensei minhas roupas compradas no Walmart (pra vocês que não manjam, trajar roupas compradas no Walmart e rouba-las de um mendigo morto é virtualmente a mesma coisa pros padrões de moda norte-americanos) e passei a acumular, pouco a pouco, panos mais finos.

Minha mulher, que já tinha se resignado a ter um marido com a noção de moda e estilo de um manifestante sem-terra, aprovou imensamente esta mudança de mentalidade. Gastadeira como ela só, a mulher me arrastou pras lojas chiques cujo catálogo ela aprova.

Essa tal de Guess, por exemplo. Ouço falar dos fabulosos jeans da Guess desde que morava no Brasil, numa época em que eu não podia pagar nem um botão de uma calça deles.

Entramos lá e a minha mulher vai logo correndo ver os microvestidos que adornam as paredes da loja. Eu adoro esses tais microvestidos aliás, se dependesse de mim minha mulher só usaria isso.

O atendente exageradamente baitola da loja me entregou lá um par de calças de um estilo que ele jura que é a última moda italiana. Mando aquele mesmo “humrum” distraído que descrevi no começo do texto. Vou ao provador, experimento as calças, e aprovo o visual.

Uma olhada de soslaio para a etiqueta de preço revela três dígitos que me assustam. A parte do meu cérebro que lida com cálculos matemáticos inúteis faz o câmbio rápido — uma calça da Guess equivale à cifra de 5 calças de procedência walmártica.

Chacoalho a cabeça rapidamente para espantar os pensamentos de pobrice (ambos de espírito quando de carteira mesmo). Eu preciso ter AO MENOS um conjunto de roupas respeitáveis/invejáveis. Passou-se o tempo de que eu não tinha nem duas moedas pra esfregar e fazer faísca né? Se é pra gastar dinheiro de alguma forma, que gaste melhorando minha aparência.

Mas roupas não são tudo; decidi mudar minha rotina de corte de cabelo também. Dispensei o barbeiro confiável que apara minha sebosa cabeleira em prol de um desses salões chiques em que as cabelereiras são tudo gostosas e fazem você sentir vergonha porque andou sendo relapso com o shampoo anticaspa. Aliás, é engraçado isso — sei que não vou comer essa menina e ainda assim preferia que ela não soubesse que minha cabeça tá cheia de floquinhos.

E falta a barba, também. Como todo preguiçoso, eu não tenho uma rotina pra fazer a barba — quando os protestos da minha mulher começam a ficar muito frequentes, sei que é hora de passar a lâmina. Comecei a me barbear todo dia, e até arrisquei arrancar a barba na pinça como eu imagino que vikings deviam fazer. A pele fica lisinha e o pelo demora semanas pra aparecer de novo.

Mas mano, dói viu? Puta que pariu. Aquele trecho entre o lábio superior e o nariz é particularmente problemático. Você puxa o pelo pra fora e ele sai arrancando lágrimas dos seus olhos.

Mas é isso aí. Agora com meu novo guarda-roupa — que não foi comprado no mesmo lugar onde se compra desentupidor de privadas e testes de gravidez –, um corte de cabelo cujo custo poderia alimentar quatro famílias somalianas e uma barba milimetricamente jardinada, posso me passar por um adulto bem ajustado que não coleciona bonequinhos de super heróis.

Deixem aí nos comentários suas dícas de garbosidade e fidalguia.

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Categorias: Vida maldita

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

4 Comentários \o/

  1. Alipio Calzolari says:

    Uma vez na vida um homem gasta uma grana pra impressionar alguém. Uma mulher, um chefe novo até mesmo a mãe dele. Experimente entrar numa loja Armani não falo da Emporio, que na realidade é a linha “popular” deles (se é que se pode considerar 4mil num terno popular para os padrões brasileiros). Manolo, quando vi os zeros no preço daquele terno eu soube que passaria à miojo com refri por pelo menos uns 3 meses.

  2. Guilherme Randley says:

    Muito bom Izzy, eu também sou meio desleixado quando o assunto é me vestir, eu n via isso como problema! até perceber que minha camisa do Zelda passou a atrapalhar o espaço das minhas gravatas! #SadbutTrue.

    P.S: Eu nunca consigo ver as imagens dos seus posts, sabe o que pode ser?

  3. Doze says:

    Também não consigo ver a imagem dos textos. Tem que ver isso aí.

  4. sa says:

    no lugar da foto:

    Internal Server Error
    The server encountered an internal error or misconfiguration and was unable to complete your request.

    Please contact the server administrator, webmaster@img.hbdia.com and inform them of the time the error occurred, and anything you might have done that may have caused the error.

    More information about this error may be available in the server error log.

    Additionally, a 500 Internal Server Error error was encountered while trying to use an ErrorDocument to handle the request.

    ——————————————————————————--

    Apache Server at img.hbdia.com Port 80