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Criança No More

Postado em 20 abril 2008 Escrito por Izzy Nobre 104 Comentários

Apesar da data mais antiga que você vê nos históricos do HBD, este blog é mais velho que isso. Não este que você vê agora, obviamente. Mas a “marca” Hoje é um Bom Dia existia muito antes – desde janeiro 2002, pra ser mais específico.

Naquela época, eu havia acabado de completar o ensino médio, e estava agonizando o resultado do meu primeiro vestibular. Sempre fui o palhaço da turma, e tais obrigações ocupavam muito meu tempo, de forma que eu não era exatamente um aluno exemplar. Estudar pra mim não era relegado nem mesmo pras vésperas de prova; eu fazia todas elas numa filosofia de “ou eu nasci sabendo isso aqui, ou eu não sei. Se for o caso, não me darei ao trabalho de aprender”. Inacreditavelmente, eu me graduei não apenas do ensino médio, mas também passei no meu primeiro vestibular de uma faculdade federal.

Entretanto, aqueles dois meses de espera entre o vestibular e o resultado foram os mais atípicos da minha vida. Pela primeira vez desde que eu tinha uns 4 anos de idade, eu estava completamente livre da obrigação de frequentar a escola. Isso era extremamente estranho, porque depois de tantos anos indo à escola você não sabe mais como é estar em casa durante a manhã. Pior ainda, durante todas as manhãs seguintes. Nos primeiros três dias é aquela sensação gostosa de recém férias, após a segunda semana você não consegue evitar aquele pensamento de “…e o que diabos farei da minha vida agora?”

Foi a primeira vez em que a realidade bateu à porta. Você não será uma criança pra sempre.

Foi mais ou menos nesse período que internet banda larga começou a se popularizar. Meu pai, sendo o nerd que sempre foi, acabou sendo um dos primeiros a fazer questão de aderir à novidade. E assim de repente o que começou a parecer desesperador – o tempo de sobra proporcionado pelo fim dos estudos secundários – se tornou uma constante na minha vida desde então: jogar tempo fora acessando a internet.

Pouco tempo depois, eu conheci os blogs. Eu sempre gostei de expressar humor escrito (minhas professoras de redação frequentemente não apreciavam a minha veia comediante), e idéia de jogar toda aquelas bobagens que permeavam minha cabeça na internet pra todo mundo ver pareceu sensacionalmente incrível. E surgiu a idéia de criar o meu próprio espacinho virtual.

Ao contrário do que existe hoje (negada escrevendo blogs “corporativos”, sérios, ou galera entrando nesse mundo à caça de dinheiro), naquela época os blogs eram extremamente pessoais. Os “adultos” não haviam ainda explorado esse mundo, e todo blogueiro naquela época era um adolescente como eu, e faziam de seus blogs uma experiência extremamente pessoal. Listavam suas banads favoritas, seus hobbies, essas coisas. Blogs não eram apenas uma forma de liberar sua criatividade, era uma maneira de carimbar uma faceta da sua personalidade num cantinho virtual. Este aqui sou EU, este aqui é meu BLOG.

Eu precisava de algo que me definisse tão bem quanto definiam aqueles caras. A primeira coisa seria o saudosismo. Parece engraçado, mas seis anos atrás eu já começava a sentir que minha infância ia me abandonando, e que as coisas que eu adorava quando era moleque fariam muita, mas MUITA falta. Comparando com o Israel Nobre de seis anos atrás, hoje em dia eu sou (infelizmente) definitivamente adulto.

Por causa disso é que vieram tantos posts sobre videogames, os layouts baseados em Super Mario, contos da minha infância perdida, e tudo mais que define o HBD.

E com isso tudo, veio o clima de culto à ociosidade. Blogs na época já eram encarados como passatempo de desocupado, no meu caso isso era ainda mais verdade. Daí surgiu o slogan do HBD, que veio dois segundos após a minha própria decisão de escrever um blog (“Por que não? Afinal de contas, o resultado do vestibular não sai nunca e eu não estou fazendo nada mesmo…”). Eu pensei que deveriam haver muitos que estavam em situações como a minha, muita gente que se identificaria com meus relatos de um ex-estudante secundarista fazendo porra nenhuma da vida enquanto esperava o resultado do vestibular.

A vagabundagem sempre me definiu, e por extensão definiu o HBD. Sempre fui um vagabundo na escola. Fui um vagabundo em ambas faculdades (UFMA e CEFET-MA). Fui um vagabundo nos meus primeiros empregos, fui um vagabundo dentro de casa não ajudando em coisa alguma. Fui um vagabundo eu meus namoros passados, não levando a coisa com muita seriedade e nem me esforçando muito pelas namoradas da época.

Evidentemente, os tempos mudaram.

Agora, eu dependo do meu trabalho pra me sustentar. Naturalmente, sou obrigado a levar a coisa com mais seriedade. Com 19 anos, perder meu emprego significava que eu não poderia comprar Grand Theft Auto San Andreas no dia que foi lançado.  Hoje, perder o emprego significa que eu não terei eletricidade na casa pra jogar Grand Theft Auto San Andreas.

Não moro mais com meus pais e se eu ousar relaxar nos afazeres domésticos, não apenas levo uma bronca da namorada – que é muito pior que de mãe ou pai, já que punição administrada por parte da namorada vai te resultar na perda de um privilégio MUITO mais importante, comparado ao qual nenhum castigo paterno parece severo -, mas também tenho que me contentar com o fato de que a pilha de louça ou roupa suja não se lavará sozinha.

E falando na namorada, que na verdade é uma de facto  esposa (já que moramos juntos, pagamos impostos juntos, compramos badulaques pra casa juntos, e tudo mais), desleixo nas minhas obrigações como namorado/marido é encarado com muito menos leveza.

E parece que agora deixo pra trás o último resquício daquela vagabundagem alegre, vagabundagem de várzea que uma vez me definiu como pessoa. Após algumas semanas matutando comigo mesmo, decidi arrumar um segundo emprego, part time (4 horas por dia). Como a viagem pro Brasil se aproxima perigosamente e eu ainda tenho planos de ir à faculdade E comprar um carro poucos meses em seguida (isso pra não mencionar os milhares de dólares que pus no meu cartão mobiliando meu apê), a necessidade de uma segunda fonte de renda se faz evidente.

Preenchi o formulário online de empregos na Best Buy, que pra quem não sabe é a maior loja de eletrônicos da América do Norte. A loja fica perto da minha casa, e eu sempre desejei ter alguma experiência profissional com gadgets.

Isso foi há dois dias; hoje recebo uma ligação da gerente da loja que fica aqui perto de casa. A mulé leu meu currículo, gostou muito das observações adicionais que inclui sobre mim (gosto tanto de gadgets como gosto de explica-los pra leigos, tenho experiência com serviço ao consumidor, etc) que me convidou pra uma entrevista sexta feira. Lembra quando eu falei uma vez que entrevistas de emprego no Canadá não servem o mesmo propósito que no Brasil, que é sondar os candidatos pra achar o mais indicado pra vaga? Aqui (ao menos baseado em minha própria experiência), entrevistas são apenas uma formalidade, é basicamente o empregador dizendo que quer conhecer o sujeito que ele já decidiu contratar ao ler o currículo. Tanto é que ela me pediu pra trazer as informações de depósito da minha conta bancária, o que geralmente se pede pra que a empresa possa te pagar.

Eu sei, tou “contando com os ovos no cu da galinha” como dizia meu avô, mas ao que tudo indica estou não-oficialmente contratado.

E agora passarei a ter bem menos tempo pra mim mesmo. Falei pra ela por telefone que não estou disponível nas quintas e sextas, que coincidem com minhas folgas lá no tribunal, pra que eu possa curtir um descanso merecido com a minha mulher. Ou seja, ao menos isso. Os dias de semana por outro lado serão uma correria desgraçada.

E nem se preocupem que eu não vou abandonar isso aqui não. O ipod touch tá se revelando um editor de texto fantastiquíssimo, e como lá no tribunal tenho tempo de sobra, os textos vão continuar rolando naturalmente. 

Acho que a mensagem geral aqui é que o Kid de antes - o alegre vagabundo nerd que esperava pela chegada da vida adulta e, através de brinquedos, gadgets e revistinhas em quadrinhos tentava retardar esse processo o máximo possível – deu vez pro Kid adulto de vez. Eu sabia que um dia a distinção entre minha vida atual e minha vida de outrora seria clara demais pra negar, e que minha infância estaria finalmente perdida. Com dois empregos, morando por conta própria, e “casado”, eu estaria enganando apenas a mim mesmo se continuasse insistindo pra todo mundo que AINDA não sou um adulto.

Virei “gente grande”. O mesmo tipo de gente grande pra quem eu olhava com desdém.

“Gente grande que não tem senso de humor”

Gente grande e orgulhosa, incapaz de rir de si mesmo”

“Gente grande que vive inventando desculpas pra se lamentar dos objetivos não-alcançados”

“Gente grande que esqueceu como era viver sem preocupações, e aproveitar cada momento apenas pelo momento que é. Aproveitar cada passeio e cada sorvete e cada joguinho eletrônico pelo prazer que ele te dá no momento, e não pela diferença que seu preço fará na sua conta bancária”.

Eu sou gente grande agora. Minhas camisetas com personagens da Nintendo, meus incontáveis videogames, meus bonequinhos de Star Wars e minhas revistinhas em quadrinhos fizeram o que puderam pra atrasar o inevitável.

E a admissão final da minha derrota contra o tempo me dá uma tristezinha lá no fundo da alma, como se eu tivesse desistido de alguma coisa que havia jurado pra mim mesmo que jamais abriria mão. 

Mas algo me diz que eu estarei caducando, andando com bengala e carregando netinhos no colo antes que abra mão da minha criança interior.

Serei sempre “aquele” Kid. E sempre terei essas pequenas coisinhas ao redor do meu computador pra me lembrar disso.

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Categorias: Vida maldita

104 Comentários \o/

  1. bazooka disse:

    krai,tú me deixou deprimido…estou cursando o segundo semestre do ultimo ano do ensino médio e estava pensando exatamente como seria minha vida depois do “ritual de passagem”,ainda nem acabou e assim como vc estou sentindo falta dos tempos de livre vagabundagem

  2. Blyter disse:

    eu vim do futuro para lhe dizer: vc sobreviveu :D

  3. Antonio Dias disse:

    Me identifiquei muito com seu texto. Eu tenho muito medo de crescer e ser um adulto chato, não ter muito tempo para viver e me dedicar às besteiras que eu me dedico agora. Às vezes eu fico pensando que escolhi a vida de pós-graduando para não ter que trabalhar 8 horas por dia e ter a noite como único período do dia em que tenho livre para dedicar a mim e às coisas que gosto.

    Mas um dia a gente tem que crescer…

  4. Pedro Mota disse:

    É triste mas é a realidade.

    Eu to fazendo ciência da computação na UFPE e te digo que é um curso difícil pacas.
    Já não jogo mais nenhum jogo online só um pouco de DragonAge II , visito seu blog só no fds.
    Sinto saudades dos velhos tempos.
    Agora é tudo tão , como posso dizer…cinza acho que a transição pra vida adulta um dos momentos mais depressivos de todos,você sente que não vai ser mais feliz.
    Mas passa.Hoje em dia eu diria que é mais difícil a transição por conta da quantidades de coisas que podem fazer parte da infância e adolescência,coisa que na época dos nossos pais se resumia a muito pouco.

    Quando terminar esse curso vou ver se me mudo pra Montreal.
    Viver por lá já que não tem nada que me prenda ao Brasil a não ser minha família.