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Day of Reckoning

Postado em 13 agosto 2008 Escrito por Izzy Nobre 109 Comentários


Esta é uma Kawasaki Ninja ZX-12R, uma motocicleta de fabricação japonesa que se tornou popular em competições por causa da sua performance e design icônico. O veículo tem seis marchas, velocidade máxima de 240 quilômetros por hora, e vai de 0 a 100km/h em menos de 5 segundos.

Andar de motos em geral é essencialmente subir num motor com rodas e tentar o máximo desviar dos veículos mais seguros com os quais você tem que dividir a estrada, todo mundo sabe disso. Acontece que nenhuma se compara com Kawasaki Ninja – somente com ela você poderá arrebentar-se inteiro embaixo de um caminhão de cimento com a característica eficiência japonesa.

Isso pra não falar no estilo. Pode ter certeza que os bombeiros que rasparão seu cadáver do asfalto com uma pá te considerarão o presunto mais bacana cujos restos mortais eles limparam de uma via pública naquele dia.

Isso era o que eu conseguia pensar enquanto o Trevor costurava feito um maluco pelo trânsito caótico da Crowchild, a rodovia expressa mais movimentada da cidade.


Este é o Trevor. Como todas as pessoas extremamente inteligentes que conheci na vida, antipatizei com o cara IMEDIATAMENTE, pra logo em seguida nos tornar melhores amigos. Não deixe a pose de nightclub douchebag enganar você, o maluco tá cursando um bacharelado de Microbiologia na University of Calgary.

Além de muitas coisas, Trevor é meio… louco. O gene de auto-preservação que a maioria de nós têm não se desenvolveu no moleque. Talvez seja por isso que ele é um paraquedista E bungie-jumpista. Aliás, queria fotos dos saltos dele pra ilustrar melhor a maluquice do cara, mas são fotos “de verdade” e eu não tenho saco pra ir à casa do cara pra escanea-las.

Então.

Na noite anterior descobrimos que a esposa do meu parceiro da sala de controle tinha dado luz ao filho deles, e por isso o sujeito estaria ausente do trabalho por alguns dias. A chefia apontou o Trevor pra cobrir a vaga, o que é bacana porque agora eu teria um parceiro pra jogar emuladores de SNES o dia todo – além de uma carona pro trabalho na manhã seguinte.

Normalmente o horário de trabalho dele começa uma hora após o meu. Trabalhando no mesmo horário, ele poderia me dar uma carona pro trampo.

Na noite anterior ele veio na minha casa. Passei vários jogos com capacidades multiplayer pro PSP dele, e combinamos a ida pro trabalho na manhã seguinte.

Entre outras coisas, Trevor é rico. O pai dele é engenheiro, e a mãe é microbiologista. O moleque não apenas tem uma Kawasaki Ninja, ele dirige uma BMW (comprada por ele mesmo). Acontece que a BMW tá na oficina – ele bateu o carro durante uma porra-louquice qualquer, o que deveria ter sido um sinal pra mim -, e por isso teríamos que ir na moto.

À primeira instância não me preocupei tanto com as implicações do plano. Isso iria mudar em breve.

Na manhã seguinte lá tava o maluco, sentado no meu sofá e zapeando pela televisão. Eu estava ainda sonolento, vestindo meu terno mas ainda com as calças do pijama, preparando um lanche rápido na cozinha. Termino minha rápida refeição matinal e volto pro quarto pra completar o figurino enquanto o maluco acompanha uma reprise de Colbert Report.

“Não demore, seu viado” falou ele. “Foda-se, sua bicha” veio como resposta do meu quarto.

A namorada acorda com essa agradável troca de gentilezas e pergunta se é o Trevor que tá lá fora. Eu confirmo, no que ela se vira em direção à porta e berra “Hey, Trevor!”. Meio que me senti naqueles filmes ou seriados americanos que mostram um sujeito chegando na casa do outro com total familiaridade e interagindo com a família como se fizesse parte dela, algo que eu não vi com muita frequência no Brasil.

Terminei de me arrumar e antes que eu pudesse sair do quarto a namorada, ainda debaixo das cobertas, estende os braços em minha direção. É proibido um de nós sair pro trabalho sem dar um beijo de despedida no outro (especialmente nos últimos dias, nossas agendas estão completamente incompatíveis e só nos vemos de noite), então eu me inclino em direção a ela pra um abraço.

Love you, hun” ela falou, de olhos fechados e se aconchegando pra voltar ao sono.

Yeah, I love you too and whatever. Gotta go.” eu disse, simulando desdém e parafraseando um quote de Futurama. A namorada, que conhece a brincadeira, só responde “Get out of here, go” rindo.

Caminhando em direção ao Trevor, um pensamento insólito atravessa minha mente – não seria TRÁGICO se alguma coisa acontecesse comigo na viagem ao trabalho e minhas últimas palavras à minha amada fosse “I love you and whatever”?

Exponho a preocupação pro amigo (na semi-brincadeira), que simplesmente responde com um “agora já era” ao mesmo tempo que estende o capacete na minha direção. A forma como ele não automaticamente desmereceu a minha preocupação foi fatalmente perturbadora. Estaria ele legitimando meus medos? Eita porra.

Donos de motocicletas compram capacetes extras a contragosto e por uma necessidade que não envolve a segurança DELES, e por isso estes capacetes destinados às caronas geralmente custam menos de uma fração do capacete “oficial”.

Como resultado eles se parecem menos com isso…

 

…e mais com isso:

 

Enquanto o capacete do Trevor era bem estiloso e parecia ter custado uma pequena fortuna, o que ele me deu era tão simples e não-sofisticado que sugeria que ele teria me dado um travesseiro amarrado com um cadarço caso não fosse legalmente obrigado a me fornecer um capacete.

Montei no negócio e me preparei mentalmente pra viagem. E surgiu um dilema – como vou me segurar na moto?

A última vez que andei de moto foi com um tio, e eu devia ter uns 12 anos. Naquela época, me parecia que a única forma de se segurar na garupa era abraçar o motoqueiro. No contexto social atual, tal gesto poderia ser equiparado a uma latente vontade de ser analmente penetrado. Abraçar o motoqueiro seria visto como profunda baitolagem.

Enquanto o Trevor me dava algumas rápidas instruções (“não se mexa muito, tente não bater seu capacete contra o meu quando eu freiar”), eu tentava analisar o apoio oferecido por aquela barrinha de metal atrás do assento. Me parecia um apoio precário, mas pra defender minhas masculinidade valeria a pena tentar.

Ele virou pra trás no máximo permitido pelo capacete e perguntou “tá firme aí?”

“Tou”.

Get ready then” dito isso, ele fechou o visor do capacete teatralmente “this is your day of reckoning“.

E riu. Eu ri junto; apesar de não entender o que ele quis dizer com aquilo, eu não queria parecer o tipo de retardado que não entende as piadas contadas pelos amigos.

“Day of Reckoning” pode ser traduzido livremente como “dia de prestação de contas”, ou o “dia do julgamento”. Eu só fui entender mais tarde – ele estava prestes a embarcar numa tentativa de me fazer borrar as calças.

O Trevor saiu do estacionamento do meu condomínio e mal tinha alcançado a avenida quando girou o acelerador sem nenhuma cerimônia e mandou ver.

Rapidamente minhas convenções sociais foram abandonadas em prol da minha sobrevivência. Assim que o maluco parou num sinal (fazendo a inércia me arremessar em direção a ele), joguei os braços ao redor do maluco.

A avenida nos levou à Crowchild, rodovia expressa que corta a cidade de leste a oeste. Minhas preocupações aumentaram imediatamente quando vi aquela imensa fila de carros se movendo em alta velocidade na rodovia. O Trevor acelerou pra alcançar a velocidade dos carros, e se enfiou na avenida.

Na Crowchild há pouquíssimos semáforos, e o maluco aproveitou a ausência deles pra dirigir como se estivesse tentando manter a primeira posição de um Gran Prix.

Sem nenhum aviso pra eu me segurar melhor nem nada, o desgraçado saiu se enfiando no meio de carros, cortando as faixas numa velocidade tão grande quanto a sua desconsideração pela própria sobrevivência. Lutando contra os sons das buzinas soando ao nosso redor, eu perguntei pro moleque aos berros se ele era louco.

Não sei se ele apenas não me ouviu, ou se me ouviu e por causa disso resolveu sacanear, mas logo em seguida eu notei que o maluco havia passado pra uma marcha superior, tornando o ruído do motor mais agudo e sua pilotagem ainda mais errática. “Caralho, soa exatamente como uma moto de corrida!” pensei, enquanto o infeliz ultrapassava UM CAMINHÃO. Apertei os braços com força, tentado a olhar pra trás pra medir a distância entre a carreta, mas com medo de que qualquer movimento, mesmo milimétrico, me ejetaria da moto.

Quando finalmente tive coragem de espiar o velocímetro, averiguei com total terror que o filho da puta estava indo a 160km por hora, e ainda desviando dos carros ao som de buzinadas nervosas dos outros motoristas. O limite da Crowchild é 100km/h, se não me falha a memória. Os carros ao nosso redor estavam presumivelmente trafegando no limite permitido, enquanto eu e o Trevor passávamos por eles como se os carros nem estivessem se movendo.

Vamos fazer deste texto uma experiência literária interativa. Belisque levemente qualquer parte do seu corpo. Você perceberá que o corpo humano é coberto por um extenso órgão macio conhecido como “pele”. Assim como a sua pele, você é cheio de outros órgãos bastante frágeis e relativamente desprotegidos – seu fígado, por exemplo.

Essa é a Natureza te relembrando que o ser humano não foi feito pra desenvolver velocidades acima dos dígitos triplos.

Cada vez que ele tava uma guinada pro lado e eu sentia meu centro de gravidade mudando de posição, eu conseguia praticamente ver a cena do acidente, ou as notícias que seguiriam. “Imigrante brasileiro pinta a Crowchild com seu intestino delgado”.

O “capacete” que ele me ofereceu não tinha visor, e por causa disso o vento na cara tava literalmente enxugando meus olhos. O humor aquoso escorria pela minha face, o que é razoavelmente irônico porque àquela hora eu estava quase CHORANDO de tanto pavor.

Eu não queria dizer pro moleque diminuir porque sabia que iriam me encher o saco por causa disso pro resto da vida, mas por outro lado o terror de estar se locomovendo a mais de cem quilômetros por hora sem um carro ao meu redor era suficiente pra fazer meu esfíncter se contrair a uma circunferência quase nula.

Além disso, a falta de luvas (um problema que o Trevor deveria ter antecipado e me avisado a respeito, graças a sua experiência superior a minha em andar de moto) fazia minhas mãos quase congelarem. Eu não conseguia nem manter os olhos abertos, com as mãos se contorcendo de tanta dor, tendo que ajustar o corpo cada vez que o desgraçado guinava pra ultrapassar um carro. A queda e subsequente atropelamento parecia iminente. Me perguntei: se eu me mijasse de tanto pavor aqui, quem perceberia primeiro? Eu, ou o maluco cujas costas se encontram firmemente pressionadas contra a minha virilha?

Quando vi o prédio do tribunal no horizonte, simbolizando a chegada ao centro, soltei um suspiro de alívio. Trevor puxou a moto pra fora da rodovia, e diminuiu a velocidade. Quando ele finalmente estacionou e me deu a oportunidade de saltar daquela morte sobre rodas, puxei o capacete pra fora e entreguei pra ele, apressando o passo em direção à porta. Ouvi a risada dele, que me garantiu que aquela maluquice toda na Crowchild só poderia ter sido proposital.

Me pergunto se o porteiro conseguiu notar que minhas pernas cambaleavam enquanto eu entrava no prédio.

 

*****

O novo HBDtv já está no ar. Esse episódio foi curtinho, porque eu estava sem tempo mas mesmo assim queria praticar novamente as ferramentas de edição de vídeo que tenho a disposição.

O próximo será mais longo, e trará um convidado especial.

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Categorias: Vida maldita

109 Comentários \o/

  1. Bira disse:

    1- Essa foto não é da Ninja ZX-12R. É da Ninja 250.

    2- A Ninja ZX-12R chega a BEM MAIS de 240 km/h e faz de 0 a 100 em BEM MENOS de 5 segundos.

    3- Moto é pra quem pode. Cocotinha.

  2. Henrique disse:

    minha primeira e única experiência até agora com motos foi com um parente de um primo meu, ele tinha uma DT e levou pra praia. Além do barulho ensurdecedor daquela moto eu ficava subindo e descendo as dunas e batendo com o nariz nas costas dele (tava sem capacete). Fique branco que nem o background do blog.

  3. Hawk disse:

    Qual o preço de uma motoca dessas?

  4. Doidon disse:

    saindo completamente do assunto..

    entrando em um assunto nem construtivo nem importante, e provavelmente eu seja o unico que num parou pra ler a respeito, mas..pq as setinhas a cima do texto(<>) uma indica: HBD-TV 2 e o outro HBD-TV 4? Onde está o 3?
    no lugar deste post deveria estar o 3
    O.O

  5. Kauany disse:

    tipo eu nem li issuh tudo :D

  6. heliton disse:

    oi al guem

  7. Games – Top 5 jogos mais difíceis de todos os tempos « Blog do Alessandro Lisboa disse:

    [...] no Road Rash a melhor moto de todas, a Diablo: deve ser horrível, pior do que manter de pé uma Kawasaki Ninja ZX-12R. e por incrível que parece nunca conseguir comprar a Diablo e sei que muitas pessoas também não [...]

  8. Games – Top 5 jogos mais difíceis de todos os tempos disse:

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