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LULZ, fui assaltado

Postado em 22 abril 2010 Escrito por Izzy Nobre 122 Comentários

Ahaha pra você ver ein. Cearenses parecem não ter sorte aqui em cima.

Estava lá eu ontem na minha loja. Como já devo ter mencionado, trabalho no turno da madrugada.

Eram mais ou menos 5:30 da manhã, o sol já começaram a aparecer no horizonte. Eu estava me aproximando do fim do meu expediente, acessando meus fóruns favoritos naquela tranquilidade que apenas uma loja vazia e o trabalho relaxado provém.

Subitamente, ouço a campainha que indica que a porta da loja havia sido aberta. Ergo os olhos do meu netbook e vejo duas figuras encapuzadas se materializarem na entrada da loja.

Um deles usava uma bandana cobrindo a boca (estilo ladrão de trem de filme de faroeste mesmo) e óculos escuros, e o outro trajava um suéter a la Kenny, ou seja, com a touca completamente cerrada ao redor dos olhos. Pra completar o anacronismo do maluco com a bandana, antes mesmo que ele declarasse assalto, vi a machadinhas na mão dele — e outra na mão do companheiro. E eles saltaram em minha direção, me empurrando ao chão e berrando, ao mesmo tempo, que eu não olhasse pra nenhum deles.

Estendi os braços e me joguei no chão conforme comandado pelos meliantes, ao mesmo tempo que dizia o clássico (tentando ao máximo me manter calmo) “relaxa cara, de boa, não vou reagir. Pode levar o que quiser, só não me machuque”. Por algum motivo os machados instigaram mais medo do que se os caras estivessem com revólveres — a idéia de ser decapitado ou de perder uma mão, por algum motivo, me soa mais doloroso (pra não dizer irreversível) que levar um tiro, que afinal de contas nem sempre é fatal.

Com o rosto no chão, eu estava completamente cego em relação ao que estava acontecendo ao meu redor. Apenas os sons eram registrados: os caras berravam muito, indicando claro nervosismo. Ouvi barulho de caixas caindo no chão, então desenhei mentalmente a imagem de um deles vandalizando o interior da loja. Um dos caras ordenou, ao mesmo tempo que largou uma machadada no balcão (sem dúvida pra me intimidar ao ponto de cooperação) pra que eu abrisse o cofre.

Nessa hora meu sangue congelou. Obviamente não tenho a chave do cofre, e eu tive um medo absurdo de que a frustração levaria o cara a no mínimo realizar ali mesmo uma operação de remoção peniana por intermédio de machado enferrujado. Cruz credo, mermão!

Tive uma idéia. Ergui o braço calmamente e apertei o botão que abre a caixa registradora. Imaginei que isso provavelmente satisfaria os caras, e como a cartilha da bandidagem rege que quanto mais rápido o assalto, melhor, seria o suficiente pra que eles se mandassem de lá.

Meu próximo pensamento foi “PORRA, MEU LAPTOP E MEU CELULAR”. Ambos estavam em cima do balcão, pois eu comumente uso meu iPhone como modem 3G pra navegar a internet durante o expediente. E o pior, eu já estava prestes a desligar o computador e iniciar os procedimentos de finalização de expediente; se os assaltantes tivessem chegado 2 minutos mais tarde o laptop e o celular estariam a salvo da ganância criminosa.

Com a cara firmemente pressionada contra o chão, e os malucos berrando e batendo com os machados no balcão e detonando o interior da loja, tive um daqueles clichês momentos em que sua vida passa pelos seus olhos.

Lembrei da infeliz ironia que é um imigrante brasileiro ser vítima do mesmo tipo de violência que ele almejava escapar quando se manda de mala e cuia pro hemisfério norte.

Imaginei qual seria a reação da minha mulher caso algo acontecesse comigo. Uma machadada na cabeça sequer precisa ser com a parte afiada pra provocar efeito fatal, e eu não consigo imaginar dor mais cruel que a perda de um conjuge. E sabe-se lá o que passa na cabeça de um vagabundo desses — vai que ele pensa que eu serei capaz de reconhece-lo, ou se frustra porque o roubo não foi tão lucrativo quanto ele esperava e resolve se vingar do balconista, sei lá.

Pensei naquele velho ditado de que você deve viver todo dia como se fosse o último, “porque um dia será mesmo”. E fiz uma recapitulação rápida de tudo que eu havia feito naquele dia: teria eu vivido aquela quarta feira como se ela fosse minha última nesse planeta? Ou eu a desperdicei batendo papo na internet e brincando com meu novíssimo helicóptero de controle remoto?


Um belo desperdício, ao menos

E — algo que só pensei agora, horas após o ocorrido — verifiquei em primeira mão de que aquela máxima de que “em assalto e avião em pane, não existem ateus” é realmente wishful thinking de religiosos: sozinho, com a cara no chão e rodeado por dois marginais armados com machados, em nenhum momento sequer passou pela minha cabeça pedir auxílio ao “divino”. Pra alguém que já se distanciou tanto da imagem de um deus pessoal e que se importa com assuntos humanos, rezar por socorro é um exercício tão válido quanto pedir ajuda ao Papai Noel.

Em um determinado momento os vagabundos se deram por satisfeito e saíram, mas não sem antes me alertar que se eu me levantasse do chão, eles arrancariam minham cabeça. Eu quase me borrei nessa hora. Os caras saíram fora e eu, sem ter total certeza de que a barra estava limpa, permaneci deitado por outros 20 ou 30 segundos.

Levantei-me lentamente, olhando pra todos os lados. A loja estava tão silenciosa quanto antes, e eu calculei que a coisa toda durou menos de dois minutos. O celular e o laptop haviam sumido, mas minha mochila (com alguns livros, meu PSP, e meu DS) ainda estava no seu cantinho de sempre. “Menos mal”, pensei.

A gaveta do caixa jazia em cima do balcão, vazia. Na pressa, os marginais espalharam moedas por todo canto do chão da loja. Caixas de produtos também haviam sido arremessados por todo canto.

Catei o telefone e disquei 911. Eu ainda estava no telefone com o operador quando 4 policiais chegaram, dois ou três minutos depois. Passei o telefone pra um dos policiais, pra coordenar com a operadora o que já era sabido sobre o assalto.

O tempo todo, o que mais me chateava era o iPhone. Como vocês estão carecas de saber, esse celular é meu gadget de estimação, é essencialmente meu computador de bolso. A idéia de perde-lo — e pior, ter que pagar 700 ou 800 dólares por um novo celular fora do contrato — era de partir o coração.

Enquanto eu dava aos policiais as informações sobre o ocorrido, um deles dava uma volta pela loja procurando por alguma pista deixava pelos vagabundos. E pasmem – ele achou meu celular jogado no chão, num cantinho da loja. O impacto da queda havia arremessado o case a dois metros de distância de onde o celular foi encontrado.

Miraculosamente, a tela estava intacta. Menos mal, pensei.

Perder o computador (e as informações pessoais contidas nele) é preocupante também, mas próximo ao celular estava a bateria do computador. Ela deve ter caído durante a fuga. Sem o carregador e sem a bateria, imagino que não há muito motivo pra preocupação em relação às informações contidas no HD. E dos males, o menor — antes gastar 300 paus pra substituir um  netbook que já tava defasado mesmo, do que pagar 800 num iPhone novo em vias do lançamento do próximo modelo. Se roubassem meu celular em julho talvez minha chateação fosse bem menor…

O policial teorizou que os marginais descartaram o celular pela facilidade em tais aparelhos serem rastreados. Faz sentido.

E é isso. Os vagabundos fugiram com a incrível soma de cem dólares e um netbook velho sem carregador nem bateria. A chefia me deu o dia de folga, com compensação e fala-se sobre ressarcirem o valor do computador roubado. Eu já planejava há algum tempo substitui-lo por um modelo mais recente, então agora é a hora. Escapei intacto com vida e com meu querido iPhone; é motivo pra comemorar a sorte mesmo.

E foi assim que fui assaltado no Canadá. A coisa poderia ter sido muito pior, e eu já me considero um cara extremamente sortudo, então não há porque se lamuriar. Bola pra frente.

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Categorias: Vida maldita

122 Comentários \o/

  1. Diego Heinrik disse:

    Que coisa. Provavelmente eu morreria ali. Se a machadinha estivesse a meu alcance, acho que pegaria.

    De qualquer forma, trabalhe com a porta fechada (imagino que a porta seja de vidro e se a pessoa quiser dar uma olhada, bastará ir até lá e girar a chave para que ela entre).

    Boa sorte na próxima. Provavelmente vai acontecer de novo.