Após anos vendo a palavra “cassino” sendo escrita apenas com um S, usar a grafia portuguesa me dá aquela desconfortável sensação de que a palavra está errada. Sabe quando o MS Word traça aquelas linhas vermelhas embaixo de uma palavra escrita errada? Então, é isso que minha mente está fazendo neste exato momento.
Enfim. Semana passada fui num cassino pela primeira vez.
Na última quinta feira o Trevor, meu inseparável companheiro de aventuras (viado é o corno do seu pai, jamais esqueça), me arrastou pra um dos vários cassinos daqui de Calgary. Alberta é província indígena, e os maiores símbolos de tais áreas são a cerveja barata produzida pelos silvícolas e a miríade de cassinos que o governo os permitiu construir numa tentativa de equilibrar o alegórico “placar histórico” com os índios.
Além das fortunas que esses estabelecimentos geram pras comunidades indígenas, nativos também não pagam impostos, têm incontáveis programas federais de assistência financeira e podem ir à faculdade de graça. Eles são até mesmo julgados em tribunais separados, e de acordo com um outro código penal – geralmente mais leniente a certos crimes que eles culturalmente encaram de forma diferente.
Eu diria que esses filhos da puta receberam um excelente negócio, já que eu que não tenho porra nenuma a ver com a opressão deles continuo pagando boa fatia desses benefícios deles através dos muitos impostos que pago (só pra tem dar uma idéia, pago mais de OITOCENTOS dólares em impostos POR MÊS, putaquepariu, mas divago).
Nunca fui a um cassino antes. Ao contrário do meu (antigo) desgosto por bebidas alcoólicas, ao menos tenho uma boa desculpa pra cabacice no campo dos jogos de azar – cassinos são ilegais no nosso amado país, e portanto o gosto pelo “gambling world” é algo que nunca adquiri. Isso pra não mencionar o fato de que eu também não tinha dinheiro sobrando quando morava no Brasil. Dinheiro de qualquer categoria era algo meio raro pra mim, dinheiro SOBRANDO era mais raro ainda.
Trevor passou aqui em casa às oito horas e momentos depois estávamos a bordo da luxuosa BMW do infeliz, conversando sobre trivialidades dos nossos trabalhos, circulos sociais e vidas sexuais. O cassino ficava consideravelmente longe da minha casa, literalmente do outro lado da cidade.
Demorou mais ou menos meia hora pra chegar ao lugar. O moleque estacionou o carro, e começou a me dar advertências sobre cassinos: eu deveria entrar com uma quantia fixa e não usar nem um centavo a mais que o pre-estipulado. Por exemplo, ele trazia 60 dólares no bolso, adornados por um luxuoso clipe de ouro que provavelmente valia mais que a quantia que ele contia. Essa era a única quantia que ele estava disposto a gastar naquela noite; caso uma maré de azar levasse toda aquela grana embora, o prudente seria resignar-se à perda, encarar pela última vez os peitos das várias gold diggers que enfeitavam o estabelecimento e voltar pra casa.
Nem prestei muita atenção na ladainha dele, porque ela não era nada que eu já não soubesse. Minha experiência prática com cassinos naquele momento era nula, mas Hollywood havia me ensinado que a ruína do jogador vem justamente do desejo de recuperar o dinheiro perdido apostando mais dinheiro ainda. A casa sempre ganha.
Entramos no cassino. A melhor forma de descrever o interior do cassino é usando a expressão gringa “sensory overload”, ou seja, sobrecarga dos sentidos. As luzes dos incontáveis caça-níqueis e os diversos barulhinhos produzidos por estes era estonteante. Nunca vi tanto neon na vida.
Como não costumo carregar dinheiro em espécie, fui ao caixa eletrônico pra tirar uma grana. Os caça níqueis estavam lotados de gente de todo tipo – vovozinhas, motoqueiros estilo Hells Angels, um ou outro nerd asiático, e um perfeito exemplo das supracitadas gold diggers.
Gold diggers são as mocinhas (leia-se strippers/prostitutas) que costumam perambular cassinos à caça dos jogadores mais sortudos. Esta que ocupava o caça-níqueis seguia a cartilha perfeitamente – vestido preto impossivelmente curto, seios turbinados quase tocando no queixo, maquiagem, salto alto, bronzeado artificial, e uma longa cabeleira escura. A pequena fila na frente do caixa eletrônico me dava um tempinho extra pra apreciar a estética da mulher. Como é de praxe, estava prestes a amaldiçoar meu compromisso romântico, e aí lembrei que ser solteiro não aumentaria minhas chances de conseguir alguma coisa com uma mulher daquela espécie.
“Ou essa aí é muito burra”, interrompeu Trevor, “ou a noite hoje tá azarada pra essa turma. Gold diggers não costumam perder tempo com caça níqueis, elas orbitam as roletas ou as mesas de blackjack”.
“Hmmm”, balbuciei. Os seios da mulher eram esferas perfeitas. Ela notou que eu a encarava, e ajustou o vestido. Desgraçada. Ela parecia colocar as moedinhas no caça-níqueis bem casualmente, quase de maneira entediada. Parecia estar esperando alguém.
O LCD caixa eletrônico me perguntava quanto dinheiro eu queria extrair. Digitei “20″ e lembrei da gold digger no caça-níqueis. Não que eu planejasse conseguir alguma coisa com a menina, mas não queria passar vergonha com uma humilde notinha de 20 dólares. Se eu tivesse com bastante grana, ao menos as pervas pensariam que eu era algum tipo de nerd bem sucedido Bill Gates-style.
Tirei 200, decidido a não gastar mais que 40 no cassino. Trevor não sabia disso, e ele soltou um impressionado “Whoa, dude”. Abri a carteira pra guardar a grana e notei que a gold digger, como boa profissional no ramo de extrair dinheiro de homens dominados por hormônios, estava de olho na fila do ATM. Ela sorria pra mim.
Ri mentalmente da cara de pau dela. “A infeliz nem sequer tenta disfarçar!”, pensei enquanto colocava as notas ostensivamente na carteira. Mal sabia ela que mais da metade dessa grana nem sairia da carteira e já estava destinada ao aluguel deste mês.
Trevor estava animado pra jogar poker, mas eu protestei. Uma coisa é jogar poker sem compromissos com amigos no trabalho; outra coisa totalmente diferente é entrar numa sala de poker num cassino, populada por dealers e jogadores profissionais, do tipo que ganha a vida com o jogo.
Meu nível de domínio no jogo me dá permissão ao primeiro cenário, não o segundo. Sugeri algo mais apropriado pra um jogador de primeira viagem. Trevor concordou, e me levou às mesas de Blackjack.
Blackjack é o único jogo de cassino em que o jogador tem boas chances de se dar bem. Desde que li Bringing Down the House (excelente livro que deu origem ao mais-ou-menos 21), tive vontade de jogar Blackjack.
O jogo é simples – o dealer te dará duas cartas, e comprará outras duas. Você pode pedir mais cartas, ou parar se já tiver uma soma boa.
Quem obtiver soma mais próxima de 21, ganha. Quem passar de 21, perde. Como o dealer é obrigado a parar em 17, você tem vantagem. Às vale como 1 ou 11, você escolhe qual. As figuras (ou seja, Rei, Dama e Valete) valem 10. Acertar 21 em cheio te rende 15 dólares.
Ou seja, é simples o bastante pra permitir que noobs joguem com considerável nível de habilidade, mas complexo o suficiente pra permitir bastante nuances e estratégias.
O que os filmes não deixam óbvio, entretanto, é a série de pequenos e imperceptíveis protocolos que os jogadores devem seguir.
Por exemplo – a cada ficha apostada, sua mão deve se manter o mais longe o possível dela, pra impedir que espertalhões coloquem uma ficha extra no monte ao notarem que a jogada é vantajosa pra eles. Ou, da mesma forma, pra impedir que o cidadão subtraia fichas da pilha ao dar de cara com uma má jogada. As mãos devem ficar longe da área de apostas durante as jogadas, e é por isso há um grande espaço entre a borda da mesa, e o circulozinho onde as suas apostas são feitas.

Da mesma forma, você não pode simplesmente dizer “hit me” ou “hold” quando o dealer te pergunta se você quer mais uma carta. Este é um erro frequente de filmes; o correto (ao menos aqui em Alberta, não posso falar nada sobre Vegas) é dar tapinhas na mesa pra pedir mais uma carta, e acenar com a mão quando está satisfeito.
(A propósito, na América do Norte ninguém diz “Las Vegas”. O mais comum é o informal “Vegas”.)
O motivo disso é que não são raros os safados que tentam enganar o dealer, alegando que pediram pra parar e não por uma nova carta, quando esta se revela desvantajosa. Por isso, há câmeras apontadas diretamente pras mesas, capturando todos esses pequenos gestos dos jogadores. Os tapas na mesa ou acenos são registrado no vídeo, então não adianta safadear.
Tocar nas suas cartas é considerado crime gravíssimo. Apesar das câmeras e dos olhos atentos do dealer, há sempre a possibilidade de que o jogador é um prestidigitador profissional tentando trocar cartas quando menos se percebe. Acredite, há mais pessoas tentando ganhar a vida trapaceando em cassinos do que você imagina. Fui dar um tapa na mesa pra indicar o pedido por uma nova carta, mas toquei na minha carta ao invés da mesa, o que resultou numa firme e envergonhante advertência do dealer (“Sir, please do not touch the cards“). Os caras levam a parada muitíssimo a sério.
O jogo em si foi fenomenal. Apesar dos 200 dólares na minha carteira, me limitei a trocar uma mísera nota de vinte dólares por fichas. A aposta mínima nas mesas de blackjack era 5 dólares, então peguei ridículas QUATRO fichas pra jogar. Não havia nenhuma gold digger por perto pra tentar impressionar, era realmente uma noite lenta.
Apesar de saber as regras na teoria, durante a ação do jogo é muitíssimo fácil perder a noção das estratégias e até mesmo das somas das cartas – o ambiente é meio intimidante, com tanto segurança-armário perambulando o lugar e o tom sério do dealer.
Entretanto, entra aí a outra vantagem do blackjack – na maioria dos outros jogos de cassino, você está jogando contra os outros jogadores. Em blackjack, todos na mesa estão jogando contra o cassino. Por causa disso, o clima de camaradagem é instantâneo. Os outros jogadores festejam suas vitórias, e lamentam suas derrotas junto com vocês. Não foi difícil entender por que tanta gente se vicia no jogo.
Nossos companheiros de mesa eram outros dois moleques da nossa idade. Dois roughnecks, ou seja, aqueles malucos sem família e sem muitos amigos que se mandam pros isolados campos petrolíferos no gélido norte da província. Nego ganha uma fortuna (alguns desses sujeitos fazem mais de oito mil dólares por mês), mas vive em condições nojentas, sem muitas amizades ou atividades sociais. 90% dos sujeitos que se metem nesse tipo de trabalho estão fugindo da polícia ou tomaram pé na bunda da namorada e querem se isolar do mundo.
Os moleques vestiam os costumeiros trajes utilitários da profissão – botas sujas, macacões jeans e tal – e exibiam uma pilha absurda de fichas. Um deles tinha mais de quinhentos dólares na mesa, o outro tinha um pouco mais que isso. A vodka numa mão e as pilhas de fichas na outra faziam os moleques parecerem mais velhos do que realmente eram. Me senti imensamente humilhado com meus míseros 20 dólares em fichas na mão.
Os moleques estavam perdendo bastante dinheiro, mas aparentemente estavam se divertindo a valer. Eles riam frequentemente a cada lance, e paravam de rir apenas pra pedir mais bebidas. Eles nos ofereceram drinks, recusamos polidamente. A nova rodada começou.
Tanto os dois roughnecks quanto o Trevor me davam conselhos sobre o jogo o tempo todo – quando pedir nova carta, quando parar, e a lógica por trás de cada decisão. Com os conselhos deles, me dei muito bem, e a um certo momento estava com quase 50 dólares de lucro.
Logo em seguida, pra variar, comecei a me foder. Uma onda de azar se jogou em cima da nossa mesa e todos perdemos várias rodadas consecutivas. Acabou me sobrando UMA ficha, e senti pela primeira vez aquela sensação que jogadores obsessivos devem sentir diariamente – fiquei com vontade de trocar mais dinheiro por fichas, pensando que “agora a sorte vai mudar!”.
Me controlei e, ao invés de comprar mais fichas, apostei minha última. Miraculosamente, fiz um blackjack – minha pilha voltou às 4 fichas originais. Joguei por mais algumas rodadas e acabei saindo num belo lucro: a noite me rendeu 42 dólares.
Decidimos que era melhor sair enquanto ao menos UM de nós estava ganhando. Demos uma gorjeta ao dealer, nos despedimos dos roughnecks (que continuavam rindo sem parar) e fomos pra casa.
E estou desde então controlando a vontade de voltar ao cassino.





black jack vicia demais, fato.
Joguei 5 reais na slot machine halloween e não ganhei nada, ai está toda minha experiência do tipo.
As vezes me reuno com os amigos para jogar blackjack. Cada um leva um mínimo de 10 reais trocados em moedas de 1 para sí e mais 10 reais em moedas de 1 para a mesa. Quem for o dealer da vez não ganha nem perde nada.
Ótimo post.
Hahahaha que comédia, toda vez que leio os comentários aqui do blog me deparo com alguem querendo aparecer.
O cara me fala que “Counting Cards” é o que ha!
Hahahaha acho que ele andou assistindo os lançamentos hollywoodiano esse ano.
Sem comentários…
Sem contar nos outros que escreveram CASINO ao ínves de escrever Cassino, já que começou em inglês escreve tudo em inglês porra!!!
já era,Kid vai gastar tudo no cassino e ele e a Becca vão morar na beira da estrada…
é “quinta-feira”, Kid.
o que a Rebecca diz do seu “companheiro de aventuras”?
“E estou desde então controlando a vontade de voltar ao cassino.”
Se fodeu HAUAHauhuhuhuhAUhAuhAuaHaUhuah
Essa parada de querer impressionar uma puta é foda, sempre saio perdendo. Pelo menos você ganhou 42 dólares
mto loko, nunca fui num cassino (com dois “S”),també… moro no brasil…
ri pra carai aki. LOL
XD
http://hbdia.com/wordpress/2008/11/28/minha-primeira-vez-num-cassino/ – Erm, texto novo?