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O dia em que eu me fodi, parte 1

Postado em 24 dezembro 2008 Escrito por Izzy Nobre 84 Comentários

Era uma sexta feira, meu dia de folga. A namorada estava no trabalho, meu irmão sairia pro dele em poucos minutos, e em breve a casa repousaria no mais profundo silêncio e paz. O almoço já havia sido preparado horas antes pela muié, era o ambiente perfeito pra um cidadão passar um dia inteiro sem fazer coisa alguma, perambulando preguiçosamente pela casa trajando as cuecas do dia anterior.

Após pular pra mesa do computador e chamar todos os twitters que me seguem de fags (minha costumeira rotina matutina), dei uma olhada ao redor do quarto e decidi que a profunda bagunça que envolvia cada centímetro quadrado do ambiente estava me incomodando um pouco. Meu quarto está preso numa estranha dimensão paralela em que, a despeito de qualquer esforço de limpeza, o nível de entropia é sempre máximo.

Roupas espalhadas pelo chão, cama desfeita, peças de computador e cartas de Magic embaixo da TV, livros jogados aos cantos, action figures empoeirados da mesa do meu computador, toalhas penduradas na maçaneta, incontáveis balinhas de armas de pressão e inexplicáveis pecinhas de LEGO embaixo da cama e em suas adjacências, que eu insisto em pisar em cima. Já pisou descalço numa pecinha de LEGO? Não é exatamente a melhor sensação do mundo.

Por mais que tentemos arrumar o quarto, é uma questão de minutos até que esteja tudo bagunçado mais uma vez. É uma luta perdida.


E isso é o que dá pra considerar “arrumado”

Então tentamos nos acostumar a dormir no meio da desordem. Naquele dia entretanto, num raro exercício de lógica altruísta, decidi que minha namorada já trabalha bastante arrumando a minha parte da bagunça, lavando minhas roupas e fazendo minha comida. Resolvi por a preguiça de lado temporariamente e tentar domar a bagunça perene dos nossos aposentos, como forma de agrado à namorada – uma boa ação que ela provavelmente recompensaria com sexo, que é (vamos ser sinceros) o único motivo pelo qual um homem faz qualquer coisa pra uma mulher que não seja sua mãe, irmã ou avó.

“Eu não estaria realmente arrumando o quarto”, pensei com meus botões, “e sim investindo no entretenimento futuro”.

Mal sabia eu que 30 minutos mais tarde essa decisão tão trivial me colocaria dentro de uma ambulância, imobilizado numa maca, inalando gás analgésico com uma intravenosa enfiada nas costas da mão.

Antes que eu continue a narrativa, xeu compartilhar uma epifania que tive durante a situação que estou prestes a contar pra vocês.

A vida é um constante aprendizado, algum famoso pensador (provavelmente morto, já que nunca ouvi falar de um sujeito vivo recebendo esse título) disse alguma vez. Cada dia traz uma importante lição.

Por exemplo, quando eu era moleque eu descobri que cutucar o nariz com muita força te ajuda a se livrar de sangue que você tem sobrando por aí. Uma outra coisa que eu aprendi quando era um garotinho é que dormir com um ventilador ligado bem rente à sua cara é uma ótima maneira de acordar completamente urinado.

Isso acontece porque aparentemente algumas pessoas perdem o controle da bexiga quando expostas a mudanças de temperatura durante o estágio de sono; o mesmo efeito pode ser atingido se você aumentar a potência do ar-condicionado no quarto de alguém durante a noite, ou se colocar a mão da pessoa numa tigela de água morna enquanto ela dorme. Tente com seus amiguinhos na próxima vez que eles dormirem na sua casa (ou não, caso você goste do seu sofá)!

Isso me ensinou outra lição – já viram quintais ou sacadas de apartamentos adornados com colchões encostados na parede? Então, esses colchões estão secando ao sol, pra diminuir o odor de mijo infantil que impregnou cada fibra do negócio. Aprendi que nestes domicílios mora algum moleque de 7 anos que ainda não descobriu a conexão da incontinência urinária com o ventilador na cara.

Nesta última semana que passou, eu aprendi uma lição valiosíssima. E você nem precisou ir pro hospital numa ambulância pra ganhar este conhecimento, eu fiz essa parte por você. Anote aí:

Caso você esteja fazendo algo embaraçoso ou complicado de explicar, verifique que nenhum acidente aconteça.

Guarde essa informação pra mais tarde, ela se fará relevante no texto.

Então, eu decidi que arrumar nosso quarto seria um bom agrado pra namorada, e pus-me à tarefa. A primeira coisa que eu faria é arrumar a cama. Note que quando você arruma a cama de um quarto bagunçado, a bagunça subitamente parece 50% menor. É psicologicamente agradável, já que apesar de mal ter começado você fica com a impressão de que você já está com meio caminho andado.

E aqui entra aquele conselhinho que eu te dei lá atrás.

Não sei quantos aqui arrumam a cama com este método (façam o favor de se pronunciar nos comentários, pra eu não me sentir tão estranho), mas eu costumo subir na cama com uma ponta do cobertor em cada mão e em seguida agitar os braços pra cima e pra baixo, espalhando a coberta igualmente ao redor da cama. Assim não é necessário dar voltas na cama puxando aqui e ali pra tornar a cobertura da cama homogênea.

É uma maneira que eu estive usando desde criança e, assim como técnica de limpar a bunda ou bater punheta, é o tipo de coisa tão pessoal e privada que não é como se você visse outras pessoas fazendo ou houvesse debates públicos sobre a predileção da maioria a uma maneira ou outra. Então eu segui minha vida felizmente sem saber que, aparentemente, meu método de arrumar a cama é a coisa mais bizarra que boa parte das pessoas já ouviram falar. Bom, ao menos as pessoas me socorrendo naquele dia.

Subo na cama, uso minha técnica pra distribuir partes iguais de cobertor a cada canto da cama e, com ar de satisfação que apenas um trabalho bem feito traz a um homem, bato a poeira fictícia da mão e desço da cama.

Acontece que essa última parte não aconteceu exatamente como eu planejava. Eu pisei no canto da cama, mas aparentemente havia menos cama lá do que eu calculei (devo processar os fabricantes da cama? Resposta: sim). Apenas metade do meu pé direito encontrou apoio no móvel, só que eu já havia colocado todo o peso do corpo nele.

O resto aconteceu muito rápido, é até meio difícil lembrar dos detalhes exatos. Meu pé escorregou em direção ao chão de forma inesperada, e corpo se inclinou pra direita seguindo a queda do pé. O quarto inteiro pareceu rodopiar ao meu redor.

Minha cabeça e meus ombros se enfiaram na parede mais próxima, e a essa altura meu corpo já estava num ângulo de 45 graus em relação ao chão. Com um pé ainda em cima da cama e a cabeça encostada na parede, meu corpo se tornou uma letra V maiúscula de cuecas. E finalmente minhas costas e bunda tocaram o chão, tornando o angulo da imaginária letra V ainda mais agudo. Quando isso aconteceu, ouvi um distinto CRACK vindo das minhas costas.

E veio a dor. Dor completamente lacinante, do tipo que te impede de se mover. Quem já sentiu dor forte nas costas deve entender do que estou falando.

Logo de pronto, me desesperei – o barulho que ouvi logo após da queda me dava a impressão de que eu devia ter quebrado alguma coisa. Fiz um esforço titânico pra me virar de bruços, as costas protestaram mandando uma onda de dor tão potente que certamente teria esvaziado meu intestino grosso caso houvesse algo pra ser esvaziado naquele momento. Pus a me arrastar no feito um soldado americano fugindo de vietcongs, locomovendo-me a passo de lesma em direção à porta do quarto do meu irmão. Era 7 ou 8 da manhã, ele deveria estar dormindo.

Meu deus, essa dor. A dor era tão tremendamente forte que eu posso admitir sem vergonha alguma que estava quase chorando de tanta agonia. Será que quebrei alguma coisa? Estou conseguindo mover minhas pernas? O choque da queda e a dor me impediam de notar movimento nas pernas. Comecei a contemplar uma idéia aterrorizante – e se eu danifiquei minha coluna?

Putaquepariu. Seria o método mais retardado na história da humanidade de alguém perder a habilidade de andar. Já pensou eu me confinar a uma cadeira de rodas pro resto da vida por ter CAÍDO DE UMA CAMA? Não deve ter havido maior self-owned na história documentada da raça humana.

Mentalmente, comecei a fazer uma checagem por ocasiões em que eu tirei onda de deficientes físicos. Um dos participantes da minha patotinha de escola era o David, que andava capengando por causa de um acidente de bicicleta, e não lembro de jamais ter zoado o infeliz. E até hoje nunca fiz piada com Christopher Reeves também, então minha conta kármica estava limpa. Soltei um suspíro de alívio – ou teria soltado, já que a profunda dor nas costas me impedia esses luxos respiratórios. Até o movimento do diafragma causava dor.

Agora eu consigo pensar no humor da situação, mas no momento não seria exagero dizer que eu estava completamente desesperado, sem quaisquer ressalvas. Na minha mente, eu havia fraturado a coluna, e estava fodidíssimo.

Diante da porta do quarto do meu irmão, com o nariz encostado no carpete e ofegando como uma mulher em parto, reuni as poucas forças que me restavam pra erguer o braço e esmurrar a porta dele. Puta que o pariu, mas que dor desgraçada. Parecia que um gigante invisível segurava meus braços com uma mão e minhas pernas com outra, tentando me partir em dois.

O moleque não respondeu. “Teria o desgraçado ido pro trabalho cedo hoje”, pensei afobado. O que diabos eu farei se estiver sozinho em casa? Esmurrei a porta de novo, berrando pro meu irmão ligar pro 911 imediatamente.

Pro meu profundo alívio, a porta de abre no meio da esmurrada, e o moleque olha pra baixo completamente confuso. Lá jazia seu irmão mais velho, se arrastando pelo chão de cuecas e a esta altura berrando de dor.

“911. Agora. AGORA! Rápido!”

“Mas que diabos?!”

“AGORACARALHOAHDDAUDIAHGILDUQHILHPELOAMORDEDEUSTÁDOENDO”

***

Continua no próximo episódio, possivelmente no ano que vem.

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Categorias: Vida maldita

84 Comentários \o/

  1. Issue disse:

    AHUAHUHAUHAUHAUHUA, desculpa mas eu ri.

  2. As 10 melhores Quedas no Pole Dance | Mundo Vigarista disse:

    [...] não devemos ser excessivamente críticos com estes erros bizarros. Se há idiotas que se estropiam arrumando a cama, cair no Pole Dance, que  é uma arte incomparavelmente mais difícil do que arrumar a cama, [...]

  3. Gisele Tamanini de Souza disse:

    Desculpe, mas não cosigo parar de rir.. A sua narrativa foi mais engraçada q a tragédia em si ;)

    Cuide-se !!!

  4. ana beatriz disse:

    eu arrumo a cama do lado dela e tento fazer o lençol ou edredom alcançar uma boa parte da cama pra não ter que ficar girando em torno dela, eu somente tropeço e bato o dedinho no pé da cama nada que precise de samu por enquanto.