No último capítulo, você acompanhou estupefato a narrativa da forma mais mongol que um ser humano jamais se machucou antes – eu cai da cama enquanto a arrumava. Me arrastei em dor até até o quarto do meu irmão, reuni todas as minhas forças pra esmurrar a porta e acorda-lo, e com o nariz colado no carpete implorei por ajuda ao meio de berros desesperados.
Meu irmão, ainda meio confuso, apanhou o celular e discou o número de emergência enquanto eu bufava de dor com a cara colada ao carpete do corredor. Ouvi-o descrevendo o acidente pra operadora, e respondendo as usuais perguntas (“a vítima está consciente? Está respirando? Tem problemas de coração? Está tomando medicamentos controlados? Tem alergias?”). Em seguida o moleque desligou o telefone e me avisou que a ambulância estava a caminho.
Um marmanjo de 24 anos ser socorrido por um time de paramédicos por ter caído da cama já é uma humilhação sem tamanho, pensei. Por que torna-la ainda maior trajando as cuecas de ontem – e nada além disso? Pedi pro meu irmão me apanhar calças e uma camiseta.
A camiseta foi relativamente fácil de vestir, mesmo deitado de bruços no chão. Pôr as calças, por outro lado, provou-se impossível. Qualquer movimento dos quadris resultava em dor perfurante, dor do tipo que eu não desejaria nem no meu pior inimigo. Ok, estou obviamente mentindo, mas você entende o que eu quero dizer.
A dor impedia completamente o ato de cobrir minhas vergonhas. Toquei o foda-se com toda solenidade e decidi que os paramédicos veriam minha semi-nudez em toda a sua glória. Minha esperança de manter um resquício de dignidade se foi.
Em mais ou menos 5 minutos a campainha toca e meu apartamento é invadido por uma pequena multidão de paramédicos. Tenho experiência em contatar os serviços de emergência no trampo (já assisti ao vivo um sujeito ter um ataque cardíaco e morrer no meio de um julgamento, aliás. Tentaram ressucitar o maluco com desfibrilador portátil e tudo. Fun fact – o corpo do sujeito não PULA quando é defibrilado, como nos filmes. Ao invés disso ele se contorce todo, as pernas chacoalham, as mãos se fecham), e as ambulâncias realmente VOAM em direção à emergência.
De bruços e com a cara colada no chão, a única coisa que eu conseguia ver eram os quatro pares de botas que haviam se reunido subitamente ao meu redor.
“Você é o Izzy?”
Desafiando a dor que já dificultava até a respiração, encontrei forças pra responder a pergunta dele. Pensei em fazer uma piadinha tipo “bom, até onde sei sou o único acidentado aqui”, mas imaginei que o cara poderia entender como hostilidade ou até mesmo como clássica filha da putice.
“Prazer, Izzy. Sou o Jeff, aqueles são o McKenzie, o Rob e o James. Tamos aqui pra te ajudar.”
“Oi, pessoal”, falei quase sussurando, com o rosto enfiado no chão.
Um dos caras, não sei qual (afinal eu nem tinha visto os rostos dos malucos) me perguntou como eu estava. Os caras pareciam bem humorados.
“Já estive melhor” falei, sem nunca afastar o nariz do carpete. Nunca estive tão próximo do meu carpete antes.
Eles riram. O sujeito à minha esquerda, que imagino que era o Jeff, depositou uma maletinha vermelha do meu lado. Enquanto ele removia alguns instrumentos dela, ele me pergunta:
“O que aconteceu aqui, Izzy?”
E contei a história da queda da cama.
“Você… caiu da cama?” perguntou o cara, incrédulo , enquanto prendia no meu braço um daqueles aparelhos de medir pressão sanguínea. Aqueles que você infla apertando uma bombinha e tal. Sei lá qual a conexão com machucar as costas e tirar a pressão sanguínea, mas ele tirou.
“É. Eu tava arrumando a cama.”
“Quantos andares tem a sua cama?”
Eu ri, com as costas protestando a cada expiração. O cara fez a leitura da minha pressão, falou que tava normal, tirou o troço do meu braço e pôs uma luva cirúrgica. Ele começou a apertar áreas aleatórias da minha perna, perguntando se eu conseguia sentir o toque dele. Respondi afirmativamente a todos os toques.
“Bom, você não arrebentou a coluna então. Mas se você está sentindo muita dor, vamos ter que te levar pro hospital pra fazer radiografias pra ter certeza do que aconteceu.”
“Ok”, respondi sem forças mas animado com a idéia de não me tornar um paraplégico.
“Você acha que conseguiria se levantar pra podermos te colocar na maca?”
“Vamos ver”.
Tentei me virar como pude mas a dor era muito forte, literalmente de tirar o fôlego. Jeff pegou meu ombro e me ajudou a completar a rotação, me deixando agora de costas no chão. Minha cara não ocultou a dor que eu sentia, e notei um outro paramédico entregando um cilindro conectado a um tubo de plástico ao Jeff.
“Izzy, isso aqui é gás do riso. Ele vai te ajudar a ignorar a dor por um tempo, pra você poder se levantar e aí a gente te coloca na maca. Certo?”
Ele me entregou o tubo. Coloquei na boca, e ele me instruiu a sugar o gás profundamente. O tubo fazia um barulho esquisito quando eu puxava o gás.
“Pode puxar com bastante força. Você vai precisar de bastante gás pra ignorar a dor por alguns segundos enquanto te colocamos de pé.”
Acenei positivamente com a cabeça, com o tubo entre os dentes. O barulho que o tubo fazia era semelhante ao de um mendigo tentando pigarrear.
“Apartamento legal” falou o Jeff, olhando ao redor do meu domicílio.
“Valeu”.
“Aquelas guitarras são suas?”
Puxei o gás mais uma vez, e depois falei com o tubo ainda na boca “Aham.”
“Você toca bem?”
Antes que eu pudesse responder, senti uma profunda tontura. Tentei responder e a voz não saiu. Quando finalmente saiu, o som da minha voz soava extremamente estranho, não sei como explicar. sabe quando você está falando alguma coisa e arrota no meio do discurso? E a tua voz meio que se mistura com o gás que está saindo e soa esquisita? Então, mais ou menos assim.
Eu parei no meio da palavra, e ele riu e explicou que era efeito do gás.
“Ok, vamos tentar te levantar agora” ele disse, pegando de volta o tubo do gás.
Ele me pegou pelos ombros mais uma vez e tentou me levantar. As costas doeram, eu alertei o cara através de um estridente berro, e ele me depositou no chão de novo.
“Ok, mais gás. Quando você estiver se sentindo chapado, nos avise.”
Experimentei drogas apenas duas vezes na minha vida, então não tenho bons pontos de referência pra quantificar a experiência de um barato. Como eu saberia que estou chapado o bastante pra tentar me levantar? Continuei chupando o gás, e o tubinho fazendo o barulho lá.
Três minutos depois, comecei a sentir uma experiência bizarra (minha namorada riu quando contei pra ela mais tarde). Eu comecei a visualizar meu corpo como uma forma geométrica, como um cubo, porém com uma das arestas amassadas. À medida que eu chupava o gás do tubo, eu “via” o gás preenchendo o interior do cubo, e desamassando a aresta de dentro pra fora. Em outras palavras, eu estava surtando.
Eventualmente removi o tubo e falei, com a voz novamente soando esquisita, que eu podia me levantar agora. O Jeff me levantou pelos ombros, e surpreendentemente a dor havia desaparecido. Assim que ele me soltou e eu me apoiei completamente por conta própria, notei que a dor ainda estava lá.
Os paramédicos me levaram pra fora do apartamento, onde uma maca me aguardava. Meu irmão nos seguia com uma trouxa de roupas, minha carteira e meu celular. Nisso aparece a namorada, que havia voltado do trabalho às pressas. Meu irmão havia ligado pra ela durante meu bate papo com os paramédicos.
A menina me vê de cuecas sendo amarrado numa maca e se desespera. Meu irmão explica a situação, e a ouço perguntar “…ele caiu da cama? Mas como diabos esse menino caiu da cama pra se foder desse jeito?”
O melhor da situação era que a vizinhança inteira havia ouvido as sirenes da ambulância e visto os paramédicos correndo pra minha casa, arrastando uma maca com eles. Deitado na maca, com o tubo de gás novamente na boca, eu notei que todos os nossos vizinhos observavam este que vos fala amarrado numa maca, de cuecas, enquanto meu irmão e minha namorada debatiam em voz alta a forma como eu me acidentei.
Sensacional.
(Continua no próximo episódio)





q texto bom, espero mais desses, kid!
abraços
cadê a 3ª parte??
Bwahahahahahahahahahahahaahahahahhaha
Me lembrei do filme “Quem vai ficar com Mary ?”(There’s Something About Mary) quando o protaganista prende o ‘brinquedo’ no ziper da calça, na casa da Mary em pleno dia do primeiro encontro deles, e tem de ser socorrido por uma ambulancia com todo mundo em volta olhando enquanto o irmão dela deficiente falando “salcichão com ovo”.
Tsc… Muito bom o texto… muito detalhista!
Não consigo olhar pro “Quantos andares tem a sua cama?” e não me urinar de rir!
AHHUAUHAUEHUAHEUHAUHEUHAUEHUAHUE 8D
Eu e minha mãe costumamos arrumar a cama da mesma forma. o_ô
homero luz:
esse gas é vendido no brasil?
esse cara quer ficar doidão…
mas só de curioso, se não me engano esse gas eh oxido nitroso…
axo q essa foi quase um nivel 5 na escala klaus… hahahahahahahahaha
nossa.. muito massa esse gás do riso! ajudaria muito lá onde trabalho! recebo muitos politraumatizados.. seria muito bom mesmo!
Que merda ‘-’