Relembrar é viver, né?
Vocês por acaso lembram deste texto aqui?
Eu lembro.

No dia 22 de janeiro de 2009, algo completamente inesperado aconteceu comigo – perdi meu emprego. Era a primeira vez na vida em que sair de um emprego não havia sido uma decisão minha.
Como você poderia imaginar, eu me desesperei fodamente. Eu estava prestes a ir ao Brasil, e havia me comprometido financeiramente com essa viagem. Tenho contas, cartão de crédito, aluguel pra pagar. Eu não conseguia parar de pensar – “o que DIABOS farei da vida agora?”
Não sei se você já chegou a descobrir isso por si mesmo, mas quando alguém fala sobre perder o sono por causa de uma preocupação, isso não é força de expressão. Acordei em muitas madrugadas pra ficar perambulando a casa sem saber o que fazer, e vasculhando a web por oportunidades de emprego na minha cidade.
A primeira idéia era cancelar a ida ao Brasil. Pegando a grana da passagem, somada ao dinheiro que eu estava separando pra torrar por lá (aproximadamente 2 mil dólares), daria pra segurar a barra por um bom tempo caso um outro emprego não aparecesse no horizonte.
Não houve uma pessoa sequer a quem eu mencionei essa idéia que a deu apoio. Minha mulher, meu irmão, meus amigos e até mesmo meus pais rejeitaram a alternativa com veemência. Afinal, eu havia economizado dinheiro por dois anos pra essa viagem, já havia pago à vista, já havia anunciado a ida a todos os familiares e amigos. E como eu tinha uma poupança razoável, cancelar a viagem seria desnecessário.
Além disso, todos me diziam que eu estava me desesperando à toa, que o tribunal era apenas um emprego e nada mais, e ainda jogaram o clichê “em breve você estará rindo da situação inteira“.
Eu não tinha a menor convicção no discurso deles.
Contra meus instintos, decidi me despreocupar, mandar o mundo às favas e ir curtir minha família e meus amigos. Resolvi acreditar que a situação não era tão feia, era na verdade uma transição e não um trauma.
Foi nesse espírito que escrevi este post, já bem mais otimista e confiante de que a perda do emprego poderia ser um na verdade uma bênção.
Mas ainda com medo, claro. Desafiante e disposto a encarar a vida, mas com medo.
Ahhhhhh, se eu pudesse ter uma mínima prévia de onde minha vida estaria hoje…
Escrevi aqueles textos há quase um ano. Agora, estou novamente prestes a uma viagem ao Brasil, o que me parecia COMPLETAMENTE impensável na época – lembre-se, mesmo com o meu salário mais alto ever eu precisei economizar dois anos praquela viagem de março passado.
E por me ver novamente na familiar situação de estar prestes a voltar à pátria, acabei fazendo uma retrospectiva mental interessante do último ano.
Hoje eu percebo com mais clareza que de fato aquele emprego não era o melhor que eu podia fazer, tanto pessoalmente quanto financeiramente. Todo mundo me falava isso, mas é óbvio que é o tipo de coisa que é muito mais fácil pra outras pessoas acreditarem do que você.
O que aconteceu na real é que eu caí num falso senso de segurança, a famosa ACOMODAÇÃO. Estava muito familiarizado com aquele ambiente, estava feliz por receber uma boa cifra (tão feliz de receber meu salário mais alto ever que me conformei em achar que aquele sempre seria meu salário mais algo ever), e não estava de forma alguma disposto a tentar alcançar mais.
Nem uma faculdade, que eu tinha tempo e dinheiro pra retomar, eu me animava em fazer. Eu pensava “bah, não quero abrir mão de um dia de trabalho pra voltar a estudar, vou ganhar X dólares a menos!”. Pra quê fazer sacrifício se já tou perfeitamente confortável aqui mesmo?
Até aquele dia eu não sabia, mas esse é de fato o pensamento mais derrotista que alguém pode ter.
Foi só quando perdi meu emprego é que eu pensei “bom, talvez se eu já tivesse uma especialização, não estaria tão desesperado por ter perdido um emprego que pagava bem“. Assim que cheguei do Brasil, meti a mão na poupança (a única boa decisão que tomei naquela época foi priorizar a poupança) e banquei meu retorno às aulas.
Excelente e tal, mas nisso eu ainda estava amargando um horrível trabalho de merda de fast food que eu não gostava, que pagava mixaria, e em que eu estava cercado de moleques retardados de 15 anos. Felizmente aquela desgraça durou pouco tempo – em breve, bons contatos da época do meu ex-emprego me descolaram o trabalho que tenho hoje.
Apesar da impressão que devo passar por aqui, sou um cara competente. Fui promovido um mês depois e adivinha? Em pouco tempo já estava ganhando apenas 100 dólares a menos por mês em comparação com o que ganhava no tribunal.
Com a diferença que agora eu estou correndo atrás de uma educação, e que eu adoro o lugar onde trabalho – o que é de fato uma melhoria da condição anterior.
E aqui entra a novidade recente. Por causa dessa atenção louca com a qual vocês me prestigiam aqui no HBD, eu já havia sido sondado pra fazer trabalhos pagos na internet. Por me achar muito auto-suficiente com meu emprego no tribunal, eu desmerecia as oportunidades oferecidas sem nem pensar duas vezes.
“Sou importante demais pra isso, não preciso dessas mixarias”, eu pensava. Veja que não estamos falando de probloguismos estilo “fale bem do nosso produto e ganhe uns brindezinhos que você poderá esfregar na cara dos seus amigos da internet”.
Nope. As oportunidades que me ofereceram no passado eram “venha escrever sobre um assunto que você gosta, e em troca te daremos dinheiro vivo”.
Pensando “Vou tentar essa parada só pra ver no que dá”, aceitei um trampo de colunista no TecnoBlog.net. Isso foi a pouco mais de um mês atrás; desde então tenho sido pago pelos meus esforços em escrever sobre assuntos que eu curto e acompanho, o que não é uma má forma de ganhar uma graninha extra.
E isso foi só o começo. Outros grandes nomes do empreendimento online nacional se aproximaram de mim pra fazer propostas pra ser autor de colunas nos espaços deles – também sendo pago pra isso. Em breve vocês saberão do que estou falando.
Esse reconhecimento do meu “trabalho” e a recompensação monetária me deixaram tão encorajado a continuar produzindo esse conteúdo online que desde então tenho tentado atualizar o HBD frequentemente, e até mesmo trouxe o HBDtv de volta dos mortos.
Trabalhar na internet é mais bacana do que eu imaginei a princípio. Além da grana, eu gosto dessa sensação de que pertenço a algo maior que eu mesmo, e de que o que eu faço está sendo levado a sério por alguém. Sem contar que é legal ter algo pra fazer; hoje me surpreendi preparando uma agenda pra organizar meu tempo de acordo com novas responsabilidades.
Em todos esses anos mexendo com palms e smartphones, é a PRIMEIRA vez que precisei usar um aplicativo de calendário. Ri quando percebi isso. Dá uma estranha sensação de importância.
Antes que berrem “PROBLOGGEERRRR”, segurem o fôlego – não sou exatamente um “blogueiro profissional”, sou um colunista freelancer. Pra mim a distinção principal é que eu não misturo meus textos de opinião pessoal com artigos de publicidade financiada por marcas.
Pode não parecer uma grande diferença, até você perceber que um colunista não tem rabo preso e pode falar mal de um produto ou uma marca, se quiser. Afinal, ele está sendo pago pra ESCREVER, não pra promover um produto.
Probloggers não tem toda essa objetividade, vide casos em que nego alardeou boicote contra uma marca (por pura birrinha, aliás), e rapidim voltou atrás quando ofereceram um trocado. Isso é o que chamamos de “falta de integridade”.
Sem contar com a presunção de se acharem mais importantes que a “mídia velha” quando são apenas uma forma barata de publicidade, como o nosso colega e_d_e_n admitiu sem querer aqui. Veja a primeira dica da listinha – ele simultaneamente confessou que blogueiros são vistos como propaganda barata, e insinuou que não são veículos legítimos. E na segunda ele faz menção a promover candidatos cujas políticas você sequer apóia.
Não é surpresa nenhuma que o texto tenha sido na verdade escrito por ninguém mais ninguém menos que o nosso colega do caso Boicote Dell, que não é exatamente um bastião de integridade.
Mas enfim. Eles na deles, eu na minha.
E agora eu DEFINITIVAMENTE rendo mais do que rendia trabalhando naquele tribunal e achando que não precisava alcançar mais nada na vida – além do fato de que tirei minha vida acadêmica do pause e estou estudando algo em que sempre me interessei, Direito.
A mensagem que tou tentando te passar é que eu não tinha visão. Por estar ganhando uma boa graninha num emprgo sem expectativa de muito futuro, eu me resignei a ficar por ali mesmo, ignorando oportunidades interessantes de crescimento profissional, financeiro e acadêmico. Não queria mais nada da vida.
Foi só perder a boquinha e me sentir senti forçado a recomeçar do zero pra conquistar o conforto que eu tinha antes. A pra minha profunda surpresa, acabei chegando mais longe. Se eu acreditasse em divindades, sem dúvida estaria agradecendo a elas e acreditando ser um sujeito muito abençoado.
E em pensar que eu achava que tinha arruinado minha vida perdendo aquele emprego. Incrível o quão errado eu estava.
Sair da minha bolha de segurança não arruinou minha vida – na verdade, a recolocou nos trilhos.





mais um post show!!!
Kid viado, vai morrer de tanta coluna freelance escrita no cu.
Esse episódio de voce perder o emprego e ser forçado a ‘se virar’ é caracterizado pelo que chamamo de Caos Criativo.
anyway congratz.
Sorte tua. Esse ano meu pai faleceu e eu herdei o negócio dele que é um escritório de contabilidade que eu odeio e com um sócio que eu gosto menos ainda. Não sei o que fazer com essa merda e não posso largar porque preciso do dinheiro. Acho que vou chutar tudo e vou lavar pratos no Canadá. Teus posts la no Tecnoblog são muito bons, parabéns.
Kid, é isso mesmo. Principalmente na fase em que você está (ou seja, moleke ainda para fazer/fazendo faculdade) é normal “dar um passo para trás” para depois dar vários para a frente. Quando estava na faculdade, era professor de inglês e ganhava razoavelmente bem. Quando fui para meu primeiro estágio, tive que aceitar ganhar a METADE do que ganhava dando aula. Mas dar aulas (assim como fast food e mesmo sex shops) é muito limitado: uma vez que ocupasse todo o meu horário, estaria ganhando o máximo que poderia ganhar. A carreira profissional permite recuperar isso e reverter a situação, e com o tempo ganhar muito mais.
Isso só pela questão grana, porque tem ainda a questão de desafios. E olha só, fica esperto porque não sei como é a área legal aí no Canadá, mas é bem capaz que para começar a trabalhar na área você tenha que ganhar um pouco menos (ou até trabalhar de graça, como é o caso de algumas agências de publicidade por aqui, e alguns escritórios de advocacia também), e é bom você estudar o mercado e se preparar (= economizar) para a situação dele. Mas encara, Kid, que vale a pena. Você está num bom caminho. Manda bala e boa sorte aí. Você é um bom argumentador e vai se dar bem na área.
Este texto me fez pensar viu kid.
Estava pensando sobre isso ja algum tempo.
Me deu mais uma vontade de fazer isso tmb.
Vlw!
vc não sabe como eu fiquei chateado porque achei q vc iria desistir por ter perdido aquele emprego man.
hoje tu visse q isso era apenas paranóia, e isso foi causado por causa do teu emprego “confortável”
Estou passando por uma situação parecida, só na semana passada parei pra entender direito o que estava acontecendo e o que deveria fazer.
ok, eu sou nerd e vou ignorar o post inteiro mas vou perguntar.
Tá fazendo direito então talvez vai ser advogado? Então talvez futuramente teremos posts de histórias á lá Phoenix Wright?
Onde que ele contou o por que de ter sido demitido do tribunal? Aqui no HBD e no Twitter é que não foi o.o
Nem todo problogger é “vendido”. Na verdade, conheço alguns probloggers que sequer escrevem posts patrocinados! Suas fontes de receitas são bem diversificadas, tais como inúmeros programas de afiliados, venda direta de banners, programas payperclick etc. Um deles, inclusive, ganha 5mil euros ao mês.
No mais, boa sorte nessa nova fase!
Você lê todos os comments?
Enfim, pra mim essa ambição é o que diferencia os ricos dos pobres, um certo “incômodo com a acomodação”.
Eu não ia guentar NUNCA ficar muito tempo no mesmo cargo, sem muito futuro, preciso estar sempre crescendo, por mais que isso signifique sacrifícios a curto prazo. Tem que ter história pra contar pros netos, né!
Boa sorte na sua caminhada, seja melhor da turma de direito e destaque-se!
o bom foi descobrir isso e conseguir reaver seu conforto ateh rapidamente …
mas mtos tendem a achar uma zona de conforto e ficaar estáticos ali sem crescer ou diminuir … e isso nem sempre eh o melhor caminho
e parabens pelo trabalho … sendo um post teu pago ou nao todos são fabulosos …
Você nem vai ver mais esse post mas… já jogou Phoenix Wright? Ohh, muito bom, e e nem gosto de direito.
[...] Essa viagem pro Brasil (a segunda desde que imigrei pro Canadá, em 2003) veio como fruto das milhares de mudanças que minha vida sofreu no ano de 2009. Eu não esperava voltar assim tão cedo após a primeira ida, mas finquei o pé no chão na [...]