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O que as fotos do passado nos dizem sobre o presente

Postado em 14 October 2015 Escrito por Izzy Nobre 14 Comentários

Eu mantenho contato, através do WhatsApp, com um grupo de amigos dos tempos de Brasil.  Discutimos política nacional, nova séries do Netflix, videogames, ex-namoradas, esse tipo de coisa. Hoje um dos broders me surpreendeu mandando essa foto pro grupo:

fotinha

O cara que mandou a foto (Antônio, que hoje é um respeitado profissional de sua área mas na época era o moleque da rua de cima que vivia me enchendo o saco pra eu emprestar-lhe meu CD de Delta Force) é o rapaz de vermelho no centro da imagem. Aliás, repare que o Antônio tem um monte de carta de Magic na mão, e estava possivelmente montando um deck/analisando opções de troca com algum dos outros nerds na foto.

Magic era a cola social que unia nosso grupo; grandes amizades nasceram por causa da apreciação mútua do jogo (aliás, todos os caras do tal grupo de WhatsApp que mencionei no começo eram jogadores de Magic). Por isso, mesmo que hoje em dia meu contato com este esporte seja limitado por falta de tempo, tenho um apego emocional forte com esse que é o card game primordial.

Mas então, o Antônio me mandou essa foto, e eu não lembro de forma alguma de que dia isso rolou. Não sei nem de quem exatamente era essa casa, mas certamente devia ser de algum amigo próximo porque senão eu não teria desperdiçado meus talentos musicais a toa; teria cobrado pela apresentação.

E essa foto me fez pensar, novamente, em quão mais distante e difícil de lembrar o passado da galera nascida nos anos 80 (ou seja, minha tribo) é. Aliás, eu diria que minha geração é a última que tem uma lembrança meio turva do próprio passado de acordo com essas fotos velhas tiradas com máquinas analógicas. O pessoal que nasceu dos anos 90 pra frente, em sua maior parte, viveu num mundo de fotos digitais.

Antes das câmeras digitais, tínhamos um relacionamento bem diferente com fotografias. Em primeiro lugar, era bem mais caro tirar fotos — você precisava comprar filme, que era algo que ninguém fazia com tanta frequência assim (e olha que meu pai literalmente trabalhava pra Kodak e tinha mais acesso a filme fotográfico do que qualquer outra pessoa que eu conheço).

Tu comprava lá teu filme de 36 “poses”. Era curioso isso; não eram 36 fotos, eram 36 POSES. De forma bem subliminar, essa terminologia revelava outra coisas sobre as fotografias daquela época. Eram, quase sempre, ensaiadas e previsíveis. Eram uma pose, não a sua condição real.

Eram, quase sempre, de um grande evento (festas de aniversário, por exemplo). Por isso, estávamos quase sempre bem vestidos, com o cabelo arrumadinho, e deliberadamente posando para a câmera. Frequentemente, rodeado de pessoas que não são nossa família imediata, que era natural no contexto de uma celebração sendo fotografada. Sempre sorrindo.

Por causa disso, as fotografias dessa época contam uma versão muito fragmentada da história da nossa vida. Vemos só os momentos mais significantes, eventos maiores, reuniões com a família, esse tipo de coisa. Fotos como a que você vê acima (um bando de moleques fazendo algo totalmente trivial) eram relativamente raras.

E mesmo quando elas existiam, a nossa falta de habilidade fotográfica ajudava pra embaçar um pouco o passado — literalmente. Fotos mal tiradas, com péssimo enquadramento, borradas, eram lugar comum. Não tínhamos como ver como a foto ia ficar, e a falta de prática com as câmeras garantia que pelo menos umas 2 daquelas 36 “poses” era COMPLETAMENTE esculhambada, com o dedo na frente do flash ou da própria lente, ou clicada sem querer quando a câmera sequer estava apontado pra nada em particular.

Isso me faz pensar sobre a geração atual, a proliferação de smartphones com câmeras, e a nova cultura fotográfica que temos. Agora, nada é trivial o bastante para NÃO ser fotografado. Fotografamos até pratos de comida!

Como sempre acontece quando a sociedade vai lentamente mudando de atitude em relação a isso ou aquilo, evidentemente algumas pessoas criticam pra caramba essa nova Igreja Quadrangular do Reino do Instagram; dizem que é exagero, que é muito egomaníaco, ou que é muita auto-exposição. Tem gente até que escreve textos reclamando das formas como as pessoas escolhem de se comunicar através de fotografias.

Eu diria que essa crítica é imediatista e míope. Em tempos em que a maior rede social do mundo fuça suas conversas privadas pra te oferecer publicidade baseada no que você está falando (isso pra citar só UM exemplo da vigilância orwelliana em que vivemos atualmente), privacidade já morreu já muito tempo — quer você tire fotos do seu almoço ou não.

Então, o negócio é aproveitar o que dá. “Eles” podem saber bastante sobre mim, mas pelo menos no processo, nós saberemos muito mais sobre nosso próprio passado, graças a uma mudança na cultura fotográfica que captura uma versão bem menos fragmentada da nossa existência coletiva.

 

 

 

 

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Categorias: Vida maldita

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 32 anos, também sou conhecido como "Kid", e moro no Canadá há 13 anos. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas, e sobre notícias bizarras n'O MELHOR PODCAST DO BRASIL. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

14 Comentários \o/

  1. Pan says:

    Fico imaginando como isso pode afetar a relação e a forma como os jovens do futuro vão enxergar os pais. Pelo menos pra mim meus pais sempre foram “adultos”, entidades com um comportamento e um pensamento completamente diferente do meu. Não sei como seria se eu tivesse acesso a milhares de fotos (e principalmente vídeos) de eles jovens, com os amigos, falando besteira, se divertindo… ou seja, não sendo PAIS.

    • Luiz says:

      sempre me pego pensando a mesma coisa, agora que tenho uma filha penso nisso o tempo todo, “como será que ela vai me ver?”
      Meu pai me ensinou a ser apaixonado por cinema, será que vou conseguir passar pelo menos isso pra minha filha.

  2. Marcelo Barbosa says:

    Ótimo post. e parabéns pelo livro. me diverti muito lendo os CAUSOS. Abraços.

  3. Igor Nicolini says:

    Como tu aprendeu a escrever tão bem mano?!
    Aliás, parabéns e continue com o trabalho. vlws

  4. Angelo Moreira says:

    “…esse que é o card game primordial.”

    me emocionei com esta frase linda e verdadeira

  5. Achilles Leal says:

    As fotos naquela época registravam em sua maioria, essas reuniões em festas de família, de amigos, shows, viagens, ou seja, eram momentos especias e não rotineiros do dia a dia, isso faz com que essas fotos antigas tenham muito mais valor sentimental do que as de hoje em dia.

    • Izzy Nobre says:

      Não falei que tem menos valor sentimental. Falei que conta uma história muito entrecortada, muito resumida do que era nossa vida no passado. Não temos a oportunidade de rever o trivial. Dois irmãos brincando no quarto, ou jogando videogame. Não tenho fotos dos amiguinhos da rua. Não tenho muitas fotos com meus primos. Muito da sua vida passada se perdeu porque era trivial demais pra ser fotografado naquela época.

  6. Angelo Moreira says:

    Apesar de não ter nascido nos anos 80, nasci no primeiro mês da década de 90 o que pode me qualificar a escrever neste artigo aqui (além do mais por conta de situação financeira a minha infância foi em meio a tecnologias das décadas passadas).

    Meu pai sempre foi fotógrafo e por isso tenho muitas fotos de momentos triviais da minha vida mesmo quando isso não era comum (meu pai só aderiu a fotografia digital em 2005 e só abandonou a analógica de vez em 2009) a família sempre ficava com a chamada “poses teste” depois da recarga da câmera com um novo filme. Assim a minha vida esta registrada em uma linha do tempo incomum pra galera (pobre) da minha geração. concordo o Izzy que estas fotografias fazem uma ligação com o passado de uma forma mais clara do que confiar apenas na memoria, a imagem presa ali no papel nos faz recordar de dias que já teriam sido esquecidos se não existisse aquele registro. Esse é o maior poder da fotografia, guardar lembranças e essas lembranças sempre nos ajudam a ser alguém melhor (aqui em casa sempre que as fotos são reviradas muitas historias são contadas e é nítido o quanto a família fica mais unida e feliz). Por isso registrem, registrem em fotos, vídeos, textos, guardem relíquias do seu passado pois um dia você vai olhar para tudo isso e vai sorrir.

    A minha relação com esse blog é em muito motivada por isso (já queria falar isso pro Izzy e o artigo veio a calhar). Nas historia aqui contadas sobre o passado, infância e tudo mais… sempre me leva ao meu próprio passado. A infância e as aventuras do Izzy, sua ligação com vídeo-game me levam direto aos anos 90 onde eu vivi muitas historias parecidas em ambientes parecidos (até pq eu tmb sou nordestino e o Izzy chegou a morar na minha cidade). Por isso valeu Izzy por me proporcionar varias tours pelo passado que estava preso em minha mente e que só precisava de uma chave para se soltar. Nunca abandone esse blog.

  7. Carlos says:

    Bom texto cara, realmente me fez lembrar das velhas fotos de aniversário com todas aquelas poses, as fotos nostálgicas de família, a bike caloy verde limão e roxo com rodinhas XD …Enfim, vários bons momentos das antigas. Um fato pessoal engraçado é que sou de novembro de 89, e nunca consegui descrever se eu me “sinto” como um cara que nasceu nos anos 80 ou 90, como se fosse um momento de transição mundial, sei lá! Tipo, fiquei no meio termo… Um simples exemplo é que acompanhei a galera um pouco mais velha do que eu jogando Magic ,mas joguei pouco pois logo foi perdendo a popularidade, sem contar que a galera por ser mais velha foi adquirindo maiores responsabilidades… Na pré-adolescência enquanto alguns embarcaram de vez no “mundo nerd”, eu fiquei em cima do muro.. Tanto comecei a beber e “curtir” cedo com a “galera da doidera”, quanto tinha vezes que eu só queria jogar Lineage o final de semana inteiro NO-STOP! Creio que tendo a ser mais nostálgico do que a maioria dos meus amigos, e ao mesmo tempo não possuir contas no Facebook, twitter nem instaram (o que qualquer ser humano “normal”, tem de um bom tempo pra cá)… Me deixa com o pensamento de me achar mais velho do que sou, bem louco isso.

  8. Renan says:

    Igreja Quadrangular do Reino do Instagram mano hahaha
    Pequenos detalhes q fazem a diferença nos seus textos =D

  9. Juliewq says:

    Ai Izzy….nem fala… Foto era realmente uma coisa cara, porém eu sempre gostei muitoooo. Lembro me que no começo dos ano 90 a minha tia viajou pro exterior e nos concedeu o direito de pedir um presente.
    Pediram para ela várias coisas do tipo patins e afins e eu me lembro de ter pedido uma máquina fotográfica.
    Eventualmente comprava filme para ela e registrava coisas do cotidiano….nada especial….
    As coisas não eram tão fáceis como hoje. Outro dia mesmo aqui em casa achei alguns filmes sem revelar. Seu conteúdo já deve ter se perdido com o tempo.
    um fato que me me deixa triste é que aqui em casa tinham várias fotos da minha infância e de quando eu era bebê, porém devido alguns problemas de armazenamento essas fotos molharam e estragaram… Lembro que a minha mãe tinha um daqueles albuns antigos e algumas fotos daquelas que tiravamos na escola e depois nossos pais compravam….
    Hoje em dia não tem mais nenhuma foto minha quando era bebe e as poucas de quando eu era criança ainda existem as que estavam comigo que são bem poucas mesmo. Fico pensando que meu sobrinho nunca terá esse problema, pois tenho inumeras fotos dele…com cópias em pen drives e hds externos e na nuvem….ele nunca corrrerá o risco de não se lembrar como foi a infância dele ou o dia que ele nasceu.
    Ainda hoje eu amo fotografias e tiro muitas. Câmeras digitais e celulares com câmeras são invenções sensacionais.
    Não julgo as fotos das pessoas….cada um sabe o quê e como quer registrar e guardar sobre sua vida.

  10. LG says:

    Talvez, estejamos apenas vivendo uma “glutonaria da facilidade”. Explico: Como fotos, antigamente (honestamente, até 15 anos atrás) eram itens raros e incomuns [Magic ™], agora que se tornarem prosaicos, estão sendo consumidos de forma glutônica. Daí de se fotografar comida, selfie, selfie da selfie, cachorro de rua e até a parte de trás da orelha direita do bebê [Rugrats ™].

    A próxima geração não vai se surpreender com fotos de comida, selfies e coisas assim. Logo a tendência é que eles parem de produzir tanto material assim. Eles terão outros escapes certamente, mas isso é um problema “deles”.

    Além disso, nossos filhos nos conhecerão por completo. Chega daquele obscurantismo de mal se lembrar o nome do Bisavô. Nossos bisnetos saberão até das merdas que fizermos.

    Por outro lado, eles terão enorme difculdade de criar e-mails. Tive que penar para criar o e-mail do meu bebê de dois anos (sim, já reservei um e-mail para ele).

    Cada geração com seus problemas.

  11. […] família tinha câmera fotográfica (que tirava lá suas 36 “poses” e ficava então meses sem filme porque ninguém lembrava de comprar). Alguns mais abastados tinham […]