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Sobre dar nomes aos filhos

Postado em 23 January 2012 Escrito por Izzy Nobre 15 Comentários

Essa situação aí da Luíza e do Canadá, que a esta altura já passou de validade e encontra-se fedendo e levemente esverdeada num canto esquecido da geladeira da internet, me fez pensar em algo da minha infância — as zoações com os nomes dos outros. Vou explicar a correlação.

Como expliquei antes, fazendo o Canadá uma parte da minha identidade virtual, o fenômeno da Luíza teve um efeito colateral meio chato — centenas de neguinhos fizeram a mesma piada do “menos o Izzy Nobre, que está no Canadá”, diversas vezes por dia.

Você pode ter achado aquele meu texto ranzinza, mas obviamente isso acontece porque você não estava na minha posição. Durante uns 2 ou 3 dias minha aba de mentions no Tuíter ficou inutilizada tamanha era a incidência dessa genial piadinha. E o mais chocante: apesar dela ser feita literalmente centenas de vezes por dia, cada um dos comediantes que a fazia devia estar se achando um gênio da fina sátira.

E isso me lembra muito dos meus tempos de colégio. Como deve ser de conhecimento geral, crianças são a encarnação do demônio na terra, com a única missão de espalhar o mal pela terra. Qualquer pessoa que creia na suposta pureza infantil certamente não frequentou os mesmos colégios que eu.

Pra você ter uma noção da lucifridade que habita o coração das crianças, contar-te-ei a história de Fabrício. O Fabrício era um garoto que frequentava minha escola entre os anos de 90 e 94. Tanto ele quanto a sua prima Carol, que também frequentava nossa escola, tinham Síndrome de Down.

Não sei se colocar crianças com problemas de desenvolvimento em classes normais era uma sem-noçãozice do passado, ou se é algum super método pedagógico Piagetístico usado até hoje. O que acontece é que a molecada da escola (eu incluso, admito com total vergonha) via o Fabrício como um alvo de atormentações.

Conheci o moleque em 1990, quando eu fazia a alfabetização. Ele já era consideravelmente mais velho que a molecada da sala, tinha uns quatro anos a mais que a gente. Ele foi o primeiro moleque na escola com aquele bigodinho imberbe de cobrador de ônibus, aliás.

Por causa dos problemas mentais do garoto, apenas quatro anos mais tarde ele iria finalmente concluir a alfabetização; então sempre tinha essa piadinha cruel do “hahaha o Fabrício repetiu a alfabetização de novo!”.

Nos anos seguintes o pessoal partiu pra algo mais agressivo — atormentar o moleque (fisicamente) apenas pra ser perseguido pelo pátio da escola por ele e ver quem eventualmente apanhava. Se tivéssemos dinheiro naquela época, era capaz até de rolar apostas.

Como o maluco era quatro anos mais velho que a gente, ele era maior e mais forte, e nisso residia a emoção da brincadeira. Essencialmente transformamos isto:

Nisso:

E Jesus dizia que o céu era das criancinhas, pois estas são puras de coração. Mano, quer crueldade maior que atormentar uma criança com síndrome de Down numa sadística versão escolar de roleta russa?! Em 27 anos fazendo merda, as brincadeiras com o Fabrício são a coisa de que mais me arrependo na vida inteira. E olha o tipo de merda que eu já fiz.

O que me dá uma certa angústia é saber hoje que a escola provavelmente estava ciente desse bullying mas não fazia nada. Presumo que eles não faziam nada porque jamais vi ninguém ser punido por atormentar o moleque, ou ser educado em relação à condição dele. É revoltante.

Então, meu ponto é que a criançada é infernal. E umas das maiores fontes de zoação vinham do nome do sujeito. Por exemplo: na segunda série, estudei com um garoto chamado Mário. Obviamente, a professora era a única que o chamava pelo seu nome de batismo. Pra todas as crianças da escola, ele era o Super Mario. E isso o deixava visivelmente irritado.

Esse jogo de associação livre (pegue o nome do sujeito e combine com qualquer coisa levemente relacionada) me rendeu apelidos como “Palestina” ou “Israelita” — este último sendo particularmente comum nas escolas religiosas em que estudei, onde o povo escolhido de Deus é um termo frequentemente mencionado.

Nessa aí, Paulo César virava PC Farias, Fernando virava Fernando Collor, Ricardo virava Ricardão, e por aí vai.

Rimas com nome era outro negócio problemático, especialmente para mim. “Israel” rima, desgraçadamente, com “pastel” — que tratave-se, coincidentemente, do meu lanche favorito na lanchonete da escola. Aí pronto, virei “Pastel” por vários anos.

Pior ainda, Israel rima com “anel” também. Evidentemente a molecada jamais me deixaria esquecer disso, até musiquinhas celebrando a rima e minha suposta homossexualidade compuseram. Ou é “comporam”? Não sei, sou burro.

Não importa que escola eu frequentasse, essas piadinhas aconteciam espontaneamente em questão de minutos após a molecada aprender meu nome. É como se houvesse um gene adormecido em cada um dos meus coleguinhas de sala que os tornavam exímios zoadores de nomes.

Diga-se de passagem, estudei em diversas escolas:

1990 — Colégio Evangélico. Fortaleza, CE (foi aí que conheci o tal Fabrício)

1991 — Escola Estadual Carlos Dietz. Londrina, PR

1992 — Colégio Adventista. Londrina, PR

1994 — Colégio Evangélico (a família retornou a Fortaleza. O Fabrício ainda estudava lá, e ainda estava na alfabetização)

1997 — Colégio Adventista. Fortaleza, CE

1998 — Colégio Cora Coralina. Fortaleza, CE

1999 — Colégio Evolutivo. Fortaleza, CE (este veio a fechar as portas no ano passado, aparentemente)

2000 — Colégio Dom Pedro II. São Luís, MA

2001 — Colégio MENG. São Luís, MA

OITO escolas diferentes. OITO turmas totalmente diferentes. E de alguma forma as piadinhas com o meu nome eram SEMPRE AS MESMAS.

E foi isso que mais pensei enquanto me mandavam aquela avalanche de piadinhas em relação a Luíza e Canadá. Tal qual a molecada com quem estudei, cada um desses caras fazendo essa gracinha deveria se achar o suprasumo da criatividade humorística, apesar de estar repetindo a mesma piada que centenas fizeram antes dele…

E por isso eu agora começo a pensar “qual seria o MELHOR nome a dar para o meu filho, um que tornasse-o completamente imune de gracinhas escolares?” Inicialmente, achei ter decifrado o problema: dando ao moleque um nome que componha uma frase auto-zoatória, ninguém seria capaz de perverter a alcunha do meu rebento. Como você tiraria onda de alguém chamado “EU DOU O CU” sem automaticamente zoar a si próprio? “Ei, EU DOU O CU, tu é um filho da puta!”?

Obviamente segundos mais tarde eu atentei para o fato de que dar um nome que siga essa estrutura tornaria o trabalho dos bullies mais fácil, na verdade. Alguém cujo nome é “Eu Dou o Cu” não precisa que zoem seu nome. Ele já foi devidamente zoado por seus pais antes de nascer.

Qual seria o nome mais imune de brincadeiras escolares então…? Isso é uma tarefa mais difícil do que eu imaginei. Se até meu nome, que tem o significado mais magnânimo possível, era alvo fácil dos piadistas, imagina um pobre coitado chamado “Rodrigo” ou “Joaquim” ou “Marcelo” ou “Paulo”! Tenho até pena dos possuidores destes terríveis nomes.

Me ajudem aí nos comentários.

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comments

Categorias: Vida maldita

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

15 Comentários \o/

  1. Rodrigo says:

    Acho que só pelo nome nem é preciso dizer nada, não é?

  2. Luiz augusto says:

    eu acho que o bacana é vc arrumar um nome que os proprios pais,ja consigam cunhar um apelido bacana, por exemplo: eduardo vai ser sempre DUDU, Carina vai ser sempre Nina ou CACA. se vc colocar no seu filho um nome imune a apelidos os apelidos do seu filho serão os defeitos dele, ou seja, se ele se chamar, Luiz (como eu) algums chamaram de Lu mas a maioria vai chama-lo de godinho (se ele for gordo) quatro olho (se ele usar oculos) ou qualquer outro defeito que ele tenha!

  3. corolho says:

    O nome Caetano é imune

    • Rodrigo says:

      Caetano, pega no meu cano.

      Fácil.

      Também pensei muito nisso antes de dar nome aos meus filhos, sem falar em nomes mais internacionais.

      Rodrigo é tranquilo no Brasil, mas em Londres ninguém conseguia pronunciar e me apelidaram de Rodders.

  4. Gabriel P. Alves says:

    Então quide, se ainda tá preocupado com o nome do seu futuro filho, segue uma sugestão (que já deve ter visto no YouTube, aliás): Maximus Thor.

    Sim, tem um moleque com esse nome.

    http://www.youtube.com/user/JoinTeamOverlord

  5. Lucas Lamaison says:

    Eu SEMPRE zoava os meus colegas por causa do nome. Tinha um colega chamado Léo, que obviamente era Léo Pastel. Certa vez um colega chamado Emanuel lançou a seguinte rima épica para uma quarta série: Léo Pastel lambe mel no pau do Emanuel. Meus primos se chamam Rohan e Matheus, e na minha infância não me lembro de ter conseguido zoar o nome deles.

  6. Israel Del Duque says:

    Cara, quando você falou “Palestina” eu me senti retratado no texto. E nem preciso dizer porque.

    Ah, já me chamaram de Egito também, e até hoje eu não entendo porque cargas d’água. ¬¬

  7. Vanessa says:

    Eu acho que não há nome imune de zoação… É mais válido ensinar seu filho a não ser um dos zoadores. Talvez ensina-lo a não fazer o mesmo que você fez com o martirizado Fabrício. Acho valido você ter chegado num ponto de entendimento em que se arrepende de ter agido como um ‘babaca’ (desculpa) com o garotinho com Síndrome de Down, talvez tenha sido culpa dos tempos mesmo… Muitos dos seus colegas de turma talvez sejam homens de 28 anos hoje que continuam agindo assim, e martirizando outros. De qualquer forma é isso.

  8. Arthur Santos says:

    Véi… Meu nome é uma fonte de zoações, ainda bem que meus amigos não eram de dar apelidos relacionados aos nomes pq senão meu Deus, eu estaria irremediavelmente fodido.

  9. luis eduardo says:

    Meu nome é Luis Eduardo, mas sempre me zuaram por eu ser moreno, (preto, carvão e esses adjetivos todos), já pelo nome sempre me chamaram de dudu

  10. Lara says:

    É complicado mesmo Izzy. Quando criança até o término do segundo grau eu sofri muito na escola ( cheguei a apanhar dos “coleguinhas”), por ser baixinha, gorda e por ser Nerd. E meu nome também foi alvo de várias piadas óbvias, baratas e prontas. Se eu me importasse com as zoações, ou eu era atormentada ou apanhava.
    Hoje estou livre deles…

  11. Ygor Nunes says:

    Pô, eu ia gostar de ser chamado de “Super Mário”

  12. Guilherme Oliveira says:

    Coloca o nome dele (se for menino) de Fabrício e se for menina coloca Carol, ve se assim voce perde a culpa.

  13. Matheus says:

    Não adianta ter um nome imune, sempre vão achar uma maneira de te zoar. Nunca conseguiram me zoar pelo meu nome, mas como eu nasci vesgo …

    Ps: Nem o sobrenome é poupado, meu amigo se chama Samuel Barros e chamam ele de Barney (se bem que parece mesmo, fazer o que?).

  14. Robson says:

    Cara, se ele(a) não for zoado(a) pelo nome, será por outra coisa. Então relaxe(?).
    O máximo que se pode fazer é dar um nome que não vá causar transtornos na vida da pessoa, no sentido dela ter que soletrar sempre que comunicar o nome a alguém ou ter que pronunciar uma infinidade de vezes para se fazer entender.