Escrito por Kid em May 31, 2004
Post bem grandão e polêmico, como há muito tempo eu não escrevia. Não tou pedindo pra você ler. Se tiver preguiça, dane-se. Vá “ler” o Kibeloco e salvar imagens para pôr no seu próprio blog.
E se for um fã de Korn, é melhor nem ler mesmo.

Korn. Uma banda pioneira no seu estilo. Um ícone do new metal. Uma das minhas bandas favoritas.
O grupo musical mais hipócrita que eu já vi na vida.
Opa, os fãs do Korn já devem estar pulando nas cadeiras (né não, xpl0d, ou Edu, ou lab, ou frost?). Calma, negada. Antes de mais nada é bom esclarecer que eu adoro Korn - como se vocês não soubessem. Arriscaria a dizer que é uma das minhas bandas favoritas, perdendo apenas pro Adema (cujo vocalista é irmão de Jon Davis, o lead singer do Korn) e pro A Perfect Circle. Acontece que há uma diferença entre um fã revoltado que ainda está até agora pulando na cadeira e eu: eu não deixo meu gosto pessoal se colocar na frente do meu senso crítico. O som dos caras é uma coisa; as atitudes escrotas que eles venham a cometer é outra. Não os conheço pessoalmente e portanto não tenho nenhum motivo para defende-los (ou não alopra-los).
Tenho certeza que todos aí já assistiram Y’all Wanna Single, o clipe mais recente do grupo. No vídeo, a banda critica a indústria musical, a maneira como produtores manipulam artistas para conseguir dinheiro e o monopólio de certos segmentos da mídia - no caso, estações de rádio e canais como a MTV - que são possuídas por gravadoras (e que de acordo com o que o clipe tenta passar, tocam apenas o que as gravadoras querem).
Enquanto eu assistia o clipe, deu uma vontade absurda de rir. Eu não sabia que o Jon Davis pagava uma de pseudo-punk-morte-ao-sistema. Ele tá querendo enganar QUEM!? A Dona Arlinda?
Antes de repassar (leia-se “ALOPRAR COMPLETAMENTE E SEM MARGEM PARA DESCULPAS FURADAS“) toda a ideologia rebelde que Jon e seus coleguinhas tentaram empurrar pra gente, vamos gastar alguns momentos para entender como funciona a indústria fonográfica.
Enquanto dure o contrato com sua banda-empregada, a gravadora exige que o grupo lance singles com uma certa frequência pré-determinada nos papéis* (que é exatamente o motivo do nome da música do Korn). O propósito do single é eventualmente virar um clipe (que é pago pela gravadora) e ser tocado em canais como MTV. A finalidade disso é divulgar o álbum que está por vir e assim dar lucro aos produtores (que são os caras por trás de toda a máfia musical).
Vale lembrar que há certos “padrões” a serem seguidos por músicos que querem ver seus clipes tocando na TV: um deles é a ausência de profanidade.
Não sabem o que é profanidade? É palavrão, caralho. Porra, cês são muito burro mermo.
Enfim.
O Korn escreveu uma música e filmou um clipe que expõe e critica todo o sisteminha que oprime e controla os artistas (os prazos, as exigências, etc.). O problema é que todo o processo de gravar/divulgar um clipe serve aos propósitos do próprio um sistema que eles supostamente condenam.
Não é apenas isso. No clipe, a banda auto-censurou os palavrões. Entendam que auto-censura é ainda PIOR do que censura convencional.
Bandas como Limp Bizkit lançam clipes com palavrões, sabendo que podem não ser exibidos. Dependendo da influência da banda, a MTV (pra citar um exemplo de meio de veiculação) dá uma “colher de chá” e edita os palavrões, deixando lacunas escrotas na letra da música.
Isso é se deixar manipular. O Fred Durst entende que faz parte do “comércio” que ele participa, então não pode fazer nada além de aceitar e ficar na dele. E ele também não é maluco para dizer “Ah, é? Então não vou mais autorizar a veiculação dos meus clipes na MTV!” O cara ganha dinheiro com esse sistema, e portanto fica na miúda. De quê adianta se revoltar, se você continua se submetendo àquilo que você se revolta contra?
Voltando ao ponto da censura: O que o Korn fez em Ya’ll Wanna Single foi gravar OUTRA VERSÃO da canção especialmente para o clipe, sem os palavrões. E por que uma banda se daria ao trabalho de entrar no estúdio e gravar a música novamente apenas para remover alguns palavrões?
Simples: relações públicas. Você pode falar mal da indústria que dá teu sustento e quebrar uma loja de CDs num vídeo, mas que os céus o perdoem se você falar palavrão. Não é bom para a imagem da banda. O que não é bom para a imagem da banda se reflete nos números de vendagem de discos.
Não é decisão do artista remover palavrões de suas músicas. É instrução DOS PRODUTORES.
Assim, surge uma nova versão da música, manipulada pelos interesses de quem lucra com o trabalho da banda. E o Korn ACEITOU isso (tanto que gravou outra versão mais light) para que seu clipe pudesse ir ao ar.
Ou seja, Jon Davis fala palavrão e “se rebela contra o sistema” mas, no momento que isso se contrapõe aos interesses de quem o financia (que é exatamente quem ele critica), ele recua.
(Resumirei o assunto, pois meu irmão já está gritando ali do outro quarto, me desafiando para uma partida do formidável Cáunterstráique. Além disso, o post tá ficando grande demais. Minha criatividade está sendo manipulada pela preguiça de vocês, talvez eu deva gravar um clipe destruindo uma loja de CDs para protestar.)
Minha cisma com os caras do Korn é por eles terem criticado o “sistema” ao menos tempo que se sujeitam a ele. Todo o propósito de gravar um single/clipe é cumprir agendas pré-determinadas por produtores (ou seja, o esquema condenado pela música). A auto-censura dos palavrões é uma manipulação. A própria exibição do vídeo não tem qualquer outro objetivo senão divulgar o novo trabalho - o que consequentemente dá lucros indecentes aos produtores da banda (aqueles que financiam a “máfia” que o Korn diz odiar). O clipe não tem a menor intenção de acusar a palhaçada que acontece no mercado fonográfico, apenas contribui para que ele se perpetue. Pura merda hipócrita.
O mais irônico é uma frase que aparece na tela do vídeo em um certo momento: “As gravadoras queriam mudar este clipe. Nós não.” Como se um artista sujeito à uma gravadora tivesse esse tipo de autonomia.
A verdade é simples: se você toma parte em um sistema, concorda com os termos e age conforme as regras impostas, você não tem o direito de reclamar. É como o pessoal que há algum tempo tava provocando rebuliço no Orkut, quando descobriram que suas informações pessoais se tornaram domínio do Google. Se assinou o contrato, você concordou. Se não gosta, saia. Mas usufruir do sistema e fazer pose de revoltado-ideológico-revolucionário é sinmplesmente babaquice.
…
Tão achando o esquema ruim? Eu tenho a solução: largue a gravadora e monte um selo próprio, menor e independente, mas onde você terá mais controle sobre sua banda. Você não terá que gravar singles de tempos em tempos (essa é a maior “revolta” da banda no clipe, vide o nome da música), não terá que se sujeitar às vontade de produtores, não participará do processo de monopolização e não terá que dar dinheiro às gravadoras opressoras.
Opa, mas aí você não será tão tocado na TV e não ganhará tanto dinheiro. Nesse caso, foda-se o discurso “vamos-mostrar-pra-todo-mundo-o-que-acontece-nos-bastidores-e-que-nós-odiamos-isso“. O que importa é a grana, não é mesmo, Davis?
*Essa obrigação de se fazer música “por fazer”, apenas para cumprir prazos, é alvo de crítica de fãs de estilos mais “undergrounds”, como metaleiros. Por essas e outras, eles erroneamente taxam o estilo como “comercial”. Mal sabem eles que estão sendo tão ou mais idiotas que algum fã de Korn que nem ao menos tente entender esta crítica e vão apenas me ofenda nos comentários por ter atacado sua banda favorita. Mas a briga “mainstream x underground” é assunto pra outro post…
Ou não. Nem venham ficar cobrando.
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