Escrito por Kid on Jul 30, 2004

Pronto, finalmente arrumei uma desculpa boa pra não postar.

Tou indo amanhã cedinho pros Istaduzunídos. Vou visitar o Trunks, aquele vagabundo do caralho. Fui verificar meu guarda-roupas aqui outro dia e descobri que o miserável levou minha camisa do Marylin Manson e minha wristband com a bandeira do Brasil. Ladrão sem vergonha. Lá vou eu buscar meus troços em outro país.

Voltar? Sei lá quando é que eu volto.

E vou de carro, maluco. A gente somos pobre, não tem esses negócios de viajar de avião, não.

Qualquer leitor que esteja na terra do tio Sam na próxima semana está convidado para aparecer em Fort Lauderdale e tentar acertar uma pedra na minha cabeça.

E lembro-vos que a Flórida é o lugar com mais brasileiros – e crocodilos – no mundo, além do país natural dessa raça. Ou seja, estou na expectativa de presenciar algumas putarias terrivelmente erradas por aquelas bandas. Concentração de brasileiro só dá nisso. Veja só o Brasil.

Aguardem posts narrando a aventura. Ou não, sei lá. Mó preguiça de digitar. Se alguém quiser digitar pra mim, eu vou ditando por telefone. Deixe o número de contato nos comentários deste post. Pago bem.

Só o que sei é que vou morrer de saudade da Vanessa.


Escrito por Kid on Jul 29, 2004

Oh, os tempos de internet discada… Em que belo mundo vivíamos, não? A internet lenta nos educava de uma forma que nunca saberemos valorizar, ou que muitos sequer conhecerão. Agora que todo mundo tem ADSL, internet a cabo, a rádio, a microondas e fogão, já tá tudo fudido.

No meu tempo, não tinha esse negócio de passar o dia inteiro conectado. Internet era um luxo que nos dávamos apenas nos fins de semana, ou durante as madrugadas. Graças a essa prática, eu aprendi o significado do pulso único, decorei todos os feriados nacionais do nosso calendário e descobri técnicas formidáveis para se manter acordado até a meia noite, horário da internetagem liberada. Hoje em dia o moleque mal liga o PC e, antes de ouvir o barulhinho de boas vindas do Ruíndows, já tá conectado, checandos e-mails, lendo comentários do blog e arrumando confusão numa comunidade do Orkut.

Não existia Google. Nós tínhamos que usar o Cadê, ou no máximo, o Yahoo!, que se somados e elevados à decima terceira potência não chegariam nem aos pés do sensacional banco de dados do deus dos sistemas buscas da internet atual. Se eu quisesse saber qual a capital da Guatemala ou a população do Turcomenistão, tinha que ESTUDAR. Tinha que pegar um ônibus, ir à biblioteca e garimpar entre os quinhentos milhões de livros um que pudesse tirar minha dúvida inútil. Ainda que preferíssemos pesquisar na internet, as duas horas que os resultados da busca demoravam para aparecer já eram suficientes para que desistíssemos daquele negócio de procurar respostas na internet e fôssemos fazer algo de mais valia.


Bate papo sem frescuras


Programinhas de bate-papo com opções como webcam, conversa por áudio, conferência, joguinhos e outras farofagens? Porra nenhuma. Tínhamos IRC, que servia exclusivamente pra teclar (e trocar pornografia, mas isso não vem ao caso).

Naquele tempo se exercitava a escrita. Hoje em dia não se tecla, a comunicação é feita inteiramente por smiles do MSN. Veja como esses emoticons substituem com facilidade sentenças inteiras:

= “Oi, tudo bom? Vi uma foto sua em algum site por aí e te adicionei na esperança que um dia você libere pra mim

= “Caralho, você é bicha mesmo? Achei que era brincadeira do pessoal!”

= “Sabe como é, isso nunca tinha acontecido antes. Da próxima vez eu juro que me concentro mais…”

= “Sei não, ein. Da última vez você foi embora sem pagar e eu me fodi.”

= “Você é interessante pra caralho.”

Não, não. Nada de imagenzinhas. A gente usava dois pontos e um parêntese. Essa era a nossa cara de feliz.

Sites eram objetos de status internéticos. Dizer “eu tenho um sáite, sabe” era o equivalente atual de “tou com CounterStrike e um Cd key original, e não te dou“. Você era até mesmo invejado. Se você conseguisse colocar um contador de visitas ou um guestbook, então!


Um belo trabalho de webdesign primitivo


Quem tinha um website era considerado O HACKER DA TURMA, ainda que linguagem HTML pouco – ou nada – tivesse a ver com atividades haxors. Vale lembrar que, naquele tempo, hacker não era quem invadia seu computador. Era aquele cara que sabia o básico sobre um, como desmonta-lo e faze-lo funcionar de novo.

Era padrão: o cara pegava um CD com cliparts e gifs animados toscos, apanhava para um editor de html paleozóico, arrumava um espacinho de uns cinco megas no Xoom, GeoCities ou StarMedia e colocava no ar uma página sem conteúdo algum, milhares de bugs e o indefectível “e-mail para contato”. Sim, nossa inocência nos fazia acreditar que um desconhecido qualquer visitaria aquela porcaria e ainda sentiria vontade de mandar um e-mail pra gente.

Mas naquele tempo, nós SABÍAMOS fazer páginas. Não existiam template shops com códigos pra gente copiar e colar. Hoje em dia até cachorros têm blogs, idosas viram modelos e não mandamos e-mails nem pras nossas próprias mães em seus aniversários.

Baixar vídeo de mulher pelada?! Impraticável. Não existia Kazaa, Emule ou similares antros de p2p (punheteiro to punheteiro). No máximo, nos satisfazíamos com um arquivo zipado com 20 fotos de amadoras, enviado por um amigo no IRC, que supostamente seriam de alguma ^-^LaNiZiNhA^-^ e suas amigas – de nicks igualmente toscos – , todas frequentadoras do canal #rio_de_janeiro. Não havia diversidade: eram sempre as mesmas fotos de meninas barrigudas, feias e peladas no box de um banheiro de alguma casa de praia. E entre as “modelos”, sempre tinha aquela que, segundo seu amigo, já foi comida por ele. Ou talvez uma amiga dela, porque ele sempre se confundia e apontava outra dizendo que as duas “eram muito parecidas”.

Com o advento da internet rápida pra caralho, qualquer um consegue achar e baixar filmes que vão desde um inocente strip tease incompleto até um vídeo de cinquenta minutos estrelando uma mulher cagando na boca de um cara que está sendo ao mesmo tempo sodomizado por um cavalo. Ou seja, todos esses doentes sexuais aí afora encontram a realização de suas fantasias profanas na grande rede mundial.


O melhor programa de digitação do mundo


E o que dizer dos jogos online?! A internet lenta me fez aprender sobre hardware e software, me fazendo preferir apenas jogos fuleiros, de gráficos asquerosos e que ninguém queria jogar mesmo, mas que eram os únicos que rodavam numa internet de 36,600 kbps. A baixa taxa de transferência da conexão não permitia o uso de programas de comunicação por áudio, então tínhamos que digitar todas as mensagens. Você tem idéia de quanto é difícil mirar a arma laser, digitar “toma essa, seu n00b fela da puta!“, voltar as mãos ao mouse e mandar um tiro na cabeça do n00b fela da puta em questão? Isso exigia uma coordenação motora impressionante. Minha invejável abildade de dijitação – totallmeent perfeita e sem erros ortógráficos, perçeba – veio daquelas noites de partidas intermináveis de Quake num servidor vagabundo da Uol.

A jogatina online nos tempos de internet discada exercitava até mesmo nossos dons premonitórios: por causa do lag, tínhamos que adivinhar onde o inimigo estaria dali a cinco segundos. Então, atirávamos naquele ponto, esperando que nossa previsão fosse correta. Era quase como brincar de queimada com olhos vendados, com a única diferença que você empunhava uma bazuca e seu inimigo não era o vizinho menor, e sim algum miserável nerd americano.

Falando em miseráveis nerds americanos, quem não teve um desses como o primeiro contato no ICQ? Internet ainda não era uma coisa muito popular. Era raro conhecer algum amigo que também acessasse, então você tinha que se virar com seus parcos conhecimentos da língua inglesa pra arrumar amiguinhos virtuais de outros continentes. Isso, além de te dar prática na língua estrangeira, expandia seus horizontes sociais, o colocava em contato com a cultura mundial e um monte de outras coisas bacanas. Já hoje em dia, um chat no MSN contém exatamente as mesmas pessoas que você já vê todo dia na escola.

Esses guris de hoje em dia não sabem porra nenhuma, pois receberam tudo nas mãos. Eles nunca saberão a emoção de ouvir o barulhinho do modem após cinquenta e duas tentativas frustradas de conexão. O mundo gira rápido para eles, que estão montados em conexões Velox de duzencinquenteisseis cabáites. Morreu a internet arte.

Progresso é o caralho. Vou instalar um modem dial up aqui nessa porra. N00bs de Quake, eu voltei!


Escrito por Kid on Jul 28, 2004



De Juliana e Paulo, leitores fiéis do HBD. Esses dois ainda acabam perdendo o emprego por causa do meu diarinho. Imagina se o chefe deles os pega desenhando no Paint durante o expediente…

Pelo desenho e pelo risco que vocês correm perdendo tempo com o HBD, valeu!


Escrito por Kid on Jul 27, 2004



Sim, ando meio sem criatividade. Acho que já é algo notável por todos. As atualizações, antigamente diárias, começaram a rarear há algum tempo. Na falta de um assunto para escrever, recorri a “revisitar” alguns posts antigos, fazendo algumas modificações e publicando de novo.

O que me dá raiva é que vocês infelizes sempre percebem quando eu posto um texto antigo. Certa vez publiquei aqui um texto do antigo HBD, um que eu mesmo não lembrava ter escrito. Uns três de vocês acusaram a republicação prontamente. Não que eu esteja culpando vocês por isso. Mas PORRA, vai ter memória boa assim na casa do caralho. Nem EU lembrava.

Sabe, não é fácil escrever um texto novo todo dia – embora eu tenha tentado fazer isso por quase dois anos consecutivos. Não é fácil ser sempre bem humorado e engraçadinho, ainda por cima quando sua vida não é exatamente o que você queria que ela fosse. Apenas meus amigos mais próximos sabem dos meus problemas pessoais-familiares (e me apóiam), porque eu prefiro evitar expor certas coisas aqui. Não usarei meu blog pra ficar tentando obter compaixão de leitores, pessoas que nem me conhecem. Isso aqui é um espaço que uso com muito carinho para semear a discórdia e levar o ódio ao coração dos fiéis. Ficar reclamando de problemas em casa é coisa pra blog gótico.

Nem sempre a gente tem ânimo pra trabalhar em cima de uma idéia, ainda por cima quando a gente sabe que não tá ganhando nada com isso. Nem mesmo reconhecimento, na maioria das vezes. A única coisa que já ganhei escrevendo foram inimigos, muitos inimigos. A maioria dos meus bons amigos virtuais se aproximaram de mim antes de conhecer meu blog.

É foda, sabe. Antigamente, os textos é que vinham a mim; eu não precisava sentar na cadeira e pensar sobre o que escrever. Tava no banheiro, ou namorando, ou fazendo qualquer outra coisa e de repente, tinha um estalo: “porra, isso é uma idéia fenomenal!” Vinha pro teclado e cuspia todo o texto no notepad. Pronto, taí um post. Não raro tinha mais de uma idéia por dia, digitando tudo avidamente.

Um ritual que durou um bom tempo. Por motivos adversos, minha criatividade foi dar voltinhas – e não avisou quando retorna, essa puta.

Eu me sinto um tanto quanto incomodado por isso. Ser chato, aloprar os outros e escrever sempre foram minhas paixões. O blog foi o único meio que encontrei em toda minha vida para combinar todos esses passatempos e ainda receber elogios por isso. Agora que eu não sinto mais a mesma empolgação em escrever, é como se tivesse passado por uma fase da minha vida que eu não necessariamente queria passar.

Mas são fases, de qualquer forma. Lembro que no HBD antigo, eu postava três ou até quatro textos por dia, quase todo dia. Aos poucos os assuntos se tornaram escassos, e me limitei a uma publicação por dia. Finalmente, até mesmo o ritmo diário se tornou difícil de manter.

Eu faria uma imagem para ilustrar esse gráfico (de)cadente, mas tem uma muriçoca em cima do meu mouse.

Ah, odeio desabafos. Ainda mais quando saem totalmente desconexos e mal escritos como este.

Resumindo: Tô um pouco sem assunto nos últimos dias, o blog não acabou (ainda), continuarei tentando postar quando idéias surgirem, e vão tomar na bunda só pra não perder o hábito. Enquanto isso, vou ficar atualizando meu fotolog secreto (tão secreto que apenas uns três leitores conhecem), porque fazer upload de foto e inventar uma legendazinha espirituosa é mais fácil.

E pra quem perguntou, meu e-mail é esse. Quem quiser bater um papo, tamos aí

Mas por outro lado, não fique chateado se eu deletar você do meu MSN; não é nada pessoal. Minha lista vive lotada e, para adicionar mais pessoas, eu preciso deletar algumas com frequência. As vítimas são geralmente aquelas pessoas que adicionei, mas com quem não converso muito. Logo, se você não fala comigo por mais de uma semana, é capaz de que seu contato já tenha ido pro limbo.

Sim, minha lista do MSN é a prova cabal da teoria da seleção natural. Só os mais interessantes sobrevivem

E o engraçadinho que postar a URL do meu flog nos comentários será banido com requintes de crueldade.


Escrito por Kid on Jul 25, 2004


Porra de microafinação!


Meu ex-baixista aparece no MSN depois de anos sem conectar. Puxo um pvt com ele, e o cara logo de pronto já vai dizendo que “tá puto”. Eu, educadamente, pergunto o porquê de sua putice.

Ele está puto COMIGO, porque a guitarra que ele me emprestou há algum tempo teve sua ponte de microafinação fodida. Xeu explicar.

Num belo dia eu estava tocando, e duas tarraxas simplesmente CAÍRAM do instrumento. Eu sequer encostei nelas; estava fazendo uma animada interpretação de One, do Metallica (acabei de aprender os solos) e ouvi quando uma duas cordas (as duas mais finas) se afrouxaram subitamente. Percebi o que tinha acontecido: As tarraxas simplesmente soltaram-se. As ranhuras que as seguravam estavam gastas.

Só há duas formas para estuprar uma ranhura: ou você arranca a tarraxa com um alicate (a peça é praticamente um parafuso, aquilo não sai com facilidade), ou você aperta DEMAIS quando for afinar, fazendo com que as ranhuras se desgastarem. Só um imbecil sem o menor tino musical faria qualquer uma das duas coisas. Sabe como é, ainda não tenho fama o suficiente para sair estourando guitarras por aí.

Ele me perguntou sobre as tarraxas que faltavam no equipamento, então entendi que ele não saca muuuuito do equipamento. Expliquei para ele que as peças não ficam mais no lugar. Não adianta. As ranhuras já eram. Agora, só trocando a ponte inteira. Isso serviu para deixa-lo mais puto, porque ele pensava que as peças apenas tinham “caído” e que não haviam havia danos no instrumento.

E aí vem a parte legal: segundo ele, a guitarra não tinha defeito nenhum quando foi passada à minha pessoa. Estava perfeita. Era quase nova.

Porra, vamos lá, ein? Qual a diferença entre “quase nova” e “caindo aos pedaços“? “Quase nova” é apenas um eufemismo para “velha pra caralho, tava aí no canto da parede pegando poeira há quatro anos“. Você não chama uma guitarra NOVA de “quase nova“. Você não chama nada que esteja em boas condições de “quase novo“. O “quase” alopra toda a sentença, é o que divide de um equipamento que acabou de sair da loja de um que foi encontrado no meio da rua, coberto de cocô de cachorro e panfletos de vereadores.

Ao qualificar a guitarrola como “quase nova“, o cara entregou o ouro. O negócio devia ser velho como o tempo, e ele deu a sorte de ter outra pessoa quebrando-o. Assim, ele pode cobrar satisfações e ficar puto. É sempre legal ficar puto com alguém.

Ofereci-me para pagar o prejuízo prontamente, claro. Tudo bem que o negócio deveria estar nas últimas mas, de qualquer forma, foi danificado enquanto estava sob meus cuidados. Independente de que a guitarra estava quase se desintegrando, era minha responsabilidade. Falei para que ele procurasse o preço de uma ponte nova, e fica por minha conta (leia-se “do meu pai, outro que vai ficar puto com a história“)

Mas o cara continuava revoltado, vai entender. Ganhar uma microafinação nova não deixa mais as pessoas alegres.

E lá se vão minha economias para comprar uma Les Paul…


Escrito por Kid on Jul 24, 2004


Vida escolar


Não era apenas na faculdade que eu tinha minhas emocionantes aventuras. As presepadas em que eu me metia vêm de uma data mais longíqua: o ensino fundamental. Desde aquela época minha vida estudantil já era uma grande putaria que não prometia muito além de uma formatura arrastada por pena dos professores, e um emprego de meio expediente em algum escritório meia-boca (opa, eu já trabalhei em um).

Naquele tempo, a atividade criminal que eu desempenhava era o maligno roubo de merenda escolar. O pátio da escola era o cenário das ações mafiosas. O esquema era basicamente o seguinte: eu e alguns colegas de mau coração (assim como este que vos fala, que quando morrer vai diretinho pro inferno) interpelávamos as crianças que comiam avidamente seus pastéis de queijo com orégano – que eram uma delícia e custavam um real na cantina da escola -, com a intenção maliciosa de toma-los, usando força bruta e beliscão no peito se necessário. Ou seja, a turma enquadrava os pivetes e metia aquela pressão.

Essa era a nossa tática maestral: abordar o alvo em grupo. Dificilmente alguém se rebelava contra a exploração se atacassemos todos juntos. Claro que o pastel teria que ser dividido entre a quadrilha, mas os resultados de um ataque em massa eram sempre melhores.

Se o garoto fosse esperto, ele racharia o lanche com a turma e ninguém saía ferido ou chorando pra coordenação. Se não…

Bem, nos primeiros instantes não acontecia nada, e o malandro achava que ia sair impune. O pobre infeliz continuava a comer seu pastelzinho de queijo com guaraná quando de repente, não mais que de repente, alguém passava correndo e ACIDENTALMENTE mandava um tapão na mão do moleque, derrubando seu pastel. Antes que a criança ao menos pensasse em recolher o lanche do chão (alguns sopravam a areia do pastel e continuavam a comer sem a menor cerimônia, aqueles pivetes da quarta série eram uns nojentos mesmo), a turma ACIDENTALMENTE corria pra cima do quitute e ACIDENTALMENTE pisoteavam-no até que ficasse irreconhecível. Então ACIDENTALMENTE cantávamos um hino de escárnio, apontando para a cara do egoísta que não quis repartir a guloseima com os marginais que não tinham dinheiro para comprar uma.

(Tudo sem querer, porque somos todos inocentes.)

A vingança era maligna, mas essa era a lei. Divida o lanche e todos ficam felizes; tente escapar da extorsão e algum INFELIZ ACIDENTE poderia acontecer num futuro próximo.

Tática mafiosa mesmo. Eu era o comandante das nefastas operações de roubo de lanche, quase um Al Capone de 14 anos. A diferença é que eu era bem mais bonito.

E que ninguém ousasse cagüetar os criminosos!

Ocasionalmente uma vítima corajosa nos reportava às autoridades. Uma vez um certo guri, cujo pastel pisoteado trouxe lágrimas aos olhos, correu para a coordenação da escola pra dedurar todo mundo. “Ah, esses filhos da puta me pagam“, deve ter pensado o pobre menino lá com seus botões pré-escolares. O moleque inconsequente assinou a própria execução.

Por medo da nossa retaliação, o X-9 não apontava diretamente o autor do crime (aquele que maldosamente derrubou seu lanche). O máximo que ele fazia era “foi aquele ali, tia!” Nesse instante, “aqueles ali” já tinham se espalhado, se afastando da cena malandramente, como quem não quer nada.

Algumas vezes o coitado nem ao menos conhecia aquele que derrubou seu pastel, porque o colégio era grande. E além disso, todos sabiam que, uma vez fora dos portões da escola, o buraco era mais embaixo… Dessa forma, passei um ano inteiro lanchando de graça, impune.

Para evitar as delatações, inventei uma nova estratégia que foi posteriormente agregada oficialmente à prática tradicional (posso dizer sem modéstia que praticamente re-inventei o conceito milenar de roubar lanche, que vem desde os tempos bíblicos): o lance era dar à coisa um tom de brincadeira. Se chegássemos rindo, pulando, com gracinhas e firuleiras, podíamos alegar que estávamos apenas brincando e não realmente intencionados a roubar o lanche do guri. Essa idéia genial me livrou de várias suspensões, pois não havia como provar as intenções nefastas.

Notem que minha mente demoníaca voltada para o mal já me dava seus primeiros frutos. Caralho, acho que nunca na vida tive uma idéia que levasse alguém a pensar em coisas boas ou que servisse para o bem da humanidade. Todas resultam em confusão entre a galera, brigas insolúveis ou quedas de aviões.

Mas melhor que isso era roubar lanche diretamente da cantina do colégio. Em dias de rush, quando ninguém trazia lanche de casa, a cantina ficava absurdamente lotada. Os carinhas que trabalhavam na cantina ficavam sobrecarregados, e tudo que viam em cima do balcão eram as dezenas de guris com suas mãos estendidas, esperando receber seus lanches, enquanto gritavam “cadê meu lanche, me dá meu lanche, puta que pariu, quero meu lanche…“.

Eu e alguns amigos nos infiltrávamos na turba, estendíamos os braços e nos juntávamos ao coro do “cadê meu lanche, me dá meu lanche…“. Totalmente confusos pelo nosso barulho (que se juntava com o forró que a cozinheira ouvia em seu radinho de pilha enquanto fritava mais lanches), os balconistas da cantina saiam entregando – quase JOGANDO, pra falar a verdade – pasteis para todo mundo. Vez ou outra algum dos nossos conseguia filar um. Se ninguém mais conseguisse pegar um salgado, aquele que teve êxito tornava-se vítima da mesma extorsão que os guris menores sofriam.

Era um mundo cruel, mermão.


Escrito por Kid on Jul 23, 2004



Demolidor é provavelmente o PIOR longa metragem de super herói que alguém já teve a cara de pau (pra não mencionar “ganância”) de filmar.A onda de filmes baseados em quadrinhos provocou uma avalanche de títulos: SpiderMan, X-Men, Hulk, Justiceiro, HellBoy, Homem Pirulito… todos os bons super heróis já tiveram seus filmes produzidos. E agora, o que fazer?

Contratar atores meia-boca para fazer filmes de super heróis para os quais ninguém dá a mínima mas que, no entanto, serão assistidos por milhares de pessoas!

Essa solução simples de algum produtor executivo de um estúdio holywoodiano foi o estopim para a produção de um belo fiasco: o filme do Homem Sem Medo.

Tudo em DareDevil é uma bagaça que merece ser bonitamente chutada em algum post-sinopse melhorzinho que eu venha a digitar no futuro quando se a preguiça permitir. A história é ruim, os personagens são ruins, a ambientação é ruim, as atuações são ruin e os efeitos especiais, oh meu Deus do céu, são ruins mesmo. Sério, é ruim ao ponto de dar vergonha. É uma ofensa a pessoas sérias que trabalham no ramo da computação gráfica e àqueles que anseiam em aprender essa arte. Ver um filme como DareDevil desmotiva alguém que acha que efeitos gerados em computador são uma boa ferramenta para melhorar um longa-metragem. Eu consigo fazer GIFs animados que parecem mais realistas que aqueles efeitos toscos que usaram nessa lástima a que deram o nome de “filme”. Talvez eu devesse ter enviado meu currículo pros produtores de DareDevil.

DareDevil é um filme que prova que é importante conhecer a história de um personagem se você vai fazer um longa-metragem sobre ele. Se você apenas coloca um cara com o mesmo nome usando a mesma roupa, o resultado não sai muito legal. Que este erro seja aprendido, e que essa lição seja a única.

Por alguns instantes você até tem a leve impressão que alguém naquela produção é um ator profissional; pena que esses momentos são raros. Se a equipe de casting tivesse empregado caranguejos para produzir a película, provavelmente teriam conseguido atuações melhores que o Ben Affleck e aquela outra menina que faz uma super heroína que acaba morrendo. Sim, ela morre. Acabei de tornar o filme ainda mais inassistível. Nada justifica que você alugue essa porcaria a menos, é claro, que jogar dinheiro fora e assistir filmes ruins seja o seu hobby.

Sério mesmo, o filme é uma merda muito horrorosa, daquele tipo que você precisa dar 3 descargas para mandar pelo cano porque a namorada vem vindo aí. O filme gasta três minutos para contar a história do herói e uns quarenta e cinco numa chatíssima cena de luta com uma personagem que foi apresentada tão abruptamente, que foi quase como se ela tivesse chegado de paraquedas na cena gritando o próprio nome.

A única coisa boa em assistir esse filme é porque você pode brincar de “Qual é a cena mais ridícula?“. Há muitas concorrentes de peso em DareDevil. A minha preferida é quando um vilão (que é tão expressivo quanto uma fralda descartável) quebra um vitral de igreja, CATA OS CAQUINHOS DE VIDRO EM PLENA QUEDA e os joga contra o Demolidor. Nosso herói, ao invês de fazer o óbvio (dar um passinho para o lado), sai dando backflips, como se isso o protegesse de vários pedaços de vidro voando em sua direção. Nem lembro como termina essa cena, eu estava rindo demais e pensando em uma forma de transcreve-la num post. Algum dia pegarei esse filme na internet pra poder assistir novamente essa sequência. Vou me esforçar para pensar em coisas tristes como a morte do meu cachorro ou o fim do fotolog da Dona Arlinda. Isso talvez ajude a controlar os espamos epiléticos de riso que a atuação sofrível daquele elenco (combinada aos efeitos especiais que parecem ter saído de uma produção dos anos 80) provocam.

Destaque especialíssimo para o tal Bulzái, o inimigo palerma com um alvo na testa. Ele consegue ser, ao mesmo tempo, uma mancha no currículo do Collin Farrel e o vilão mais ridículo de toda a história da cinematografia. Notem que ele competiu com adversários de peso como o Bison de Street Fighter ou o cara vestido de Mariposa de espuma em Godzilla versus aquela Mariposa de espuma, com a diferença que a Mariposa atuava um pouco melhor.

Se eu soubesse o quão ruim Demolidor era, eu teria preferido fazer algo mais prazeroso que assisti-lo, como jogar ácido nos olhos ou prender meu nariz na porta do carro. A parte do ácido nos olhos eu provavelmente ainda vou fazer, para remover da minha retina a péssima atuação do Michael Clarke Duncan e me fazer acreditar que ele nunca participou desse filme.

Mas DareDevil é um excelente formador de opiniões: antes eu tinha muita vontade de assistir o filme – parecia ser legal e tal. Quando ele acabou, eu desejei ser capaz de criar uma máquina do tempo para voltar duas horas no passado e me alertar de não assisti-lo. Isso é pra você ter uma idéia de quão influente o filme é.

E alguém deveria ter dito pro diretor daquele lixo que Newton descobriu algo chamado gravidade e que, graças a ela, seres humanos não voam nem andam nas paredes. Exceto, é claro, se você descobriu a verdade sobre a Matrix.