Escrito por Kid on Jan 30, 2005

(Sem paciência de escrever sobre a viagem a Parrysound. Fiquem com a continuação do texto sobre o show do Slipknot. Aos que têm memória ruim, leiam o finalzinho do post original pra se situar novamente na história.)

Voltamos para o estabelecimento, apenas para ser agraciados com a notícia de que Banda Bunda já havia cessado de causar danos aos nossos ouvidos com uma série de ruídos desconexos que alguns mais ignorantes poderiam ter confundido com música.

Veio então Killswitch Engage, a segunda promessa da noite. Logo de cara, surpresa chata: Howard Jones, o vocalista, explodiu a própria garganta num atentado suicida na faixa de Gaza. O vocal daquela banda que tocava previamente, daqui em diante referida como Banda Bunda, preencheu a lacuna, porém no mesmo sentido em que você preencheria um vasilhame de ouro com merda líquida. O cara cagou em cima da ótima banda que é o Killswitch. Além disso, eles só tocaram umas cinco músicas, e como nenhuma delas era a que eu estava esperando (The End of Heartache), por mim eles poderiam nem ter se apresentado e diminuído o tempo de espera para a grande banda da noite.

Os caras do Killswitch fecharam sua performance, agradeceram a colaboração do público que foi paciente com o cantor substituto e evitou atitudes menos receptivas como subir no palco e atirar nos integrantes da banda, e se mandou. As luzes acenderam, e a turma começou a se dispersar em direção as barraquinhas de lanches. Slipknot se preparava pra subir ao palco.

E, após uma meia hora, de fato subiram. E o que antes poderia ser intitulado como “uma grande massa de pessoas participando de um show” se transformou numa verdadeira zona de guerra. Em poucos riffs de guitarra, tudo virou uma confusão do caralho.

Enquanto Corey (e eu também) se esgoelava em Duality, pessoas pulavam, corriam e caiam por todo lado. Vi gente nocauteada sendo carregada pra longe da confusão. Levei algumas porradas nos braços e ombros. Seguranças corriam pra dentro da massa de malucos tentando conter a turba de começar a se matar, mas era tarde demais.

Left Behind. A multidão simplesmente enlouqueceu. Garrafas dágua voavam, camisas voavam, casacos voavam, sapatos voavam, pessoas voavam… Parecia que a própria lei da gravidade deixou de exercer seu poder em Mississauga. Levei mais umas duas porradas na orelha. De súbito, uma mosh pit (as famigeradas Rodinhas de Porradaria) se abriu justamente EM MINHA VOLTA. Temendo pela existência dos meus filhos ainda não nascidos, sai correndo em disparada. Alguém caiu aos meus pés e foi pisoteado pela turba louca. E então começou o crowd surfing.

Pra quem não sabe, crowd surfing é o esporte – e porque não chamar de arte – milenar de ser carregado pela multidão em um show. Crowd surfing, juntamente com desativar bombas e retirar dinheiro em um caixa eletrônico no Brasil, é uma das atividades mais perigosas e imprevisíveis que a humanidade conseguiu praticar sem levar-se a extinção prematura. Muito mudou desde a Idade Média, a época em que esse perigoso esporte surgiu (embora na época ser carregado por uma multidão não era conhecido como “crowd surfing” mas como “preparação para linchamento”), mas a essência é a mesma.

Há apenas um requerimento para o bom andamento de um crowd surfing, e infelizmente não depende do crowd surfista: todos os surfados (aqueles que estão levando o surfistas) devem sempre joga-lo na direção de potenciais surfados. O pré-requisito para ser surfado é apenas um: você deve estar voltado para a direção de onde o crowd surfista está vindo. Se você está de costas para ele, você não estará preparado para segurar um maluco de 80 kilos acima da sua cabeça, e muito provavelmente alguém vai se foder.

Para ilustrar as possibilidades que um crowd surfista enfrenta, eis alguns GIFs animados de minha autoria:



Acompanhem essa animação computadorizada – essa é a beleza da internet, que entre outras coisas permite a você chamar um gif animado com frames desenhados no MS Paint de “animação computadorizada” sem o menor peso na consciência. Nela, todos os participantes estão voltados para a mesma direção, garantindo que todos aproveitaram a brincadeira e ao mesmo tempo diminuindo drasticamente as chances de alguém sair da brincadeira com um olho perfurado ou braço quebrado.



O que vocês vêem acima é o resultado de uma má preparação dos atletas. Os quatro bonecos palitos da direita estavam atentos ao surfista e portanto desempenharam seu papel com eficácia e maestria. Já os dois da esquerda têm um problema no cromossomo 23 e por isso preferiram prestar mais atenção no show do que no maluco que pairava sobre suas cabeças segundos antes. Nunca cometa tal erro, você se arrisca a transformar-se numa mancha de pixels vermelhos.

E foi o que quase aconteceu comigo e a patroa. Por causa de um empurrão que recebi, me voltei pra trás pra dar um safanão no empurrador. Para o meu espanto, vi a alguns metros um punk que vencia a gravidade e era levado à nossa direção numa velocidade que provocaria inveja em um F-22. Num momento decisivo, puxei a patroa pro lado. O punk voador estatelou-se no chão a menos de um metro dos meus pés. Eu até pensei em ajuda-lo a levantar-se, mas a multidão fechou-se em volta dele, fagocitando-o em menos de 2 milésimos de segundo.

E esse foi o show. Gente voando, gritando, caindo, desmaiando e sendo levada pra fora.

Ah, e a patroa me deu essa camiseta do Slipknot:

(Ao colocar a camiseta no guarda-roupa no dia seguinte, percebi curioso que todas as minhas camisetas de bandas de rock foram presentes de namoradas).

Enfim, foi formidabilíssimo. Tou juntando uma grana pra ver se compro o ingresso pro Taste of Chaos, uma turnê com The Used, Killswitch Engage e diversas bandas de importância secundária com as quais ninguém se importa.


Escrito por Kid on Jan 27, 2005

Interlúdio

Aqueles leitores que gastam algum tempo lendo o menu ali do lado, talvez pra acompanhar a lenta mudança da banda favorita do mês, já devem ter percebido que agora estou divulgando meu e-mail do MSN. O motivo é muito simples. De acordo com meus guias espirituais, se eu continuar tratando vocês como merda meu destino será queimar durante a eternidade no sétimo círculo infernal, lar de gente muito filha da puta como Hitler, o irlandês viado que nos custou uma medalha de ouro nas Olimpíadas, a pessoa que teve a idéia de fazer um filme da Elektra e vocês que se recusam a dar uma porra de um clique nessa porra de banner aí do lado.

Temendo pela minha pele e querendo evitar ao máximo encontrar com alguns de vocês no Outro Lado, decidi voltar atrás e ser bonzinho com todo mundo. Taí meu e-mail. Agora você pode interagir comigo em tempo real, ao invés de esperar eu te esculhambar nos comentários. Xinguem-me, mandem vírus, cadastrem em site de putaria, mas usem com moderação. Com sorte ganharei pontos de carma suficiente pra não ter que passar uma eternidade com o Knux.

Aos machos: Alto lá. No momento já tem cueca demais no meu MSN. Nada pessoal, é que conversar com homem já encheu o saco.

O que mais? Ah, sim.


Moleza


Nessa sexta-feira vou viajar pra Parrysound, uma cidade qualquer em algum lugar onde alguma coisa acontecerá neste fim de semana. Caso vocês tenham problemas cognitivos, não faço muito idéia do que estarei fazendo nesse lugar. A patroa me convenceu a ir pra lá com ela, a despeito do fato de que lá está fazendo 30 graus negativos, de que o homem do tempo previu mais de 60 centímetros de neve, da falta de internet e de que não poderemos trepar por aquelas bandas – até porque sob esta temperatura maldita corro o sério risco de perder minha genitália. Minha mãe sempre me mandou tomar cuidado com coisas que vamos precisar no futuro, então prudência se faz necessária.

Aparentemente haverá – ou haverão, deixo a escolha a cargo dos professores de gramática que lêem este diário, embora digo de antemão que suspeito que seja “haverá” mesmo – algumas atividades envolvendo esqui, snowboarding, patinação no gelo e quedas, não necessariamente nessa ordem mas certamente envolvendo o último fator. Com alguma sorte a atividade física desviará minha atenção do mundo digital por pelo menos umas duas horas. Levarei o Palm Pilot para jogar Pacman e talvez – quem sabe, né – escrever um post.

Falando em post, a continuação do show do Slipknot tá digitadinho e guardadinho para ir ao ar quando vocês deixarem de ser filhos de putas rampeiras e clicarem nessas porras de banners.

Merda. Tou tentando não ir pro inferno, mas vocês não ajudam também. Lá se vão duas horas em ave-marias para redimir minha alma.

Mas então. Em certa ocasião durante a semana passada tive oitocentas visitas e SEIS, sim, SEIS cliques, dando-me um surpreende lucro de quase treze centavos nesse dia. Mendigos das favelas mais sujas de Calcutá teriam rido da minha cara. E é culpa exclusiva e intransferível de vocês. Nesse dia me perguntei que general nazista foi o avô de vossas senhorias.

Então, recapitulando: meu e-mail tá aí, no fim de semana não haverá atualização, e cliquem na porra dos banners por obséquio.


Escrito por Kid on Jan 24, 2005


Eu os vi, vocês não


Sim, sim, sim: o show do Slipknot.

Antes, explicarei de forma resumida o acontecimento que me roubou o uso do computador durante uma semana que me serviu pra tomar consciência de o quão chata minha vida é sem essa maldita internerd. A despeito de todas as atividades que eu adotei para matar o tempo (piscina, leitura, academia, sexo), a crise de abstinência digital era de revirar o intestino. Fui pego mastigando o cabo da internet, numa lastimável tentativa de saciar a necessidade de logar na rede mundial de computadores pra discutir em fóruns.

Eram três horas da tarde. O show, se não me falha a memória, abria às cinco. Acontece que o público aguardado estava quase batendo na casa da dezena de milhar, e o local não era lá tão grande. Portanto, era imperativo que saíssemos de casa com uma certa urgência, evitando aquele comum porém desgradável pisoteamento na porta de entrada.

O combinado seria que meu pai me levaria à casa de Bruno, meu ex-baterista, e que iríamos ao show com ele. O problema é que eu tinha dado um pulinho rápido no apê da patroa, e quando voltei aqui pra casa, meu pai tinha sumido. Meu PC não queria funcionar de maneira alguma, e trancado nele – num arquivinho .txt no desktop – estavam os números telefônicos de Bruno e de todas as outras pessoas que poderiam me ajudar localizar esse filho duma puta rampeira. Além disso, leva uma hora pra chegar a Toronto, e o show era numa cidade-satélite ainda mais distante, Mississauga. Assim sendo, independente da situação, àquelas três horas eu já deveria estar saindo de casa rumo ao Arrow Hall. Com sorte, eu estaria chegando lá um pouco antes das portas abrirem. Obviamente, a fila já estaria monstruosa e eu estaria consequentemente fodido, e muito bonitamente por sinal.

Quem me conhece sabe que tenho pavio curto e um problema sério de ansiedade. Andando de um lado pro outro com o telefone na mão e sem saber como localizar meu pai – que teve o celular roubado durante sua estadia no Brasil, olha que beleza -, ou Bruno, ou ao menos como chegar à casa dele, a raiva e impaciência escalaram.

A raiva movida pela impotência diante da situação veio à superfície. Então, sem mais essa nem aquela, tensionei o corpo e liberei a raiva na forma de um chute no meio da parede do quarto do meu pai.

Qual não foi minha surpresa ao literalmente cair dentro da parede. Aparentemente as paredes canadenses não dispõem do aparato estrutural e/ou tecnológico (conhecido popularmente no Brasil como “cimento”) necessário para suportar chutes nervosos. Gesso não é exatamente diamante, então o mero peso do meu corpo franzino foi suficiente pra abrir um formidável rombo na parede. A inércia fez o resto do trabalho, depositando metade do meu corpo dentro do buraco, e a outra metade (a cintura pra baixo) apontada para o ar.

Alguns segundos se passaram naquela posição constrangedora. Cansado de ficar cara a cara com fragmentos de gesso e com as pernas no ar, içei-me (tá certo isso? “Icei” me parece estranho…) pra fora do buraco e contemplei a cagada que eu joguei em cima da já complicada situação. Resumo da ópera: meu pai viu o buraco, ficou muito puto e confiscou meu PC.

No fim das contas, acabei resolvendo os problemas logísticos envolvendo nossa ida ao concerto. Meu pai nos levou até o Arrow Hall, em Mississauga. Ele nos deixou lá na fila e se mandou.

A fila era um espetáculo à parte. Medindo pelo menos 50 pessoas de cumprimento e umas OITOCENTAS de largura, ela desafiava minha percepção da realidade. Só então entendi que a fila estava dando voltas e voltas, como várias letras S umas coladas nas outras com superbonder ou sua versão genérica, cuspe. Eu e a patroa nos dirigimos ao finalzinho daqueles S’s humanos.

O show já havia começado. Aquela fila era composta por pessoas que também se atrasaram e estavam portanto perdendo a abertura da apresentação. Enquanto me perguntava qual o tamanho dos buracos que aqueles indivíduos abriram em suas paredes, escaneei a turba. Punks, metalheads, skatistas, patricinhas, gente normal, estavam todos lá provando que Jesus só não agradou todos porque ele não aprendeu nada com o Slipknot.

Além de seu tamanho titânico, outra característica marcante da fila é sua capacidade inigualável de não mover-se nenhum centímetro sequer durante pelo menos meia hora, a despeito do fato de que as portas do Arrow Hall já estavam abertas e de que os fãs mais violentos já ameaçavam matar um de seus amigos se a fila não começasse a se mexer. A fila, indiferente a esses fatores que em qualquer outra situação significariam imediata movimentação ou ao menos a chamada de policiais, permaneceu estática.

De repente, aconteceu. Foi tão subito que fui pego totalmente de surpresa. Achei que iria cair. Minha mão, que estava distraida(porém prestativa)mente cocando minha bunda, voou de encontro aos apoios de metal que organizavam a fila, buscando evitar o iminente encontro do meu rabo com o asfalto gelado. Pessoas gritaram, cairam, peidaram, perderam carteiras. Tão repentina como havia comecado, a estonteante velocidade de dois passos por hora em que a fila se moveu cessou. Estavamos agora 60 centímetros mais perto de Corey Taylor e sua trupe, que é dividida entre dois grupos distintos, os Músicos Talentosos (Mick e Joey) e os Não Músicos e Menos Talentosos Ainda (aqueles pseudo-percussionistas ridículos que fazem muito pouco no palco além de correr de um lado pro outro).

A partir de então a fila comecou a “andar”. A cada espasmo da linha, éramos jogados para frente à astronômica velocidade de algumas polegadas por dia. O freio que impedia essa velocidade aluciante de me desprender da força gravitacional terrestre era um garoto punk que estava na minha frente. Aliás, justiça seja feita: o responsável pela minha parada não era o garoto punk mas sim seu suvaco punk, onde meu nariz invariavelmente se enterrava após cada série de movimento/parada da fila. A inércia, novamente, trabalhando em prol da minha fodeção.

Após cheirar muitos suvacos punks (eu furava a fila sempre que possível mas sempre acabava atrás de algum outro punk), nos vimos dentro da casa de show. A banda que berrava no palco era uma tal de Dead 13, ou Dawn 13, ou Damned 13, ainda não consegui definir. Os testemunhos oculares dos meus amigos não entram em acordo quanto ao nome que pendia no topo do palco, mas foda-se, ninguém foi pra ver essa bandinha bunda.

Após alguns instantes de headbanging de categoria (a grande vantagem do meu recém-adquirido cabelo comprido é a possibilidade de headbeanguear de verdade), a patroa decidiu dar um pulinho no stand de merchandising, onde camisas, sweaters, bonés e assentos de privada com a imagem da banda aguardavam compradores dispostos a dar pelo menos 30 dólares por cada item. Seguiu-se o diálogo, traduzido porém reproduzido na íntegra:

[ Becca ] Ah amor, quero ir comprar umas baboseiras lá na merch stand. Vamos lá comigo.

[ Kid ] Ok. (pensando “O dinheiro é teu mesmo…“)

(a patroa passa direto da banquinha de mercadorias e se dirige à saída do Arrow Hall)

[ Kid ] Sem querer indagar mas já indagando, pra onde diabos tu tá indo?

[ Becca ] Vou lá fora pegar minha carteira.

[ Kid ] ?!?!?!

[ Becca ] Tá ali, ó.

(Aponta pra um canto do lado de fora do Hall, onde seu casaco jazia)

Isso mermo. Enquanto eu achava que ela tinha deixado o casaco dela no coat check do local, essa gringa ingênua que dorme aqui em casa nas noites de sábado e não consegue falar “desisto” sem arrancar risadas tinha simplesmente jogado o casaco dela do lado DE FORA da casa de shows, sem qualquer tipo de vigilância que seja, com sua bolsa, carteira, CD player, cartão de crédito e, mais importante, suas pílulas anticoncepcionais. Curioso pelo motivo que a levou a fazer tal coisa, perguntei carinhosamente se a mãe dela a havia deixado cair no chão quando ela era bebê. Então percebi que havia uma miríade de casacos jogados ao chão do lado de fora. Ela me explicou que isso é lugar-comum em shows. Prevendo o calor dos infernos que faria do lado de dentro do estabelecimento, a geral simplesmente joga os casacos no chão do lado de fora. A patroa meteu a mão no montinho formado pelo casaco, pescou a carteira, estendeu a mão pra mim e me levou de volta pra dentro – antes mesmo que eu tivesse a chance de pilhar aquele monte de canadense bobinho. No entanto, convenci-a a trazer o casaco de volta pra dentro. Meu sentido aranha detectou brasileiros nas proximidades, é melhor se prevenir.

Sobre esse acontecido, não tenho palavras. Vindo de um país onde roubam sua carteira de dentro do seu bolso, fiquei simplesmente estupefato. Metade de vocês não acreditarão mesmo, e em verdade em verdade vos digo: fodam-se.

(continua…)


Escrito por Kid on Jan 21, 2005



Posso dizer que o resultado mais curioso da minha experiência escolar nos alpes canadenses é algo que já deveria ter sido previsto no dia em que um moleque na minha aula de matemática pediu uma calculadora para solucionar o mistério da raiz quadrada de 16, ou quando um outro em Antropologia pediu ajuda pra soletrar “tough” (ele teimava que era com um A): meu nível como estudante decolou em progressão geométrica elevada a quatro mais dois.

Como primeiro ponto nesta minha tese, cito a notável diferença do método de ensino. Aqui, a geral pode escolher as matérias que cursará durante o ano (que são apenas oito, contrastando com as quinze a que somos submetidos durante aquele período de prostituição mental e destruição de todos os valores morais que nós conhecemos no Brasil como “ensino médio”).

Como acontece em toda e qualquer situação em que moleques de 14-15 anos são agraciados com o privilégio de escolha que seja um pouco mais relevante que a cor da roupa que usam, isso resulta em inexorável porém previsível merda. Preguiçosos e vagabundos – porém equipados com livre arbítrio -, os guris procuram dar preferência a matérias extremamente desafiadoras como Preparação Alimentar e Higiene Pessoal em detrimento de disciplinas mais elaboradas, porém fundamentais para aqueles que não são sustentado por doações de teletons, como Matemática ou Gramática Básica. Essas escolhas acadêmicas dos canadenses, que são dominadas por 90% das pessoas que têm cozinhas, banheiros e alguma dignidade, são as culpadas por moldar uma sociedade em que um sujeito que saiba transformar kilometros em metros sem tabelas ou calculdora é um gênio.



Um colega canadense encara em desespero uma complicada equação de primeiro grau, enquanto os alunos do fundo já perderam toda a esperança de descobrir quanto é a raiz quadrada de 9 e então voltam sua atenção para um joguinho trazido pela professora


E foi justamente o que aconteceu comigo aqui. Maravilhados por minhas incríveis habilidades matemáticas (que incluem dividir números naturais de dois dígitos pela metade – de cabeça!!! – e dispor do aparato intelectual para descobrir hipotenusas escondidas atrás de um enigmático x), os canadenses olham para mim com o respeito e admiração que a maioria das pessoas endereçaria a um medalhista olímpico ou um ganhador do prêmio Nobel, e ainda assim apenas se estes tiverem namoradas gostosas.

Os caras deixam de aprender matemática pra cursar matérias que deveriam fazer parte da formação básica de qualquer ser humano que já tenha dispensado as fraldas, deu nisso: um desempenho escolar que envergonharia internos da APAE. O fato de que este país de primeiro mundo é habitado por pessoas que precisam de uma calculadora pra dividir números pares por dois me leva a crer que o sucesso de uma nação depende de algum tipo de ritual mágico que nós brasileiros não dispomos.

O destino me agraciou com uma formidável oportunidade de oferecer pra vocês uma amostra do que estou falando; entretanto, sinto uma dor no pâncreas por ter perdido meu celular-câmera e não poder imortalizar em .jpg a atividade a que a professora está nos submetendo neste exato momento (sim, estou digitando este post durante um aula – de onde vocês acham que veio a idéia?): estou recortando formas geométricas em feltro e costurando num pedaço de pano com os respectivos nomes. Até tentei sugerir atividades mais desafiadoras como decorar a tabuada de dois ou aprender a dar nó no cadarço, mas meus colegas de sala recusaram em uníssono devido ao fato que eles já estavam enfrentando considerável dificuldade em recortar o feltro de forma que o trabalho não parecesse ter sido feito por um cego com mal de Parkinson numa montanha russa. Cordenação motora não é um bem de que todos podemos nos gabar, aparentemente.

O segundo ponto que me catapultou de aluno-vagabundo-que-senta-no-fundão-e-faz-piadinha-o-tempo-todo para estudante exemplar é o supracitado detalhe da diferença no número de matérias administradas anualmente: temos em média quinze, ao contrário destes vagabundos que reclamam de oito – sendo que metade das tais te ensinam coisas como metodologia de fritar ovos e técnicas contemporâneas de limpar a bunda. Logo que cheguei aqui, os canadenses pouco sagazes me lembraram que o ensino médio canadense dura 4 anos, enquanto o nosso dura “apenas” 3 anos.

A verdade atingiu-os com a força de uma martelada no olho quando os lembrei que no Brasil estudamos quase o dobro de matérias que eles estudam aqui. Cada ano de Ensino Médio brazuca vale por dois canadenses, e olha que tou sendo generoso e considerando que todas as matérias que eles aprendem tem valor acadêmico – o que não é verdade.

Dessa forma, enfatizei o fato de que a diferença entre o mais vagabundo terceiro-anista brasileiro e o melhor estudante canadense é a mesma que separa um cientista de foguetes de um tijolo (com a diferença que um tijolo serve pra alguma coisa e não dá gastos ao Estado recebendo aulas imbecis sobre preparar macarrão instantâneo, escovar os dentes e cortar triângulos de feltro).

E o terceiro e final dessa porra de post que já tá grande demais é que, como se não fosse o bastante que a nota mínima de aprovação aqui seja um medíocre 5 (o que me garante uma vantagem extra que já já explico), alunos podem se formar independente de suas realizações acadêmicas, apoiando-se simplesmente em seu desempenho esportivo ou de um tal de “moral asset“, que em português significa “uma desculpa pra passar esses burros que não conseguem aprovação por conta própria“. Como receber aprovação por moral asset, você me pergunta? Basta se comportar um pouquinho acima da linha do permitido pelas normas sociais de bom convívio. Ou seja, se você nunca ameaçou um professor de morte à mão armada, explodiu uma bomba embaixo da cadeira do diretor, tomou parte em rituais satânicos no banheiro ou cometeu assassinato em primeiro grau nas instalações da escola, você já pode receber o moral asset.

A questão da média de aprovação é uma quesito à parte que garante com 100% de segurança a humilhação que esses canadenses sofrem em relação aos meus talentos estudantis. A média na minha escola era sete, portanto todas as minhas notas são iguais ou superiores a essa média. Mesmo nas matérias que eu menos gostava, minha nota é 5 vezes maior do que as maiores notas dos melhores alunos da escola.

Se eu soubesse que me mudar pro Canadá elevaria meu desempenho escolar a 456a. potência, eu nem teria começado o ensino médio no Brasil.


Escrito por Kid on Jan 19, 2005

Pensam que eu esqueci o acordo de trinta cliques, porra?

PS.: Porra, de novo, Luiz? Qualé, cara. Tá de putaria, né?

Num rompante de falta de criatividade para inventar paliativos – não que eu esperasse criatividade desse cara – ou simples cara de pau – ainda não consegui definir -, o notório plagiador diz que “adaptou” meu texto.

“Adaptou”, é mole? Controlevou-controlcelizou meu post, mudou algumas bobagens, pronto. Tá adaptado.



Vô te contar, se mudar pessoas que eu citei no meu texto por amigos dele é “adaptar“, a Academia Cinematográfica precisa rever os conceitos dessa categoria do Oscar.

“Adaptou”. Se copiasse e admitisse, talvez merecesse um crédito por ser safado confesso. Mas o coitado se apega a ilusão de que de alguma forma deu uma injeção criativa no texto, tornando-o um pouquinho “seu”. Acho que vou sair adaptando obras de Shakespeare, afinal de contas ele não está vivo pra me processar.

Ô manezão, será que custa tanto escrever um texto próprio? Você tá sendo pago pra isso, vamos começar a trabalhar?

[ Update ]



Arte do Trunks. Além de fazer tatuagens e cara de deprimido, o moleque desenha pra caralho.

Nada a ver com o post, mas merecia entrar aqui.


Escrito por Kid on Jan 17, 2005



Essa porcaria foi a melhor imagem que achei

Embora eu não ponha muita fé em filmes de super heróis, acabei indo ao cinema ver a conclusão (queria eu que fosse mesmo a conclusão) da “série” Blade. Digo “série” porque, se eu não usasse esse termo, você não conseguiria perceber que os filmes da franquia Blade são realmente partes de uma série, ao invés de uma repetição de atores e histórias, com uma leve mudança nos cenários.Então, prestando mais um dos serviços públicos pelos quais o HBD é tão amado pelas crianças asiáticas vítimas do tsunami, aí vai um breve resumo de Blade Trinity. Anote e estude, um dia um produtor da Fox poderá contratá-lo para escrever o roteiro de Blade vai ao Brasil:

Ato 1: A apresentação.

Alguns vampiros estão curtindo a vida adoidado, numa boa, quando Blade chega do nada e começa a chutar suas bagaças com violência. Vale lembrar que os vampiros são tão ameaçadores quanto um pirulito de uva, totalmente aleatórios, e que não significam absolutamente nada na trama. Sério. Poderiam substituir os vampiros por flanelinhas malabaristas, e a mensagem seria a mesma. Aliás, para um maior divertimento no cinema, aconselho a vocês que façam essa substituição mentalmente.
Ato 2: O desenvolvimento.

Após a chacina de criaturas luciferinas (ou de vampiros, se você optou por não fazer a substituição mental), Blade descobre – de formas mágicas – uma trama vampírica para acabar com o mundo como o conhecemos. O plano é terrível, maligno, demoníaco, infalível, bolado por vampiros ainda mais terríveis, malignos e demoníacos, entretanto requerirá menos de uma hora e meia para ser fodido. Seus criadores serão detonados por tabela, porque afinal de contas o Blade não perdoa ninguém.
Ato 3: A reviravolta.

Em sua melhor jogada – a única que o terrível Blade os permitirá fazer – os vampirinhos capturam o seu maior inimigo. Caso o negão não esteja disponível para ser tomado como refém, os vampiros malacos sequestrarão alguém que o Blade não odeie tanto (porque na verdade mesmo ele não gosta de ninguém).Mais-do-que-obviamente, Blade se libertará de seus captores. Caso o prisioneiro seja um quase-amigo do Daywalker, Blade ignorará o fato de que a base vampírica é o lugar mais seguro do mundo e se materializará cabalisticamente dentro dela, para resgatar a vítima – alguém que ele não necessariamente gosta, afinal, tenhamos em mente que Blade é mau.

Ato 4: A conclusão.

A partir daí, o resto do filme é mais previsível que a cena inicial onde Blade chuta a bunda de vários vampirinhos figurantes. Você poderia então bater a cabeça no teclado e o resto do roteiro já estaria pronto; se duvidar seria até melhor que os filmes pré-existentes da série. Digo, “série”.No desfecho da película, Blade está frente a frente com o terrível plano de destruição total da humanidade. Para reforçar sua malignidade, ele mata uns 400 vampiros-guardas que nao servem nem de bucha de canhao. Em seguida, luta contra algum supervampiro lendário que está na verdade só perdendo seu tempo. O suspense causa apuros intestinais nos espectadores. Para surpresa de todos, Blade ganha! Rolam os creditos, mas não sem antes explicitarem o mote para o próximo filme. Você levanta da cadeira e se arrepende de ter gasto X reais pra assistir um filme repetido.

No começo da análise, eu estava falando de Blade 1. No meio, me atrapalhei com as memórias e comecei a narrar Blade 2. No finalzinho, eu queria escrever algo sobre Blade 3, mas lembrei que dormi no meio do filme. Então completei com um misto do primeiro e do segundo. Por incrível que pareça esta resenha híbrida descreve não apenas blade Trinity, mas também os dois filmes anteriores, assim como os próximos a serem lançados.

Mas tenho que dar um crédito pela originalidade dos idealizadores do personagem: Blade é o único herói que é pelo menos quarenta vezes mais malvado que os vilões que ele tenta derrotar. Como se a ruindade do caçador de vampiros não fosse óbvia o bastante, os roteiristas tentam deixá-la bastante evidente. Eu seria capaz de apostar que deram ao Wesley Snipes uma cueca quatro números menores, para garantir que ele jamais daria um sorriso ao longo do filme inteiro. Tenho a impressão que Blade na Caatinga (uma possível continuação da série, em que Blade luta contra o terrível Saci Pererê, que bolou um plano para cortar as pernas esquerdas de toda a humanidade) conterá uma cena em que Blade rasga um coelhinho no meio e usa o sangue para grudar o selo numa uma carta-bomba endereçada à sede da Cruz Vermelha.

Marketing no cinema é uma técnica velha, mas nenhum filme foi mais eficientemente prostituído que Blade Trinity – nem mesmo Eu, Robô, com suas cinco propagandas nos dez primeiros minutos de filme. Lá pelas tantas, a turminha matadora de vampiros está se preparando para ir chutar mais algumas bundas. A garota matadora de vampiros está no banco de trás do carro, com um laptop e um iPod no colo.

- Que porra é essa? – pergunta o terrível Blade, que não é antenado nas novidades do mercado fonográfico.

- Ah, é o iPod dela. Ela gosta de ouvir mp3 durante as caçadas.

Um close na tela do computador revela o iTunes, e as músicas que – VEJA QUE COINCIDÊNCIA – são as mesmas da trilha sonora do filme.

Outro detalhe que merece uma citação é o fato de que Blade é a única série em que vampiros são mais fáceis de matar que seres humanos, o que praticamente aniquila qualquer vantagem de se tornar um filho das trevas. Em Blade Trinity (ou seria em Blade 2? Esqueci agora) um dos personagens humanos é praticamente empalado por um vampirão qualquer, e continua vivo. No começo de Blade 2 – dessa vez tenho certeza -, aquele velhote diz ter sido transformado em saco de porrada de vampiros por meses, e continua numa boa. Já os vampirinhos passam dessa pra melhor com míseros fachos de umas porcarias de lanterninhas high tech, e balas de prata (que ninguém lembrou de corrigir, mas são letais contra LOBISOMENS, e não vampiros. Acho que além de frangotes, os vampiros de Blade são também hipocondríacos).

Não perca tempo indo à parada de ônibus pra assistir esse filme no cinema. Ao invés disso, ande até a locadora e alugue Blade 2, dá no mesmo. Basta fingir que aquele velhote amigo do Blade morre no final, e aí ficará idêntico ao Trinity.


Escrito por Kid on Jan 17, 2005

Boas notícias

Recuperei meu PC.

Más notícias

Meu palm pilot se auto-formatou misteriosamente. O post do show do Slipknot, que era tão grande que foi dividido em duas partes, foi perdido para sempre. Haja paciência pra recontar a história.

Adendo

Porra, QUINZE cliques durante esse tempo todo? Vão tomar no cu, ein. Tou vendo que vocês não querem atualizações…