Escrito por Kid em Aug 2, 2005
Depois desse café da manhã super reforçado de 15 horas, continuo.
Estava eu jogando Diablo - um vício importado da infância, na época da jogatina online das madrugadas - quando alguém me mandou uma mensagem via MSN. Eu não sabia ainda, mas a mensagem era relativamente importante.
Mas acontece que eu estava levelando e caçando itens mágicos. Mais um pouquinho e meu persnoagem seria um Lvl 20 e pouco, não dava pra parar pra atender o moleque.
Dois dias depois fechei o jogo e voltei ao desktop. Finalmente li a mensagem; era o Max, um amiguinho da época do colegial. O cara dizia ter um emprego pra mim. Como ele estava offline, liguei pra casa dele. Do outro lado da linha, o cara me explicou do que se tratava.
Vendedor de picolé. Na bicicletinha e tudo mais.
Pausa de vinte e três segundos. Com uma mão no queixo acariciando a barba por fazer, analisei a proposta. Max me disse que o trampo é bastante cansativo, pois eu precisaria ficar andando pra cima e pra baixo com a bicicletinha de sorvete. Como sou um típico nerd cujo máximo exercício físico constitui a caminhada do quarto à cozinha e ocasionalmente ao banheiro, não preciso dizer que a expectativa me assustou.
Mas no fim das contas, eu quero mesmo é dinheiro. Decidi que valeria a pena ao menos tentar. Acessei o formulário virtual no link que o amiguinho mandou e esperei.
Uma semana depois, me ligam lá da Frosty Freeze, empresa dos picolezeiros. Fiquei sabendo que a tal Frosty Freeze é a distribuidora local da Kibon, que aqui foi nomeada TOSCAMENTE como “Good Humor”. Sério. Esse é o nome da empresa em inglês. Tem o mesmo logotipo e tal (aquele coraçãozinho), e o nome é escrito na mesma fonte até.
Ficou marcada uma “entrevista” no dia seguinte. O motivo das aspas é que eu já sabia, de acordo com minhas experiências passadas, que as entrevistas de emprego canadense não são realmente entrevistas. O empregador simplesmente explica em cinco minutos o que você deverá fazer e pergunta no fim se você aceita o trabalho. É literalmente só isso. A única coisa digna de menção a respeito a mini-entrevista é que o Joe Alguma-Coisa, o cara que me contratou, é fã de MPB. Quando falei que era brasileiro, ele estendeu o braço em direção à estante do escritório e puxou de lá um CD de Bebel Gilberto (que eu honestamente jamais havia ouvido falar), Caetano e Marisa Monte. Contou uma longa e desinteressante história de uma hora a respeito de como ele conheceu os artistas, numa loja brasileira lá em Toronto. Coincidência do caralho.
No fim das contas, aceitei o emprego e passei a me preparar psicologicamente pra barra pesada que eu começaria a enfrentar a partir do dia seguinte.
Cheguei cedinho no lugar, pra ver se fazia uma média com a chefia. Acontece que a bateria da minha placa-mãe tá fodida e o relógio do Windows tá zoado, então acabei chegando uma hora antes do começo das atividades do dia - assim, acabei pagando uma de mané. Aproveitei o tempo livre pra escrever um post no palm. Este post.
Os outros picolezeiros - tudo moleque da minha idade, ou mais jovens - começaram a chegar e se preparar pra labuta. Eu não fazia ainda a menor idéia do que esperar, então tava relativamente nervoso. Felizmente, a molecada que trabalha comigo é um pessoal muito sangue-bom. Os caras me deram todas as dicas, me deixaram um pouco mais à vontade.
Depois de um breve treinamento - que consistiu nas complicadas instruções “você anda de bicicleta, toca o sino, e vende picolés. É isso” - por um dos co-chefes, me deram vinte pilas em moedas pra usar como troco e me enviaram rua afora.
Já trabalhei algumas vezes na vida, mas em todas as ocasiões eram sempre um trabalhinho fácil, que dava pra fazer no maior corpo-mole. Houve aquele trampo no CPD de uma empresa de metalurgia no Maranhão, o formidável bico de Halloween em que eu me vestia de macaco pra dar sustos inarráveis em molequinhos indefesas bem diante de seus sádicos pais, e vários outras que ainda não escrevi post ainda. Em todos eles, o trabalho era bobo, não muito exigente e, no caso do de Halloween, até mesmo divertido.
Não é o caso com a bicicleta de sorvete. A parada é cansativa pra cacete. No fim do dia, eu tava acabadaço. Minhas pernas protestavam em forma de dores musculares a cada passo que eu dava. O pior de tudo é que a Warped Tour foi no dia SEGUINTE, ou seja, não houve sequer uma trégua pra dar um descanso aos ossos.
Mas tou me adiantando a história. Xeu começar do começo.
(Amanhã, que agora vou dormir)
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