Escrito por Kid on Mar 31, 2006

Estou abdicando minha naturalidade cearense, é sério. Acreditam que aquela porra do Jornal O Povo (que eu a propósito jamais comprei porque jornal é um negócio incrivelmente sem graça) escreveu uma materiola de tapação de buraco sobre blogs de cariocas, paulistas, gaúchos, mas não faz um comentariozinho sobre o do cabeça-chata aqui? Ignoraram a mim, o único material 100% cearense de exportação nos Canadás? Logo eu, que fiz gratuitamente inúmeras contribuições para a globalização da cultura paraíba, como por exemplo ensinar a namorada gringa a falar “baitola”, “quenga” e “rapadura”?! Isso é uma falta de consideração mais imperdoável que peidar no almoço.

Ceará, faça-me o favor de se foder.

(Não que seja preciso mandar, o Ceará já se fode há décadas.)

Bom, poderia ser pior. Ao menos não compararam o HBD ao Kibe Loco, como fizeram com o Cocadaboa. Ouch!.

A partir de agora sou OSHAWAENSE. Resigno minha insígnia de cabeça-chata comedor de calango para todo o sempre e amém.


A primavera finalmente chegou, e qualquer desculpa pra permanecer de molho dentro de casa jogando Pokemon no emulador do palm tornou-se injustificável - até porque o palm é móvel e eu não preciso mesmo estar dentro de casa pra treinar meu Blastoise, embora minha poltrona seja um pouco mais confortável do que a calçada quente.

Então, decidi explorar o ambiente das adjacências do meu prédio. Tracei meu plano num guardanapo durante o jantar, pensando “amanhã será um dia de muitas aventuras“. Acordei bem cedinho na manhã seguinte, o que foi possível graças a uma sensacional técnica que eu desenvolvi semana passada: basta deixar a janela aberta. Moramos do lado leste do prédio, e se você lembra alguma coisa das aulas de ciências da segunda série, deve saber que é o lado em que o sol nasce. Isso, aliado a algum tipo de entidade sobrenatural que rouba minha habilidade de evitar dormir com o rosto virado pra janela, faz com que os raios matinais cegantes perfurem minhas pálpebras como bala de fuzil na manteiga e me acordem antes que todo mundo. Ainda que eu tente levantar e fechar a janela, é tarde demais - perdi o sono.

Taquei qualquer roupa no corpo e saí em direção a um local mágico aqui nas proximidades do meu domicílio, mas que por refinadíssima vagabundagem eu nunca tinha me dado ao trabalho de conhecer: a Northview Library, que fica literalmente aqui na esquina.

Eu queria demais pôr uma foto do lugar aqui, mas vai ficar pra outra vez. Esqueci de levar a câmera quando eu saí, e o macaco treinado que programou a vergonhosamente horrível página da biblioteca não achou necessário ilustrar o site com a fotografia do estabelecimento. Tire um tempo na sua ocupada agenda pra visitar o asqueroso site da biblioteca; repare que a única coisa que a diferencia de uma homepage de 1996 é a falta do banner do Geocities no topo da página. Parece que o autor da página abriu o MS Frontpage 97, carregou o primeiro layout-padrão enquanto tirava fiapos de carne do dente com a unha, fez algumas poucas edições nos links e mandou a porra toda pro ar usando o CuteFTP enquanto um vídeo RealPlayer de Cavaleiro Duzodíaco baixava a incríveis 3kbps.

Mas o que falta em estilo, estética, profissionalismo, qualidade e basicamente qualquer tipo de característica que poderia redimir o site é compensado pelo excelente serviço da biblioteca pública. Pra começar, achei a biblioteca incrivelmente democrática - ao contrário de outras instituições mantidas pelo governo da província, eles não fazem distinção entre cidadãos canadenses ou moradores de outras nacionalidades. Enquanto a maioria dos estabelecimentos governamentais exige cidadania plena pra que você possa aproveitar dos seus serviços, a galera da Northview não quer saber se você passou por todos os processos formais de naturalização ou se você chegou no país flutuando em cima de uma porta e tá se escondendo da imigração desde 1989 - contanto que você possa provar que reside em Ontário, fica subententido que você está pagando impostos nos produtos que consome (o imposto é adicionado ao preço da etiqueta quando você compra qualquer coisa, você paga o extra no caixa), e em conclusão tua grana tá mantendo a biblioteca da mesma forma que o dinheiro dos gringos está. Todo mundo tem direito de usar aquela porra.

(Aliás, tem uma clínica de saúde sexual para jovens aqui em Oshawa que funciona sob a mesma política. Tive a oportunidade de ver em primeira mão a magia que transformou meus impostos em uma seringa descartável tirando sangue do meu braço, mas isso é assunto pra outro post que eu prometerei hoje e talvez escreverei no Natal de 2057)

Mal entrei na biblioteca e já fui furiosamente arrancando o palm do bolso, procurando um hotspot. Diz a lei não-oficial wifinesca que lugares como bibliotecas devem por obrigação ter uma forma dos nerds se conectarem onlinemente, ou a população se revolta e taca fogo no prédio. Acho que a galera de Oshawa não conhece a regra, porque não havia um router wifi na biblioteca. Nem mesmo um criptografado.

Mas lembrei que o objetivo de dar uma voltinha pelo bairro era justamente desplugar um pouco, então respirei fundo e enfiei o palm no bolso. Felizmente essa conclusão veio antes de eu ver a fileira de PCs com acesso online gratuito, ou eu teria ficado por lá mesmo.

Após morar por mais de dois anos naqui, eu finalmente cheguei à perfeita resposta quando alguém pergunta “mas cara, qual a principal diferença entre um país fodido como o Brasil e o Canadá?” A resposta é tão concisa, direta e satisfatória que eu acho que vou até programar uma macro de MSN pra colar a frase sempre que eu apertar Ctrl+Alt+Shift+Insert+B+4:

As instituições públicas funcionam.

A Northview é, sem chance de concorrência, a mais organizada biblioteca que eu já vi na vida. Não apenas organizada, mas bem muito bem equipada, abundante em eventos especiais pra comunidade* e exala uma sensação forte de “tudo aqui tem como finalidade servir bem vocês, negada”.

Pra começo de conversa, o cadastro na biblioteca é gratuito. O aluguel de livros é gratuito. Não há taxa de renovação, nem taxa pela carteirinha, você não precisa ir tirar fotos pra colar no cartão, nada. Chega lá, mostra alguma prova de que você mora na província, e pronto, cabou. Eu procurei desesperadamente por algum documento na minha carteira em que constasse meu endereço, mas não havia nenhum. Fiquei de fazer o cadastro outro dia, mas por enquanto nada me impedia de averiguar o lugar.

Uma das surpresas mais interessantes é que a biblioteca oferece trocentos milhoes de cursos de línguas e treinamento para voluntariado, tudo grátis. Decidi que finalmente acharei alguma coisa interessante pra fazer, e anotei um monte de telefones. O ambiente é muito arrumadinho, há salas pra reuniões que você pode reservar gratuitamente, há armários pra guardar seus cachimbos de crack, tem também uma sala de exibição de filmes onde toda semana eles, ahn, exibem um filme (gratuitamente), computadores com acesso à internet, porra, tem de tudo naquele lugar.

O que realmente me fez tirar o chapéu pro negócio é que eles alugam não apenas livros, mas DVDs também. Achei desde temporadas completas de Simpsons a Cidade de Deus (!), passando por séries inteiras de animes populares que até eu gosto um pouquinho, como Evangelion. E o aluguel de até cinco DVDs custa apenas UM DÓLAR, que na verdade atua apenas como “depósito de segurança”. Se eu não estiver enganado, eles até devolvem seu dólar depois que você traz os filmes de volta.

Fui à casa da namorada durante a tarde e cantei as maravilhas sobre a biblioteca. Os filmes baratíssimos, os computadores com acesso internético ilimitado, a organização pristina, o serviço eficiente, tudo. Ela apenas falou, com um rosto muito não-impressionado, que qualquer biblioteca - qualquer biblioteca PÚBLICA, ainda por cima - aqui é assim. E aí me lembrei de uma vez, há anos, que precisei procurar um livro na fodidíssima Biblioteca Pública Central em São Luís. Não preciso entrar em nenhum detalhe pra traçar paralelos entre as duas; qualquer pessoa que já dependeu de uma instituição que traz a palavra “público” no letreiro é familiarizado com o que eu encontrei lá. A gritante falta de interesse do nosso governo em relação a praticamente qualquer coisa de que o povão dependa é de entristecer e envergonhar. É meio melacólico admitir, mas me sinto mais bem tratado por uma terra estranha do que pelo meu próprio país. Aqui eu sei que meus impostos REALMENTE estão sendo utilizados pra alguma coisa que eu VOU usar, ou que eu gostaria de usar mesmo que não precisasse.

Amanhã vou lá sem falta tirar meu cartãozim. Levarei a câmera e passarei um caô bonito nas bibliotecárias, dizendo que escrevo pra um jornal online pra imigrantes brasileiro e que tou escrevendo uma matéria sobre a Northview. Com um pouquinho de carinho e paciência no Photoshop, produzo até um crachá semi-confiável pra dar mais credibilidade à história. Se eu tiver cara de pau suficiente pra tentar a mutreta, amanhã posto fotos do interior da biblioteca.

Não tem como não amar esse país.

*Perceberam que o orkut matou essa palavra? Hoje em dia não dá mais pra pensar em “comunidade” sem pensar em algo idiotamente associado à palavra, como “Odeio Acordar Cedo”.


Escrito por Kid on Mar 28, 2006

Canada - a terra do inverno que dura quase o ano inteiro, dos abortos grátis e do hockey no gelo, esporte glamorizado pelo clássico The Mighty Ducks, seja lá qual foi a tradução que a distribuidora deu pra vocês aí no Brasil. Foi basicamente o último filme de alguma expressão que o Emilio Estevez fez; só Deus sabe como o cara esteve pagando as contas desde então.

Apesar de morar aqui há dois anos, jamais havia presenciado uma partida de hockey - a menos que você considere válidas as jogatinas que alguns moleques da vizinhança travam na frente da garagem de casa. Como os moleques não usavam equipamentos de segurança oficiais aprovados pelo INMETRO (um deles nem patins tinha, e simplesmente corria atrás da puck, e um dos jogadores provou-se ser não um jogador, mas um mendigo que passava por perto naquele momento), eu não considerei. Então reitero, nunca assisti uma partida DE VERDADE desse esporte canadense.

(Puck é a “bolinha” do hockey, tá bom. Pra não parecer um esnobe, sacrificarei estilo por funcionalidade e chamarei o puck de “bolinha” mesmo.)

Não que eu esteja resistindo à cultura dos meus anfitriões, que me aceitaram em seu país e me cederam sua(s) mulher(es) com pouca ou nenhuma resistência, tratamento que eu aposto que os noruegueses não me dariam. O lance é que, sendo nerd por natureza, esportes me interessam muito pouco. Nunca fui chegado a “esportes nacionais”, nem quando morava no Brasil. Aqui não seria diferente. Esse negócio de sair correndo atrás de bolas ou pucks nunca foi a minha praia. Aliás, nem de praia eu gosto. Não sei se tem algo a ver com esse texto, mas taí. Falei. Odeio praia.

Mas na semana passada ou retrasada essa situação tomou um Adriane Galisteu-like giro de 360 graus celsius - fui convidado pra assistir um joguinho de hockey onde participaria o ilustre e desconhecido filho de um amigo de trabalho do meu pai. Pensei em recusar, mas eu não estava fazendo nada mesmo® e aceitei a sina.

O jogo era em Toronto, e a longa viagem de Oshawa até lá me deu tempo suficiente de levar um simples Geodude nível 23 ao nível 25, a partir de quando ele muda de nome legalmente para “Graveler” e aprende Harden - que é basicamente inútil. No caminho, a Gótica que eu trazia a tiracolo me explicava um pouco a respeito do glorioso esporte que é o hockey.


Um jogo emocionante

O hockey no gelo - ao menos a modalidade que eu assistiria naquele dia - consiste em uma atividade praticada por garotos de 12 anos que se jogam pra lá e pra cá num ringue de patinação adaptado pro esporte, brandindo tacos de madeira que medem o dobro do comprimento dos seus donos, tentando desesperadamente atrair a atenção dos seus pais por mais de 20 segundos enquanto esses sentam em lados opostos da arquibancada porque estão prestes a se divorciar. Tudo num jogo de hockey de crianças de 12 anos parece cuidadosamente arquitetado pra te fazer feliz. Se você não rir das tentativas frustradas dos pivetes de acertar a “bolinha” (o que frequentemente resulta em pauladas nas pernas e/ou cabeças de quem patina nas proximidades), atente a forma em que os 30 quilos de equipamento fazem os moleques patinarem com tanta desenvoltura quanto um tetraplégico que foi jogado numa piscina com um cofre amarrado nas costas. Há ainda a comicidade não-intencional do momento em que o treinador abre a portinha lateral do ringue e, sem mais nem essa, empurra um moleque pra dentro do jogo sem o menor traço de gentileza. O olhar de desespero no rosto do coitado é a coisa mais surpreendente que eu vi desde o dia em que flagrei uma amiga de sala trepando com o namorado, e por “flagrei” leia-se “o irmão dela me contou“, e por “o irmão dela me contou” leia-se “eu inventei a história para difamá-la na escola“.

Chegamos atrasados no lugar, então não sabíamos em que time o filho do amigo do pai estava jogando. Não fazia muita diferença, porque a habilidade dos times era igualmente inexistente, equilibradamente nula. Havia, se muito, UM jogador que sabia o que estava fazendo, invariavelmente sendo seguido por todos os outros num arrastão infantil mal coordenado visto antes apenas nas praias cariocas.

Havia o time amarelo, que chamarei de Time Amarelo, e o time azul, que chamarei de Time Vermelho. O Time Amarelo trazia estrelas proeminentes do circuito de hockey de crianças de 12 anos, como o irmão daquele outro moleque e o primo do filho do cara que tava organizando o jogo. Já o Time Vermelho, que foi considerado “uma estrela em ascensão no ramo hockeístico” pelo zelador do ringue, é um dos melhores times que já jogaram hockey naquele bairro, naquele exato instante em que apenas dois outros times jogaram.


uma das muitas coisas que eu entendi assistindo o jogo é que eu não entendo absolutamente nada de hockey. Substituições são feitas a qualquer momento do jogo, basta abrir a portinha lateral do ringue e empurrar um moleque pra fora, quer ele seja parte do time, quer ele esteja apenas assistindo o jogo na arquibancada. O jogo é dividido em vários “tempos” de mais ou menos cinco minutos, e o objetivo da divisão entre tantos “meio-tempos” é inexistente. Os jogadores podem passar por trás do gol, o que pra um brasileiro acostumado com futebol parece um desrespeito às leis da física newtoniana. Brigas são perfeitamente comuns, e o máximo de punição que vi ser administrada foi uma expulsão de dois minutos, nos quais o moleque vai pra um lugar chamado time-out box ou algo assim e fica lá sentado de castigo por 120 segundos. Levando em consideração a extrema falta de talento esportivo da molecada, remover um moleque do time era na verdade uma melhoria; cada jogador enviado pro time-out box era um jogador a menos pra se meter no meio dos poucos que sabiam o que estavam fazendo no jogo. Aliás, arrisco a previsão de que, se tirassem todos os jogadores e os substituíssem com tijolos, martelos e outros variados materiais de construção, veríamos um jogo superior.


Apesar de toda a minha falta de interesse no hockey, até eu tive que admitir que um esporte que obriga o goleiro a se fantasiar de Transformer merece respeito. A tarefa do goleiro é imensamente ingrata, porque apesar de que ele usa umas luvonas imensas e protetor de testículos cuidadosamente fabricado em Taiwan, ele é basicamente um alvo humano colocado na frente do gol, à mercê dos outros moleques de pernas finas como o da foto que provavelmente não resistirão à oportunidade de descontar suas frustrações juvenis no coitado.


A pivetada aguarda ansiosamente sua vez de ser empurrados pra dentro do ringue. Reuters

Lá pelo meio do jogo, quando finalmente entendi que a menos que um meteoro caísse dentro do ringue e matasse algumas das crianças jogando nada de digno de nota aconteceria, voltei minha atenção pro episódio de South Park que eu trazia no palm. Infelizmente, eu esqueci de trazer meus fones de ouvido, e assistir um vídeo em meio à gritaria ensurdecedora do inferno que se estabelece num evento dessa natureza é uma tarefa pra seres sobre-humanos. Desliguei o palm e me vi obrigado a assistir o jogo até o fim. O amigo de trabalho do meu pai virou-se pro meu lado, apontou pra um dos moleques e disse “olha isso, olha isso!”, visivelmente animado. Nada aconteceu por uns três minutos, e o jogo acabou. No zero a zero.

Talvez ele estava tão impaciente pelo fim do jogo quanto eu.


Escrito por Kid on Mar 27, 2006

Da série Não sou suporte técnico, filho duma puta ou Postando imagens enquanto termino um texto pra vocês


Escrito por Kid on Mar 25, 2006

[ Update ] Não é montagem, seus burros.


Escrito por Kid on Mar 23, 2006

Tanto insistiram que acabou sendo criado - o blog agora tem um canalzinho de IRC, o que me faz questionar a utilidade do Internet Relay Chat na era pós Instant-Messenger-com-função-de-webcam-que-incentiva-putaria, popularmente conhecido como MSN.


Israel Nobre - Usando padrões de cores carnavalescos no mIRC desde 1997

Mas não reclamem comigo, vão reclamar com o Soulzin MAX, que registrou o negócio.

O servidor é irc.voxliber.org, e o canal é #HBD. Estarei dando passadas frequentes lá, pra assinar autógrafos, beijar bebês, acenar pra multidão e dar entrevistas coletivas contanto que não façam perguntas a respeito de uma espinha que apareceu no meu queixo ontem à noite.

Se a noobice é o seu problema, não se mate ainda - aqui está um tutorialzinho com tudo que você precisa saber pra vir falar com a gente. Tá esperando o que, malandro?

E “vamos pra BrasNet” é o caralho.



Errata: O post citava Soulzin como responsável pelo canal, o que implica em dizer que o leitor é alguém de extrema importância, comparável apenas ao Papa ou ao cara que consertou meu PS2 antigo. Entretanto, o verdadeiro fundador do canal é o Max, e Soulzin é apenas alguém sem nenhuma importância. O HBD reitera não estar relacionado ou associado ao sujeito. Adicionalmente, ouvi falar que ele raramente usa desodorante e que trapaceia quando jogando War, tentando infiltrar exércitos quando os oponentes não estão olhando.

Obrigado.


Escrito por Kid on Mar 21, 2006

Vocês que lêem este blog com frequência a despeito do fato de que eu simplesmente deixei de leva-lo com a seriedade de outrora devem estar antenados no último melodrama virtual em que me meti - aquela saia justa no Wikipédia a respeito da permanência versus suprema eliminação do artigo do HBD. Rapaz, e que confusão bonita, como há muito não se via por estas bandas. Alguns chegaram a equivaler a putaria wikipediana ao julgamento de Michael Jackson, igualmente repleto de referências cômicas porém com consideravelmente menos crianças molestadas sexualmente.

Como deixei claro no começo dessa animada disputa internética a respeito da ética e democracia da suposta enciclopédia livre - tema que alguns debatedores mais exaltados tentavam insistentemente mudar pra “número de pirocas mulatas que os admins da wikipédia chuparam hoje, sem camisinha” -, não meti meu dedo canadense no meio daquela merda. Deixei que os leitores usassem sua habilidade (ou falta de, em muitos casos) comunicativa pra argumentar a favor do artigo.

Entretanto, minha imparcialidade suíça não me impediu de dar uma cuidadosa olhada nos argumentos, tanto pró como contra a permanência artigo. Achei muita munição pra detonar a já combalida credibilidade do grupo de moderação da Wikipédia portuguesa, comicamente composta em sua maioria por garotos de 15 anos que participam da comunidade a menos de dois meses (não estou exagerando). Porém, eu já havia decidido não usar o HBD pra manipular cuidadosamente a opinião dos leitores a meu favor, como costumeiramente faço, e assim sendo limitei-me a traçar comentários mentais ridicularizando a turma de elitistas que controlam a Wikipédia como se fosse um clubinho particular deles.

Distraído facilmente como só eu consigo ser, vi-me passeando por outras discussões a respeito de eliminação de artigos pouco enciclopédicos. Minha parada final, onde fiquei por mais tempo, foi a página de “piadas foleiras“, com a atenção especial à escrota gíria lusitana. Aliás, escrotidão lusitana parece ser o tema oficial adotado pela Wikipédia portuguesa. Creio que está na hora dos brazucas chutarem a bunda portuguesa mais uma vez e expulsá-los de onde eles pensam ser donos, mas isso é assunto pra outro post em que manipularei a opinião de vocês a meu favor.

Então, piadas “foleiras”, que imagino ter algo a ver com fole, tal como em “gaitas de fole”. Uma das incríveis vantagens do sistema wiki é que qualquer sujeito pode editar o acervo da enciclopédica, adicionando informações úteis e tornando o assunto mais rico. O problema é que antes mesmo de chegar ao fim da frase anterior você percebe que a idéia é incrivelmente auto-sabotadora, uma vez que 99% das pessoas na Internet parecem estar genuinamente dedicadas à atividade de foder tudo pra todo mundo.

E aí entram as piadas foleiras, que são edições tão deliciosamente sem sentido que se tornam piadas por si só. Jamais saberemos se os sujeitos maquinaram as edições com intuito claro de avacalhar ou se são apenas portadores de síndrome de Down que conseguiram alcançar o computador do hospital antes que os enfermeiros os alvejassem com dardos tranquilizantes atirados de zarabatanas. Inclino-me muito à segunda concepção, uma vez que alguns textos têm toda a ingenuidade e espírito infantil que apenas uma pessoa com problemas no vigésimo primeiro cromossomo exibiriam, mas isso pouco importa. Intencionais ou não, as piadinhas ganharam um espaço exclusivo na enciclopédia, o que atesta que “piadas foleiras” é um termo espantosamente escroto.

Abaixo, uma coleção dos meus favoritos disparates encontrados por aquelas bandas. Aproveitem.


Impecável estrutura gramatical.

Email via Wikipédia.

Algumas pessoas mandam cartões virtuais, outras vandalizam a Wikipédia.

Tão compreensível quanto o teorema de Fermat escrito em klingon.

Aula de geografia.

E o prêmio Nobel de química (acompanhado de prisão por porte ilícito de entorpecentes) vai para…

Internet - Trazendo de volta a pessoa amada desde 1997

Sujeito edita artigo livremente editável por qualquer pessoa com um modem, classifica o ato como atividade hacker e expõe-se ao ridículo público” - Notícias que eu nunca verei num jornal.

Besteirol sem rodeios e direto ao ponto. O autor do artigo não o concluiu porque era arrastado pra longe do computador por cinco enfermeiros.

Capitão Óbvio arruma trabalho como professor de geografia.

Irmã Gorete Conceição do Rego, da Igreja Universal perto da pracinha, diz o que pensa sobre religiões afrobrasileiras.

Eu não sei o que falar disso. Acho que dispensa tentativas de explicação.


Nem culpo mais os sysops da Wikipédia. Os caras estão tão acostumados a ver porcaria injetada naquele negócio diariamente que já apagam artigos alheios por puro reflexo.

Porra, há uma expressão em inglês que define muito bem esse tipo de atitude - o “knee jerk reaction“. Não há nada tão específico na língua portuguesa, ou ao menos não que eu me lembre. Maldita língua portuguesa e/ou minha fraca memória.


Escrito por Kid on Mar 20, 2006

Trunks desenhou uma série de tirinhas faz mais ou menos dois meses, e só agora me dei conta de que o moleque quer que eu publique o trabalho dele aqui. E que melhor hora pra fazer isso senão o momento em que eu tou com preguiça de escrever?

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Clicaí pra ver maior.

Já já (ou mês que vem) posto a próxima.


Escrito por Kid on Mar 18, 2006

Faça-me um favor? Pare esses torrents de CDs de Los Hermanos e vá até a sua cozinha (aliás, pare de qualquer jeito, Los Hermanos é uma desgraça). Encha um copo com água. Em seguida, despeje um pouquinho de sal dentro do copo. Misture com uma colher de sopa, ou com o dedo mesmo caso você seja muito hardcore e contra o sistema e obedeça tudo que um webmaster na internet mande você fazer. Agora mande tudo pra dentro, sem esquecer de gargarejar a mistura cuidadosamente por uns trinta segundos. Cuspa na parede.

Se a experiência acima não arrancou lágrimas dos seus olhos e não te fez esmurrar a parede de tanta dor, meus parabéns, você não está sendo vitimado por aftas do tamanho de moedas de cinquenta centavos.

Eu infelizmente não divido a sua sorte.

Desde semana passada minha boca virou o habitat natural de uma ferida circular e purulenta popularmente conhecida como “afta maldita”. A pereba surgiu de repente, como quem não quer nada, quando eu tava escovando os dentes outro dia aí. O contato da menta com o machucado doeu como trinta marteladas numa canela desprotegida, e então desisti de escovar os dentes naquela semana. Dias depois, o espelho do banheiro comprovou o que eu mais temia: a porra da afta ganhou terreno no lado interior do meu lábio inferior (riminha não-intencional atrai leitores, me disseram), tornando refeições uma experiência incrivelmente dolorosa, comparável apenas à perda de um familiar ou ter que assistir Resident Evil 2 pra resenhar aqui no blog.

Como se isso não fosse o bastante, notei anteontem o nascimento de uma segunda afta, do lado oposto da boca. Tipo, bem de frente da outra afta. Elas poderiam até trocar cumprimentos se fossem seres sentientes ao invés de pústulas bocais.

O aparecimento dessa segunda afta fodeu bonitamente a clássica estratégia de manipular a comida de forma que a mastigação se dê no lado sadio da boca, porque agora esse lado não existe mais. As duas aftas estão cobrindo uma ampla área na minha boca, não há mais como escapar da dor. A menos que eu bata meu almoço no liquidificador e chupe o purê de feijão com arroz e batata frita por um canudinho, tenho que me resignar a chorar a cada mastigada.

Revoltado por não poder mais degustar meus Cheetos sabor Churrasco sem que isso me faça praguejar pelo apartamento, voltei-me para aquele que sempre me ajudou em momentos de dor e sofrimento: o Google. Mandei ver “canker sores”, que são o anglo-saxão para a adorada “afta”. Antes que eu pudesse me perguntar “mas por que não pesquisei em português?“, o resultado apareceu.

E você sabe que a moléstia é muito satânica quando, após uns 5 mil anos de estudo da anatomia humana e das técnicas medicinais, ninguém sabe o que provoca as aftas. Se isso não prova que essa porra veio do inferno, eu reseto minha ROM de Pokemon. Tá, algumas aftas são apenas cortes ou fissuras na pele da boca, mas outras simplesmente aparecem sem nenhuma explicação. Se foder. E não tem cura, olha que beleza.

Porra, eu entendo não haver cura pra AIDS. Afinal, essa desgraça não tem nem 40 anos de existência, e além disso você não pode nem vê-la - num dia você está passando férias na Tailândia e pagando menos de cinco dólares por uma prostituta, e no outro tá na UTI tomando mil e um antibióticos pra não morrer de gripe comum. Mas afta existe desde que o homem tem boca, e um espelho denuncia sua existência. Como é que não há uma vacina pra essa porra, alguém me diga.

Há tratamento, ao menos - se bem que o tratamento não parece ser muito melhor que o problema. Alguns sites me informaram que, pra diminuir a dor, você pode bochechar uma mistureba de água com bicarbonato de sódio. A informação, infelizmente, veio com pelo menos 10 anos de atraso - o último bicarbonato de sódio que passou por minhas mãos vinha num kit Mini Químico da Estrela que matou o gato do vizinho.

Mas esse é o caso claro em que o remédio é pior que a doença, especialmente se você levar em consideração que aftas desaparecem espontaneamente em algum tempo. Sabe por que o bicarbonato com água alivia a dor? Porque ele destrói os nervos que enviam os sinais de dor pro seu cérebro, esculhambando permanentemente a estrutura da sua boca. É mais ou menos como explodir a própria casa porque você não quer esperar que a visita desagradável vá embora.

Ou seja, não há nada que eu possa fazer. A primeira afta está quase curada, ou ao menos estaria se eu não insistisse em comer Cheetos sabor Churrasco. Já a segunda tá fresquinha, lembrando-me a cada cinco segundos que meus molares são no momento meus piores inimigos. Engraçado que sem uma afta você praticamente não nota que os dentes estão em contato constante com a pele da boca, mais ou menos da mesma forma que sem a tua canela, você não encontraria a quina da mesa de centro no escuro.

Me disseram que aquele gargarejo de água com sal que eu recomendei no começo do post fecha as aftas rapidinho, a custo de uma dor equivalente a dar a luz a uma criança mutante de cinquenta quilos. Já outros me disseram que a tal mistura provoca dor com ou sem aftas, uma vez que os dentes comumente provocam cortes menores que não evoluem pro estado crítico de uma afta, mas que ainda protestam quando entram em contato com água salgada.

Então, me digam aí: doeu?


Escrito por Kid on Mar 16, 2006

Antes que me perguntem: não, eu não vou fechar este blog. O HBD significa muito pra mim, e vocês conquistaram meu coração nerd até pelo menos o ano que vem. O motivo da raridade de textos “de verdade” aqui no blog é simplesmente cansaço. Ultimamente eu estou apenas meio sem saco pra desenvolver textos.

Não que eu não goste mais de escrever; assim com muitas outras coisas que eu gosto (ler, tocar guitarra, jogar videoguêime, etc), ando tão entediado que até mesmo atividades outrora prazeirosas parecem sacais. Acreditem se quiser, há pelo menos dois meses não ligo o videogame. Se não fosse o Trunks, um dos jogos que ganhamos de Natal (Prince of Persia 3) nem teria saído da caixa. Tenho preguiça até mesmo de ligar o aparelho, e nas pouquíssimas vezes que o faço, desligo em menos de 10 minutos. Tenho Attention Deficit Disorder, o que significa que manter a atenção em um tópico específico é algo que exige muito, mas muito esforço. Por isso, assistir um filme até o fim ou ler um livro inteiro se tornou algo virtualmente impossível pra mim. Tudo me entedia em pouco tempo. Nada mais tem graça pra mim.

E isso acaba se refletindo nas atualizações do site. Enjoado de tudo, me sinto sem vontade de escrever.

Tou vendo que não sou o único no círculo blogueiro que está passando por um período de pausa, embora eu arrisque dizer que o meu caso é mais grave - meu tédio generalizado deriva da inércia total que minha vida atingiu nos últimos meses, o que não parece ser o caso dessa outra turma que trabalha/estuda.

O meu dia-a-dia, apesar de soar invejável, é uma jornada de 24 horas de puro tédio. Acordo, vou pro computador. A namorada aparece, saímos, voltamos, a namorada vai embora no dia seguinte. Volto pro PC. Repete infinitamente.

Por ser um nerd, não consigo deixar de me lembrar de Vampiro - A Máscara. No cenário do RPG diz-se que os vampiros, por terem vivido centenas de anos e presenciado o mesmo tipo de coisa milhares de vezes sem fim (amigos morrendo, governos surgindo e eventualmente sendo depostos, etc) acabam se tornam desligados da realidade em volta deles, e como nada mais os surpreende, tudo se torna entediante. É assim que me sinto, como se já tivesse feito a mesma coisa muito mais vezes do que deveria ser necessário.

Bom, como eu ia dizendo, ao menos não estou sozinho. Outros blogs que leio por aí também começaram a reduzir a taxa de atualizações, e os autores já abriram o jogo com os leitores e admitiram que não sabem nem se continuarão postando. Sinto-me menos mal em relação à minha estancada quando vejo que outros também tão enrolando pra postar.

Não perdi o amor pela escrita. Eu ainda gosto de escrever pra vocês. Aliás, considero um puta privilégio ser lido por tanta gente. E ainda tenho vários assuntos pra escrever, como alguns textos que nego me cobra há meses. O lance é que ando desmotivadaço. Por isso, resolvi me dar umas férias; como agora não recebo nada pra escrever, deixei de encarar o blog como um trabalho e ele volta a ser um hobbie (ou hobby, depois de dois anos morando em país de língua inglesa ainda não aprendi a grafia correta dessa porra).

É só uma fase. Já já voltamos aos tempos em que tinha post novo todo dia, e quando você entrava no blog depois de uma semana via-se de cara com trocentos posts novos e pensava “bah, tou com preguiça de ler isso tudo” e voltava pro Charges.com.br.


Escrito por Kid on Mar 16, 2006

Prometi pra ela que não ia postar aqui, mas já era.


Hun, if you’re reading this, I’m really sorry. They made me do it.


Escrito por Kid on Mar 15, 2006

Há muito tempo atrás, escrevi este post sobre joguinhos pra palm. Warfare Inc, disparado o melhor joguinho pra palm já programado, despertou muito interesse dos leitores sortudos o bastante pra ter um brinquedinho desses. E todo mundo me perguntava um monte de coisa sobre o jogo, se era legal mesmo, se vale a pena baixar, aquelas coisas de nego que tá com preguiça de fazer o download.

Então fiz um videozinho mostrando a parada.


O palm no vídeo é o meu TE2 velho, porque na época eu ainda não tinha o TX.

Mesmo com a iluminação aleijada e a definição pobre da minha nojentíssima Kodak DX3600 (que até onde sei, foi o primeiro modelo de máquina digital lançada pela empresa), dá pra ver que o jogo é interessante. Então deixem de preguiça e parem de me encher o saco perguntando se o jogo “presta mermo”.

Baixe logo essa porra. A manha safada pra crackear o jogo tá descrita no outro post, estou com preguiça de copiar e colar tudinho aqui.

Minhas férias estão acabando, parem de choramingar. Deve haver algum outro site pra vocês visitarem essa semana.


Escrito por Kid on Mar 15, 2006

O Zanta respondeu o email que mandei pra ele.

Tou me sentindo todo famoso agora.


Escrito por Kid on Mar 14, 2006

Lembram que no post a respeito do casamento do irmão da Anne, eu comentei que a Gótica surpreendeu a brasileirada recitando um curto discurso de apresentação que eu a fiz decorar embaixo de porrada?

Então, achei uma velha gravação da própria fazendo o tal discursinho. Ouve aí e me ajude a decidir: ela tem ou não tem um leve sotaque carioca? Mencionei isso pra Anne, mas como boa paulista ela quase vomitou após a mera menção de cariocas.

(E que a briguinha regionalista comece nos comentários)

Sim, posts “de verdade” estão a caminho. Deixem-me curtir umas férias não-oficiais.


Escrito por Kid on Mar 13, 2006

Você sabe que o mundo não é o mesmo de dez anos atrás quando seu pai te pede permissão pra postar uma propaganda numa comunidade sua no orkut.


Escrito por Kid on Mar 10, 2006

Hoje Trunks, a Gótica e eu fomos ao consulado brasileiro em Toronto pra resolver a minha eterna pendência em relação ao alistamento militar. Sei que há alguns imigrantes brazucas que lêem este site, e eles poderão servir de testemunhas pro que vou contar pro resto de vocês:

O consulado brasileiro daqui é, na falta de um termo mais técnico, uma excelente desgraça. O lugar não passa de uma repartição pública em endereço gringo, com as mesmas pessoas despreparadas, mal informadas e com uma impressionante má vontade em ajudar a galera. Imagino que o funcionário comum do consulado acorda de manhã cedo, toma seu cafezinho enquanto põe a mão no queixo e pensa “Hmmmm, de que forma posso dificultar ao máximo a vida daqueles filhos da puta que vêm ao consulado regularizar seus problemas, mas ainda mantendo meu emprego até o próximo ano?” Aí ele tem uma epifania. “Já sei!“, pensa ele. “Vou atender a galera como se a mera presença deles despertasse uma espécie de ódio satânico em mim”.

Antes que alguém pergunte o que os caras fizeram comigo, já corto a onda - eles me trataram super bem, sei lá porque. Devo ter tido alguma sorte, vai ver eu era parecido com o sobrinho do cônsul e a macacada lá resolveu dar um tratamento melhorzinho pro Kid aqui. O resto da turma que tava resolvendo seus pepinos lá não teve a mesma sorte que eu, no entanto. Da próxima vez eles deveriam tentar usar uma peruca e óculos.

Enquanto eu prenchia uns papéis do alistamento obrigatório para brasileiros morando no exterior (a mais idiota medida governamental que o povo brasileiro já se submeteu desde que Collor e amigos recolheram as poupanças da geral e me impediram de ganhar um GameBoy no Natal de 1993) notei que um rapaz gringo tava sendo respondido asperamente por um funcionário do lugar. Nada de muito surpreendente vindo dessa gente amável e amiga que é o povo brasileiro trabalhando atrás de um balcão de uma repartição pública, mas ainda assim tive minha atenção capturada pela situação. O homem gesticulava e falava alto, tratando o moleque gringo por baixo dos pés, como se tivesse algum tipo de vendeta pessoal contra o cara. Liguei minhas anteninhas de vinil e capturei toda a conversa, transposta neste website de internet em forma de prosa.

O garoto gringo, que não devia ter nem 20 anos e parecia um nerd viciado em desenhos animados japoneses do tipo que usa “^^” em fóruns de Evangelion e se refere aos amigos como “nomedosujeito-chan”, estava perguntando pro balconista a respeito de seu passaporte. Pelo contexto da conversa, saquei que o menino tinha aplicado pra um visto de turista pra visitar o Brasil. Quando você faz isso, a turma do consulado pega seu passaporte e grampeia nele os documentos autorizando a sua viagem, mas não sem antes enviar seu passaporte quatro vezes pro Brasil, perde-lo em alguma gaveta obscura de documentos de outra espécie e demorar cinco meses pra te dar alguma satisfação. Pelas perguntas do moleque, parece que deram sumiço no passaporte dele mesmo.

ACONTECE que é procedimento padrão reter o passaporte do candidato ao visto por algum tempo, e finalmente enviar pelo correio pro fulaninho quando o visto finalmente sair. Pelo que tudo indicava, o moleque gringo não sabia disso, e queria saber onde tava o passaporte dele.

O atendente, um senhor de uns 40 anos com cara de pouquíssimos ou nenhum amigo, respondia o moleque com um inglês fragmentado e rude.

– Seu passaporte, ah, sei onde tá não. Tá com a gente em algum lugar aqui. Tá processando, é, tá processando.
– Mas minha passagem é pro dia tal, senhor. Como vou viajar sem meu passaporte? Preciso dele!
– Meu filho, você quer o visto ou não quer?
– Sim, mas o problema é que…
– Você quer ir pro Brasil ou não?
, e o mais legal é que o tom de voz dele fazia parecer que o Brasil é a terra de todas as maravilhas, e que aquele que perdesse a oportunidade de visitá-la não tem outra opção a não ser matar toda a família e em seguida cometer suicídio.

Nessa hora eu pesquei tudo - o que o atendente estava tentando dizer (mas obviamente não dizendo claramente, vai entender) é que o moleque teria que esperar o processo do visto sair, e que então ele receberia o passaporte em casa. O moleque simplesmente parecia não entender que receberia o seu documento pelo correio, e estava apenas tentando descobrir como obte-lo de volta. O atendente poderia ter feito seu trabalho e explicado o procedimento pro pobre turista, mas nãããão, isso seria muito eficiente.

– Senhor, eu só quero entender como é que…
– Ah, você quer que eu cancele todo o processo? Quer que eu te dê o passaporte agora mesmo, sem visto nem nada?
– Não, não, eu só quero saber como é que…
– Então tá, peraí que eu rasgo seu formulário, te dou o passaporte sem visto e você vai pra casa.
– NÃO! NÃO! Não é isso, eu quero o…

O desgraçado vira-se pro outro cubículo.

– Ô Neide, procura aí o passaporte do fulano, ele não quer mais o visto não.
O moleque se desespera e não sabe se continua falando com o infeliz na sua frente ou com a tal da Neide, que até então era invisível pra mim.
– Não, eu quero, eu quero, eu só preciso do meu passaporte porque…
– Olha aqui, não é assim não. Não é assim não.
repetiu o infeliz, com uma cara seríssima e sacodindo a cabeça de um lado pro outro como se estivesse repreendendo um filho por ter comido a priminha menor sem camisinha.

Senti um ardor miserável na alma, e uma vontade incrível de chegar no meio dos dois e dizer “Ô seu filho duma puta, porque você não explica pro cara que ele receberá o passaporte pelo correio?!“, mas tive medo de a partir daí receber o serviço padrão brasileiro. Fiquei calado, imaginando que vontade o pobre gringo teria de conhecer a terra natal dessa gente mal educada e filha da puta que se recusa a agir como alguém com modos, ou de fornecer uma informação simples àquele que está fazendo o FAVOR de ir gastar seus dólares no Brasil.

Mas a ida mensal a Toronto não foi uma terrível desgraça completa. Na volta pra casa, tive a oportunidade de conhecer ao vivo e a cores uma verdadeira lenda da comunidade metropolitana da capital de Ontário.


O maluco no meio da foto é ninguém menos que Zanta (pronuncia-se mais ou menos “Zênta”, ou seja, uma corruptela de “Santa” - gíria pra “Papai Noel”. Acho que não preciso explicar o motivo), uma figura tarimbadíssima do centro da cidade que os poucos leitores que moram em Toronto já devem conhecer.

Zanta é um sujeito de aproximadamente 30 anos que - diz a lenda - é casado e tem três filhos (ou seja, é mais ou menos uma pessoa normal). O cara sai as ruas durante o ano inteiro vestindo nada além de um calção e um gorrinho natalino, às vezes dando-se o luxo de usar um sobretudo mas sempre expondo seus músculos bem torneados ao povo que se pergunta “mas que porra é essa?“. O cara faz papel de maluco no meio da galera, pulando, correndo, berrando sua marca registrada (”YES, YES, YEEEEES!!!“), exibindo os músculos ou fazendo flexões no meio da calçada apoiando-se apenas com os dedos.

Ou seja, o cara é a maior figura. Por ser tão peculiar e insistir na maluquice há anos (apesar de já ter sido alertado pelas autoridades pra parar com a putaria), o sujeito insiste no seu showzinho e acabou se tornando uma celebridade de rua por aquelas bandas. Tanto é que até eu, que quase não ando por lá, já tinha ouvido falar no sujeito - as aventuras de Zanta já chegaram na internet. Pesquise aí “Zanta Toronto” no Google e você vai achar até entrevistas que o cara deu em rádios e tal. Tem até blogs que registram as aparições do cara, como se ele fosse um Mewtwo.

Então, estávamos todos no carro em direção à rodovia que nos traria de volta pra roça, quando vejo de longe alguém sem camisa com um gorrinho natalino na cabeça. Comecei a rir sozinho dentro do carro, dizendo “olha lá, é o Zanta!“, mas nem a Gótica nem o Trunks estavam informados sobre o maluco. Abaixei a janela, fiz o universal símbolo do chifrinho e berrei “Right on, Zantaaaaa!

O maluco pareceu muito satisfeito com a própria popularidade, então apontou pra mim enquanto gritava “YES, YES, YES! LOOK AT THIS, CHECK THIS OUT!” e começou a fazer suas famosas flexões apoiado pelos dedos. Ainda rindo, amaldiçoei minha sorte por ter esquecido a câmera em casa. “MERRY CHRISTMAS”, desejou/gritou ele, atrasado apenas por três meses.

Quando volto minha atenção pro mundo normal, o resto dos passageiros do carro estão me olhando incrédulos, como se estivessem perguntando mentalmente “você conhece esse doido?” Aí expliquei a respeito da celebridade virtual que é o cara.

Naturalmente, eu era o único no carro que tinha passado tempo o bastante na internet pra conhecer as aventuras do Zanta. Cambada de infiéis.


Escrito por Kid on Mar 9, 2006

O que é o amor senão uma interminável sessão de tentativas de ridicularização pública a troco de nada?

Mó boiola esse fundo de tela, eu sei. Em minha defesa eu poderia dizer que só uso nos chats da Gótica, mas vocês não vão acreditar mesmo, então vão se foder.


Escrito por Kid on Mar 8, 2006


Opa, e não é que alguém topou a idéia do pay per read?

Só falta 6,10 agora.

(Haha, não seria engraçado de todo mundo mandasse um dólar e eu me visse obrigado a postar trezentos posts daqui pra amanhã? Perceba que estou sutilmente tentando te manipular com a frase anterior.)


Escrito por Kid on Mar 6, 2006

O sujeito que inventou a instituição matrimonial deveria estar rindo sozinho quando estabeleceu as regras do negócio. O que é o casamento além de um anúncio público de que você está abandonando terminantemente a caça ao mulheril, jurando contentar-se com o mesmo par de peitos pelas décadas a seguir, independente do que a gravidade e os trinta herdeiros tenham feito a eles?

A cerimônia do casamento é substancialmente pior, com o perdão do uso indevido da palavra “substancialmente”. Casório é basicamente uma festa indecentemente onerosa, a respeito da qual sua opinião não valerá nada, feita pra um monte de gente que você não necessariamente gosta, mas se sente moralmente obrigado a convidar. O fato de que essa gente comerá de graça às suas custas numa festa que você demorará três anos pra pagar não impede que eles te dêem presentes baratos comprados de última hora que você provavelmente jamais usará.

Numa etapa tão importante da sua vida, que melhor apoio moral do que ter a presença do autor de um blog de humor negro e sarcasmo maldoso que provavelmente fará piadinhas em cima da sua festa e dos seus convidados, a troco de causar risadas em estranhos? A resposta é “Qualquer outra coisa“, mas isso não impediu o Kauê de me convidar pessoalmente pelo telefone na semana retrasada e requerir formalmente minha presença um pouco menos que ilustre.

Faço questão de que você e sua família venham!“, disse ele. Originalmente não tinha espaço pra Gótica na festança, mas eu ameacei estacionar um carro de som na porta da casa dele e revelar para o mundo que era seu amante gay de longa data, e rapidamente surgiu um convite pra patroa.

E olha só, vou cobrar um post de presente de casamento” disse ele, ou algo mais ou menos assim. Ele explicou em seguida que fazia questão de que eu relatasse seu casório aqui no site, o que me fez imaginar que tipo de gente auto-sabota o próprio casamento dessa forma, oferecendo-se voluntariamente como material pra risadas de estranhos na intarwebs. Aceitei de bom grado o convite do leitor, e pus-me a pensar em que tipo de roupa usaria pra ocasião. Os poucos que me conhecem pessoalmente sabem que eu tenho ojeriza a eventos sociais de grande importância (agradeço à minha natureza nérdica) e à indumentária necessária pra esse tipo de coisa. Desde os meus tempos de esquentador de banco de igreja (10 anos atrás), não participo de nada mais solene que um arroto. O último terno que usei na vida caberia numa caixa de DVD.

Mas isso é o de menos. A questão realmente importante é: como escrever um texto HBD style a respeito do casamento de um amigo?! Quem eu poderia aloprar, e quem poupar? Que piadas serão encaradas com jogo de cintura e esportividade, e que tipo de brincadeira me renderá um inimigo pro resto da vida e talvez alguns processos por difamação? Me preparei mentalmente pro que poderia ser o maior desafio da minha vida: descobrir que convidados o noivo não vai muito com a cara, tornando a alopração impiedosa levemente aceitável.

Blá blá blá, a semana passou voando e o dia do casório tava aí. A correria aqui em casa era digna de um episódio particularmente engraçado dos Três Patetas - pai correndo de um lado procurando uma toalha, madrasta correndo do outro procurando um vestido apropriado pra cerimônia, bebê cagado se esgoelando no berço, e eu jogando Mario Kart e tentando lembrar se ainda tinha algum cinto social. Pensei em dar uma de estudante de artes plásticas metido a sofisticado e usar um dos cintos de rebite (entenda-se “aqueles cintos que emos da Galeria do Rock usam“) mas pensei melhor. O que o Kauê fez pra merecer uma desfeita dessa? Revirei as gavetas jogando seus conteúdos para o ar até achar um cinto apresentável.

Continuei vestindo-me no estilo nerd de ser (sem tirar os olhos da tela do computador e respondendo qualquer um com “não posso conversar, tou me arrumando pra sair!“, apesar de continuar respondendo todo mundo) enquanto a família inteira corria de um lado pro outro procurando peças de roupas que eles juravam terem deixado em um lugar mas agora não estava mais, o que significava obviamente que a culpa era inegavelmente minha. Muita correria depois, estávamos na estrada em direção a Niagara, bem em cima da fronteira entre os EUA e o Canadá.


Esta imagem o ajudará a compreender a distância do caralho que separa Oshawa de Niagara

Graças a inúmeros contratempos, fomos agraciados com a incrível humilhação de chegar atrasados no casamento do cara. A capela estava trancada, com uma plaquinha “SILÊNCIO PORRA, CASAMENTO ROLANDO, CÊ NÃO TEM COSTUMES NÃO?” pendurada do lado de dentro. Após uns cinco minutos, a comitiva sai da capela, e encontra a família Nobre esperando do lado de fora, com a maior cara de bunda que nossas faces nos permitiram emular.

Mas os noivos foram gente boa e decidiram não nos chutar da parada por causa do nosso mero atraso de umas duas horas. Apresentações feitas (finalmente conheci a Anne, do FHBD), a primeira surpresa do dia: a mãe do noivo, uma jovem senhora muito simpática, chega pra mim e me deixa absolutamente sem reação ao revelar que lê o HBD religiosamente e que adora minhas presepadas. Fiquei boladíssimo, e anotei no meu palm mental que a mulher mereceria uma menção aqui. Mãe do Kauê - cujo nome eu MALEDUCADAMENTE não perguntei -, obrigado!

A turma se joga nos carros e todo mundo se manda pro restaurante onde a recepção seria, ahn, sei lá. Hosteada? Apresentada? Onde a recepção aconteceria, pronto. E tome fotos.

Momento memoravelmente momentosos: A Gótica se apresentando com seu refinado portinglês (que eu infelizmente não filmei), o subsequente pedido de “FACADINHA!” - que ela prontamente atendeu, pro delírio da galera -, os elogios à minha camiseta caseira de uma Piranha Plant, meu incomensurável desespero ao ver-me confrontado pela sopa de entrada (sou um fresco total e absoluto em matéria de comida, mal não-resolvido de infância que levarei pro túmulo), o suor frio que brotou na minha testa quando a Gótica e outras convidadas disputaram a jogada do buquê, o alívio quando ela não o capturou.

Chega de falatório. Vejam os retratos, trazidos a você pelo pessoal gentil do ImageCheque. Clique nas figurinhas pra ver bem grandão.

Os noivos mostram comé que se faz.
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Kevin Nobre, convidado de honra, esbanjando carisma e presença de espírito ao ser segurando como um saco de batatas.
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Anne, Raquel (uma amiguinha), eu e a Gótica, no Ripley’s Believe it or Not Museum. Explico mais sobre isso em outro post.
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A Gótica wub wub
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E chega. A paginazinha de fotos é outra.


Escrito por Kid on Mar 5, 2006

Já já atualizo isso aqui contando as aventuras do casamento do Kauê. Mas antes, usemos nossa massa cinzenta combinada pra descobrir um mistério que se estabeleceu aqui em casa.

De duas em duas semanas (mais ou menos), uma pequena ferida aparece no meu dedo anelar direito. O machucado tem uns dois milímetros quadrados, e é bem superficial, mas arde como o demônio esfregando limão num corte na sua glande. A feridinha parece ter sido feita com uma tesourinha de unhas, porque sempre fica uma pelezinha solta cobrindo a pereba. A ferida é clean-cut, ou seja, retinha e parece ter sido feita por algum tipo de superfície afiada. A Gótica supôs que eu poderia estar me mordendo durante a noite, mas não tem como obter um corte daqueles com dentes. Uma mordida arrancaria um pedaço de pele, e não a cortaria tão perfeitamente.

Agora, o realmente estranho: isso acontece literalmente da noite pro dia. Vou dormir normalzinho, e acordo com esse buraco no meu dedo anelar direito. Pelas minhas contas é a QUINTA vez que isso aconteceu. Um corte minúsculo e dolorido como o diabo, e com uma aparência que sugere a utilização de algum objeto afiado.

Eliminando a possibilidade de eu estar sendo abduzido e participado de experimentos aliens ou ter me auto-furado sonambulamente com um canivetinho que tenho por aqui, o que diabos pode estar acontecendo?!


Escrito por Kid on Mar 2, 2006

Pra que parem de perguntar no MSN como se faz pra expor sua opinião a respeito do artigo do HBD, melhor fazer um tutorialzinho com screenshots editadas no Photoshop.

Primeiro, clique aqui. Fique tranquilinho, o link abre em outra janela. Ou aba, caso você seja super alternativo e não dê bola pro navegador do Bill Gates.


Essa é a página que carregará. Tá vendo o link “editar” ali no canto, apontado pela setinha vermelha? Clique lá.


Agora, você está editando a página da discussão apaga/não apaga. Desça a barrinha até o fim do código-fonte e redija sua opinião. Faça-me o favor de usar um português culto, ou ninguém lá vai te levar a sério (com razão). Não esqueça de assinar o comentário com “~~~~”. Isso mesmo, quatro tils. O comando insere seu IP automaticamente na sua mensagem, o que é útil pra que os admins da Wikipédia percebam que os protestos contra a deleção do artigo não vêm todos de uma só pessoa usando nicks alternativos.

Por mais que eu me sinta tentado a responder os caras lá (em especial o mané que abriu o HBD, não esperou nem o flash do topo carregar e já saiu falando merda como “OMG O AUTOR DO BLOG ESTÁ CONVIDANDO OS LEITORES A VANDALIZAR A WIKIPÉDIA!!!!111″), vou me manter cortesmente fora dessa confusão. Sou obviamente suspeito pra falar qualquer coisa lá.

Os leitores que decidam se o artigo fica ou não.

Mas me digam aí: quando foi que o Wikipedia se tornou tão autoritário, ein? A resposta padrão dos usuários que votaram contra o artigo é “ahn, nunca ouvi falar nesse site, logo, a Wikipédia não se interessa no assunto“. Não importa se o artigo foi revisado e melhorado por dezenas de usuários no primeiro dia de existência, não importa que vários leitores se pronunciaram protestando pela permanência do artigo (o que comprova que há um vasto público que vê relevância no negócio), não importa que o cara que escreveu o texto obedeceu as normas de formatação quando publicou o artigo, não importa que a enciclopédia é supostamente livre - se alguém em particular não conhece o assunto, ele não merece estar na Wikipédia e acabou-se a história.

Então tá, né.