Escrito por Kid on Aug 30, 2006
Atenção, leitores cariocas! O forista Fívio lá do FHBD tem um recado que alguns de vocês talvez julguem interessante:

Bom, o aviso tá dado. E você ainda achava que não há nada do seu interesse no FHBD? Se cadastra logo, mané!
Escrito por Kid on Aug 28, 2006
Sabe quando você compra algo não porque morria de vontade de ter nem nada, mas só porque PODIA comprar? Tipo, consumismo safadíssimo mesmo, resultado de um nerd com dinheiro sobrando na mão?
Então.

Agora não preciso mais ficar respondendo os sonistas xaropes que insistem em falar merda do meu querido Nintendo DS.
E GU1LH3RME, ainda não downgradeei o meu PSP. Não achei o UMD de GTA desatualizado, ferramenta necessária pra fazer o downgrade, e além disso acho que nem será preciso. Olha isso aí.
Mas legal mesmo foi na Sony Store hoje. Eu lá pesquisando preços de memory sticks grandes, de 2gb pra cima, já pensando na pirataria que comerá solta quando eu haxorizar meu PSPzinho. Passei um caô mó sem vergonha pro representante da Sony, explicando que queria um memory stick de 4gb porque quero poder ter todas as minhas músicas comigo on the go. Aí o cara faz um aceno de desprezo com a mão e fala:
– Mp3s?! Fuck that. Hack your PSP, dawg. The internet shows you how to do it, it’s a piece of cake. That way you can run pirated games off the memory stick, yo 
Aí eu ri e expliquei que a intenção era realmente baixar ISOs pra não comprar jogos originais nunca mais, mas que me senti intimidado a comentar isso na frente dele pelo fato de que ele trazia um crachá da Sony no peito. Aí o maluco (que era um chinezinho cheio de gel no cabelo espetado, mó MODERNÉTICO) aponta pros outros colegas de trabalho e explica que na loja, TODO MUNDO joga com ISOs piratinhas e que até onde ele sabe nenhum conhecido dele jamais comprou um jogo original.
Mais um console pra dar atenção, carinho, e gastar dinheiro. Videogame é pior que namorada, porque os buracos são insatisfatoriamente pequenos demais para que você aproveite outros usos.
Resenha – Cubo
Escrito por Kid on Aug 26, 2006

Às vezes todos nós temos aquele momento em que dizemos pra nós mesmos “Sabe duma coisa? Bem que hoje eu poderia assistir um filme bizarramente mal produzido, com um custo de produção que rivalizaria com os de uma coxinha de posto de gasolina de beira de estrada, com uma história CLARAMENTE inexistente, estrelando pessoas que provavelmente sequer sabem soletrar a palavra “atuação”, que o diretor convenceu a participar da película por meio de ameaças de sequestrar seus animais de estimação“. E você continua, “…e que bom seria se o filme em questão fosse canadense!“.
Bom, hoje é o seu dia de sorte. Se você está realmente com vontade de assistir à pior contribuição canadense para a comunidade global desde a Alanis Morissette, levante a bunda da cadeira neste momento, vá à locadora, lembre-se que alugar filmes custa dinheiro e que você tem uma conexão com a Nova Internets 2.0 Shareware Version®, e baixe Cubo.

Os personagens descansam entre a última morte violenta e sem propósito e a próxima
Cubo conta a história de um diretor canadense que foi convencido a filmar uma película cujo roteiro resume-se a “um bando de pessoas morrendo de formas que, apesar de envolverem efeitos especiais criados por um garoto de 13 anos usando o Caligary True Space num Pentium 100, não dão a mínima pista de algo que pudesse se assemelhar, ainda que distantemente, a um roteiro”. Caso a frase anterior tenha ficado muito longa e você teve dificuldades em compreende-la, aqui está o resumo numa oração de apenas cinco palavras: não existe roteiro em Cubo. E sim, “em” é uma palavra e pronto.
Detesto ser tão categórico (bom, na verdade não), mas simplesmente não existe roteiro nesse filme. O diretor de Cubo resolveu lutar contra as convenções facistas do universo hollywoodiano, que envolvem por exemplo técnicas ultrapassadas como “apresentar progressão de eventos lógicos que desenrolam a trama”. Ao invés de, sei lá, CONTAR UMA HISTÓRIA, Cubo apenas mostra pessoas aleatórias morrendo vítimas dos piores efeitos especiais que eu vi desde Jurassic Park III: Michael Crichton Precisa de Uma Nova Ferrari, tudo enojadamente envolto por uma aura de sentido metafórico/filosófico que fez milhares de espectadores jurarem pelas suas próprias vidas que iriam convencer os amigos de que o filme não apenas faz bastante sentido, mas que é até um bom filme.

No frame, três personagens são confrontados por frustrações que dão insights sobre a psiquê humana em situações de stress. Um pouco à direita, um quarto personagem tem as tripas removidas pela narina esquerda
Se você cometer o erro de julgamento de alugar esta porcaria pra ver se a sua opinião baterá com a minha, aqui está basicamente o que você poderá esperar do filme.
Umas sete pessoas acordam dentro de uma espécie de prédio composto de diversas salas cúbicas. Os personagens se encontram, trocam informações que você sabe imediatamente que são decisivas pro desfecho da “trama”, e então começam a morrer, porque as salas cúbicas são cheias de armadilhas.
Ou seja, o Cubo está lá, as pessoas estão lá, e umas armadilhas também estão lá. Isso é tudo que você merece saber. Como assim, você quer entender o que é o tal Cubo? Não há o que entender, o Cubo é um cubo e pronto. Por que você se importa em entender como seria possível construir algo como o Cubo, ou ainda entender qual seria o propósito de usa-lo para matar pessoas aleatórias? O que você quer dizer com “a premissa do filme é idiota e praticamente requer fé para que faça um grama de sentido”? Pare de me fazer perguntas irrelevantes e veja aquele sujeito tendo sua cabeça arrancada.
Como eu disse, isso é tudo que você merece saber, ou ao menos foi isso que o diretor decidiu. Se você tem qualquer desejo de compreender a existência ou propósito do tal Cubo, de onde ele surgiu, quem está por trás dele e etc, me desculpe, mas isso significa que você é burro. Querer compreender um filme com base nas informações que a história fornece é uma característica de pessoas cretinas que ouvem Los Hermanos e assistem Praça é Nossa; apenas pessoas “inteligentes” conseguem apreciar um filme como Cubo, que requer que você se cadastre em oito fóruns diferentes e combine várias teorias pra entender metade do que o filme quis dizer.
As próximas duas horas (ou sei lá qual é a duração daquela merda) são divididas entre 1) um personagem dá um passo em falso, se fode e é dividido em centenas de pedacinhos, muitos deles em chamas, 2) um personagem fala algo pra outro personagem, num diálogo supostamente profundo e inspirador 3) os personagens passam de uma sala pra outra, 4) repete.

Lâminas prontas pra decepar o baço de um descuidado, ou uma analogia referente à descaracterização humana à margem do século 21
Independente de não fazer o menor sentido não importa como você tente analisar o filme, Cubo ajuntou uma pequena legião de fãs que acredita piamente que aquelas duas horas divididas entre atuação que envergonhariam uma trupe amadora de teatro colegial e efeitos especiais que parecem ter saído de uma propaganda de computador nos anos 80 são uma metáfora para a vida e alguma coisa assim.
Vem cá, vocês não deveriam estar assistindo aulas de Introdução às Obras de Platão no Centro de Ciências Humanas de seja lá qual é a faculdade que vocês cursam? Se tem uma raça que adora filmes sem sentido que os permitem fingir pros amigos que eles o entenderam, essa raça de chama “calouro de Filosofia”.
O problema é o seguinte – eu não assisto filmes pra contar uma história a mim mesmo, tentando me convencer de que foi isso que o diretor quis dizer enquanto anotava instruções de uma determinada cena num guardanapo, vizinho a outras anotações como “segunda feira – lavar as cuecas, terça feira – pagar o aluguel”. Eu estou pagando pra ver o filme, eu quero que o diretor me conte uma história. Se eu quisesse passar duas horas tentando adivinhar o que alguém está querendo me dizer, eu eu estaria jogando Imagem e Ação com meu vizinho que insiste em desenhar uma geladeira de diversas formas festivas, contanto que nenhuma dessas formas se assemelhe a uma geladeira.
O principal problema de filmes como Cubo é a previsível onda de sabichões que afirmam saber exatamente e literalmente tudo que o idealizador do filme queria dizer com cada cena, como se isso significasse que eles estão a um nível acima da condição humana e merecem se diferenciar da categoria Homo Sapiens.
Cubo não é “profundo”, seus imbecis. Guardem os livros de retórica, não há nada pra analisar nesta porcaria. Há uma imensa diferença entre roteiro profundo e roteiro não-existente; e essa diferença é que no primeiro a trama não necessita de closes das tripas de um dos personagens.
Se você gosta de violência desnecessária, fazer de conta que entendeu o sentido por trás de um filme sem sentido e de molestar crianças de colo com espetos de churrasco, então Cubo é uma boa pedida pra você.
Eu, por outro lado, preferiria esfregar merda nos olhos que assistir esse filme mais uma vez. E é por isso que escrevi essa resenha hoje, apesar de ter assistido Cubo três anos atrás e tendo que puxar tudo de memória pra evitar alugar aquela porcaria só pra escrever um post.
Escrito por Kid on Aug 23, 2006
Porra, esqueci de mostrar isso aqui pra vocês.
O aniversário da namorada foi no comecinho deste mês, e não apenas coincidiu com duas viagens que eu fiz, como é perigosamente perto do aniversário do meu irmão. Com as finanças em baixa por causa das expedições com amigos e da obrigação moral de dar um presente pro Trunks, minha carteira exibia sinais de que não resistiria a mais uma celebração da proeza de ter passado um ano inteiro sem morrer.
E aí que entra em jogo a genialidade puramente brasileira. Enquanto canadenses bundas-moles vão ao shopping com uma amiga da namorada e valem-se de cartões de crédito platinum service pra comprar qualquer coisa que a amiga indique (incluindo um cartão com alguma frase pré-escrita pra diminuir o esforço de usar a criatividade pra presentear a amada), o brasileiro liso aqui se dirigiu à pasta C:\Pics_and_Vidz_and_Someothershit, escolheu a dedo as melhores imagens e vídeos, abriu o Windows Movie Maker e fez um videozinho sensacionalmente meloso que provavelmente levaria um diabético ao coma.
Não satisfeito com a idéia de apenas chamar a namorada pra ver o vídeo tocando no Winamp, gravei a parada num DVD, pedi ao Vexille que me preparasse uma capinha bem bacana pra produção. Daí, convoquei amigos da patroa secretamente para uma festinha surpresa de última hora e arrematei o plano com a compra do bolo favorito dela e um modesto buquê de flores. Tá, eu TINHA algum dinheiro, mas um presente “de verdade” pra aniversário de namorada (leia-se “algo de ouro”) me custaria brincando uns 100 paus, enquanto o combo bolo + flores ficou por menos de 40. Não paguei sequer pelo DVD virgem, que foi devidamente roubado da pilha do meu pai e substituído por um papel recortado em formato circular com um buraco no centro e os dizeres “DVD Virgem” escritos com crayon azul.
Então, dei o DVD pra ela de presente na festinha, que foi em seguida exibido na frente de todo mundo na minha sensacional televisão de cinquenta polegadas que eu juro que não roubei de ninguém. E ainda tive a manha de aparecer com as flores APENAS após o fim do vídeo, para maximizar o efeito dramático.
As amigas devem estar com inveja dela e procurando brasileiros na internet pra namorar até hoje.
O resultado da parada está aí:
Se você usa o Opera e não entende por que demônios os vídeos de streaming não rodam fora do site, não chore e clique aqui.
Aceito encomendas para vídeos de casamentos, batizados, aniversários e competições de Pump It Up.
Trabalhando no Restaurante
Escrito por Kid on Aug 21, 2006
Todo dia, durante três horas, eu abandono as confusões virtuais em que vivo metido para o divertimento alheio em prol de um objetivo muito mais nobre – ganhar dinheiro.
Como expliquei uns dois ou três anos atrás, mandei o meu antigo chefe tomar em sua digníssima rabiola e me demiti do antigo trabalho de vendedor móvel de guloseimas congeladas. Após menos de um dia de exploração no extenso mercado trabalhístico de Oshawa (que vai desde colheita de morangos durante o verão a limpar neve de portas de casas alheias no inverno), encontrei uma nova ocupação, consideravalmente mais lucrativa que aquele marmotagem de andar de bicicleta pela cidade trocando picolés semi-derretidos por moedas de dois dólares.
Tornei-me um técnico aquático – que é o termo chique para “lavador de pratos” – de um respeitável restaurante no centro da cidade, literalmente vizinho à Worlds Collide (uma igualmente respeitável loja de RPG, revistinha em quadrinhos e DVDs de desenhos japonês que estrelam meninas menores de idade trajando calcinhas de algodão).
Eu me demiti da Frosty Freeze na quinta feira, por motivos que incluem – mas não se limitam a – minha vontade de derramar gasolina em cima do carro do chefe e/ou amarrar alguns pregos enferrujados em volta de uma granada de mão e jogar no escritório do desgraçado, anexo a um bilhete dizendo “alguém joguei gasolina na sua BMW, não sei quem fui”. Na manhã de sexta, livre da opressão que apenas um vendedor de picolés no Canadá poderia experimentar, saí distribuindo currículos pela cidade afora.
E dei sorte. Antes do fim do dia a turma do restaurante já tinha me ligado, pelo jeito as pilhas de pratos lá estavam atingindo o telhado e eles precisaram desesperadamente de um brasileiro pra resolver a situação.
E comecei na sexta feira mesmo.
O restaurante, cujo nome manterei em anonimato por motivo nenhum, é um estabelecimento praticamente histórico na cidade. Fundado em 1958, o lugar se tornou uma espécie de cartão postal da pequena cidade rural que é Oshawa. O restaurante é de longe o preferido entre os mendigos que habitam o centro da cidade, que pausam suas atividades diárias – conversar com placas de trânsito e lamber jornais velhos no bequinho atrás da igreja – temporariamente para saborear a culinária de Louie, meu chefe/chef. Ouvi inclusive alguns deles comentando em voz alta com amigos imaginários que as panquecas do Louie são consideravelmente mais saborosas que o caderno de Esportes, que tem misto sabor de urina de gato com cola de sapateiro (o favorito deles).
Nota mental: JAMAIS confuda a profissão do seu chefe com algo que define exatamente o que ele faz, como “cozinheiro”. Algumas pessoas precisam desesperadamente se apegar a títulos desnecessários para validar a própria profissão. Portanto, Louie é um “chef”, e não um “cozinheiro”, que é basicamente a mesma coisa mas com mais letras.

1) Overhead board
Essa é a área em que os objetos de valor que eu porventura trago ao restaurante devem ser mantidos. Não estou zoando; no primeiro dia de trabalho um dos cozinheiros viu meu palm e perguntou se eu planejava trazê-lo pro trabalho todo dia. Expliquei que o dispositivo era um prático visualizador portátil de pornografias, e que eu preciso carregá-lo pra onde eu for (nunca se sabe quando eu precisarei ter pornografia ao meu alcance). O cara então me aconselhou a manter todos meus pertences à vista, porque ele não confia em ninguém no restaurante. Em seguida ele deu um pulo, olhando pra trás desconfiadíssimo, como se a sua sombra estivesse tentando ouvir o que ele me dizia e em seguida roubar sua carteira.
2) Dish tray
Essa massa disforme esverdeada em que os pratos flutuam não é uma mera representação artística, não – ela é uma imagem bastante apropriada do ambiente que os pratos e talheres habitam enquanto não estão na prateleira do outro lado da cozinha, prontinhos para recepcionar outra porção de batatas fritas ou panquecas. Algumas vezes as garçonetes esquecem uma dessas bandejas (tray = bandeja?) embaixo do balcão da frente, e até que eu finalmente localize a porcariada, a massa de bactérias que toma conta dos pratos já desenvolveu classes sociais e partidos políticos.
A receita pra uma massa disforme esverdeada® é bastante flexível, não se limitando a restos de comida. Guardanapos, cigarros pré-fumados, bolas de ketchup endurecido, panfletos da Igreja dos Santos dos Últimos Dias, canetas estragadas, aparelhos auditivos, ou seja, praticamente qualquer coisa que caiba num prato e esteja ao alcance dos clientes acaba vindo parar na minha pia. É como se houvesse naquele restaurante um vortex onde tempo e espaço entram em colapso, atraindo pequenos itens domésticos em minha direção.
3) A pia
A pia é meu principal instrumento de trabalho. Após enchê-la até o topo com água na temperatura aproximada do Sol num dia particularmente quente, despejar alguns litros de solvente industrial e não usar absolutamente nenhum tipo de equipamento de proteção além de uma deprimente redinha pro meu volumoso cabelo (sim, eu uso uma rede pro cabelo tal qual uma cozinheira mexicana de meia idade), eu empurro pra dentro da pia os pratos cobertos em qualquer substância pegajosa que o restaurante esteja servindo nesse dia em particular e esfrego-os até que a substância pegajosa se torne menos perceptível. Essa parte do trabalho é a que exije maior atenção e esforço; se nesse dia eu estiver com menos vontade de trabalhar, a garçonete servirá um sorvete sabor calabresa a algum infeliz.
Vez ou outra o meu supervisor resolve ser inventivo e despeja alguns galões de água sanitária na pia, e eu vou te contar, nada revela cortes antes despercebidos como meter a mão em uma mistura fumegante de água sanitária, detergente e restos de comida em intermédio estado de putrefação.
4) The grease trap
Quando pedi pro Trunks ilustrar a cozinha, eu deveria ter especificado que também queria um desenho da grease trap. Como não expliquei pro moleque, no lugar do aparelho há uma espécie de explosão criada por formas geométricas do MS Word preenchido com um padrão de tijolos ou algo assim.
Não conheço o nome técnico do dispositivo na língua lusófona, então aí vai uma breve descrição do funcionamento do grease trap e de sua importância na sociedade geopolítica canadense.
Como o restaurante é famoso por servir hamburguers, batatas fritas, bacon e outros itens alimentícios que são o equivalente a mascar uma barra de gordura refinada de porco, boa parte dessa seboseira vai parar na minha pia. Grease trap é uma imensa caixa de plástico cheia de tubos e outros coisas que filtra a água que passa pelo ralo da pia, evitando que o volume astronômico de gordura foda o encanamento do lugar.
Romântico, né? E tem mais.
Toda semana a grease trap precisa ser limpa. Manualmente. Toda aquela sebozeira que ficou lá fermentando por sete dias até atingir o patamar de arma biológica precisa ser removida com o uso de uma panelinha asquerosíssima que é mantida ao lado do equipamento.
Palavras não fazem justiça à inigualável nojeira que é a abertura de uma grease trap. Pra você ter uma noção, a grease trap só pode ser aberta em momentos de baixo movimento no restaurante, ou há o perigo de espantar daquela área três futuras gerações de qualquer infeliz que esteja no lugar nesse momento mágico. O problema não é a gordura em si; é a espuma resultante da fermentação da parada. É uma espuma cinza, bastante espessa – praticamente sólida, aliás – e igualmente fétida.
Após transferir o desagradável conteúdo da grease trap pra baldes plásticos, tenho que carregá-los até o esgoto por trás do restaurante. Se ao menos uma gota do líquido espirrar nas suas calças, não haverá solução senão amputar a perna – isso se você tiver a sorte de não entrar em combustão instantânea ali mesmo.
5) Não sei o nome dessa área
É o local onde os pratos ficam pra escorrer. Após dar umas assopradinhas na louça e me assegurar de que não há quase nenhum pedaço grande de comida ainda visível, jogo os pratos nessa área aí, onde eles ficarão até que eu lembre que tenho que colocá-los de volta à disposição dos cozinheiros. O que geralmente não acontece em menos de meia hora após o momento em que eu deveria ter feito isso.
Fazer o que, eu não posso ser responsabilizado pelo que faço após inalar os vapores da grease trap.
6) Linen closet
É um pequeno armário pra onde nossos aventais vão após um longo dia de fingir que estamos lavando pratos e etc. Sim, caso você esteja seguindo a descrição, eu uso uma redinha pro cabelo E um avental. Se você achava que precisava de alguma boa idéia pra me aloprar, aí está.
Os aventais são lavados em cada Olimpíada, o que garante que você jamais encontrará um que não tenha um misterioso padrão de manchas multicores (e multisabores, basta esperar o chefe virar de costas e descobrir por si mesmo).
Isso é basicamente um resumo do meu ambiente de trabalho. Agora você sabe o que eu estou fazendo quando não estou online no MSN.
Aliás, tenho que tomar um banho já já. Meu turno começa daqui a duas horas. E hoje é dia de pagamento, o pior dia pra chegar atrasado.
Escrito por Kid on Aug 16, 2006
Nos últimos dias eu venho repetindo como um mantra budista que não se deve levar a internet a sério, imagino até que vocês já estão de saco cheio de notar esse tema recorrente nas entrelinhas dos meus textos. Aparentemente é muito fácil se deixar levar pelo mundo virtual, a julgar pelo número de pessoas que se revolta mortalmente pelo motivos internéticos mais triviais, e com “triviais” eu quero realmente dizer “dolorosamente idiotas”.
A bela confusão de ontem no orkut expôs com grau cruel de ironia os perigos de levar o orkut com mais seriedade que se levaria uma tentativa do Tiririca de se eleger a um cargo público que não envolva contracenar com o Carlos Alberto.
Se você esteve acompanhando este blog nos últimos dias, deve estar a par dos acontecimentos relacionados ao super bug do orkut. Em resumo, os hackers revelaram um bug na programação do site que permitia postagem de códigos em javascript.
Mas no fim do dia, revelou-se mais que isso. E esse é o assunto deste post investigativo Globo Repórter style.
Como vocês viram, eu recebi bastantes agradecimentos pelo serviço quase informativo do texto sobre o problema. Como era de se esperar, recebi também uma parcela generosa de xingamentos dos mais variados tipos de imbecis, indo desde aquele que tenta dar uma de esperto, ao que nem sequer tentou fingir isso.
Recebi até uma ofensa mutíssimo pitoresca:

Após anos irritando internautas aleatórios com meus textos e atitudes, essa é a primeira vez que o sujeito pausa seu chilique temporariamente apenas para elogiar a beleza da minha namorada, deixando quase implícito nas entrelinhas uma vontade latente de experimentar sua beleza pessoalmente.
Obrigado, script-kiddies-phedem. Eu sei que ela é uma puta duma loira gostosa, afinal, eu tô comendo. E não entendo por que você vê incongruência entre fazer sexo com a namorada e internetar. Não há nenhum mistério em balancear as atividades. Aliás, é uma questão simples de balancear o teclado na cabeça dela.
No momento, como você espera que eu me ofenda com o seu comentário? Fale o que quiser do alto de sua ignorância a respeito da minha pessoa – ao ratificar o fato de que eu namoro uma gostosa, toda a sua tentativa de me atingir vai por água abaixo.
Aliás, se tiverem um tempinho livre, vão lá ler o hilário comentário do sujeito aí. Se estiverem com preguiça, este é o resumo do que ele falou – “Buá, buá, eu sou ráquer também! Kid, não dê reconhecimento ao K-Max, e sim a mim! Eu quero receber mérito também! :(“
Mas isso é o de menos. Eu estava preparado para receber reclamações de outros nerds que gostariam de ter seus nomes divulgados como grandes ráqueres, ou xingamentos acalorados de gente que reagiu contra mim como se eu tivesse peidado dentro de um envelope e enviado pras avós deles no Natal.
O que realmente me causa um certo incômodo são comentários como este:
Eu tô sem celular.
Tava esperando minha tia me dizer coisas do meu primo…
=/
Ele ta no hospital.
Vc não precisa acreditar se quiser…
Mas td bem…
Bel | 08.14.06 – 12:47 pm | #
Vocês conseguem entender agora o que eu quero dizer com “tem gente que leva o orkut (e, por extensão, a internet) a sério demais?“
Isso não quer dizer apenas que certas pessoas se chateiam muito mais do que deviam por causa de assuntos meramente virtuais, embora essa afirmação seja verdadeira. A confusão do orkut e o ódio que alguns passaram a nutrir por mim por causa disso é uma boa prova.
O outro sentido da acusação de que o orkut é levado a sério demais é que certas pessoas parecem não perceber que se trata de um site gratuito, de acesso público (público e gratuito não é a mesma coisa, seus imbecis. Algo pode ser público, mas não gratuito, e vice versa), lotado de gente usando máscaras internéticas e se valendo do anonimato pra causar confusão, e com mais bugs que a versão beta do Windows 3.1. se ela tivesse sido programada pelo sobrinho retardado do Bill Gates.
Quando eu recebi o comentário da menina acima, por dois segundos eu me compadeci e pensei nas casualidades que o travamento de scraps promovido pela turma do FHBD poderia ter causado. Se for verdadeiro, o comentário da Bel prova que houve repercussões um tanto mais sérias advindas da brincadeira.
Mas aí eu comecei a pensar um pouco. A tal Bel tem um primo enfermo, talvez com aquela variação africana da letal tuberculepra cancerígena, e contava com o sistema de mensagens do orkut para receber informações sobre o estado de saúde do moleque.
Leia novamente – alguém estava contando com o orkut para trocar informações sobre um parente doente. No evento de um problema com o site (algo que acontece com pouca frequência, apenas umas três vezes por minuto), o primo da Bel morreria e ela não saberia.
Será que eu sou o único que tenho vontade de encher de murros alguém que decide depender do orkut, e aparentemente EXCLUSIVAMENTE do orkut, pra trocar mensagens importantes?! Bel, se você decidiu abrir mão de todas as outras formas de comunicação que o mundo civilizado oferece e substitui-las pelo maravilhoso bugado scrapbook do site de relacionamentos do Google, você deveria estar chateada consigo mesma, e não comigo. Não preciso dizer que você foi uma idiota por depender de um site tão instável para receber mensagens importantes sobre o estado de saúde de um membro da familia. Existem vários outros métodos de comunicação na internet – vários outros meios que não exibem sua mensagem a meio mundo; que não decidem parar de funcionar quando bem entendem; que não são tão frágeisl e inseguros; que não expõem informações pessoais suas para qualquer pessoa que saiba manejar um mouse.
Perdoe minha franqueza Bel, mas você é uma idiota. Imaginei aqui a pobre Bel com seus scraps trancados, sentada ao lado de um telefone, com um celular no bolso, com o Outlook aberto no background, com o MSN em status de Ocupado com uma letra de música como nick, e coçando a cabeça tentando descobrir como poderia entrar em contato com sua tia.
Você não pode esperar que eu me compadeça com alguém que deixou a carteira na calçada e depois chora porque a roubaram. Você tomou uma decisão imbecil, e decisões imbecis geralmente têm resultados trágicos. É uma lei universal.
Recebi outras reclamações por MSN e email de sujeitos que se revoltaram contra mim, alegando que mantinham contato com amigos através dos seus scrapbooks. Esses se enquadram na mesma qualidade de idiotas que a Bel. Neguim parece que esqueceu que existem outras formas de manter contato com seres humanos além do orkut.
O babaca cresce e aparece!!!!Ta pensando que o orkut é inutil como voce.Presta atenção o orkut é usado pra manter amigos e nao idiotas como vc.Para de ser criança….idiota cresce vira gente!!!Criança como vc sempre se da mal.Vai se FUDERRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!!!!!!!Vc nao pega ninguem e nao deve ter amigos….VAI BATER UMA PUNHETA!!!!!!Quem sabe vc vira HOMEM!!!!!!IDIOTA, CRETINO, BESTA, ANTA, MULA, IGNORANTE. VAI PRO INFERNO!!!!!!! MORREEEEE.
Rejane | 08.14.06 – 1:05 pm | #
Eu não preciso escrever um parágrafo inteiro pra provar pra você que a Rejane é uma idiota. Até essa linha é desnecessária.
Como a Rejane aí, houve muitos outros que mandaram longos comentários em Caps Lock porque não aceitam que os leitores do FHBD travem seus scraps por um dia para alerta-lo sobre um problema grave de segurança, porque como ele poderá viver 24 horas sem receber uma propaganda de festa, ou desenhinhos ASCII, ambos provenientes de sujeitos que ele sequer conhece? Sou realmente um cara muito, muito malvado, talvez até virgem.
E falando em virgem, não podemos esquecer o adorável Fábio. O sujeito que concluiu que eu vivo em função da internet, e em seguida afirmou que me bateria em virtude de algo que aconteceu na internet. Que me chamou de “virgem” por motivos obscuros; suponho que ele acha que eu nunca fiz sexo porque alguém travou os scraps dele com a URL do HBD. É uma lógica impecável. Outras brilhantes declarações do sujeito envolvem por exempo a “eu faço faculdade – logo, devo ser muito inteligente, uma vez que há apenas membros do MENSA matriculados em instituições de ensino no Brasil” e a “blá blá blá vc eh taum sínico lol blá blá blá“.
Fábio, por favor, evite entrar no meu blog novamente.
Mas é isso aí. Continuem trocando mensagens importantes publicamente por scraps, continuem mantendo contato com todas as suas amizades usando o serviço do orkut, continuem com raiva de alguém que tentou avisa-los de um problema que poderia foder com os próprios interesses de vocês.
Nego não aprende mesmo.
A Saga de um Empinador de Pipas
Escrito por Kid on Aug 14, 2006
(Re-postzinho. Tou meio ocupado agora pra terminar o post que estava sendo produzido.)
Vocês já perceberam que depois que você conhece uma pessoa nova, em breve a conversa se torna uma disputa de quem já se envolveu nos acidentes mais mirabolantes?
Passei os últimos 21 anos estudando essa tendência da psiquê humana. Aliás, de onde surgiu esse acento circunflexo, que minha professora de alfabetização (tia Socorro, que já morreu até, coitada) ficava muito puta se o chamassem de “acento chapeuzinho”? Qual o problema de chamar o circunflexo de chapeuzinho? Temo que agora apenas Satanás poderá perguntar isso a ela.
Não importa. Faça o teste aí; da próxima vez que conhecer alguém novo, comente COMO QUEM NÃO QUER NADA que no verão passado você perdeu um dedo do pé enquanto tentava, sei lá, operar um moedor de carne em cima de um skate. Pode ter certeza que o sujeito tirará a camisa, mostrará uma cicatriz entre a terceira e quarta costela e dirá que foi perfurado por uma viga de construção quando mergulhou do terceiro andar de seu prédio tentando capturar uma pipa desgarrada. Antes que você puxe de memória algum acidente mais imbecil, vai lembrar da minha teoria.
Falando em pipas desgarradas, já contei pra vocês o dia em que apanhei por causa de uma porra de uma pipa?
Era 1997, ou 1998, sei lá. Geralmente lembro os anos em que minhas putarias aconteciam porque bastava lembrar em que série eu estava (fiz a quarta em 94, a quinta em 95, a sexta em 96 e etecétera), mas dessa vez o ano me escapa da memória.
Eu morava na época no asqueroso Conjunto Ceará, um bairro escroto na periferia mais fodida de Fortaleza. Os leitores cabeça-chata não precisam que eu descreva a imagem, mas tem muito sulista lendo isso aqui, então vamos fazer um exercício mental. Pensem aí no bairro mais sujo das redondezas de Calcutá, e em seguida imaginem um caminhão-pipa cheio de esterco, muco, placentas, cadáveres em avançado estado de decomposição e cópias do último CD do Los Hermanos explodindo bem no meio dele, espalhando a repugnante mistura por todo lado. Esse é o Conjunto Ceará.
Meu pai, na época pastor evangélico, liderava uma congregaçãozinha quase ou tão fodida quanto o próprio bairro, bem no meio do sertão cearense. Morávamos na Aldeota, e se eu não estivesse com a imensa preguiça de abrir o Google Earth vocês veriam que há um continente inteiro entre os dois bairros. Depois de algum tempo gastando uma nota preta em gasolina, o coroa resolveu se mudar lá praquela invasão. Ir pra igreja à pé seria seria uma economia considerável, ainda que isso significasse ter que disputar a calçada com crianças peladas brincando dentro de poças de lama com carrinhos de plástico sem rodas e com as caras ocupadas por moscas varejeiras.
Sem putaria, o lugar era sinistrão. Era um misto de invasão do MST com favela indiana, muito tosco mesmo. Inclusive, foi lá que fui assaltado pela primeira vez na vida (o que é assunto pra um post que só escreverei depois de anos de cobranças dos leitores).
Voltando à história, papai-pastor se muda de mala e cuia pra uma periferia fodidaça e eu, filhinho de papai acostumado com colégio particular caro e amiguinhos ricos, me vi morando numa casa rente à rua sem asfalto e moleques que nunca nem tinham visto um computador de perto. Sem computador, sem videogame (eu havia destruído meu SNES acidentalmente pouco tempo antes da mudança), sem carros de controle remoto, tivemos que nos comunicar com base em um denominador comum, ou seja, nossos papos de brinquedos não podiam envolver coisas cujo preço ultrapassasse os dois dígitos.

Acima, uma simulação computadorizada de mim mesmo, aos 14 anos, empinando uma pipa. Perceba as gravatas borboleta com que eu enfeitei minha pipa
E a resposta foram as pipas. Pipas não eram apenas aeromodelos rudimentares construídos com bambu, papel de seda e cuspe; com um pouco de cola branca, cacos de vidro e malícia tipicamente brasileira, uma pipa comum se tornava uma fabulosa aeronave de combate. Nas mãos de pilotos habilidosos, uma pipa podia cruzar os céus com maestria e cortar a linha da pipa de um oponente, e aí fodeu. Alguém voltaria pra casa chorando, com um carretel de linha sem uma pipa na outra ponta.A confecção e decolagem de pipas era basicamente o único passatempo que aquela crianças dignas de um show beneficente do Bono Vox podiam desfrutar. Os que conseguiam arrancar algum dinheiro dos pais de vez em quando podiam se dar ao luxo de comprar pipas pré-fabricadas no mercantil do seu Joaquim da Mandioca. Desconheço o motivo dessa alcunha, porque jamais vi seu Joaquim com nenhuma mandioca, com M maiúsculo ou não. Por isso mesmo, temo o duplo sentido do apelido.Os mais miseráveis e desnutridos da turma (ou seja, aqueles para quem os dois reais que cada pipa custava constituia uma fortuna inalcançavel) tinham que implorar pelas pipas velhas de outrem, fazer suas próprias a duras penas ou disputar as pipas abatidas.
E as pipas abatidas, mas que espetáculo! Uma pipa derrubada era praticamente o equivalente do Conjunto Ceará do lançamento de um ônibus espacial. Pessoas vinham de todos os cantos pra assistir. Não, não é exagero, é literalmente mesmo: o fenômeno resultante de uma briga de pipas fazia muitos interromper seus afazeres e ir à rua assistir a putaria.
Quando uma pipa cruzava os céus à deriva, saíam pivetes de TUDO QUANTO ERA BURACO numa carreira desesperada no encalço da pipa grátis. Crianças desciam de árvores, pulavam da esquina, saltavam de dentro de bueiros, chutavam o portão de casa e passavam sebo nas canelas. Eu nem sabia que tinha tanto moleque naquele lugar. Imagino que estes passavam o tempo se escondendo e analisando o tráfego aéreo do bairro, aguardando o momento de correr. E a animação era porque, segundo o código de honra da pivetada, uma pipa cortada pelo cerol alheio pertencia ao povão. Aquele que a capturasse primeiro se tornaria o dono, e ai do dono legítimo se este se meter a reclamar a posse da pipa! Um delito dessa natureza requeria pena de pelo menos cinquenta cascudos em áreas variadas do corpo.
Segundos após a pipa perdida encontrar descanso no telhado da vizinha da frente, mais guris se juntavam à turba na corrida em direção à aeronave abatida. Chinelas havaianas não aguentavam a velocidade e as tiras estouravam, frequentemente levando rostos imberbes de encontro ao asfalto. Com tantos corpos caídos no chão, o negócio frequentemente se tornava uma corrida com obstáculos.
Sem o menor respeito à propriedade alheia, aos amiguinhos ou aos próprios ossos, a pivetada escalava os muros da casa da dona Francisquinha de Jesus – aquela que vendia pastel de queijo na feira -, disputando cada ponto de apoio na base do tapa, até que alguém finalmente tocasse a seda da pipa. Devia haver algum tipo de lei informal regendo a briga pelo brinquedo, porque no exato momento que alguém encostava na pipa, todo o resto da turma abandonava a disputa.
A cena era pitoresca; aquela criançada toda correndo feito loucos no meio do trânsito, desviando de carros, se empurrando, se esbofeteando, caindo de cara no chão, trepando em muros alheios… por algo que custava dois reais. Ah, Conjunto Ceará…
Além dessa putaria toda (ou por causa dela mesma), a brincadeira das pipas gerava uma perpétua inimizade entre as patotas de cada rua. O pessoal da Comendador Machado odiava a turma da Sete de Setembro, que por sua vez não podia sequer ver a galerinha da 89. Bando de metidos. Se achavam nova-iorquinos, só porque o nome da rua era um número!
O que acontecia é que tomar posse da pipa abatida da rua oponente era uma injúria imperdoável. Se alguém da turma oponente cortasse sua pipa no cerol, tudo bem, era parte do esporte. Bastava voltar pra casa, roubar o dinheiro do pão e comprar outra. Mas quando os amigos do algoz conseguiam pegar a pipa perdida e trazer de volta pro bando, ahhhh… Isso feria a dignidade. A pipa cortada de um oponente era praticamente um troféu de caça, um atestado de superioridade. Era quase como se seu inimigo estivesse de posse de sua própria alma.
Havia ainda uma patifaria ainda mais vilanesca, o ato de “fazer farofa”. “Fazer farofa” consistia em capturar a pipa do oponente apenas para destruí-la completamente.
Entendidas as regras do esporte, continuo a historinha.
Num belo dia de domingo, estávamos eu e a minha turminha empinando pipas. A galera da rua da frente, cujo nome não consigo lembrar, estava na mesma atividade. Eles lá, a gente cá. Olhares raivosos cruzavam a rua em ambas direções. No ar, as pipas materializavam o ódio mútuo que as nossas gangues infantis nutriam uma pela outra – com habilidade, os empinadores de cada lado jogavam suas pipas umas contras as outras, tentando faze-las se engancharem na linha acerolada (que é uma linha com cerol, e não acerolas. Embora o Manélzinho da 21 jurasse ter projetado uma pipa com suco de acerola ao invés de cola. Vai ser pobre assim na puta que pariu).
Num lance de sorte, o Adriano conseguiu desvencilhar a pipa do oponente da linha. Esta começou a cair, desenhando uma espiral no céu em direção à nossa turma. Por ser um domingo, o movimento no bairro era bem menor, e a pipa já caía em nossa direção mesmo. Nem foi necessário correr. Eu, por ser o mais alto entre a nossa turma, peguei a pipa caída com facilidade. Joguei um olhar pra turma da rua da frente, e as caras deles não eram das melhores. Um moleque saiu do meio do grupo em nossa direção.

Ele atravessou metade da rua e, com frases curtas, exigiu a devolução da pipa. Sua mão pendia no ar, insistente.“Ah, mermão” falei “tu sabe como é o negócio. Pipa bolada não tem dono!”O sujeitinho, que acho que se chamava Marcelo, não perdeu tempo debatendo. Ao invés disso, ele voltou rapidamente pro meio da sua turma, que aguardava do outro lado da rua. A retirada voluntária do inimigo foi algo ainda mais honroso que ter capturado a pipa dele. Meu espírito gozador não se conteve.
“Ei, ei, ô, ô, olhaqui!” o rapaz virou o corpo em minha direção “Brigado pela pipa nova, ein!” tendo dito isso, ergui o artefato acima da minha cabeça e ensaiei uma breve e constrangedora dança de vitória.
O moleque, indignadíssimo, apressou o passo em direção aos seus amigos. Ao chegar lá, conferenciou com eles brevemente. Em seguida, correram todos pra rua, saindo da nossa visão.
Minha turma e eu voltamos às nossas atividades normais. Em pouco tempo, a turma inimiga reapareceu na esquina.
Com paus e pedras nas mãos, e olhares sérios na cara.
Não minto, gelei instantaneamente. Nunca fui de brigar, especialmente quando os oponentes são mais numerosos e armados. Pensei em correr, mas eu era o mais velho da minha turminha e a vergonha jamais seria esquecida. Permaneci no mesmo lugar, com a pipa ainda na mão.
“Me dá” disse Marcelo, sem precisar especificar exatamente o que eu deveria dar.
As palavras quase não vinham à boca.
“Mas eu peguei…”
Sem pensar duas vezes, Marcelo girou o braço e o pedaço de pau em sua mão foi de encontro à minha perna. Virei o corpo instintivamente (e vi de relance que meus amigos tinham desaparecido), e a porrada pegou do lado do joelho. Dei um passo pra trás, irado, mas sabia que seria impossível me defender dos três ao mesmo tempo.
“Me dá essa porra, branquelo de merda” disse o menino. Com o joelho doendo e uma inegável vontade de sair em disparada, o orgulho falou mais alto. Fiquei calado. Reconheci um dos pedaços de pau que os moleques carregavam como a perna de uma cama que havia sido jogada num terreno baldio das proximidades (não o do mapa acima, um mais distante).
Sem esperar a minha resposta, Marcelo deu uma estocada com o pedaço de pau e perfurou a película de seda da pipa. Com um rápido movimento, ele arrancou-a das minhas mãos. Me senti como se alguém tivesse arrancado minhas roupas.
Na sua fúria e falta de planejamento na hora de reconquistar a pipa, o moleque acabou estragando-a. Sem pensar duas vezes, ele “fez farofa” ali mesmo. Depois jogou a pipa aos meus pés, e saiu. Até hoje me pergunto o que impediu o sujeito e seus amigos de me dar uma surra de perna de cama.
E eu passei uma semana sem falar com o Trunks, também. Aquele corno fazia kung fu na época e me deixou apanhar sem se manifestar!
Logo após os malfeitores abandonarem nossa rua, a minha turma começou a aparecer. Eu estava morrendo de vergonha, mas dava pra ver que a deles era ainda maior que a minha. Eu estava revoltadíssimo, afinal, éramos uns nove. Armados ou não, cada um dos moleques da rua rival teria que se virar contra três! Seria um massacre, se eu não tivesse sido abandonado como um filho cujo pai descobriu sua homossexualidade.
Mandei todos aqueles medrosos de merda irem pro inferno (incluindo o Trunks) e voltei pra casa. E passei o resto do dia jogando Command and Conquer.
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