Escrito por Kid on Oct 31, 2006

Foi o seguinte.

1) Trabalho

A gente nunca se contenta com o que tem, mesmo. Se há menos de três meses eu choramingava por não ter nada pra fazer além de coçar a bunda, jogar videogame e acessar a internet, hoje em dia meu emprego me deixa indisponível pra basicamente qualquer atividade que não envolva palha de aço, detergente e resto de batata frita grudada com ketchup no fundo da xícara. Porra, quem é o filho da puta que faz essas merdas quando vai em restaurante, ficar misturando condimentos, guardanapos, jogando merda aleatória dentro dos pratos só pra complicar mais o trabalho da nossa comunidade?

Pra complicar mais a situação, um maluquinho lá do trampo teve um total colapso mental, mandou geral tomar naquele lugar, e eu acabei sendo promovido ao posto dele. Agora, talvez o sujeito volte, e eu vou ter que me reacostumar com o salário menor de novo, mas esses dias que o miserável esteve longe do trabalho foram absolutamente alucinantes. Eu já trabalhei turnos de 6, 7 e até 10 horas antes em outras ocupações, mas uma coisa é trabalhar por 6 horas, e outra coisa sensivelmente diferente é trabalhar por 6 horas correndo de um lado pro outro pelo restaurante o tempo todo. Já ouviu alguém usar a expressão¨”mal tive tempo de respirar” pra se referir a trabalho muito apressado e cansativo? Eu descobri que a máxima não é apenas uma daquelas expressões exageradas - a sensação é de que realmente você está tendo que prender a respiração pra ganhar mais tempo.

2) Computador fodido

Após aproximadamente dez anos usando a internet com mais frequência do que tomo banhos, finalmente peguei um vírus, e aí adeus MBR e possivelmente a BIOS também (já que em 60% do tempo, o computador nem entra mais na BIOS quando ligo). Como meu pai - técnico de informática há vinte anos - estava viajando, não havia quem desse um jeito na minha máquina. Como aqui em casa há outros quatro computadores, além dos Palms e do PSP que também acessam a internet, eu desencanei e vi esse infortúnio como uma solução pro meu uso exagerado do computador. Sem o conforto que o meu PC oferece - playlists selecionadas a dedo por este que vos escreve e uma cadeira que se adaptou com perfeição às dobras da minha bunda após anos de uso incessante -, o uso da internet se tornou uma atividade rápida. Entra, confere email, dá um bid no eBay, xinga um velho inimigo no orkut, dá uma checadinha no fórum, lê os comentários do blog, pronto. Após os primeiros três dias, eu percebi que passar o dia inteiro na frente do PC (excetuando-se obviamente o período em que estou trabalhando) é um hábito dispensável. Especialmente quando se tem dinheiro e um vício poderoso. E chegamos no terceiro item dessa listinha.

3) Magic

O vício voltou, e voltou aproximadamente cinco vezes pior do que antes, com +2/+2, atropelar e ganhando vida cada vez que causa dano. Eu era extremamente viciado em Magic no Brasil - e diga-se de passagem, fiz minhas melhores amizades através do jogo -, mas a falta de dinheiro de outrora servia como uma espécie de contenção de gastos com o dito vício. O booster custava uns 13 ou 14 reais, eu quando muito descolava 20 reais no fim de semana. No Canadá, o booster custa uma fração disso, e eu ganho mais de dez vezes o que tinha na carteira aí no Brasil. Além disso, temos aqui lojas especializadas no ramo dos trading card games, que vendem literalmente milhares de cartas avulsas catalogadas em imensos fichários. Por algumas doletas você tem acesso a virtualmente qualquer carta que precise. No Brasil eu costumava dizer que jamais gastaria 20 reais num Call of the Herd ou Shadowmage Infiltrator ou Spiritmonger ou qualquer outra carta super cara, mas uma coisa é dizer isso sem nunca ter sido oferecido o negócio e vendo a faixa de preços apenas no fim da revista Dragão Brasil. Chegar numa loja que exibe dez Chamados do Rebanhos numa vitrine, ter 300 dólares no bolso e sair de lá sem nenhuma é outra história.

Falta do meu computador, trabalho, Magic e dinheiro sobrando na carteira ocuparam uma boa parte do tempo em que estive mais afastado da internet. Soma namorada, amigos, festas de Halloween (temporada que infelizmente acaba hoje) e eu finalmente entendo porque algumas pessoas gostam tanto de usar o argumento da “vida social” quando querem aloprar alguém na internet - argumento que apesar de ser meio mal formulado, tem um fundo de verdade. Qualquer true nerd sabe que dá pra conciliar vida social e internetagens constantes numa boa. Mas vida social, trabalho e vício em joguinho de cartas é outra história.

Esse tempo vivendo no mundo real não foi de todo ruim; a experiência encarando a vida offline me deu uma excelente idéia pra um post. Se eu não descolar o PC novo hoje, me resignarei a digitar o post aqui na sala mesmo.

Disclaimer: Vida social não é o mesmo que alto número de scraps no orkut. Idiotas que mantenham esse tipo de crença talvez se confundam na leitura do post acima.


Escrito por Kid on Oct 29, 2006

É, eu sei, quase uma semana sem atualizar o HBD. As responsabilidades do mundo real me deixaram ocupadaço esses últimos dias.

Tenham um pouquinho de paciência só :(


Resenha - Stay Alive

Escrito por Kid on Oct 24, 2006

Outro dia o JesusWalks escreveu um tópico no FHBD me pedindo pra resenhar um filme sensacional que ele assistiu, e com “sensacional” eu quero na verdade dizer “que merece uma resenha no HBD e daí você pode imaginar a qualidade da parada”. Normalmente não aceito encomendas de resenha porque senão daqui a pouco este blog virará uma extensão do IMDB (na verdade é por pura preguiça mesmo, mas não espalhe), mas pelo que eu já havia lido sobre o filme, seria praticamente um crime de atentado ao pudor à mão armada não escrever umas linhas sobre ele aqui no HBD.

O poster do filme explica o suficiente que você precisa saber pra decidir imediatamente que Stay Alive se trata de uma pérola.


Sacou? É um jogo, e se você morrer no jogo, alguma mágica acontece e você morre na vida real!A verdadeira mágica, no entanto, é como o tal jogo consegue mudar de estilo dependendo do que o diretor ache que é um jogo de computador naquele determinado momento. Durante o filme o jogo muda de gênero pelo menos umas quatro vezes - às vezes o jogo é um survival horror (que por algum motivo absolutamente injustificado é mencionado no filme ao contrário, “horror survival”), às vezes é um first person shooter, às vezes é um third person shooter e antes que você perceba ele é um online shooter com suporte a TeamSpeak e uma câmera que lembra muito a câmera dinâmica de World of Warcraft. Pelo jeito, matar os usuários não é a única coisa que Stay Alive tem em comum com o MMO da Blizzard.

Tendo o último parágrafo em mente, permita-me deixar isso bastante claro - William Brent Bell, o diretor e roteirista do filme, não faz a menor idéia do que é um jogo de computador. Sua visão de como jogos e a comunidade gamer funciona é como se o único contato que ele teve com tais coisas foi através de uma descrição dada por um velho senil de 80 anos de idade. Explicarei melhor minha teoria ao longo dessa resenha.


Na imagem acima, os personagens pesquisam cheat codes pro jogo no GameFAQS. Fora da imagem - a comissão paga pelos execs da Alienware ao diretor do filme, que enfiou aproximadamente três computadores da empresa em cada frame do filme
A ignorância de Brent em relação ao mundo nerd se torna óbvia sempre que ele tenta mostrar que entende alguma coisa a respeito do círculo gamer. Com exceção da referência ao lendário cheat code de Contra pro NES (que no filme é o mesmo que faz as zumbis mostrarem os peitos), praticamente tudo relacionado a jogos e computadores é folheado em camadas duplas de ignorância. Quando os personagens descobrem que o jogo parece “ouvir” os jogadores e ativar certos mecanismos no jogo baseado no que eles falam, um dos personagens se apressa em explicar que “reconhecimento de voz é algo da next gen, é impossível que esse jogo esteja fazendo isso!!!11“. Essa afirmação é verdadeira, mas apenas se você ignorar o fato de que tanto o NES, quanto o SNES, quanto o Nintendo 64, quanto o Playstation 2, quanto o Xbox, quanto o GameCube, quanto o Nintendo DS têm jogos que usavam reconhecimento de voz. Claro que isso é um detalhe bobo que apenas um nerd chato como eu dá atenção, mas eu imagino que se você vai fazer um filme baseado em um único assunto, conteúdo verossímil é o mínimo que se poderia esperar do resultado. Willian Brent falhou em compreender um assunto que moleques de 14 anos tiram de letra.

E há mais detalhinhos pra criticar. Dependendo do tipo de espectador que você é, de repente esses pequenos deslizes dos roteiristas serão o único entretenimento encontrado em Stay Alive.

O vacilo mais notável é a tal mudança entre estilos de jogo; como já mencionei, em uma única cena Stay Alive é três jogos diferentes (um FPS, um third person shooter online, um survival horror). Quando um dos policiais que investiga as mortes vai a uma locadora pra procurar informações sobre o jogo, é atendido por um balconista que vomita falas como “tá interessado num jogo com frag count alto?” ou “nunca ouvi falar desse jogo, deve ser um jogo underground” e que se esforça ao máximo pra parecer um nerd daqueles bem estereotipados. Ora, eu sei reconhecer meus próprios companheiros, e aquele sujeitinho não me enganou por um instante sequer.

O filme é um fracasso no sentido que não inspira absolutamente nada que almejava inspirar nos espectadores. A trama é pessimamente mal escrita. Os personagens têm a complexidade coletiva de um quebra-cabeças de 4 peças. Há tanta química entre os protagonistas quanto há entre um carcereiro e um balconista da farmácia da esquina. Aliás, Willian Brent tentou em Stay Alive descrever um mundo em que ninguém, absolutamente ninguém tem um nome convencional. Hutch, Swink, Loomis, October, Phin… Que diabéisso?

Voltando à lista de fracassos do filme, a história é tão sem sal e forçada que impede que você sinta uma lasquinha sequer de medo durante os sofríveis 100 minutos de duração. Como eu já mencionei, a trama é o que alguém teria em mãos se pedisse pra quatro portadores de síndrome de Down explicassem seus piores medos após os terem espancado por duas horas com um cano de PVC. Como é absolutamente impossível levar a história a sério a menos que você tenha sido forçado a beber querosene duas vezes por dia pelos últimos dez anos, não tem como sequer considerar isso um filme de terror. É muito mais provável rir dos erros de continuidade ou se revoltar por ter gasto 10 dólares alugando o DVD do que ficar realmente com medo de qualquer coisa.

Furos da lógica da história são abundantes. POR EXEMPLO, e aprecie os spoilers, Swink (interpretado por Frankie “eu já fui um ator famoso” Muniz) morre no jogo, mas ao contrário do que se esperava, não apenas não bate as botas na vida real também, como ainda aparece DO NADA na última cena do filme salvando o herói retardado de sua morte merecida. Aí algum hipotético fã do filme dirá “mas isso aconteceu porque, na cena em que ele morria, ele caiu em cima de flores, e flores protegem os jogadores, lembra?” Se é assim, por que a tela do computador mostrava o personagem dele morto? A resposta óbvia - o diretor estava com tanta vontade de criar tensão que estava disposto a ignorar detalhes mínimos como continuidade.

Essa cena tem um lugar especial no meu coração, porque não é todo dia que a incompetência cinematográfica dos responsáveis pela gravação de um filme acaba CONTRADIZENDO O PRÓPRIO TAGLINE DO FILME. A capa do DVD me prometia que quem morresse no jogo morria na vida real, e no entanto o senhor Willian Brent decidiu que eu não merecia receber o que paguei pra ver.

Não consigo me satisfazer em dizer que a trama do filme deve ter sido escrita num guardanapo de bar enquanto Willian Brent injetava tylenol em pó nas veias. Um dos pontos altos da história é o momento em que um dos personagens se torna suspeito da morte dos outros, já que ele era amigo dos caras e tal (como sabemos, ser amigo de uma vítima de assassinato é obviamente, sem qualquer sombra de dúvidas, prova de que você os matou). Há um breve momento de tensão em que os personagens precisam fugir da polícia, e eu comecei a imaginar como é que eles conciliariam lutar com entidades sobrenaturais malignas E fugir da polícia em um filme só.

Pelo jeito Brent imaginou a mesma coisa que eu, e assim decidiu abandonar o lance da polícia logo após daquela cena. Nos trinta e tantos minutos restantes, o fato de que um dos personagens está sendo caçado pela polícia por suposta conexão com as mortes é absolutamente abandonado do filme.

A única coisa que eu queria no final da desperdício de mídia que é esse filme era uma explicação, ainda que idiota, sobre o que acontece na tela. A única explicação que nos é dada é que um programador solitário - e constrangedoramente homossexual - era obcecado pela história da Blood Countess (uma maluca que supostamente matou um monte de menininhas pra se banhar no sangue delas. Estou com preguiça de verificar a veracidade dessa história), quis fazer um jogo usando-a como personagem central, e sem mais nem essa pronto - o jogo mata quem o jogar.

Não existe um propósito claro, saca? Veja The Ring por exemplo, que trás uma temática meio parecida. O ponto da história, se eu me lembro bem, era que a Samara queria que pessoas vissem a fita e mostrassem a outros, um negócio assim. Em Stay Alive, não existe propósito nenhum, e nós somos forçados a apenas acreditar que a tal Blood Countess, apesar de poderosíssima e ter a mania de querer assassinar todas as pessoas do universo, está limitada a matar apenas quem morra no jogo. Eu tava na esperança de eles ao menos explicarem que algum tipo de ritual satânico prendeu a alma nela no jogo, e/ou que ela só terá paz quando matar 17844 nerds, mas fiquei a ver navios.

Não assista. É uma merda.


Escrito por Kid on Oct 23, 2006

Tou de saída pro “vestibular”. Digo “vestibular” entre aspas porque o teste de admissão pras faculdades locais parece ser tão desafiador quanto beber água, e portanto não merece ser sinônimo do famigerado teste que provoca frustração e suicídios estudantis em tantos milhões de vagabundos aí no Brasil. Mas “vestibular” é uma palavra mais curta que “prova pra decidir se eu posso entrar na faculdade”.

Então volto já.


Escrito por Kid on Oct 19, 2006

Se eu quisesse fazer uma pergunta e ter a certeza absoluta de que a grandíssima maioria das respostas seriam equivocadas (concordância toda fodida aí, eu sei), a pergunta não seria “que Star Wars não foi dirigido por George Lucas?” nem “Por que Pinça Craniana foi banida do Extended se há cartas igualmente fodidas que permanecem perfeitamente legais?“. A pergunta capciosa mágica seria “Quem aí já teve enxaquecas?”

Aí todo mundo ia responder “Ontem mesmo tive uma enxaqueca quando estava jogando bola no campinho atrás do bar do seu João!” ou “vixi, nem me fale Kid, estou passando por uma enxaqueca agora mesmo enquanto jogo World of Warcraft!“, ou ainda “Putz, acordei hoje com uma terrível enxaqueca, quase até desisto de ir jogar Pump It Up com meus amigos do cursinho lá no Shopping!”, o que me faz pensar que alguém substituiu o significado da palavra “enxaqueca” enquanto eu dormia ontem à tarde após o almoço. Eu diria numa análise otimista e inventada que aproximadamente 80% das pessoas que afirmam ter tido enxaquecas jamais sequer conheceram alguém que sofresse desse horrível mal. Uma pergunta alternativa, uma espécie de teste pra averiguar a sua compreensão do problema seria “quantas pessoas você conhece/conhecia se suicidaram?” Se você não conheceu nenhum suicida, há grandes chances de que você é apenas mais um na multidão.

A multidão a que me refiro é a multidão dos que pensam que enxaqueca é uma simples dor de cabeça maximizada. Bom, é uma pena destruir esse mundo de fantasias de vocês, mas uma enxaqueca é algo maior que isso.

Uma enxaqueca é uma moléstia começa com um alerta inicialmente indolor - de repente, uma parte da sua visão foi substituída por uma área esbranquiçada ou borrada que te impede de usar os olhos como de costume. É sempre totalmente do nada, uma hora tou assistindo Bob Sponja ou sei lá o que passa na TV esses dias e sem o menor aviso, minha TV desaparece por trás de um borrão bem no meio da minha vista. Agora, após uns oito anos tendo que lidar com essa desgraça, eu já estou relativamente acostumado - não digo totalmente acostumado porque “acostumdo” implica em conformação, e ninguém se conforma em ficar cego - com a experiência. Mas a primeira vez? Porra, eu achei que tava ficando cego de verdade.

E isso nem é o pior. Aliás, essa última frase dá um excelente insight sobre a natureza da VERDADEIRA enxaqueca. Se alguém descreve um distúrbio dizendo que ficar temporariamente cego não é nem a pior parte, pode ter certeza que você está ouvindo a respeito de uma doença de primeira.

Não é uma cegueira TOTAL, porque eu ainda consigo ver ao redor das seções embaçadas e tal. Acontece que como elas geralmente ocupam uma área grande bem no meio do meu campo de visão, não dá pra ler, nem assistir TV, ou sequer reconhecer expressões faciais. Durante esse estágio da enxaqueca, preciso mover a cabeça em círculos quando falo com alguém pra fazer com que o rosto da pessoa se encaixe nas áreas onde ainda tenho alguma visão. É, na descrição mais otimista, um incômodo desgraçado.

Essa cegueira dura mais ou menos vinte ou trinta minutos. Depois você volta a enxergar tudo belezinha, mas o que devia ser um alívio acaba sendo na verdade seus últimos momentos de alegria e paz de espírito. Assim que a “aura” (o termo dado pra essas cegueira temporária) da enxaqueca passa, a dor mais desgraçada que você já experimentou em toda a sua existência chega chutando a porta da sua casa e pondo os pés enlameados em cima da mesinha de centro da sala. Desmarque todos os seus compromissos pros próximos dois (ou mais) dias, pois você estará ocupando rodando na cama embaixo de quatro cobertores, segurando a própria cabeça entre as mãos como se ela fosse cair caso você a soltasse e implorando pela própria morte.

E eu entendo sobre dores. Procê sentir o drama, quando eu tinha quatro anos uma queda do berço provocou a perda prematura do meu dente da frente (e uma porrada de sangue), o que me rendeu uma infância INTEIRA com aquela lacuna no meio do meu sorriso. Meu dente permanente só foi aparecer lá pelos meus nove ou dez anos de idade). Vou te contar, nada desperta a criatividade maldosa de coleguinhas de infância como um banguelinha infeliz.

Mas a dor da enxaqueca está num patamar completamente diferente. A dor da enxaqueca é como se alguém estivesse comprimindo sua cabeça com um daquelas prensas industriais igual a que matou o Exterminador no filme O Exterminador featuring o futuro governador da Califórnia. É uma dor bizarríssima, que ora faz sentir como se sua cabeça estivesse envolvida em chamas, ora faz sentir que alguém jogou um balde de nitrogênio líquido nas suas têmporas.

E quase me esqueci das ânsias. Você conhece alguma outra situação em que alguém vomita de tanto sentir dor? Ou que a vomitada é tão violenta que de alguma forma chega a aliviar a dor supracitada, ainda que apenas temporariamente? Se você nunca precisou dormir com um balde do lado da sua cama, sentido aquele terror que toda pessoa que sabe que está prestes a vomitar pequenos pedaços de seus órgãos internos sente, me perdoe a franqueza, mas você nunca teve uma enxaqueca.


Escrito por Kid on Oct 13, 2006

Eu tinha escrito esse post há mais de um mês e perdi-o no meu desktop em meio a todos aqueles ícones inúteis que tornam impossível achar os aplicativos que eu procuro ou posts que eu precisava postar. Aí está.


Meus amigos, eu tenho uma notícia tristíssima para dar aos senhores. A notícia é tão aterradora e deprimente que eu acho que seria bom aliviá-la reportando uma boa notícia primeiro. Então é com orgulho que eu informo que meu PSP agora roda emuladores de Super Nintendo e que eu estou novamente tentando zerar Pitfal - The Mayan Adventure, uma empreitada que quase custou minha sanidade dez anos atrás. Desafio formalmente Jesus Cristo a derrotar o último chefão do jogo sem usar seus super poderes; suspeito que este jogo foi enviado à Terra por aquele inimigo do Jaspion para fazer crianças destruírem seus Super Nintendos em pura frustração pelo fato de que apesar de ser um excelente jogo, Pitfal exibe controles tão responsivos quanto um tijolo molhado e que tornam virtualmente impossível acertar um inimigo com uma porrada antes que ele encoste em você.

Mas isso é a única alegria que eu sinto no momento. Há uma tristeza profunda rasgando minha alma como se fossem giletes enferrujadas embebidas em urina de gato neste momento.

Uma velha conhecida nossa, que andava mal de saúde nos últimos meses, não suportou as mudanças do tempo e veio a falecer recentemente. Apesar de todos os esforços altruístas dos últimos bravos que lutavam contra o iminente destino, estamos agora sozinhos.

Esta velha conhecida se chama Internet. A Internet, meus amigos, morreu. E deixou a nós, nerds que acompanharam sua chegada nos anos 90 e sua trágica popularização nos 2000’s, órfãos desamparados. E digo “trágica popularização” porque essa foi uma das piores desgraças a atingir o planeta Terra, e sem a menor sombra de dúvidas a principal causa da morte prematura da Internet.

Aí você diz “claro que não morreu, ainda estou baixando meus hentais de bizarrice aqui no SoulSeek” e eu respondo que, assim como o Comunismo, a nossa querida Internet foi removida de seu real significado e existirá daqui pra frente como uma triste paródia do que era nos tempos de glória, uma sombra de si mesmo. Cagaram a Internet.


Quando Deus criou a Internet há seis mil anos atrás (por pedido de Adão que o convenceu a fornecer uma forma mais rápida de receber informaçõe sobre seus desenhos japoneses favoritos), o Criador deu à Rede várias funcionalidades. Além da possibilidade de encurtar a distância que separa pessoas das informações irrelevantes que elas procuram, a Internet nos deu de presente também uma forma instantânea de troca de mensagens que está atualmente substituindo os meios convencionais como telefonemas, sinais de fumaça ou arrotar palavras, e teve até o cuidado de preparar a chegada de um navegador que seria propagado entre nerds militantes como o novo ícone de adoração geral, o pilar da religião virtual que mais adquire adeptos em toda a Internet. Até mesmo a forma como as pessoas vendem e compram suas tralhas foi afetado pela chegada da Rede; pra pesquisar preços antigamente você tinha que perambular pelo centro da cidade visitando mil lojas e perguntando pro balconista se aquela Gibson Les Paul arranhada vale um descontinho. Hoje basta clicar no “Price: Lowest First” no eBay e você tem acesso às melhores barganhas da história do planeta. Compar assentos de privada semi-novos por 25 centavos nunca foi tão fácil antes.

Claro que além dessas bobagens, veio uma dádiva inédita - graças a Internet, você pode ofender pessoas que, se você fosse tentar ofender através de outro método, precisaria pagar passagens aéreas ou ligações interurbanas.

Imaturo? Mas claro que não. Caso você não saiba, usar a Internet para ofender outros seres humanos é o principal motivo que levou-a a existir por tanto tempo, e que desencadeou os grandes avanços relacionados. Banda larga foi desenvolvida pra que ofensas a respeito de qual episódio de Arquivo X foi o melhor da série fossem trocados com mais velocidade, e conectividade WiFi foi criada quando alguém percebeu que passava muito tempo fora de casa e que nessa hora não poderia se defender das injúrias sofridas no fórum de Harry Potter que ele frequenta.

Pelo amor de deus, entendam que a base da Internet é o confronto verbal. Se você está na Internet, e eu acho que você está, em algum momento - talvez até agora mesmo - você está ocupado brigando com alguém no orkut. Pouco sabemos a respeito do futuro, exceto duas coisas - 1) Jesus voltará do céu e presenteará os ateus removendo de uma vez só TODOS os crentes da face do planeta, e 2) alguém que use a Internet pela primeira vez estará discutindo com alguém em menos de dois minutos.

Infelizmente, como acontece com tudo em existência, algumas pessoas não conseguiram apreciar o privilégio que tinham. E começaram a levar as coisas a sério.

Em um texto anterior, entitulei esse tipo de gente de “Power Rangers Virtuais”. Os Power Rangers Virtuais são pessoas que transferem pra Internet toda a frustração resultante do fato de que eles sabem que jamais farão absolutamente nada de importância na vida, e que passam a buscar um propósito maior para o desperdício de oxigênio que sua respiração é através de espalhar boas obras no mundo virtual. Escrevi esse artigo sobre o fenômeno dos Power Rangers Virtuais, caso você precise escrever uma dissertação sobre o assunto pra aula de Redação e não tenha achado nenhum outro lugar de onde copiar um texto prontinho.

Voltando à meada, foi essa espécie desgraçada de internauta que cimentou o destino da nossa querida Rede. Com a popularização do acesso à Internet, muitas pessoas que jamais deveriam ter sequer estabelecido contato com outros seres humanos se viram interagindo com milhões de pessoas de uma vez. Essas pessoas se chamam “aqueles que se ofendem com facilidade e que ao invés de lidar com o problema com esportividade, buscam freneticamente pelo telefone do primeiro advogado de meia tigela que se disponha a representá-los legalmente num caso de injúria cometida virtualmente”.

Você já deve ter ouvido falar de algum caso envolvendo xingamentos via orkut ou criação de comunidades levemente ofensiva que levaram seu criador a ganhar 100 horas de trabalho comunitário ou alguma outra pena ridícula similar. Por que isso está acontecendo?

Por um motivo simples - os newbs.

Os newbs da Internet são donas de casa, professores aposentados, servidor público vagabundo e toda outra espécie de gente que não tem absolutamente nada pra fazer da vida e um QI equivalente ao de uma meia. Formou-se todo um contingente de usuários que são absolutamente incapazes de ler uma provocação e dar uma risadinha, ou pensar em responder de forma sarcástica ou algo assim. O negócio agora virou “TE PROCESSO!” E a pressão de tantos fez com que a Internet, algo que jamais deveria ser levado a sério, passasse a ser levada a sério.

Cada vez que leio uma manchete dizendo algo como “Criador de comunidade difamatória foi condenado a pagar indenização de R$ 0,50″, choro por dentro (e um pouquinho por fora também). Nada me dá mais insatisfação e tristeza do que ver o sistema judicial, algo que deveria ser o último santuário de bom senso, dando razão a idiotas que se sentem ofendidos porque alguém disse num fórum que eles são velhos e gordos e os recompensando por mobilizar todo o sistema pra extrair vingança como forma de colocar um band aid nos seus egos. Aliás, o simples fato de que os juízes presidindo o caso não rasgam os laudos e jogam na cara do infeliz já me faz perder um pouco de fé nesse mundo.

Existe um probleminha com esses negócios. Aliás, um não. Vários.

1) Tais processos baseam-se no princípio de que a honra do ofendido foi ferida

Vamos por um segundo imaginar que “crimes contra a honra” não são um pressuposto absolutamente idiota. Digamos que é realmente possível, através de palavras apenas, destruir completamente o respeito que uma pessoa tenha por si mesma e joga-la diretamente à mais profunda depressão suicida.

Como é que alguém permite que algo que aconteceu exclusivamente no mundo virtual lhe atinja tão dolorosamente? Não existe uma voz da razão na cabeça dessas pessoas que diga “calma, tudo isso está acontecendo dentro do seu computador; desligue-o e olhe em volta - existe um mundo exterior (que não precisa ser envolvido nisso, então não invente de ligar pra um advogado)”? Talvez até exista, mas ela fala mais baixo que as outras vozes que habitam a cabeça desse povo.

2) Se hoje eu não posso xingar a Fulana, amanhã não me deixarão xingar o presidente

Eu sei que o exemplo é levemente exagerado, mas afinal de contas você está lendo isso no HBD. Se hoje decide-se que eu tenho que ser educado com todas as pessoas virtuais que eu não conheço e que não me inspiram nenhum respeito, o que impede que leis mais restritas sejam empregadas no futuro pra defender pessoas mais importantes das nossas opiniões? O que é mais importante, o bem do indivíduo (não ser “ofendido”) ou o bem do grupo (se expressar livremente sem medo de represálias legais arremessadas por aqueles que não têm jogo de cintura pra lidar com críticas)?

Alguns países como os EUA e o Canadá souberam fazer as coisas direitinho - liberdade de expressão é ABSOLUTA. A menos que você diga algo como “eu vI o fulano roubando uma loja de conveniências ontem à noite” e isso seja mentira, ninguém pode processar você por expressar uma opinião negativa sobre eles. Statement of Fact (”Eu vi o Fulano atirando em alguém”) é diferente de Statement of Opinion (”Eu acho que Fulano é um idiota”) - esse último é absolutamente impunível.

3) A pessoa ofendida provavelmente mereceu os ataques

A melhor justiça é a justiça popular. Por que perder tanto tempo com processos jurídicos lentos e burocráticos quando existe a opção de julgamento e condenação popular?

Na Internet, milhares de pessoas são julgadas diariamente. Eu mesmo estou sendo julgado por centenas de leitores sempre que atualizo essa bagaça. As pessoas deviam engolir um pouco o orgulho e aceitar que, se eles se comportam como perfeitos idiotas na presença virtual de outros, esses outros responderão com hostilidades. E a beleza da coisa é que ninguém precisa dizer “seguinte, vamos agora aloprar o Fulano. Um, dois, três, valendo!”; como que por telepatia, todo o grupo adquire simultânea insatisfação e age como um só indivíduo.

Isso é o mais próximo da idéia de democracia utópica que chegaremos. Enfiar o sistema judicial no meio para reverter a setença popular é desrespeitar a harmonia de um grupo que lida com seus párias de forma muito mais eficiente.

Mas não deixe a lógica e a razão se impor perante a idiotice da turminha que chegou querendo pôr “ordem” na Internet. Se isso é ordem (avalanches de ações legais por motivos triviais), viva a anarquia.

A Internet nasceu pura. Os idiotas a corromperam.


Escrito por Kid on Oct 9, 2006

[ Update ] Muita gente queria mais informações sobre o filme cristão que eu mencionei nesse post, então resolvi dar uma googleada milagrosa e descobri o nome da fita - Image of the Beast, que é a terceira parte de uma série iniciada com o Thief in the Night. Com a palavra, um usuário do IMBD:

I saw this movie when I was a child and it terrified me. I still vividly recall images of the Rapture, the Mark of the Beast and the horrible fate of those Left Behind. It’s the perfect movie to show your kids if you’re a religious fanatic and you want your kids to start wetting the bed and crying in their sleep (…) It actually sowed the first seeds of my disbelief and started my move away from Christianity. If you have to resort to terrifying people in order to convert them instead of using rational discourse it doesn’t say a whole lot for your belief system. This movie relies on the worst sort of emotional manipulation to convey its message. I didn’t see the others in the series but since this is the best of the bunch I probably wouldn’t bother with the others. I watched this movie again recently and I didn’t find it terrifying at all, just really overwrought and annoying. If you like those cheesy Left Behind Books, you’ll probably like this version of the Revelation fantasy. Oh, and the acting is really awful.”

O cara falou praticamente TUDO que eu escrevi sobre o filme, mas em inglês.

Em posts futuros, elaborarei melhor o que me distanciou da religião cristã, e os efeitos resultantes da minha “saída do armário”, como alguns gostam de falar.


A maioria dos leitores do HBD deve saber do meu histórico religioso, que vez ou outra é mencionado quando eu preciso tornar minhas opiniões idiotas sobre o assunto um tanto mais válidas através do processo falacioso de apelo à autoridade. Porém, tal qual o Wolverine, sou canadense e meu passado no que diz respeito a esse assunto é nebuloso e nunca foi satisfatoriamente explicado. Pouco se sabe sobre a minha infância religiosa e sobre os mecanismos que me libertaram da crença cristã.

Até hoje. Como o download da ISO de Wipeout Pure pro PSP tá demorando horrores, resolvi usar este tempo livre e ocioso pra tecer mais um episódio de minhas memórias infantis. Assim, quando eu finalmente lançar meu livro que terá como tema esse assunto, vocês não precisarão compra-lo.

Quando nasci, meu lar abraçava a fé católica. Vale lembrar que os Nobre até então eram apenas eu, minha mãe e meu pai. Mais ou menos na época que o Trunks veio ao mundo, meus pais decidiram que catolicismo não era mais tão divertido como antigamente e resolveram fazer um upgrade pro protestantismo. Meus avós - católicos roxíssimos do tipo que toda sexta feira abre as portas da casa pra que os idosos das redondezas compareçam à sua novena/vigília ou sei lá qual é o nome daquele evento social em que 16 anciões do bairro rezam em uníssono até que algum lembre que a novela está pra começar - obviamente rejeitaram a migração da pequena família Nobre à crença protestante, mas ninguém realmente dá a mínima pra o que os mais velhos falam e Papai e Mamãe Nobre continuaram sendo crentes como pretendiam.

Graças a amizades em lugares altos na hierarquia da congregação, em pouco tempo meus pais se viram profundamente envolvidos com o funcionamento da igreja. Minha mãe, música desde a juventude, passou a aprender aquelas canções religiosas bem chatinhas pra tocar na igreja nos domingos. Meu pai, bom, não lembro exatamente o que ele fez pela denominação, mas algo importante foi, porque em algum tempo o meu velho foi reconhecido com o imponente título de PASTOR da congregação (que era uma variante da Assembléia de Deus chamada Assembléia de Deus Betesda que, segundo a lenda, foi fundada na tentativa de alcançar a região burguesa da gloriosa capital cearense).

Então, como eu ia dizendo, meu velho foi “presenteado” com a direção de uma igreja. O que eu não esperava é que a tal igreja se localizasse no coração do Conjunto Ceará, um bairro nada prestigioso. Auto-plagiando-me de um outro texto, aqui está uma boa descrição do lugar.

Pensem aí no bairro mais sujo das redondezas de Calcutá, e em seguida imaginem um caminhão-pipa cheio de esterco, muco, placentas, cadáveres em avançado estado de decomposição e cópias do último CD do Los Hermanos explodindo bem no meio dele, espalhando a repugnante mistura por todo lado. Esse é o Conjunto Ceará.

Eu, um típico filho da classe média brasileira que tinha até então vivido a base de nuggets, danoninho e refrigerante no almoço, me vi vítima da trágica relocação ao centro do bairro mais nojeira que minha cidade natal tinha a oferecer.

Esse é basicamente o resumo de como minha família passou de católicos não-praticantes a evangélicos líderes de uma congregação. Mas e qual o meu relacionamento com a fé que eu herdei dos meus pais? Vamos com uma palavra só pra ser conciso?

Indiferença. É esperar demais que um garoto de 10 anos compreenda que até mesmo suas atitudes mais trivias (como, sei lá, tocar uma punhetinha tranquila no aconchego do armário da vizinha enquanto ela troca de roupa na sua frente) seriam responsáveis pela definição de seu destino eterno. Por mais que eu ouvisse e lesse a respeito da coisa, o mundo espiritual simplesmente não me interessava de forma alguma. Eu estava muito mais preocupado com os mais badalados lançamentos para o SNES e na súbita constatação que garotas tinham peitos do que com algo que aconteceria com a minha alma dali a décadas.

Até o dia em que meus pais resolveram me convencer na base do medo.

Era 1994, e uma seçãozinha de cinema havia sido marcada na minha casa praquela noite. Éramos os felizes donos de uma TV de 29 polegadas, o que na época era o equivalente a uma Ferrari construída em ouro puro recheada de diamantes, caviar e boosters de Magic de Eras Glacias ainda lacrados. Por causa disso, meus pais não desperdiçavam oportunidades de reunir os amigos pra assistir filme lá em casa.

A turminha da igreja tava toda lá, e mamãe já começava a distribuir um lanchinho pra galera quando meu pai pôs a fita no video-cassete. “A Marca da Besta”, ou algo que o valha, era um filme dos anos 70 que eu aposto que se fosse assistir hoje em dia me traria lágrimas aos olhos e dor nas bochechas de tanto rir. Mas, no auge de meus 10 anos, a trama era a coisa mais aterrorizante que eu vi até então. E falo isso sem exagero nenhum agora.

A fita relatava a suposta volta de Jesus (anunciada aos seus seguidores que já morreram há quase dois mil anos; apesar de andar na água e ressucitar mortos, Jesus não era lá o cara mais pontual do mundo) e o celeuma absoluto que se instaurará no planeta quando a crentaiada for “arrebatada”, como eles dizem, em direção ao céu.

Não quero me alongar nos detalhes da fita porque o post já tá ficando mais longo do que eu esperava e acho que a ISO de Wipeout Pure já completou, mas permitam-me atiçar a sua curiosidade dizendo que havia até guilhotinagem de crianças na fita. Mermão, eu cresci assistindo filmes como Exterminador do Futuro e Aliens, mas aquela porcaria cristã mal filmada e mal atuada me deixou aterrorizado. O maior medo de uma criança é se ver perdido dos pais; aquele filme conseguiu de uma tacada só me pôr o receio de que eu estaria permantemente separado dos meus pais (que eram “mais crentes” do que eu e portanto merecedores de um ingresso no arrebatamento, ao contrário deste que vos escreve) E que o mundo se tornaria uma putaria tão fenomenal que até cabeças infantis rolariam nas guilhotinas dos aliados do Anticristo.

(A propósito, não foi até pouco tempo atrás que eu finalmente confrontei minha mãe por injetar terror em minha mente pueril, o que em retrospecto apenas me deu mais munição pra detestar a religião cristã com todas as forças.)

Graças ao medo da danação eterna, me vi sem opção a não ser aceitar o amor de um Deus que me condenará ao fogo infernal a menos que eu o ame de volta. E passei a prestar mais atenção nos cultos, nas pregaçães do meu pai, nas entrelinhas daquelas passagens bíblicas tão sem sentido cuja leitura pode implicar em quarenta interpretações diferentes e ainda assim mutuamente corretas. E passei a ir à igreja com frequência maior.

Inicialmente, eu me sentia como se tivesse removido um peso das minhas costas. “Pronto, não vou mais pro inferno, que beleza!” era um pensamento confortante, ainda que viesse com o peso de adicionar compromissos religiosos chatos à minha atarefada agenda de jogar videogame e arrumar confusão em canais de IRC - o que foi o precursor do HBD que você lê hoje. A diferença é que eu não podia usar palavrões, uma vez que isso é algo absolutamente reprovável pela cultura cristã. O estigma do uso de palavrões é tamanho que eu evitei durante toda minha infância e me lembro EXATAMENTE a primeira vez em toda a minha vida que falei “porra” - foi durante a final da Copa de 1994, quando o Taffarel permitiu o primeiro gol italiano. E falei um porra baixinho, discreto, na esperança que ninguém ouviria.

Agora imagina aí a complicação de irritar estranhos no IRC sem poder usar palavrões. Foram aqueles dias que treinei minha retórica e argumentação, que hoje podem ser postas de lado no lugar de um simples e direto “vai tomar no seu cu, filho duma puta rampeira de beira de estrada!”.

A fé cristã reaquecida veio também com um medo fatal de Jesus. Isso mesmo; por causa das doutrinações paternas, meu maior medo de infância era Jesus. Tou falando sério. Meu infantil medo do escuro se devia ao fato de que, ao contrário do bicho-papão e lobisomens, Jesus era não apenas “real”, mas onipresente. Ou seja, eu “SABIA” que ele estava no quarto comigo, e isso me fazia mijar as cuequinhas de medo porque, afinal de contas, o cara é filho de Deus. O que o impedia de me punir pelos meus pecados pueris ali mesmo, partindo minha cabeça ao meio com sua Metralhadora Divina? Eu tinha pesadelos horríveis com o Filho de Deus, acordava no meio da madrugada totalmente banhado por suor (mas por outro lado, eu morava no Ceará, então não posso culpar Jesus inteiramente por isso), e ia dormir na cama do Trunks.

Ah, e um detalhinho que jamais revelei a ninguém - o trauma com a figura religiosa me causou enurese noturna por uns quatro anos. Dê uma googleada aí e ria da minha cara.

Mais ou menos nesse tempo eu arrumei minha primeira namoradinha, que era filha de um casal de relativa importância no micro-cosmo da igreja que meu pai liderava. Aliás, graças à magia do orkut, reestabeleci contato com a garota recentemente. Como eu ia dizendo, arrumei uma namorada que frequentava a igreja, então finalmente havia um motivo pra ir aos cultos além do menos agradável “se eu não fizer isso todo domingo serei jogado no inferno”.

Em muitas formas, a minha vida cristã foi de muita importância para a minha digi-evolução em direção à nerdice profunda. Crentes e nerds compartilham muitas características - ambos são mal vistos pela sociedade, se interessam em livros que ninguém mais em todo o planeta acha interessantes, passam horas debatendo as aventuras de personagens sobrenaturais com super poderes, se vestem mal e, acima de tudo, não trepam. Crentes têm até mesmo a sua própria versão de adágios supersticiosos nerds - como o célebre “A Paz do Senhor, irmão!”, que é uma forma resumida do “Que a Paz do Senhor preencha sua vida e impeça que você vá pro inferno, apesar de que o próprio é a única força responsável por realmente enviar alguém ao inferno então a frase não faz muito sentido”.

É um “May the Force be with you/Live long and prosper” religioso que trocávamos durante as “confraternizações”. A “confraternização” era aquele momento em que, seguindo a deixa, minha mãe tocava alguma musiquinha de cunho levemente social como a Queeeeeeeeero/Te dar a Paaaaaz/Do meu Senhoooooor/Com muito amoooooooooor (sim, essa é a letra genuína da música) e a igreja inteira se levantava das cadeiras e saía apertando a mão de todo mundo e recitando o “A Paz do Senhor, irmão!”, como uma forma de simular uma camaradagem absolutamente inexistente e partindo do pressuposto que se você apertar a mão do sujeito energicamente e talvez pôr a outra mão em cima das duas ou usá-la pra dar um tapinha no ombro do cara, Jesus vai pensar que vocês são realmente coleguinhas.

A única coisa que eu realmente sinto falta dos tempos de igreja é a sensação de pertencer a um clubinho exclusivo, e qual clube poderia ser mais seleto e prestigioso que o grupo dos que não queimaram no inferno durante toda a duração do universo? O hábito de frequentar igreja dava também um significado aos domingos. O que antes era apenas um dia de evitar assistir TV aberta se tornou um dia pra ir à “casa” de um ser invisível pra tentar ao máximo provar a ele que você acha que o cara é foda.

Mas quando paro pra pensar, o que fiz foi trocar tudo aquilo pela habilidade de fazer sexo não-matrimonial e falar palavrões.

Acho que foi uma boa troca.


Escrito por Kid on Oct 5, 2006

Agora que estou relativamente mais descansado da sensacional noite de glória dos deuses do metal que abalou a maior cidade do Canadá e foi registrada por sensores sismológicos no interior do Tocantins, posso transcrever os eventos para a apreciação pública da Internet neste blog.

Eu estava ainda no trabalho quando Casey e Paul, os colegas de aventura, chegaram pra nos levar pra estação de trem. Praticamente larguei a vassoura ali mesmo e mandei uma desculpa corrida pro chefe, dizendo “ó, minha carona chegou, tenho que ir“. Ele deu uma olhada de soslaio na cozinha, viu que tava tudo nas ordi, e acenou desinteressadamente com quem diz “vai, moleque“. Quando eu estava pegando minha jaqueta, a chefia me interpelou.

“Show de rock, né?”
“Daqueles que a turma se esmurra e coisa e tal?”
“E há outro tipo?”
“Tente voltar inteiro, vai”

Tá bom então. Saí na chuvinha fina que tamborilava o solo canadense naquela fria tarde de domingo, cumprimentei os companheiros, e fomos pegar a Gótica no trabalho. Antes mesmo que chegássemos lá, a menina liga pro meu celular pra avisar que esqueceu os ingressos. Apesar de praticamente idolatrar a namorada que tem como hobby me presentear aleatoriamente com Nintendo DS e jogo de PS2 e ingressos pra shows de bandas (esse é o terceiro que ela me deu), o sangue que corre em minhas veias ainda é cearense, e este sangue atingiu ponto de ebulição no momento que eu consegui até imaginar a garota esboçando um ^^ enquanto dizia “esqueci nossos ingressos em casa!”, tal qual os personagens de desenho animado japonês que ela tem hábito de emular.

Puxei o telefone da mão do Casey e esculachei a menina por causa de seu esquecimento. Não demorou mais de três nanosegundos pro arrependimento bater forte, junto com a lembrança de que, por bem ou por mal, ela ainda era dona dos ingressos. Felizmente ela não se emputeceu muito e o desvio que precisamos fazer até à casa dela pra apanhar os bilhetes foi breve o bastante pra ainda conseguir pegar o trem a Toronto em tempo suficiente.

A viagem à capital da província (”província” é a forma canadense de “estado”) foi bastante monótona e marcada apenas por uma longa discussão sobre os consoles da nova geração, olhares reprovadores sendo lançados em nossa direção por causa do grande volume de palavrões que eu e meus amigos usávamos para expressar nossas opiniões, e por causa de um mendigo que dormia nos bancos atrás da gente e que usava uma caixa de sucrilhos como chapéu.

Hyperlink explicatico
Vocês devem ter notado que eu menciono mendigos canadenses com uma frequência peculiar aqui no blog. Isso se deve ao fato que aqui na Gringolândia temos uma diferente qualidade de mendigos, os mendigos LOUCOS. Tais personagens não se contentam em dormir nas ruas e desempenhar favores sexuais por crack, eles também são perdidamente malucos. Temos o Sam, que passa boa parte do seu tempo berrando contra semáforos no centro da cidade, o Dan “The Weather Man”, que usou seus talentos como ex-mecânico pra soldar uma peculiar bicicleta de quatro rodas e que a usa pra ir pedalando até Toronto quando está desocupado (uma viagem de mais de 60km. Quando perguntei pra ele o que ele faz quando chega lá, a resposta? “Ah, dou umas pedaladas por lá. Depois volto pra Oshawa.“), e um terceiro mendigo anônimo que habita o container de lixo atrás do restaurante onde minha “cunhada” trabalha.
Fim do hyperlink explicatico

Chegamos na Union Station em Toronto e pegamos um táxi que nos levaria ao The Docks, uma casa noturna que frequentemente é anfitriã de bandas de rock e apresenta o layout mais preguiçoso que eu já vi na minha vida. Parece que é 1999 de novo, quando a moda era pegar layouts prontos pro FrontPage Express e apenas enfiar conteúdo no meio, rezando pra que o texto não quebrasse as tabelas da página. E pelo jeito o webmaster do site esqueceu de rezar.

A fila não era tão longa quanto as outras filas de concertos que eu presenciei, e antes que percebêssemos já estávamos dentro do lugar. Devo dizer que, apesar de ser uma casa consideravelmente pequena pra um show de metal, eu gostei do “setup” do lugar. Aliás, não sei se vocês vão concordar comigo, mas eu prefiro assistir show num local menorzinho do que num imenso. Vi o Slipknot no Air Canada Centre e no Arrow Hall, que é uma casa menor que a primeira, e eu gostei mais do Arrow Hall. No The Docks, (ou No Docks já que o artigo em inglês se torna provavelmente desnecessário), você podia ter uma excelente visão do palco mesmo sentado no barzinho e saboreando uma pizza de preço imbecilmente abusivo. Ah, por algum motivo que ninguém jamais poderá elucidar, eles vendiam Brahma na Docks. Não apenas vendiam, como também exibiam o item orgulhosamente numa faixa que dizia “We have Brama”, pendurada em cima do freezer decorado com estampas da marca brasileira. Ah, eles vendiam também um tal de Eon, ou sei lá qual era o nome daquela porra, que o cartaz colado no lado do freezer explicava ser um produto da complexa equação matemática “Vodca + Guarana”. A falta de acento é cortesia deles.

Eis que de repente uma banda ocupa o palco, mas não era o Dragonforce. Eu não reconheci nenhum dos músicos, e até onde eu sabia não haveriam opening acts, então por um segundo pensei que os roadies decidiram passar o som de uma forma mais artística. Logo na primeira música os solos de teclado com som que se assemelha levemente com a trilha sonora de um jogo de NES me iluminou - era Horse the Band se apresentando diante de meus olhos. Alías, isso é um detalhe curioso a respeito da geração mp3 - ter quase toda a discografia da banda, mas jamais ter visto a cara dela.

Infelizmente Horse the Band não é exatamente a banda mais popular do mundo e em pouco tempo a platéia impiedosa começou a vaiar os caras em uníssono. Esbanjando espírito esportivo, os membros da banda continuaram tocando suas musiquinhas e, até onde sei, não mijaram no público nenhuma vez. O momento mais memorável da apresentação da banda foi quando um sujeito negro ostentando um projeto de cúpula capilar popularmente conhecido como “black power”, “afro” ou, quando eu era moleque, “jackson five”, e pulou no palco vindo de sei lá onde com um triângulo na mão. E ficou lá, tocando seu triângulo e “dançando” ao lado dos músicos, muito para a surpresa dos mesmos. Após o maluco deixar o palco, o vocalista confessou que não fazia a menor idéia de quem diabos era o cara, e que achava que tinha visto o cara varrendo os banheiros pouco antes do show começar.

Horse the Band termina seu setlist modest (não devem ter sido nem seis músicas, não lembro bem) e entra Still Remains. Mesma recepção amena, até que o público decide que as músicas da banda atingem todos os pré-requisitos para um mosh pit, a.k.a. “rodinha punk”.

Praqueles que nunca saborearam a experiência de um show dessa natureza, “mosh pit” ou “rodinha punk” é o momento em que metade da platéia do concerto chega à conclusão que odeia a outra metade, e que a melhor forma de expressar esse sentimento recém adquirido é esmurrar qualquer pessoa que se encontre no alcance dos seus punhos.

O mosh pit abriu EM VOLTA DA GENTE. Tipo, de repente vejo gente caindo, gente correndo pros lados, e antes que eu possa compreender o que está acontecendo, me encontro no meio de uma clareira habitadas por punks entretidos em sua “dança” característica de socos e chutes no ar. Sem mais nem essa, um cotovelo não-detectado invade meu espaço e entra em rota de colisão com meu rosto. Impacto violento contra a bochecha, e decidi que meu lugar era do lado de roda do mosh pit. Saí sorrateiramente apalpando o interior da bochecha, tentando verificar a presença de sangue. Não tinha.

Still Remains também saiu do palco rapidinho e após uma breve espera de apenas 48 minutos, os roadies do carro-chefe da noite saíram correndo pra todos os lados como baratas quando você acende a luz da cozinha e os membros da banda começaram a ocupar seus espaços no palco.

Agora, lá no fórum neguim encheu o saco pedindo a set list. O problema é que eu não lembro de tudo que foi tocado lá (até porque já faz quase duas semanas desde o show). As únicas músicas que lembro com certeza absoluta que foram tocadas foi Revolution Deathsquad, Valley of the Damned, Fields of Despair, Black Fire e, claro, Through the Fire and Flames. Algo que eu totalmente não esperava é que as camas elásticas que uns roadies trouxeram pro meio do palco seriam usadas pelo Herman e pelo Sam, que se revezavam saltando de uma pra outra NO MEIO DOS SOLOS. Tipo, tocar como um semideus com velocidade digital estonteante não é suficiente, eles precisam fazer algo bem ridículo pra destacar o fato de que manejar a guitarra daquela forma é a coisa mais fácil do mundo pra eles.

E daí pra diante foi basicamente o que você poderia esperar de um show. Os momentos mais memoráveis foi quando o ZP (o vocalista, seu burro) arremessou uma garrafa dágua no meio da multidão e eu, exalando destreza por todos os poros, agarrei a dita-cuja in mid-air e em seguida borrifei os espectadores vizinhos com o seu conteúdo. Jogaram ainda algumas palhetas, mas nem Jesus Cristo em pessoa conseguiria agarrar uma palheta no ar no meio de um show de metal. É matematicamente impossível.

Findo o show, ainda conseguimos nos encontrar com os músicos na saída da coisa.

Aí estão as fotos asquerosas tiradas com o celular de um amigo. A definição não poderia ser pior, mas o colega decidiu passar as fotos pelo Photoshop e surpreendeu a todos multiplicando a baixa qualidade das imagens por trinta.


Namorada, Herman Li, eu e Casey


O show. Como em qualquer outra foto tirada por qualquer outra celular-câmera, não dá pra ver porra nenhuma direito e faz você questionar o propósito de enfiar uma câmera num celular in the first place.

Tinha mais umas fotos (com o baixista e o tecladista), mas eu não sei onde pus a porra dos arquivos. O que me lembra que eu preciso parar de apenas largar fotos no desktop e, uma semana depois de esquecer ter feito isso, sair deletando ícones inativos da área de trabalho.

Já percebeu que nesses posts de shows eu falo muito mais sobre o que aconteceu ANTES do show do que o que aconteceu no show em si?


Escrito por Kid on Oct 2, 2006

Olá, queridos vagabundos? Sentiram minha falta? Como foi seu fim de semana? Votou no Lula direitinho e tal? O dia das eleições democráticas nacionais brasileiras é um dia em que todos deveríamos acordar, bater no peito, recitar os poucos trechos do hino nacional que você ainda lembra e exclamar “Brasil, eu te odeio”. E em seguida, exteriorizar esse ódio votando no Lula.

Mas já chega desse papo de eleição porque isso é um assunto muito chato. Então, eu tenho um assunto muito melhor pra tratar - o show do Dragonforce, que foi tão sensacional que o relato exigiu uma semana de preparação.

Mas antes de vocês se deliciarem lendo o meu relato de como eu levei uma cotovelada na orelha enquanto interceptava a garrafinha dágua atirada pelo vocalista da banda (SPOILER: sim, eu peguei a garrafa), preciso pagar minha dívida e ceder um espaço módico do HBD para a publicação de uma odisséia histórica - o grande e portentoso FHBD WHOREHOUSE TOUR. Se eu soubesse programar flash eu inseriria aqui um botão que, quando clicado, faria suas caixas de som trovar um “FHBD WHOREHOUSE TOUR” com o tom mais cerimonial na voz do próprio Cid Moreira em Sol menor, mas infelizmente não manjo de flash nem do Cid Moreira, embora entenda um pouco sobre Sol menor. Bom, o suficiente pra tocar Wish You Were Here, de qualquer forma.

Então. Como vocês devem lembrar, o FHBD Whorehouse Tour 2006 foi uma brava aventura nerd no coração do baixo meretrício paulista. Munidos de uma Breeze Cam (uma excelente câmera-chaveiro de 0.5 kilopixels), suas memórias afiadas para descrever detalhes e uma forte sensação de que um deles não voltaria pra contar a história, os nossos aventureiros venceram o medo e o senso de auto-preservação e foram ao Andradas pra que o resto de nós não tivéssemos que ir.

Com a palavra, o forista ciberdek.

A rua Andradas é uma velha conhecida dos nerds paulistanos. Ela corre paralela à rua Santa ifigênia começando na Av. Ipiranga e terminando na Rua Mauá e quem não tem grana pra comprar na novidades tecnológicas da primeira, vai lá comprar as sucatas tecnológicas da segunda a precinho camarada (ou não). Mas além de uma espécie de Éden tecnológico o lugar é um conhecido antro de protituição de baixa qualidade paulista. Encravado no começo dessa rua encontramos um prédio meio (Ou muito) mal conservado com uma portinha sinistra. É nesse local que nos metemos. Mas antes vamos à apresentanção dos intrépidos eventureiros que pularam na boca do Leão e voltaram pra contar a história:

Ciberdek (Eu) – Uma espécie de clone do Kid Vinil, mas muito mais bonito.
Hayato – Marcos Mion em pessoa, até deu alguns autógrafos ao longo da empreitada.
Mito da Caverna – O mais próximo que posso chegar da descrição dele é uma espécie de Gugu Liberato hardcore.
Duque 2000 – Um amigo que levei junto pras emergências. Macrobiótico, de regime, abstêmio e nunca tinha colocado os pés em um puteiro. E baixinho. Perfeito pra empreitada.
O Amigo do Mito – Porra, esqueci o nome dele. Tr00 também.(Foda-se ligado Full time)

Logo que cheguei, fiquei no boteco planejado esperando os caras. Como nunca tinha visto nenhum deles na vida isso tornou um pouco mais difícil achá-los. Até porque eles não estavam no boteco que havíamos marcado, mas sim em outro do outro lado da rua…um indício mais que evidente do zelo e organização colocados nesse empreendimento . Coisa de primeiro mundo.

Após algumas cervejas durante as quais falamos mal de todo o fórum, entre confissões do Mito do calibre de “Eu beijei a Rita Cadillac na Bunda” (O que faz com que ele tenha beijado o Sabotage por tabela) resolvemos encarar a briga, e fomos para o local da contenda. Assim que entramos, Duque foi intimado a deixar a mala na recepção e a morrer com módicos R$ 1,00 pelo “serviço”. Isso indicou o tamanho da treta que estaria por vir. O lugar em sí parece com qualquer um desses prédios com um paraíba na porta que vemos aos montes por São Paulo, mas ao invés de um paraíba, temos um negão com cara de poucos (bem poucos) amigos e a conservação do edifício nos remete a qualquer obra de Sérgio Naya (Depois que desabou). Nos encaminhamos ao elevador que nos içaria até o 9º andar do edifício em questão, de onde desceríamos intrépidamente. Logo chegou o elevador e o Hayato na pressa de abrir a porta do elevador simplesmente barrou a saida da tia do elevador, o que lhe rendeu um sonoro esporro da mesma.

Como o elevador da bagaça só leva 4 condenados… digo, fregueses eu tive de ficar esperando que Mito, Duque, Amigo do Mito e Hayato Subissem e me aguardassem lá em cima. Pelo que me foi relatado, o Duque roubou uma balinha da tia do elevador o que fez com que os outros temessem seriamente por sua integridade física e pela dos demais ocupantes do elevador pois a tia do elevador do Andradas é barra pesada. Lá também tivemos que morrer com R$ 1,00 pela viagem… que foram exigidos com a sutileza de um hipopótamo desgovernado em uma galeria de arte, muito foda.

Enquanto esperava que o elevador voltasse eu privava da agradável compania de sujeitos que também esperavam o elevador e cuja aparência oscilava entre o “visual mendigo padrão” e o “pião de obra fashion”, um luxo. Nunca me senti tão bem acompanhado.

Cabe aqui um breve interlúdio pra explicar a arquitetura do abatedouro. Andares com corredores pequenos e salinhas sujas com camas que não são sujas… são algo acima disso. Nos corredores, putas capazes de tirar o tesão até do maníaco do parque ficam passando rasteira em você pra ver se você cai e elas te arrastam pelas pernas pra algum cubículo-pulgueiro pra abusarem sexual e financeirament e de você.


Logo que o elevador voltou, pedi pra ir ao nono andar onde a galera estaria, mas o elevador parou no sexto e a visão que pude ver pela porta entre aberta não me fez apenas me arrepender de ter ido ao tour, mas também me arrepender de morar em São Paulo e quiçá de ter nascido. Putas com um nível de enfuleiramento raramente encontrado fora de cidades em guerra e semidestruidas rodeavam a porta e assim que o infeliz que teve o desatino de apertar o 6 desceu, foi engolfado por um horda delas. Cena digna do filme “Madrugada dos mortos”, só que um pouquinho pior e com mais sangue e com Zumbis muito mais feios. Uma vez que eu não podia sair pelo teto do elevador e dar um tiro no cabo de aço como o Neo da Matrix, tive de me resignar e esperar que a galera estivesse lá pra me dar um apoio moral quando desembarcasse no pesadelo. Mas qual não foi minha surpresa quando desci do elevador, e ao invés de ver a galera do fórum, dei de cara com uma puta mais feia que peidar em missa que praticamente me deu um mata leão me arrastando pra um dos cubiculos fétidos enquanto que aos gritos rogava que precisava achar meus amigos. Quando me vi na porta de um quarto de uns 2 por 2 com uma caminha que tinha por cima algo parecido com um lençol, mas que apresentava uma coloração ligeiramente esverdeada nem imagino (E nem quero imaginar) o porque, toda minha vida passou diante de meus olhos. Em um movimento ninja que deixaria Jackie Chan parecendo um portador do mal de parkinson, me livrei da Ogra-Puta e me lancei escada abaixo em um cagaço jamais visto.

No andar de baixo, encontro meus amigos que haviam sido enxotados pelas putas do andar superior e descubro que Duque tomou um puta agarro de uma delas e já apresentava seqüelas psicológicas, evitando se proximar de tudo que usasse roupa curta. Hayato estava à vontade, tratando as putas como amigas e o Mito já apresentava-se para o abate selecionando a mercadoria que era farta e de baixa qualidade, mas nada que abalasse um macho alpha sem noção como Mito que já tava negociando o valor dos pegas. Iamos descendo os andares enquanto nos desviávamos de agarradas, beliscões e passadas de mãos. Lá pela altura do quinto andar, o panorama melhorou de filme de terror trash para filme B de quinta, tipo Zé do Caixão. Ali havia putas até comíveis, mas que eu não encararia ainda, afinal para tanto eu deveria ter achado meu pau no lixo radioativo sendo comido por vermes que brilham no escuro. Continuamos descendo enquanto observávamos as putas com suas roupas curtas e bregas e cuja beleza variava entre algo como Charlotte Pink até coisas como a Derci Gonçalves de ressaca depois de levar uma surra e cair embaixo de um trem de carga a 175 por hora. Uma visão do inferno. Como o Mito não parou pra tentar comer ninguém e estava combinado que ele seria quem ia encarar a bagaceira, fomos até o térreo e após pararmos o Hayato me informou que ninguém seria comida porque o local não permite fotos. Como raciocinou mito sabiamente “ Não adianta gastar grana e fazer o serviço se não der pra fotografar”, eu ainda tentei argumentar que sem SS é fake, mas também sabia que sacar uma câmara fotográfica sem autorização daquele locar e injetar Cianureto direto na veia do pescoço seriam atos com conseqüencias exatamente iguais. Então não havia o que argumentar. Tomamos a decisão de tentar tirar fotos em outro lugar, pois já tinha gente olhando torto no Andradas e lá não é local que se brinque, pois o mais fraquinho lá belisca azulejo. Absolutamente casca o lugar.

Decidimos ver se conseguíamos foto de algum inferninho a pós negociar com um tiozinho, entramos em um pela módica quantia de 5 pilas. Quando entrei não posso descrever o que vi. Até porque não vi porra nenhuma, já que o lugar era escuro pra caralho. Assimq eu meus olhos se acostumaram percebi que o lugar era pouco maior que a garagem de casa e um pouco mais sujo.
Com sua capacidade de negociação, o Mito conseguiu uma cerveja na faixa pra cada um assim pudemos molhar a goela. Em cima de um pauquinho bem tosco uma puta das mais feias que eu já vi dançava enquanto que uma outra conversava com o Mitoe o Hayato e uma outra estava beijando um chinês no canto. O porra do chinês devia estar num puta perrengue, pois a puta que ele beijava eu não dava nem bom dia. Trash total.
A puta que tava dançando desceu do palco e saiu fazendo uam espécie de roleta russa de colo pois foi sentando em um por um, o Amigo do Mito aproveitou pra tirar uma casca da moça sem perda de tempo… Sacumé, oportunidade não se perde, ainda mais por cinco mangos. Assim que a moça (?) voltou ao palco e começou a tirar a roupa, pudemos perceber que ela ostentava uma indisfarçável cicatriz de cesariana, algo nada enaltecedor pra quem quer convencer outras pessoas a introduzir um pênis nela. Enquanto admirávamos o show (Os outros, pois eu não enxergo porra nenhuma no escuro), o Mito e o Hayato xavecavam uma puta fanha, aproveitando-se do defeito vocal da moça, o Mito dava uma de surdo fazendo ela gritar fanhosamente. Pena que texto não tem som. Esse xaveco visava subir ao quarto com a puta pra fotografar com plaquinha, mas embora os dois tenham sido bem sucedidos, o dono da porra do inferninho queria uma grana preta pra deixar o Amigo do Mito, o Mito e o Hayato subirem com a puta. Entrementes a puta que tava dançando desceu e sentou com a gente, metendo a mão na minha piroca e na do Amigo do Mito, coisa que me deixou extremamente constrangido, pois a mulher, de perto era tão feia, mas tão feia, que produziu em mim uma broxada que eu jamais pensei que daria. O bônus foi a barata do tamanho de um maço do cigarros vista pelo mito no banheiro do lugar. Percebendo que daquele mato não sairia coelho, fomos pro inferninho logo ao lado (Só pra você perceber o nível, dois inferninhos por R$ 5,00) e lá além de um pouquinho mais de luz, tinhamos um filme pornô rolando e muita puta gorda. O Mito colou em uma puta mais ou menos normal, não fosse o fato de ela ser careca e usar uma peruca parecida com cabelo de boneca (Juro!)


E começou o xaveco pra ver se saia fotografia com a puta Lex Lutor, mas após negociações que fariam o Roberto Justus parecer um vendedor de pipoca, nossos herois não lograram êxito pois a grana que a bola de cristal queria pra tirar foto sem meter era maior que a grana que ela cobraria pra meter. Um chute no custo benefício que fez com que o Mito desistisse da empreitada não por falta de vontade, mas por falta de foto. O nome do lugar era Thells.(WTF)

Assim só nos restou voltar pro boteco e tomar todas até que eu tive de ir embora enquanto ainda conseguia me manter de pé o suficiente pra guiar (mal) uma moto.

E foi isso aí.

Uma próxima versão do Whorehouse Tour, agendada pra esse ano e organizada por foristas cariocas, terá como alvo a infame Vila Mimosa. Você mora na Cidade Maravilhosa e tá afim de arriscar a vida pra arrancar umas risadas de desconhecidos na internet?

Entre em contato com a gente, rapaz!