Escrito por Kid on Oct 31, 2006

Foi o seguinte.

1) Trabalho

A gente nunca se contenta com o que tem, mesmo. Se há menos de três meses eu choramingava por não ter nada pra fazer além de coçar a bunda, jogar videogame e acessar a internet, hoje em dia meu emprego me deixa indisponível pra basicamente qualquer atividade que não envolva palha de aço, detergente e resto de batata frita grudada com ketchup no fundo da xícara. Porra, quem é o filho da puta que faz essas merdas quando vai em restaurante, ficar misturando condimentos, guardanapos, jogando merda aleatória dentro dos pratos só pra complicar mais o trabalho da nossa comunidade?

Pra complicar mais a situação, um maluquinho lá do trampo teve um total colapso mental, mandou geral tomar naquele lugar, e eu acabei sendo promovido ao posto dele. Agora, talvez o sujeito volte, e eu vou ter que me reacostumar com o salário menor de novo, mas esses dias que o miserável esteve longe do trabalho foram absolutamente alucinantes. Eu já trabalhei turnos de 6, 7 e até 10 horas antes em outras ocupações, mas uma coisa é trabalhar por 6 horas, e outra coisa sensivelmente diferente é trabalhar por 6 horas correndo de um lado pro outro pelo restaurante o tempo todo. Já ouviu alguém usar a expressão¨”mal tive tempo de respirar” pra se referir a trabalho muito apressado e cansativo? Eu descobri que a máxima não é apenas uma daquelas expressões exageradas – a sensação é de que realmente você está tendo que prender a respiração pra ganhar mais tempo.

2) Computador fodido

Após aproximadamente dez anos usando a internet com mais frequência do que tomo banhos, finalmente peguei um vírus, e aí adeus MBR e possivelmente a BIOS também (já que em 60% do tempo, o computador nem entra mais na BIOS quando ligo). Como meu pai – técnico de informática há vinte anos – estava viajando, não havia quem desse um jeito na minha máquina. Como aqui em casa há outros quatro computadores, além dos Palms e do PSP que também acessam a internet, eu desencanei e vi esse infortúnio como uma solução pro meu uso exagerado do computador. Sem o conforto que o meu PC oferece – playlists selecionadas a dedo por este que vos escreve e uma cadeira que se adaptou com perfeição às dobras da minha bunda após anos de uso incessante -, o uso da internet se tornou uma atividade rápida. Entra, confere email, dá um bid no eBay, xinga um velho inimigo no orkut, dá uma checadinha no fórum, lê os comentários do blog, pronto. Após os primeiros três dias, eu percebi que passar o dia inteiro na frente do PC (excetuando-se obviamente o período em que estou trabalhando) é um hábito dispensável. Especialmente quando se tem dinheiro e um vício poderoso. E chegamos no terceiro item dessa listinha.

3) Magic

O vício voltou, e voltou aproximadamente cinco vezes pior do que antes, com +2/+2, atropelar e ganhando vida cada vez que causa dano. Eu era extremamente viciado em Magic no Brasil – e diga-se de passagem, fiz minhas melhores amizades através do jogo -, mas a falta de dinheiro de outrora servia como uma espécie de contenção de gastos com o dito vício. O booster custava uns 13 ou 14 reais, eu quando muito descolava 20 reais no fim de semana. No Canadá, o booster custa uma fração disso, e eu ganho mais de dez vezes o que tinha na carteira aí no Brasil. Além disso, temos aqui lojas especializadas no ramo dos trading card games, que vendem literalmente milhares de cartas avulsas catalogadas em imensos fichários. Por algumas doletas você tem acesso a virtualmente qualquer carta que precise. No Brasil eu costumava dizer que jamais gastaria 20 reais num Call of the Herd ou Shadowmage Infiltrator ou Spiritmonger ou qualquer outra carta super cara, mas uma coisa é dizer isso sem nunca ter sido oferecido o negócio e vendo a faixa de preços apenas no fim da revista Dragão Brasil. Chegar numa loja que exibe dez Chamados do Rebanhos numa vitrine, ter 300 dólares no bolso e sair de lá sem nenhuma é outra história.

Falta do meu computador, trabalho, Magic e dinheiro sobrando na carteira ocuparam uma boa parte do tempo em que estive mais afastado da internet. Soma namorada, amigos, festas de Halloween (temporada que infelizmente acaba hoje) e eu finalmente entendo porque algumas pessoas gostam tanto de usar o argumento da “vida social” quando querem aloprar alguém na internet – argumento que apesar de ser meio mal formulado, tem um fundo de verdade. Qualquer true nerd sabe que dá pra conciliar vida social e internetagens constantes numa boa. Mas vida social, trabalho e vício em joguinho de cartas é outra história.

Esse tempo vivendo no mundo real não foi de todo ruim; a experiência encarando a vida offline me deu uma excelente idéia pra um post. Se eu não descolar o PC novo hoje, me resignarei a digitar o post aqui na sala mesmo.

Disclaimer: Vida social não é o mesmo que alto número de scraps no orkut. Idiotas que mantenham esse tipo de crença talvez se confundam na leitura do post acima.


Escrito por Kid on Oct 29, 2006

É, eu sei, quase uma semana sem atualizar o HBD. As responsabilidades do mundo real me deixaram ocupadaço esses últimos dias.

Tenham um pouquinho de paciência só :(


Resenha – Stay Alive

Escrito por Kid on Oct 24, 2006

Outro dia o JesusWalks escreveu um tópico no FHBD me pedindo pra resenhar um filme sensacional que ele assistiu, e com “sensacional” eu quero na verdade dizer “que merece uma resenha no HBD e daí você pode imaginar a qualidade da parada”. Normalmente não aceito encomendas de resenha porque senão daqui a pouco este blog virará uma extensão do IMDB (na verdade é por pura preguiça mesmo, mas não espalhe), mas pelo que eu já havia lido sobre o filme, seria praticamente um crime de atentado ao pudor à mão armada não escrever umas linhas sobre ele aqui no HBD.

O poster do filme explica o suficiente que você precisa saber pra decidir imediatamente que Stay Alive se trata de uma pérola.


Sacou? É um jogo, e se você morrer no jogo, alguma mágica acontece e você morre na vida real!A verdadeira mágica, no entanto, é como o tal jogo consegue mudar de estilo dependendo do que o diretor ache que é um jogo de computador naquele determinado momento. Durante o filme o jogo muda de gênero pelo menos umas quatro vezes – às vezes o jogo é um survival horror (que por algum motivo absolutamente injustificado é mencionado no filme ao contrário, “horror survival”), às vezes é um first person shooter, às vezes é um third person shooter e antes que você perceba ele é um online shooter com suporte a TeamSpeak e uma câmera que lembra muito a câmera dinâmica de World of Warcraft. Pelo jeito, matar os usuários não é a única coisa que Stay Alive tem em comum com o MMO da Blizzard.

Tendo o último parágrafo em mente, permita-me deixar isso bastante claro – William Brent Bell, o diretor e roteirista do filme, não faz a menor idéia do que é um jogo de computador. Sua visão de como jogos e a comunidade gamer funciona é como se o único contato que ele teve com tais coisas foi através de uma descrição dada por um velho senil de 80 anos de idade. Explicarei melhor minha teoria ao longo dessa resenha.


Na imagem acima, os personagens pesquisam cheat codes pro jogo no GameFAQS. Fora da imagem – a comissão paga pelos execs da Alienware ao diretor do filme, que enfiou aproximadamente três computadores da empresa em cada frame do filme
A ignorância de Brent em relação ao mundo nerd se torna óbvia sempre que ele tenta mostrar que entende alguma coisa a respeito do círculo gamer. Com exceção da referência ao lendário cheat code de Contra pro NES (que no filme é o mesmo que faz as zumbis mostrarem os peitos), praticamente tudo relacionado a jogos e computadores é folheado em camadas duplas de ignorância. Quando os personagens descobrem que o jogo parece “ouvir” os jogadores e ativar certos mecanismos no jogo baseado no que eles falam, um dos personagens se apressa em explicar que “reconhecimento de voz é algo da next gen, é impossível que esse jogo esteja fazendo isso!!!11“. Essa afirmação é verdadeira, mas apenas se você ignorar o fato de que tanto o NES, quanto o SNES, quanto o Nintendo 64, quanto o Playstation 2, quanto o Xbox, quanto o GameCube, quanto o Nintendo DS têm jogos que usavam reconhecimento de voz. Claro que isso é um detalhe bobo que apenas um nerd chato como eu dá atenção, mas eu imagino que se você vai fazer um filme baseado em um único assunto, conteúdo verossímil é o mínimo que se poderia esperar do resultado. Willian Brent falhou em compreender um assunto que moleques de 14 anos tiram de letra.

E há mais detalhinhos pra criticar. Dependendo do tipo de espectador que você é, de repente esses pequenos deslizes dos roteiristas serão o único entretenimento encontrado em Stay Alive.

O vacilo mais notável é a tal mudança entre estilos de jogo; como já mencionei, em uma única cena Stay Alive é três jogos diferentes (um FPS, um third person shooter online, um survival horror). Quando um dos policiais que investiga as mortes vai a uma locadora pra procurar informações sobre o jogo, é atendido por um balconista que vomita falas como “tá interessado num jogo com frag count alto?” ou “nunca ouvi falar desse jogo, deve ser um jogo underground” e que se esforça ao máximo pra parecer um nerd daqueles bem estereotipados. Ora, eu sei reconhecer meus próprios companheiros, e aquele sujeitinho não me enganou por um instante sequer.

O filme é um fracasso no sentido que não inspira absolutamente nada que almejava inspirar nos espectadores. A trama é pessimamente mal escrita. Os personagens têm a complexidade coletiva de um quebra-cabeças de 4 peças. Há tanta química entre os protagonistas quanto há entre um carcereiro e um balconista da farmácia da esquina. Aliás, Willian Brent tentou em Stay Alive descrever um mundo em que ninguém, absolutamente ninguém tem um nome convencional. Hutch, Swink, Loomis, October, Phin… Que diabéisso?

Voltando à lista de fracassos do filme, a história é tão sem sal e forçada que impede que você sinta uma lasquinha sequer de medo durante os sofríveis 100 minutos de duração. Como eu já mencionei, a trama é o que alguém teria em mãos se pedisse pra quatro portadores de síndrome de Down explicassem seus piores medos após os terem espancado por duas horas com um cano de PVC. Como é absolutamente impossível levar a história a sério a menos que você tenha sido forçado a beber querosene duas vezes por dia pelos últimos dez anos, não tem como sequer considerar isso um filme de terror. É muito mais provável rir dos erros de continuidade ou se revoltar por ter gasto 10 dólares alugando o DVD do que ficar realmente com medo de qualquer coisa.

Furos da lógica da história são abundantes. POR EXEMPLO, e aprecie os spoilers, Swink (interpretado por Frankie “eu já fui um ator famoso” Muniz) morre no jogo, mas ao contrário do que se esperava, não apenas não bate as botas na vida real também, como ainda aparece DO NADA na última cena do filme salvando o herói retardado de sua morte merecida. Aí algum hipotético fã do filme dirá “mas isso aconteceu porque, na cena em que ele morria, ele caiu em cima de flores, e flores protegem os jogadores, lembra?” Se é assim, por que a tela do computador mostrava o personagem dele morto? A resposta óbvia – o diretor estava com tanta vontade de criar tensão que estava disposto a ignorar detalhes mínimos como continuidade.

Essa cena tem um lugar especial no meu coração, porque não é todo dia que a incompetência cinematográfica dos responsáveis pela gravação de um filme acaba CONTRADIZENDO O PRÓPRIO TAGLINE DO FILME. A capa do DVD me prometia que quem morresse no jogo morria na vida real, e no entanto o senhor Willian Brent decidiu que eu não merecia receber o que paguei pra ver.

Não consigo me satisfazer em dizer que a trama do filme deve ter sido escrita num guardanapo de bar enquanto Willian Brent injetava tylenol em pó nas veias. Um dos pontos altos da história é o momento em que um dos personagens se torna suspeito da morte dos outros, já que ele era amigo dos caras e tal (como sabemos, ser amigo de uma vítima de assassinato é obviamente, sem qualquer sombra de dúvidas, prova de que você os matou). Há um breve momento de tensão em que os personagens precisam fugir da polícia, e eu comecei a imaginar como é que eles conciliariam lutar com entidades sobrenaturais malignas E fugir da polícia em um filme só.

Pelo jeito Brent imaginou a mesma coisa que eu, e assim decidiu abandonar o lance da polícia logo após daquela cena. Nos trinta e tantos minutos restantes, o fato de que um dos personagens está sendo caçado pela polícia por suposta conexão com as mortes é absolutamente abandonado do filme.

A única coisa que eu queria no final da desperdício de mídia que é esse filme era uma explicação, ainda que idiota, sobre o que acontece na tela. A única explicação que nos é dada é que um programador solitário – e constrangedoramente homossexual – era obcecado pela história da Blood Countess (uma maluca que supostamente matou um monte de menininhas pra se banhar no sangue delas. Estou com preguiça de verificar a veracidade dessa história), quis fazer um jogo usando-a como personagem central, e sem mais nem essa pronto – o jogo mata quem o jogar.

Não existe um propósito claro, saca? Veja The Ring por exemplo, que trás uma temática meio parecida. O ponto da história, se eu me lembro bem, era que a Samara queria que pessoas vissem a fita e mostrassem a outros, um negócio assim. Em Stay Alive, não existe propósito nenhum, e nós somos forçados a apenas acreditar que a tal Blood Countess, apesar de poderosíssima e ter a mania de querer assassinar todas as pessoas do universo, está limitada a matar apenas quem morra no jogo. Eu tava na esperança de eles ao menos explicarem que algum tipo de ritual satânico prendeu a alma nela no jogo, e/ou que ela só terá paz quando matar 17844 nerds, mas fiquei a ver navios.

Não assista. É uma merda.


Escrito por Kid on Oct 23, 2006

Tou de saída pro “vestibular”. Digo “vestibular” entre aspas porque o teste de admissão pras faculdades locais parece ser tão desafiador quanto beber água, e portanto não merece ser sinônimo do famigerado teste que provoca frustração e suicídios estudantis em tantos milhões de vagabundos aí no Brasil. Mas “vestibular” é uma palavra mais curta que “prova pra decidir se eu posso entrar na faculdade”.

Então volto já.


Escrito por Kid on Oct 19, 2006

Se eu quisesse fazer uma pergunta e ter a certeza absoluta de que a grandíssima maioria das respostas seriam equivocadas (concordância toda fodida aí, eu sei), a pergunta não seria “que Star Wars não foi dirigido por George Lucas?” nem “Por que Pinça Craniana foi banida do Extended se há cartas igualmente fodidas que permanecem perfeitamente legais?“. A pergunta capciosa mágica seria “Quem aí já teve enxaquecas?”

Aí todo mundo ia responder “Ontem mesmo tive uma enxaqueca quando estava jogando bola no campinho atrás do bar do seu João!” ou “vixi, nem me fale Kid, estou passando por uma enxaqueca agora mesmo enquanto jogo World of Warcraft!“, ou ainda “Putz, acordei hoje com uma terrível enxaqueca, quase até desisto de ir jogar Pump It Up com meus amigos do cursinho lá no Shopping!”, o que me faz pensar que alguém substituiu o significado da palavra “enxaqueca” enquanto eu dormia ontem à tarde após o almoço. Eu diria numa análise otimista e inventada que aproximadamente 80% das pessoas que afirmam ter tido enxaquecas jamais sequer conheceram alguém que sofresse desse horrível mal. Uma pergunta alternativa, uma espécie de teste pra averiguar a sua compreensão do problema seria “quantas pessoas você conhece/conhecia se suicidaram?” Se você não conheceu nenhum suicida, há grandes chances de que você é apenas mais um na multidão.

A multidão a que me refiro é a multidão dos que pensam que enxaqueca é uma simples dor de cabeça maximizada. Bom, é uma pena destruir esse mundo de fantasias de vocês, mas uma enxaqueca é algo maior que isso.

Uma enxaqueca é uma moléstia começa com um alerta inicialmente indolor – de repente, uma parte da sua visão foi substituída por uma área esbranquiçada ou borrada que te impede de usar os olhos como de costume. É sempre totalmente do nada, uma hora tou assistindo Bob Sponja ou sei lá o que passa na TV esses dias e sem o menor aviso, minha TV desaparece por trás de um borrão bem no meio da minha vista. Agora, após uns oito anos tendo que lidar com essa desgraça, eu já estou relativamente acostumado – não digo totalmente acostumado porque “acostumdo” implica em conformação, e ninguém se conforma em ficar cego – com a experiência. Mas a primeira vez? Porra, eu achei que tava ficando cego de verdade.

E isso nem é o pior. Aliás, essa última frase dá um excelente insight sobre a natureza da VERDADEIRA enxaqueca. Se alguém descreve um distúrbio dizendo que ficar temporariamente cego não é nem a pior parte, pode ter certeza que você está ouvindo a respeito de uma doença de primeira.

Não é uma cegueira TOTAL, porque eu ainda consigo ver ao redor das seções embaçadas e tal. Acontece que como elas geralmente ocupam uma área grande bem no meio do meu campo de visão, não dá pra ler, nem assistir TV, ou sequer reconhecer expressões faciais. Durante esse estágio da enxaqueca, preciso mover a cabeça em círculos quando falo com alguém pra fazer com que o rosto da pessoa se encaixe nas áreas onde ainda tenho alguma visão. É, na descrição mais otimista, um incômodo desgraçado.

Essa cegueira dura mais ou menos vinte ou trinta minutos. Depois você volta a enxergar tudo belezinha, mas o que devia ser um alívio acaba sendo na verdade seus últimos momentos de alegria e paz de espírito. Assim que a “aura” (o termo dado pra essas cegueira temporária) da enxaqueca passa, a dor mais desgraçada que você já experimentou em toda a sua existência chega chutando a porta da sua casa e pondo os pés enlameados em cima da mesinha de centro da sala. Desmarque todos os seus compromissos pros próximos dois (ou mais) dias, pois você estará ocupando rodando na cama embaixo de quatro cobertores, segurando a própria cabeça entre as mãos como se ela fosse cair caso você a soltasse e implorando pela própria morte.

E eu entendo sobre dores. Procê sentir o drama, quando eu tinha quatro anos uma queda do berço provocou a perda prematura do meu dente da frente (e uma porrada de sangue), o que me rendeu uma infância INTEIRA com aquela lacuna no meio do meu sorriso. Meu dente permanente só foi aparecer lá pelos meus nove ou dez anos de idade). Vou te contar, nada desperta a criatividade maldosa de coleguinhas de infância como um banguelinha infeliz.

Mas a dor da enxaqueca está num patamar completamente diferente. A dor da enxaqueca é como se alguém estivesse comprimindo sua cabeça com um daquelas prensas industriais igual a que matou o Exterminador no filme O Exterminador featuring o futuro governador da Califórnia. É uma dor bizarríssima, que ora faz sentir como se sua cabeça estivesse envolvida em chamas, ora faz sentir que alguém jogou um balde de nitrogênio líquido nas suas têmporas.

E quase me esqueci das ânsias. Você conhece alguma outra situação em que alguém vomita de tanto sentir dor? Ou que a vomitada é tão violenta que de alguma forma chega a aliviar a dor supracitada, ainda que apenas temporariamente? Se você nunca precisou dormir com um balde do lado da sua cama, sentido aquele terror que toda pessoa que sabe que está prestes a vomitar pequenos pedaços de seus órgãos internos sente, me perdoe a franqueza, mas você nunca teve uma enxaqueca.


Escrito por Kid on Oct 13, 2006

Eu tinha escrito esse post há mais de um mês e perdi-o no meu desktop em meio a todos aqueles ícones inúteis que tornam impossível achar os aplicativos que eu procuro ou posts que eu precisava postar. Aí está.


Meus amigos, eu tenho uma notícia tristíssima para dar aos senhores. A notícia é tão aterradora e deprimente que eu acho que seria bom aliviá-la reportando uma boa notícia primeiro. Então é com orgulho que eu informo que meu PSP agora roda emuladores de Super Nintendo e que eu estou novamente tentando zerar Pitfal – The Mayan Adventure, uma empreitada que quase custou minha sanidade dez anos atrás. Desafio formalmente Jesus Cristo a derrotar o último chefão do jogo sem usar seus super poderes; suspeito que este jogo foi enviado à Terra por aquele inimigo do Jaspion para fazer crianças destruírem seus Super Nintendos em pura frustração pelo fato de que apesar de ser um excelente jogo, Pitfal exibe controles tão responsivos quanto um tijolo molhado e que tornam virtualmente impossível acertar um inimigo com uma porrada antes que ele encoste em você.

Mas isso é a única alegria que eu sinto no momento. Há uma tristeza profunda rasgando minha alma como se fossem giletes enferrujadas embebidas em urina de gato neste momento.

Uma velha conhecida nossa, que andava mal de saúde nos últimos meses, não suportou as mudanças do tempo e veio a falecer recentemente. Apesar de todos os esforços altruístas dos últimos bravos que lutavam contra o iminente destino, estamos agora sozinhos.

Esta velha conhecida se chama Internet. A Internet, meus amigos, morreu. E deixou a nós, nerds que acompanharam sua chegada nos anos 90 e sua trágica popularização nos 2000’s, órfãos desamparados. E digo “trágica popularização” porque essa foi uma das piores desgraças a atingir o planeta Terra, e sem a menor sombra de dúvidas a principal causa da morte prematura da Internet.

Aí você diz “claro que não morreu, ainda estou baixando meus hentais de bizarrice aqui no SoulSeek” e eu respondo que, assim como o Comunismo, a nossa querida Internet foi removida de seu real significado e existirá daqui pra frente como uma triste paródia do que era nos tempos de glória, uma sombra de si mesmo. Cagaram a Internet.


Quando Deus criou a Internet há seis mil anos atrás (por pedido de Adão que o convenceu a fornecer uma forma mais rápida de receber informaçõe sobre seus desenhos japoneses favoritos), o Criador deu à Rede várias funcionalidades. Além da possibilidade de encurtar a distância que separa pessoas das informações irrelevantes que elas procuram, a Internet nos deu de presente também uma forma instantânea de troca de mensagens que está atualmente substituindo os meios convencionais como telefonemas, sinais de fumaça ou arrotar palavras, e teve até o cuidado de preparar a chegada de um navegador que seria propagado entre nerds militantes como o novo ícone de adoração geral, o pilar da religião virtual que mais adquire adeptos em toda a Internet. Até mesmo a forma como as pessoas vendem e compram suas tralhas foi afetado pela chegada da Rede; pra pesquisar preços antigamente você tinha que perambular pelo centro da cidade visitando mil lojas e perguntando pro balconista se aquela Gibson Les Paul arranhada vale um descontinho. Hoje basta clicar no “Price: Lowest First” no eBay e você tem acesso às melhores barganhas da história do planeta. Compar assentos de privada semi-novos por 25 centavos nunca foi tão fácil antes.

Claro que além dessas bobagens, veio uma dádiva inédita – graças a Internet, você pode ofender pessoas que, se você fosse tentar ofender através de outro método, precisaria pagar passagens aéreas ou ligações interurbanas.

Imaturo? Mas claro que não. Caso você não saiba, usar a Internet para ofender outros seres humanos é o principal motivo que levou-a a existir por tanto tempo, e que desencadeou os grandes avanços relacionados. Banda larga foi desenvolvida pra que ofensas a respeito de qual episódio de Arquivo X foi o melhor da série fossem trocados com mais velocidade, e conectividade WiFi foi criada quando alguém percebeu que passava muito tempo fora de casa e que nessa hora não poderia se defender das injúrias sofridas no fórum de Harry Potter que ele frequenta.

Pelo amor de deus, entendam que a base da Internet é o confronto verbal. Se você está na Internet, e eu acho que você está, em algum momento – talvez até agora mesmo – você está ocupado brigando com alguém no orkut. Pouco sabemos a respeito do futuro, exceto duas coisas – 1) Jesus voltará do céu e presenteará os ateus removendo de uma vez só TODOS os crentes da face do planeta, e 2) alguém que use a Internet pela primeira vez estará discutindo com alguém em menos de dois minutos.

Infelizmente, como acontece com tudo em existência, algumas pessoas não conseguiram apreciar o privilégio que tinham. E começaram a levar as coisas a sério.

Em um texto anterior, entitulei esse tipo de gente de “Power Rangers Virtuais”. Os Power Rangers Virtuais são pessoas que transferem pra Internet toda a frustração resultante do fato de que eles sabem que jamais farão absolutamente nada de importância na vida, e que passam a buscar um propósito maior para o desperdício de oxigênio que sua respiração é através de espalhar boas obras no mundo virtual. Escrevi esse artigo sobre o fenômeno dos Power Rangers Virtuais, caso você precise escrever uma dissertação sobre o assunto pra aula de Redação e não tenha achado nenhum outro lugar de onde copiar um texto prontinho.

Voltando à meada, foi essa espécie desgraçada de internauta que cimentou o destino da nossa querida Rede. Com a popularização do acesso à Internet, muitas pessoas que jamais deveriam ter sequer estabelecido contato com outros seres humanos se viram interagindo com milhões de pessoas de uma vez. Essas pessoas se chamam “aqueles que se ofendem com facilidade e que ao invés de lidar com o problema com esportividade, buscam freneticamente pelo telefone do primeiro advogado de meia tigela que se disponha a representá-los legalmente num caso de injúria cometida virtualmente”.

Você já deve ter ouvido falar de algum caso envolvendo xingamentos via orkut ou criação de comunidades levemente ofensiva que levaram seu criador a ganhar 100 horas de trabalho comunitário ou alguma outra pena ridícula similar. Por que isso está acontecendo?

Por um motivo simples – os newbs.

Os newbs da Internet são donas de casa, professores aposentados, servidor público vagabundo e toda outra espécie de gente que não tem absolutamente nada pra fazer da vida e um QI equivalente ao de uma meia. Formou-se todo um contingente de usuários que são absolutamente incapazes de ler uma provocação e dar uma risadinha, ou pensar em responder de forma sarcástica ou algo assim. O negócio agora virou “TE PROCESSO!” E a pressão de tantos fez com que a Internet, algo que jamais deveria ser levado a sério, passasse a ser levada a sério.

Cada vez que leio uma manchete dizendo algo como “Criador de comunidade difamatória foi condenado a pagar indenização de R$ 0,50″, choro por dentro (e um pouquinho por fora também). Nada me dá mais insatisfação e tristeza do que ver o sistema judicial, algo que deveria ser o último santuário de bom senso, dando razão a idiotas que se sentem ofendidos porque alguém disse num fórum que eles são velhos e gordos e os recompensando por mobilizar todo o sistema pra extrair vingança como forma de colocar um band aid nos seus egos. Aliás, o simples fato de que os juízes presidindo o caso não rasgam os laudos e jogam na cara do infeliz já me faz perder um pouco de fé nesse mundo.

Existe um probleminha com esses negócios. Aliás, um não. Vários.

1) Tais processos baseam-se no princípio de que a honra do ofendido foi ferida

Vamos por um segundo imaginar que “crimes contra a honra” não são um pressuposto absolutamente idiota. Digamos que é realmente possível, através de palavras apenas, destruir completamente o respeito que uma pessoa tenha por si mesma e joga-la diretamente à mais profunda depressão suicida.

Como é que alguém permite que algo que aconteceu exclusivamente no mundo virtual lhe atinja tão dolorosamente? Não existe uma voz da razão na cabeça dessas pessoas que diga “calma, tudo isso está acontecendo dentro do seu computador; desligue-o e olhe em volta – existe um mundo exterior (que não precisa ser envolvido nisso, então não invente de ligar pra um advogado)”? Talvez até exista, mas ela fala mais baixo que as outras vozes que habitam a cabeça desse povo.

2) Se hoje eu não posso xingar a Fulana, amanhã não me deixarão xingar o presidente

Eu sei que o exemplo é levemente exagerado, mas afinal de contas você está lendo isso no HBD. Se hoje decide-se que eu tenho que ser educado com todas as pessoas virtuais que eu não conheço e que não me inspiram nenhum respeito, o que impede que leis mais restritas sejam empregadas no futuro pra defender pessoas mais importantes das nossas opiniões? O que é mais importante, o bem do indivíduo (não ser “ofendido”) ou o bem do grupo (se expressar livremente sem medo de represálias legais arremessadas por aqueles que não têm jogo de cintura pra lidar com críticas)?

Alguns países como os EUA e o Canadá souberam fazer as coisas direitinho – liberdade de expressão é ABSOLUTA. A menos que você diga algo como “eu vI o fulano roubando uma loja de conveniências ontem à noite” e isso seja mentira, ninguém pode processar você por expressar uma opinião negativa sobre eles. Statement of Fact (”Eu vi o Fulano atirando em alguém”) é diferente de Statement of Opinion (”Eu acho que Fulano é um idiota”) – esse último é absolutamente impunível.

3) A pessoa ofendida provavelmente mereceu os ataques

A melhor justiça é a justiça popular. Por que perder tanto tempo com processos jurídicos lentos e burocráticos quando existe a opção de julgamento e condenação popular?

Na Internet, milhares de pessoas são julgadas diariamente. Eu mesmo estou sendo julgado por centenas de leitores sempre que atualizo essa bagaça. As pessoas deviam engolir um pouco o orgulho e aceitar que, se eles se comportam como perfeitos idiotas na presença virtual de outros, esses outros responderão com hostilidades. E a beleza da coisa é que ninguém precisa dizer “seguinte, vamos agora aloprar o Fulano. Um, dois, três, valendo!”; como que por telepatia, todo o grupo adquire simultânea insatisfação e age como um só indivíduo.

Isso é o mais próximo da idéia de democracia utópica que chegaremos. Enfiar o sistema judicial no meio para reverter a setença popular é desrespeitar a harmonia de um grupo que lida com seus párias de forma muito mais eficiente.

Mas não deixe a lógica e a razão se impor perante a idiotice da turminha que chegou querendo pôr “ordem” na Internet. Se isso é ordem (avalanches de ações legais por motivos triviais), viva a anarquia.

A Internet nasceu pura. Os idiotas a corromperam.


Escrito por Kid on Oct 9, 2006

[ Update ] Muita gente queria mais informações sobre o filme cristão que eu mencionei nesse post, então resolvi dar uma googleada milagrosa e descobri o nome da fita – Image of the Beast, que é a terceira parte de uma série iniciada com o Thief in the Night. Com a palavra, um usuário do IMBD:

I saw this movie when I was a child and it terrified me. I still vividly recall images of the Rapture, the Mark of the Beast and the horrible fate of those Left Behind. It’s the perfect movie to show your kids if you’re a religious fanatic and you want your kids to start wetting the bed and crying in their sleep (…) It actually sowed the first seeds of my disbelief and started my move away from Christianity. If you have to resort to terrifying people in order to convert them instead of using rational discourse it doesn’t say a whole lot for your belief system. This movie relies on the worst sort of emotional manipulation to convey its message. I didn’t see the others in the series but since this is the best of the bunch I probably wouldn’t bother with the others. I watched this movie again recently and I didn’t find it terrifying at all, just really overwrought and annoying. If you like those cheesy Left Behind Books, you’ll probably like this version of the Revelation fantasy. Oh, and the acting is really awful.”

O cara falou praticamente TUDO que eu escrevi sobre o filme, mas em inglês.

Em posts futuros, elaborarei melhor o que me distanciou da religião cristã, e os efeitos resultantes da minha “saída do armário”, como alguns gostam de falar.


A maioria dos leitores do HBD deve saber do meu histórico religioso, que vez ou outra é mencionado quando eu preciso tornar minhas opiniões idiotas sobre o assunto um tanto mais válidas através do processo falacioso de apelo à autoridade. Porém, tal qual o Wolverine, sou canadense e meu passado no que diz respeito a esse assunto é nebuloso e nunca foi satisfatoriamente explicado. Pouco se sabe sobre a minha infância religiosa e sobre os mecanismos que me libertaram da crença cristã.

Até hoje. Como o download da ISO de Wipeout Pure pro PSP tá demorando horrores, resolvi usar este tempo livre e ocioso pra tecer mais um episódio de minhas memórias infantis. Assim, quando eu finalmente lançar meu livro que terá como tema esse assunto, vocês não precisarão compra-lo.

Quando nasci, meu lar abraçava a fé católica. Vale lembrar que os Nobre até então eram apenas eu, minha mãe e meu pai. Mais ou menos na época que o Trunks veio ao mundo, meus pais decidiram que catolicismo não era mais tão divertido como antigamente e resolveram fazer um upgrade pro protestantismo. Meus avós – católicos roxíssimos do tipo que toda sexta feira abre as portas da casa pra que os idosos das redondezas compareçam à sua novena/vigília ou sei lá qual é o nome daquele evento social em que 16 anciões do bairro rezam em uníssono até que algum lembre que a novela está pra começar – obviamente rejeitaram a migração da pequena família Nobre à crença protestante, mas ninguém realmente dá a mínima pra o que os mais velhos falam e Papai e Mamãe Nobre continuaram sendo crentes como pretendiam.

Graças a amizades em lugares altos na hierarquia da congregação, em pouco tempo meus pais se viram profundamente envolvidos com o funcionamento da igreja. Minha mãe, música desde a juventude, passou a aprender aquelas canções religiosas bem chatinhas pra tocar na igreja nos domingos. Meu pai, bom, não lembro exatamente o que ele fez pela denominação, mas algo importante foi, porque em algum tempo o meu velho foi reconhecido com o imponente título de PASTOR da congregação (que era uma variante da Assembléia de Deus chamada Assembléia de Deus Betesda que, segundo a lenda, foi fundada na tentativa de alcançar a região burguesa da gloriosa capital cearense).

Então, como eu ia dizendo, meu velho foi “presenteado” com a direção de uma igreja. O que eu não esperava é que a tal igreja se localizasse no coração do Conjunto Ceará, um bairro nada prestigioso. Auto-plagiando-me de um outro texto, aqui está uma boa descrição do lugar.

Pensem aí no bairro mais sujo das redondezas de Calcutá, e em seguida imaginem um caminhão-pipa cheio de esterco, muco, placentas, cadáveres em avançado estado de decomposição e cópias do último CD do Los Hermanos explodindo bem no meio dele, espalhando a repugnante mistura por todo lado. Esse é o Conjunto Ceará.

Eu, um típico filho da classe média brasileira que tinha até então vivido a base de nuggets, danoninho e refrigerante no almoço, me vi vítima da trágica relocação ao centro do bairro mais nojeira que minha cidade natal tinha a oferecer.

Esse é basicamente o resumo de como minha família passou de católicos não-praticantes a evangélicos líderes de uma congregação. Mas e qual o meu relacionamento com a fé que eu herdei dos meus pais? Vamos com uma palavra só pra ser conciso?

Indiferença. É esperar demais que um garoto de 10 anos compreenda que até mesmo suas atitudes mais trivias (como, sei lá, tocar uma punhetinha tranquila no aconchego do armário da vizinha enquanto ela troca de roupa na sua frente) seriam responsáveis pela definição de seu destino eterno. Por mais que eu ouvisse e lesse a respeito da coisa, o mundo espiritual simplesmente não me interessava de forma alguma. Eu estava muito mais preocupado com os mais badalados lançamentos para o SNES e na súbita constatação que garotas tinham peitos do que com algo que aconteceria com a minha alma dali a décadas.

Até o dia em que meus pais resolveram me convencer na base do medo.

Era 1994, e uma seçãozinha de cinema havia sido marcada na minha casa praquela noite. Éramos os felizes donos de uma TV de 29 polegadas, o que na época era o equivalente a uma Ferrari construída em ouro puro recheada de diamantes, caviar e boosters de Magic de Eras Glacias ainda lacrados. Por causa disso, meus pais não desperdiçavam oportunidades de reunir os amigos pra assistir filme lá em casa.

A turminha da igreja tava toda lá, e mamãe já começava a distribuir um lanchinho pra galera quando meu pai pôs a fita no video-cassete. “A Marca da Besta”, ou algo que o valha, era um filme dos anos 70 que eu aposto que se fosse assistir hoje em dia me traria lágrimas aos olhos e dor nas bochechas de tanto rir. Mas, no auge de meus 10 anos, a trama era a coisa mais aterrorizante que eu vi até então. E falo isso sem exagero nenhum agora.

A fita relatava a suposta volta de Jesus (anunciada aos seus seguidores que já morreram há quase dois mil anos; apesar de andar na água e ressucitar mortos, Jesus não era lá o cara mais pontual do mundo) e o celeuma absoluto que se instaurará no planeta quando a crentaiada for “arrebatada”, como eles dizem, em direção ao céu.

Não quero me alongar nos detalhes da fita porque o post já tá ficando mais longo do que eu esperava e acho que a ISO de Wipeout Pure já completou, mas permitam-me atiçar a sua curiosidade dizendo que havia até guilhotinagem de crianças na fita. Mermão, eu cresci assistindo filmes como Exterminador do Futuro e Aliens, mas aquela porcaria cristã mal filmada e mal atuada me deixou aterrorizado. O maior medo de uma criança é se ver perdido dos pais; aquele filme conseguiu de uma tacada só me pôr o receio de que eu estaria permantemente separado dos meus pais (que eram “mais crentes” do que eu e portanto merecedores de um ingresso no arrebatamento, ao contrário deste que vos escreve) E que o mundo se tornaria uma putaria tão fenomenal que até cabeças infantis rolariam nas guilhotinas dos aliados do Anticristo.

(A propósito, não foi até pouco tempo atrás que eu finalmente confrontei minha mãe por injetar terror em minha mente pueril, o que em retrospecto apenas me deu mais munição pra detestar a religião cristã com todas as forças.)

Graças ao medo da danação eterna, me vi sem opção a não ser aceitar o amor de um Deus que me condenará ao fogo infernal a menos que eu o ame de volta. E passei a prestar mais atenção nos cultos, nas pregaçães do meu pai, nas entrelinhas daquelas passagens bíblicas tão sem sentido cuja leitura pode implicar em quarenta interpretações diferentes e ainda assim mutuamente corretas. E passei a ir à igreja com frequência maior.

Inicialmente, eu me sentia como se tivesse removido um peso das minhas costas. “Pronto, não vou mais pro inferno, que beleza!” era um pensamento confortante, ainda que viesse com o peso de adicionar compromissos religiosos chatos à minha atarefada agenda de jogar videogame e arrumar confusão em canais de IRC – o que foi o precursor do HBD que você lê hoje. A diferença é que eu não podia usar palavrões, uma vez que isso é algo absolutamente reprovável pela cultura cristã. O estigma do uso de palavrões é tamanho que eu evitei durante toda minha infância e me lembro EXATAMENTE a primeira vez em toda a minha vida que falei “porra” – foi durante a final da Copa de 1994, quando o Taffarel permitiu o primeiro gol italiano. E falei um porra baixinho, discreto, na esperança que ninguém ouviria.

Agora imagina aí a complicação de irritar estranhos no IRC sem poder usar palavrões. Foram aqueles dias que treinei minha retórica e argumentação, que hoje podem ser postas de lado no lugar de um simples e direto “vai tomar no seu cu, filho duma puta rampeira de beira de estrada!”.

A fé cristã reaquecida veio também com um medo fatal de Jesus. Isso mesmo; por causa das doutrinações paternas, meu maior medo de infância era Jesus. Tou falando sério. Meu infantil medo do escuro se devia ao fato de que, ao contrário do bicho-papão e lobisomens, Jesus era não apenas “real”, mas onipresente. Ou seja, eu “SABIA” que ele estava no quarto comigo, e isso me fazia mijar as cuequinhas de medo porque, afinal de contas, o cara é filho de Deus. O que o impedia de me punir pelos meus pecados pueris ali mesmo, partindo minha cabeça ao meio com sua Metralhadora Divina? Eu tinha pesadelos horríveis com o Filho de Deus, acordava no meio da madrugada totalmente banhado por suor (mas por outro lado, eu morava no Ceará, então não posso culpar Jesus inteiramente por isso), e ia dormir na cama do Trunks.

Ah, e um detalhinho que jamais revelei a ninguém – o trauma com a figura religiosa me causou enurese noturna por uns quatro anos. Dê uma googleada aí e ria da minha cara.

Mais ou menos nesse tempo eu arrumei minha primeira namoradinha, que era filha de um casal de relativa importância no micro-cosmo da igreja que meu pai liderava. Aliás, graças à magia do orkut, reestabeleci contato com a garota recentemente. Como eu ia dizendo, arrumei uma namorada que frequentava a igreja, então finalmente havia um motivo pra ir aos cultos além do menos agradável “se eu não fizer isso todo domingo serei jogado no inferno”.

Em muitas formas, a minha vida cristã foi de muita importância para a minha digi-evolução em direção à nerdice profunda. Crentes e nerds compartilham muitas características – ambos são mal vistos pela sociedade, se interessam em livros que ninguém mais em todo o planeta acha interessantes, passam horas debatendo as aventuras de personagens sobrenaturais com super poderes, se vestem mal e, acima de tudo, não trepam. Crentes têm até mesmo a sua própria versão de adágios supersticiosos nerds – como o célebre “A Paz do Senhor, irmão!”, que é uma forma resumida do “Que a Paz do Senhor preencha sua vida e impeça que você vá pro inferno, apesar de que o próprio é a única força responsável por realmente enviar alguém ao inferno então a frase não faz muito sentido”.

É um “May the Force be with you/Live long and prosper” religioso que trocávamos durante as “confraternizações”. A “confraternização” era aquele momento em que, seguindo a deixa, minha mãe tocava alguma musiquinha de cunho levemente social como a Queeeeeeeeero/Te dar a Paaaaaz/Do meu Senhoooooor/Com muito amoooooooooor (sim, essa é a letra genuína da música) e a igreja inteira se levantava das cadeiras e saía apertando a mão de todo mundo e recitando o “A Paz do Senhor, irmão!”, como uma forma de simular uma camaradagem absolutamente inexistente e partindo do pressuposto que se você apertar a mão do sujeito energicamente e talvez pôr a outra mão em cima das duas ou usá-la pra dar um tapinha no ombro do cara, Jesus vai pensar que vocês são realmente coleguinhas.

A única coisa que eu realmente sinto falta dos tempos de igreja é a sensação de pertencer a um clubinho exclusivo, e qual clube poderia ser mais seleto e prestigioso que o grupo dos que não queimaram no inferno durante toda a duração do universo? O hábito de frequentar igreja dava também um significado aos domingos. O que antes era apenas um dia de evitar assistir TV aberta se tornou um dia pra ir à “casa” de um ser invisível pra tentar ao máximo provar a ele que você acha que o cara é foda.

Mas quando paro pra pensar, o que fiz foi trocar tudo aquilo pela habilidade de fazer sexo não-matrimonial e falar palavrões.

Acho que foi uma boa troca.