Escrito por Kid on Nov 27, 2006

Nosso amigo hacker favorito, o Kmax, surgiu das trevas como faz ocasionalmente quando descobre uma malícia orkútica nova.

SIGUINTE - Uma nova falha no orkut permite que javascript não-autorizado seja rodado. E todo mundo sabe que essa é a porta de entrada pra malaquices geniais como roubar comunidades e provocar suicídios de ex-donos de comunidades populares.

Resolvi então promover um roubo-e-distribuição de comunidades no orkut em nivel nacional. Tudo que você precisa fazer é colar essa URL no scrapbook da vítima:

http://tinyurl.com/y3m8eo

O endereço acima camufla o arquivo .js que está devidamente hospedado para sua conveniência. Espalhem o link alopradamente; daqui pra amanhã eu terei recebido centenas de novas comunidades que serão distribuídas livremente aqui no HBD pro primeiro que chegar.

Será um caos do caralho. Participe!


Escrito por Kid on Nov 23, 2006

Vocês acreditam que vou me mudar DE NOVO?


O estilo de vida nomádico que o emprego do meu pai, que já nos levou a morar em três estados brasileiros diferentes em menos de 10 anos, agora nos obriga a abandonar a área rural que é Oshawa em direção ao oeste canadense. Daqui a duas semanas, a família Nobre estará de malas prontas e eu, com milhões de ISO de SNES no PSP, em direção a Alberta.

Eu passei a minha vida inteira dizendo adeus. Aqui, uma breve timeline da minha breve existência:

1984: Eu nasci em Fortaleza, Ceará.
1990: Mudamos-nos pra Londrina, Paraná. Até então eu estive frequentando na mesma escola desde que iniciei meus estudos. Foi a última vez que isso aconteceria na minha vida.
1993: Volta pra Fortaleza. Estudei em QUATRO colégios diferentes (Colégio Evangélico na Pontes Vieira, Colégio Adventista no Centro, Cora Coralina no Conjunto Ceará, e Evolutivo Centro-Sul na Parangaba) e morei em quatro endereços diferentes, até que…
1999: A família decide passar uma temporada de dois meses nos EUA antes de mais uma grande mudança. Como já tínhamos entregue a casa e despachado todos os móveis, durante esse período que passamos nos EUA, não tínhamos um lar propriamente dito.
2000: Mudamos-nos pra São Luís, no Maranhão. Eram meus últimos anos de estudo secundário, mas isso não me impediu de estudar em dois colégios diferentes. A vida em São Luís começava a se tornar muito confortável até que….
2003: Adeus terceiro mundo, olá Canadá! A adaptação foi complicada no primeiro ano, mas uma vez que a língua estava devidamente dominada e eu já tinha experimentado minha parcela de mulheres canadense (uma parte delas, extra-conjugalmente. Não espalhem)…
2006: Estamos abandonando Oshawa e mais uma residência pra acompanhar meu pai e seu estilo de vida cigano. Pelo jeito, engenheiros estão em falta no mundo todo.

Como você pode concluir, eu não tenho raízes. Sempre invejei pessoas que têm o luxo de viver a vida inteira no mesmo bairro, envelhecendo junto com os mesmos amigos, presenciando a mudança de gerações na mesma escola. Vivi a maior parte da minha vida consciente distante da minha família, e até hoje me limito a imaginar o que aconteceu com aqueles milhares de rostos, outrora familiares, mas que hoje desvanecem aos poucos no fundo da minha memória. Amigos de escola, vizinhos, companheiros de curso na faculdade, amigos do CEFET (esses em especial, porque cursei apenas dois meses antes de vir pra cá e mal cheguei a conhece-los), colegas de trabalho…

Até meu sotaque se perdeu. Quando conversando com amigos sulistas, sôo nordestino pra eles. Mas pros meus conterrâneos, eu “perdi a raça” junto com meu sotaque. E, desde 2003, até mesmo minha língua-mãe começa a ser deixada pra trás aos poucos. Começou inocentemente; me lembro até hoje a primeira vez que um deslize idiomático aconteceu lá em casa - eu pedi pro meu irmão “bringar” (uma conjugação lusofonizada do verbo “to bring”, “trazer”) o ventilador, enquanto ria segundos depois do vacilo. Hoje, não raro começo diálogos em inglês com meu irmão, apenas pra segundos depois falar “why the fuck are we speaking in English?“. Ainda em inglês.

Um post desse não tinha como não ser melancólico. É mais um ao longo de 22 anos de adeus, de rostos deixados para trás, de laços eternamente desfeitos, de planos interrompidos e abandonados. Por mais insensível que você seja, uma hora você se surpreende se perguntando o que teria acontecido com aquele seu melhor amigo na segunda série, ou com aquela sua primeira namoradinha, quando você tinha oito anos e achava que andar na rua de mão dadas com uma menina era embaraçoso.

Falando em namorada, antes que alguém me pergunte - a Patroa tá indo comigo. Não imediatamente; ela tem que pegar os últimos créditos na escola pra poder ingressar no curso da faculdade (Paramedicina). Em fevereiro ela estará lá comigo.

Isso é, se ela não mudar de idéia nesse meio-tempo. Isso já aconteceu antes comigo, e gato escaldado, sabe como é…

Enfim, podem ter certeza que em breve eu não terei uma vida social pra me impedir de atualizar esse blog praticamente todo dia como antigamente. Lembro que o período de maior produtividade aqui no HBD foi o comecinho de 2004, quando eu tinha praticamente acabado de chegar aqui no Canadá, não tinha amigos, não tinha nada pra fazer, amargava o fim de um noivado e chorava todo dia querendo voltar pro Brasil. Se pra alguma coisa aquele sofrimento todo valeu, foi pra eu aprender a deixar de ser tão frouxo.

Bola pra frente. Vamos ver o que Alberta tem pra me oferecer.


Escrito por Kid on Nov 20, 2006

Algumas pessoas, em seu terceiro dia de faculdade, começam a fazer as primeiras amizades almejando encontrar comparsas que assinem seu nome na lista de frequência quando elas decidirem ficar em casa injetando heroína ao invés de aparecer pra aula de Metodologia Científica. Outras tomam coragem pra finalmente logar no MSN no laboratório de informática e extender ao ambiente acadêmico a campanha de stalking que promove contra os perfis orkúticos dos atuais ficantes de suas ex-namoradas.

No meu terceiro dia de faculdade, conheci o Ron Jeremy.


Pronto, taí a foto. Agora que já matei o suspense, deixa eu explicar como isso aconteceu.

Após cansar de bater papo no MSN na sala de Inglês e assinar a lista de frequência - o que automaticamente me libera pra fazer qualquer outra coisa pelo resto do dia -, resolvi dar uma passeada pelo prédio de Comunicação (na verdade é Communications, mas preciso traduzir pra vocês). Dou de cara com isso aí na parede:


Logo de início, achei que devia haver algum erro no cartaz. O que diabos Ron Jeremy estaria fazendo em Oshawa, o cu do Canadá, onde o programa de sábado a noite da juventude local se resume a se dirigir à parada de ônibus, esperar UMA HORA pelo coletivo, e se deslocar em direção ao único cinema da cidade pra assistir uma de quatro opções cinematográficas? Será que eles não queriam dizer na verdade “Debate sobre pornografia com exibições de películas do aclamado ator Ron Jeremy” e por causa da fonte que escolheram, não coube no cartaz? Só havia uma forma de descobrir - aparecer no local do debate no dia seguinte, munido de minha adorável câmera digital Canon Powershot vagabunda de supostos 4mp que parecem mais 1.8, e registrar o evento. “E quiçá”, pensei eu tentando utilizar a palavra “quiçá” corretamente numa frase pela primeira vez na vida,

Armado de minha câmera, cinco chicletes de hortelã e minha adorável namorada gringa, nos dirigimos até o ginásio da faculdade para verificar a veracidade do cartaz.


Manhã gélida. No fundo, meu prédio.

Após um breve momento de total desorientação em que eu imaginava estar caminhando em direção a outra cidade ao invés do prédio onde o debate aconteceria, achamos o caminho correto. A entrada do ginásio estava lotadaça; tinha neguim sentado até nas laterais, onde supostamente ninguém poderia sentar porque se por um acaso do destino o prédio explodir sob ataque terrorista, aquelas laterais seriam o único caminho de saída em direção à liberdade.

Descemos até o nível mais baixo das arquibancadas (o chão do ginásio ficava num nível de subsolo; o topo das arquibancadas dava pra porta de saída, que era o nível térreo. Deu pra entender como era o lugar?) e nos acomodamos como dava. Ron ainda não havia aparecido, e o crente que seria seu adversário estava lá cuspindo suas teorias evangélicas sem que alguém pudesse devidamente respondê-lo. “Masturbação faz mal” aqui, “pornografia é nociva a um relacionamento” ali, estudantes mais audaciosos ensaiando vaias acolá…


…E o rei da noite (digo, manhã) resolve aparecer e pôr o reinado de desinformação do cristão ao fim. Ron aparece do nada descendo por uma das laterais do ginásio, toma seu lugar no pódio, apresenta-se brevemente (enquanto a platéia delirava emocionada desde o momento em que ele pôs o pé no ginásio), e deixa o crente terminar seu discurso. A mera presença de um oponente tão poderoso atrapalhou o crente, deu pra notar com clareza.

Após o religioso terminar sua ladainha, Ron já começou Ron pedindo desculpas e disse que 98% do que o cara falou estava errado, e que os 2% restantes são apenas afirmações idiotas mesmo, arrancando deliciosas risadas do público que já estava do lado do Ron mesmo sem ele falar nada mesmo. Ron começou a desfiar sua versão do “problema”, ou seja, usando sua experiência com a indústria - e se valendo da falta de senso religioso - pra tecer comentários menos tendenciosos. Em menos de 30 minutos Ron destruiu essencialmente todos os argumentos do cristão, o que tornou a palestra bem curta (e barulhenta, já que a platéia - que tem Ron como ídolo - gostava de deixar bem claro quem estava vencendo o combate intelectual). Pulou-se pra parte de perguntas pros debatedores e, apesar dos empurrões da namorada, não tive coragem de mandar a minha.

Neste vídeo, uma senhora perguntou o que Ron acharia se sua hipotética filha entrasse no mundo do pornô. Ron meio que deixou a bola cair nessa, porque deixou meio implícito que preferiria que sua filha não estrelasse em pornôs..

Neste outro vídeo, o cristão lê títulos de filmes pornôs que ele considera absolutamente terríveis. A platéia, infelizmente, não concordou..

Neste último vídeo (há mais, mas a preguiça me impede de compartilhar com a internet) Ron autografa uma plaquinha do FHBD que eu emoldurarei em breve

Vou te contar, é bem estranho estar do lado de alguém que você sabe que comeu muito mais mulheres do que todas as pessoas que você conheceu na vida combinadas.


Escrito por Kid on Nov 17, 2006


Xbox Premium + Ghost Recon Advanced Warfighter (não visto na foto) + Gears of War + Ridge Racer 6 + Live Arcade controle extra + headset = 450 dólares.

Preciso agora dar uma desculpa pra não ir pro trabalho hoje.


Escrito por Kid on Nov 14, 2006

Como a parada parece ter atingindo as ondas virtuais agorinha, vamos escrever logo um post pra aproveitar que tá quentinha. Chamem seus amigos.

Então! Há uns cinco anos houve uma altercação entre o Dado Dolabella (sinto a vontade de pôr um “ator” na frente do nome do cara, mas é realmente necessário - ou ainda verdade?) e o João Gordo durante o programa deste último, na MTV. A gravação não foi transmitida e o caso abafado, embora tenha sido mencionado aleatoriamente em programas vespertinos de fofoca na Rede TV!, com o obrigatório e desnecessário ! que alguém decidiu pôr no nome da emissora.

Parece que a MTV descobriu que o mundo inteiro parou de ligar pro confronto entre um de seus apresentadores e o ator de uma empresa televisiva com o triplo de sua popularidade, e decidiu dar um jeito nisso. O vídeo da lendária briga do Dado Dolabella e João Gordo foi finalmente divulgado às massas.

O vídeo deixa implícito desde o começo que já havia maus ares entre o ator e o apresentador. Após perguntas breves e a rápida apresentação do CD do Dolabella, este abre uma maleta e pra surpresa geral da nação extrai dela seu conteúdo letal - um machadinho, uma corrente aparentemente enferrujada e um pedaço de pau são depositados na mesa do apresentador. Notem nessa hora o sorriso maroto e confiante do ator; a demonstração de valentia foi premeditada e, quem sabe, ensaiada até. Foi nessa hora que eu pensei “rapaz, this is getting good” e me aprumei na cadeira.

Dado toma posse do machado e o João Gordo, que não se vacinou contra tétano esse ano, escolhe o pedaço de pau. A entrevista tenta voltar aos trilhos mas é bastante claro que um quebra pau de qualidade está preparando pra se apresentar. Mais confiante que antes, Dado aproveita a segurança que uma arma cortante oferece e dá-se ao luxo de criticar João Gordo no próprio programa dele. O ator insinua que João Gordo “traiu o movimento”, supondo-se que punkeísmo é realmente algum tipo de movimento e não um rótulo que pessoas que não gostam muito de tomar banho dão pra si mesmas pra de alguma forma justificar sua porquice, dando-a a autenticidade de uma subcultura.

E os ânimos se exaltam. Dolabella com o machado, Gordo com o pedaço de pau, e minha mente com uma esperança de ver sangue.

O apresentador fala algumas bobagens qualquer, tentando desesperadamente negar a acusação feita por Dolabella, e bate na mesa ameaçadoramente com seu pedaço de pau, como se fosse uma forma de dizer “e é isso aí!”. O ator, pegando a deixa, retribui o gesto e estraçalha a mesa do anfitrião com o machadinho. Gordo foi pego totalmente de surpresa, e nessa hora todo mundo teve a certeza de que não voltaria pra casa sem, de fato, ver sangue.

Como movido por uma mola, Dado salta da cadeira, dá um passo confiante em direção ao Gordo, e toma o pedaço de pau de sua mão. Sem oferecer nada que pudesse ser ao menos temporariamente confundido com resistência, Gordo é desarmado. Desafiando o próprio bem estar em troca de sua honra, João Gordo se levanta, encara seu atacante, e o seguinte diálogo é trocado:

– Tá louco, mermão?
– E você?
– Playboyzinho de merda!
– E você?
– …Tá louco, mermão?

O vídeo dá uma breve cortada, o que é a forma que a natureza encontrou pra dizer ao uploadedor do vídeo que ele precisa aprender a uploadear vídeos de forma mais decente, e quando a ação volta, os dois já foram devidamente separados. Só então João Gordo lembra que de fato possui um par de testículos. Sua coragem que até então estava no banheiro volta triunfalmente e ele resolve engrossar. É uma pena que Dado já estava a dois quilômetros do apresentador, ou este teria degolado-o com uma generosa fatia de vidro que sobrou de sua mesa.

Após esse play-by-play, acompanhe a ação.


Se não funfar, clicaqui. Ou pesquise “Gordo Dolabella”, até amanhã já devem ter uploadeado trinta versões diferentes do mesmo vídeo, e olha lá se não fizerem mais uma daquelas redublagens idiotas.

Sob análise inicial, é apenas um jovial confronto de egos como se vê acontecendo desde o primário. Eu estava disposto a esboçar uma leve indiferença em relação ao caso, mas uma segunda reflexão me informou algo que precisa ser dito - Dado Dolabella tem bagos do tamanho de um ônibus escolar norte-americano.

Veja lá. O cara se dispõs a ir ao programa do seu inimigo, cercado de seguranças que irão obviamente defender o anfitrião, diante de câmeras e de um público obviamente parcial ao João Gordo, OFERECE ARMAS PRA UM SUJEITO QUE JÁ TEM O TRIPLO DO SEU TAMANHO, e em seguida o desarma e o desmoraliza na frente da geral.

Veja o vídeo novamente. Dolabella abre a sua maletinha, produz as armas brancas e, como num daqueles elegantes duelos que eram moda no século XVII, deixa cada uma delas à disposição do seu oponente. João Gordo, subestimando a coragem do playboy, não dá muita importância à arma obviamente mais intimidante (o machadinho) e fica com o pedaço de pau. O ator em seguida recolhe o machado.

Porra. Eu sei que é modinha aloprar o Dolabella por seja lá quais motivos vocês querem aloprar o cara, mas ninguém vai poder dizer que o sujeito não é corajoso.

“MIMIMI SE FOSSE CORAJOSO NÃO TINHA TRAZIDO ARMAS!”

Nem tanto. Uma coisa seria o cara aparecer no programa do João trazendo um 38 escondido na cintura. Outra situação bem diferente é ele oferecer armas com as quais o oponente poderia se defender, e em seguida ir lá e confiantemente remover tal arma da mão de seu (agora indefeso) adversário.

João Gordo é que acabou me parecendo um bunda mole do inferno após ver esse vídeo. O pseudo-punk sempre foi chegado a um bom smack talking, mas na hora do pega-pra-capar com um adversário de longa data, tomou um imponente owned no meio da fuça. É claro, isso enquanto Dolabella estava na sua frente. Uma vez que seu antagonista se encontrava aproximadamente a oitenta quilômetros de distância, e separado por uma multidão de seguranças e produtores e sei lá mais quem, João adquiriu uma coragem antes inexistente e se propôs a degolar o ator com um pedaço de vidro. Aquela irritante repetição de “some daqui/some daqui/some daqui/some daqui” me fez pensar que eu estava assistindo um hissy fit de uma criança de 11 anos. As vozes compadecidas que acalmaram o apresentador, dizendo que “aquele cara é um babaca mesmo!” e oferecendo apoio à sua causa tal com uma mãe defende o filho que acabou de apanhar na rua, apenas reforçaram essa impressão.

Que papelão patético.


Escrito por Kid on Nov 12, 2006

Uma das grandes vantagens de sair do Nordeste pra ir morar no exterior - além do acesso à tecnologia barata que permite um retirante cearense exibir uma televisão de 50″ de alta definição em sua sala, apreciar épocas do ano em que as temperaturas não fazem os líquidos no seu globo ocular ferver e a quantidade consideravelmente inferior de calangos espreitando embaixo da pia do banheiro - é ser exposto à mundialmente notória e surepreendentemente divertida estupidez gringa.

Já mencionei a célebre burrice norte-americana centenas de bilhões de vezes apenas na semana passada aqui no HBD, mas quase sempre eu me referia à burrice no sentido acadêmico. Felizmente, a estupidez destes branquelos não se limita a ignorância relativa a conhecimentos gerais escolares. Eu já fui alvo de perguntas geniais e nem um pouco imbecis como “Existem hamburguers no Brasil?”, “Você já tinha visto um carro de controle remoto antes de sair do seu país?” ou até mesmo “Vocês têm macacos de estimação, ou geralmente se contentam com uma ou duas jibóias?”.

E sinto uma dor no coração quando algum amigo canadense me faz uma pergunta dessas com o maior olhar de inocência no rosto. Tento vasculhar o semblante do sujeito por traços de arrogância ou até mesmo sarcasmo, já que essas características são geralmente encontradas em piadas mal-intenciondas, mas pra minha (antiga) surpresa, a molecada realmente achava que o Brasil ficava na Europa e que nosso presidente era também capitão da seleção nacional de futebol. As perguntas eram genuinas, por mais incrível que parecesse.

E por isso eu me sentia super mal em destruir suas fantasias de um Brasil retrógrado e absolutamente fodido (bom, MAIS retrógrado e MAIS absolutamente fodido, de qualquer forma). Como explicar pra um canadense que sim, nós temos TVs no Brasil, ou que não, não moramos em casas feitas com papelão e barro? Você conseguiria admitir pra um gringo que você fala inglês fluente e que nao precisa que ele fale separando sílabas ou berrando dentro do seu ouvido? É praticamente como admitir pro seu filho de 8 anos que Papai Noel foi preso na véspera do Natal por acusações de pedofilia - pode até ser verdade, mas todo mundo ficará mais feliz se seu mundinho de fantasia for mantido graças a uma mentirinha de bom coração.

E foi pensando no bem estar dos meus amigos caucasianos que durante esses quase três anos em que eles me emprestaram seu Canadá para que eu possa chamar de lar, eu teci amáveis lorotas sobre nossa Pátria amada salve salve. Esses factóides tiveram bastante uso, e eu carregava uns três ou quatro nos bolsos praquele inevitável momento em que alguém do grupo vira pra um fulano qualquer e fala “Ah, é? Isso não é nada, olha o Izzy aqui, ele é brasileiro!”

Apreciem com moderação e usem com discriçao.

1) A moeda oficial brasileira é o olho de baiacu, de preferência fresco. A moeda antiga, pequenos pacotes de papelao contendo aproximadamente cinquenta gramas de arroz, foi abolida na Revolução Popular de 1997, que pôs no poder o primeiro presidente que não alcançou o cargo através do uso de Magia Negra.

2) Não, não temos televisores no Brasil. As tecnologias necessárias para a construção do aparelho (como as substâncias adesivas que fixam decalques plásticos que dizem “Panasonic” ao painel da TV) ainda não existem no nosso país, infelizmente. No entanto, temos macacos que desenham figuras festivas nas nossas paredes quando deixamos as janelas abertas por muito tempo. Modelos mais avançados desses símios conseguem desenhar quase três frames por minuto, o que dá uma breve ilusão de movimento caso você tenha esquecido de tomar seus medicamentos neste dia em particular.

3) Antes da chegada da Internet (e por extensão, Google, Wikipédia e derivados) ao solo brasileiro no mês passado, tínhamos um funcionário do governo que ia à praça na frente da igreja nos sábados para distribuir cópias em preto e branco de uma Playboy de 1976 e responder breves dúvidas sobre geografia.

4) A versão brasileira do que os países civilizados chamam de “processo jurídico” resume-se a ir à casa do seu oponente armado de talismãs e ramos de arruda e invocar entidades sobrenaturais que se encarregarão de causar diarréia initerrupta no seu desafeto até que ele concorde em devolver os 500 olhos de baiacu que ele pegou emprestado mês passado, e com “pegar emprestado” eu quero realmente dizer “tirou da sua sacola após entrar na sua casa por meio de um trator pela parede”.)

5) Nossos principais produtos de exportação são açúcar, futebol, carnaval e Doença de Chagas - uma assustadora moléstia tropical que faz seu coração explodir. Os métodos de prevenção mais populares incluem a) não morar no Brasil, b) mudar-se do país o mais rápido possível.

6) Produtos usados antes do advento da pasta de dente em 1998 incluem manteiga caseira, água sanitária e, mais frequentemente, nada.

7) O maior atentado terrorista em solo nacional aconteceu em julho de 2003, e o alvo foi o prédio do Ministério de Telecomunicaçoes em Buenos Aires. Um sujeito identificado como “seu José da Esquina” invadiu o casebre onde se localiza o Ministério e destruiu todos os tambores, impossibilitando comunicações com o vilarejo vizinho por quase trinta minutos até decidir-se que ir até lá andando com a mensagem em mãos era menos demorado que a tradução das batidas dos tambores. José foi preso e flagrante e em seguida recebeu uma condecoração do Presidente pelos seu papel no avanço da telecomunicaçoes.

8) A temperatura mais baixa registrada no país em seus quatro anos de uso do Sistema Internacional foi 35 graus Celsius. O frio era tão perceptível que boa parte da população usou camisetas nesse dia. Partidas de futebol foram interrompidas e escolas de samba mandaram os alunos pra casa mais cedo. No dia seguinte, uma onda de calor extremo matou 30% da população brasileira. O número é apenas uma aproximação; a contabilização do número exato de vítimas se tornou difícil uma vez que boa parte dos corpos entrou em calefação ao cair no asfalto quente. O filho do presidente havia emprestado a Calculadora Nacional pra um amigo da escola, o que dificultou ainda mais a contagem.

9) Em 1999, projetos sociais orquestrados por Sílvio Santos (um milionário que comprou o Brasil de Portugal na década de 70) geraram uma onda de melhorias atingiu o Brasil como uma bola de pé esquerdo no cantinho do gol: o salário mínimo foi elevado ao equivalente a 4 dólares por mês; “chutar cachorros nos domingos”, um costume nacional centenário, deixou de ser uma prática socialmente aceitável; o país importou quatro novas ambulâncias, o que não apenas elevou a frota nacional a quatro ambulâncias, mas também mudou o Brasil do segundo pro quinto lugar na lista de países com pior sistema de saúde no planeta.

10) A inserção de tijolos no útero, o método anticoncepcional recomendado pelo governo até pouco tempo, foi recentemente abolido. Postos de saúde agora distribuem grampeadores e ampolas com álcool.

11) O primeiro censo nacional (realizado pouco tempo após a adoção do sistema decimal em 1989) revelou que os sonhos de consumo dos brasileiros incluem fogões, meio quilo de cimento, e água filtrada.

12) O processo eleitoral brasileiro não envolve votações populares. Ao invés disso, os candidatos devem passar por uma bateria de testes físicos que envolvem levantamento de vacas, aragem com obstáculos, e recitar a tabuada do 7 de trás pra frente. Os finalistas então vão em debate público (que será tamborilado para todos os vilarejos próximos) em que cada candidato tentará, com suas próprias palavras, convencer os habitantes da aldeia que ele é de fato filho do deus Sol e que portanto deverá governar. O debate deverá durar oito dias; ao fim deles, o candidato que ainda quiser o cargo e/ou ainda estiver falando no palanque será coroado como Rei do Brasil. Caso todos os candidatos se matem na inevitável briga de foices que costuma acontecer nos primeiros dois minutos do debate, o espectador mais parecido com o último candidato a morrer é coroado.

13) O sistema penal brasileiro é considerado por especialistas mundiais como o mais avançado da América Latina. Tomem isso como exemplo - no mês passado um notório molestador de crianças foi sentenciado à pior pena dada a esse tipo de crime na Constituição Brasileira - 30 chicotadas em praça pública. Em países menos desenvolvidos como a Argentina, a pena teria sido no máximo 15 chicotadas.

Por algum motivo, após recitar alguns desses itens a antiga vontade de visitar o Brasil parece abandonar meus amigos.


Escrito por Kid on Nov 9, 2006

Então, ó. Sei que muitos de vocês às vezes pensam em comentar em posts antigos mas decidem omitir sua opinião insignificante porque acham levianamente que eu não a lerei, já que estará perdida dois posts atrás.

Pensando nessas bichas indecisas eu instalei aquele plugin bacaninha que exibe comentários aí do lado. Todos os comentários postados aparecem aí do lado, facilitando vossa leitura (e a minha também).

Legalzinho.


Escrito por Kid on Nov 7, 2006

Então, como eu ia dizendo antes que a inevitável rotação terrestre me trouxesse mais um aniversário, nos últimos dias diversas circunstâncias imprevisíveis impediram minha permanência nesse mundo mágico de bits, processos infundados por difamação e torrents de Naruto com legenda em espanhol que é a Internet 2.0 Shareware Version™.

Mas esse período de convivência forçada no mundo real não foi totalmente terrível. Re-aprendi nesses cinco ou seis ou sei lá quantos dias foram diversas habilidades outrora esquecidas. Por exemplo, eu lembrei o que “outrora” significa.

Trago a vocês um apanhado de minhas exeriências no mundo real em forma de um dossiê ilustrado (se eu conseguir convencer o Trunks a fazer os desenhinhos) de como sobreviver o mundo real.

Mas escrever esse pequeno manual (que não é exatamente um manual, agora que eu percebo melhor) foi um desafio por si só - como saber se minhas experiências diárias se encaixam no estilo de vida dos outros nerds vagabundos brasileiros? Afinal de contas, eu moro longe da pátria mãe, trabalho, e tenho uma namorada e até tomo banho de vez em quando. Sou provavelmente o extremo oposto do arquetipo de alguém que lê um blog sobre internet e videogame e palms e Magic.

Mas deixa de firuleiras, que se eu não terminar esse texto hoje acabo esquecendo-o no desktop até o ano que vem.

Observações HBD a Respeito de Convivência Forçada no Mundo Real

1) Interações familiares

Um monitor convencional bombardeia suas córneas com luminosidade aproximada de quinhentas mil velas. O nerd comum usa seu computador 16 horas por dia, não parando nem pra comer ou se vestir ou piscar. Pra sua visão, isso é o equivalente a apontar um telescópio astronômico pra um holofote localizado a dois metros de distância, observá-lo por dois minutos, e em seguida furar os olhos com láminas de barbear descartáveis embebidas em suco de limão.

Removida essa fonte cegante de luminosidade e em pouco tempo você perceberá que há vultos perambulando pela sua casa. Dê um tempo para que seus olhos se acostumem à relativa escuridão (luz diurna é praticamente um breu se comparada ão contraste quarto escuro + monitor ligado) e você notará que tais vultos não são na verdade vultos como você supôs inicialmente, mas seres interdmensionais que a comunidade científica convencionou a chamar de “outros membros da sua família que você não vê com frequência porque está constantemente vigiando o perfil de uma ex-namorada no orkut e tentando descobrir se ela vai praquela festa amanhã à noite”.

O tio do Homem Aranha disse que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Bem, aquele velho mereceu morrer então, porque sua teoria é tristemente fajuta. No mundo real, você ganha de presente diversas responsabilidades e NENHUM poder sequer. Explicarei melhor.

Quando seu computador está funcionando normalmente, existe uma força que impede que pratos na pia alcancem o teto ou que a cesta de roupas sujas no banheiro se transforme em um ninho de ratos. Essa força é composta por entidades múltiplas e todas têm o mesmo sobrenome que você. Sem computador e forçado a interagir com tais seres, uma parcela dessas responsabilidades domiciliares acaba caindo injustamente sobre você. Demovido de sua posição de importância, você terá que se rebaixar a posições e tarefas de subserviência como lavar louças, passar um pano na casa de vez em quando, trocar fralda de irmão pivete, essas coisas pouco prestigiosas que até então aparentemente se faziam sozinhas. Você, antes uma celebridade virtual no fórum em que você frequenta, agora limitado a limpar bunda cagada de moleque recém nascido. E nenhum dos poderes previstos na equação do tio do Homem Aranha.

Não é a toa que muitos de nós substituem o mundo real pelo de pixels.

2) Trabalho

Existem dois tipo de pessoa no mundo (tanto o tangível como o virtual): as pessoas que querem desesperadamente arrumar um emprego e seriam capaz de vender a própria alma para esta finalidade, e as que estão neste exato momento pensando numa desculpa convincente pra não ter que ir trabalhar. Devo ser a única pessoa neste hemisfério a ter passado de uma dessas castas pra outra em menos de cinco minutos. O desespero em arrumar uma ocupação se transformou em apatia no momento exato que meu chefe disse que eu estava contratado.

Antes de avançar neste item, compreendo que muitos de vocês devem estar um pouco confusos a respeito do que “trabalho” se trata. Eu suspeito que muitos de vocês lendo isso aqui são nerds profissionais em HTML, Flash e outras ferramentas que permitem desocupados com algum talento fazerem alguns serviços freelance e acharem que têm um emprego.

Pra dissipar qualquer dúvida, aqui está a definição oficial.

Trabalho é a atividade desagradável através da qual você adquire dinheiro pra ter todas as coisas legais que você poderia aproveitar mais caso não perdesse tanto tempo trabalhando. Muito similar a uma corrida com obstáculos disputadas por portadores de síndrome de Down, é uma situação triste em que ninguém ganha - não trabalhe e voce não pode comprar um Xbox 360; trabalhe e compre o 360, mas agora você não tem tempo pra brincar com ele, o que vai contra o propósito de gastar 400 dólares com o videogame ou até mesmo viver.

Nesses dias de sentidos aguçados pela falta da Internet, eu percebi que existem algumas coisas importantes que ignoramos a respeito de nossas ocupaçoes. Sintam-se a vontade para tirar proveito de minhas conclusoes.

Não importa qual seja o seu trabalho, duas coisas nunca mudam - ele será chato e, quase sempre, confuso. Não estou falando de confuso tipo “rapaz, eu tinha certeza que coloquei o bolo na geladeira”, mas confuso como a trama do primeiro Missão: Impossivel - o tipo de confusão que consome seu tempo, sua alegria de viver e sua alma.

Por esse motivo, evite parecer que sabe o que está fazendo. Chefes são naturalmente treinados para localizar funcionários que estão jogando Campo Minado ou lendo blogs durante o expediente, e eles fazem isso sondando o escritório por rostos que não exibam confusão e desespero que são familiares a alguém fazendo seu trabalho. Durante a leitura desse post, imagine que você está com diarréia e todas as privadas do universo foram substituidas por impressoras matriciais da IBM. Deixe transparecer em seu semblante o profundo terror que esse evento improvável inspiraria, e demonstre toda a dificuldade de compreender como demônios isso seria possível.

Esse exercício mental poderá salvar seu emprego um dia.

Igualmente, não sorria durante o expediente. Prestar serviço é uma das ativides mais insatisfatórias e deprimentes do mundo, perdendo até mesmo pra torcer pela Seleção Brasileira na Copa de 2006. Por causa disso, seu chefe assumirá que um funcionario sorridente deve estar fazendo absolutamente qualquer coisa no espectro de possíveis açoes, exceto trabalhando.

Mas quem é o seu chefe? Se chefe é alguém que pensa ser mais eficiente que o resto da equipe apesar de perder todo o seu tempo pensando numa forma de demitir você de uma maneira que faça parecer que você mereceu a demissão. E já que estamos falando de merecimento, é importante lembrar que aproximadamente menos de 0.006% dos chefes ão redor do mundo alcançaram sua posição por mérito próprio. Puxa-saquismo corporativo e relaçoes familiares com superiores são muito mais responsáveis por posicoes de poder do que competência.

3) E é isso.

A falta de internet me fez perceber melancolicamente que minha vida atualmente é uma monótona combinação de trabalho com convivência doméstica. Pior, meus pais viajaram (de novo) e a namorada praticamente se mudou aqui pra casa, me fazendo sentir o amargo e inevitável sabor da vida de casado.

Pior ainda, da vida adulta.

Cadê aqueles dez anos que estavam aqui? Como é que eles passaram tão rápido?


Escrito por Kid on Nov 5, 2006

Vou ali fazer aniversário e já volto.


Escrito por Kid on Nov 2, 2006

SEGUINTE! Enquanto eu termino um textículo para apreciação de anônimos virtuais em diversas partes do Brasil, por que vocês não vão e dão uma olhadela de ladinho no novo blog do meu amigo chegado Cafetão Cubano? Não existe nenhum motivo para não clicar nesse link, a menos que você seja alérgico a bons textos.

Clique rápido antes que acabe! E diga que você conheceu o blog dele pelo HBD, pra gente ficar todo feliz.


Escrito por Kid on Nov 1, 2006

Uma das vantagens de ser filho de um técnico em informática é que o pai compreende a necessidade do filho (leia-se “desespero”) de ter um computador novamente.

Quem disse que vírus não servem pra nada? O que eu peguei serviu pra eu ganhar um PC novinho em folha.