Justiça Virtual
Escrito por Kid on Jan 29, 2008
Vocês já ouviram falar na expressão “hivemind”? Hive em inglês significa “colméia”. Mind é o óbvio “mente”. Mente-colméia é o termo aplicado pro fenômeno de aparente organização grupal independente de um líder, algo que é comum em coletivos de insetos como formigas e abelhas. Sacou? Abelhas, colméia. Os bichinhos se organizam e desempenham funções distintas sem a necessidade de instruções ou supervisão. Em outras palavras, é o modelo de anarquia quintessencial que estudantes de filosofia se masturbam só de imaginar funcionando de verdade no mundo real.
Anarquia nunca pareceu funcionar fora de letras de músicas punk, até a chegada desse maravilhoso instrumento que conhecemos como A INTERNET. Porra, existe alguma coisa que a internet não é capaz de fazer? A rede encurtou distâncias, facilitou o acesso à pornografia, provocou terror na indústria fonográfica e, nos dias de folga, destruiu décadas de dogma sociológico trazendo ao mundo a primeira ocorrência real de comportamento complexo não-orquestrado.
Eles se intitulam “Anonymous”, e ocupam uma das mais populares comunidades nerd gringas - o 4chan. Junto com o Something Awful e o Fark, os channers compõem uma das tribos mais conhecida da internet. E o Anonymous é a personificação do grupo.
Esse nome é reminescente da prática de não assinar os posts publicados nos fórum dos caras, um ritual que eles alegam promover pra enfatizar a idéia de que não há um indivíduo reconhecível na patota, são todos o mesmo sujeito, um organismo com uma consciência única formado por diversas pessoas. Bem Borg a parada, levemente assustadora e surreal, mas lembrem-se que estamos falando de uma cambada de adolescentes entediados.
E, aparentemente, adolescentes entediados constituem poder impressionante quando se algomeram em direção a um objetivo em comum. Agindo simultaneamente como Anonymous, o grupo se tornou infame na internet por promover verdadeiras caças-às-bruxas no domínio virtual, que eles consideram propriedade deles. Eles não dizem isso diretamente, mas todo o discurso justiceiro deles carregam um teor forte de “a internet é nossa e agora você vai sofrer por ter feito o que fez”. E eles sofrem.
Qualquer pessoa ou organização que tenha a infelicidade de ser considerada um alvo por Anonymous passa a receber ataques furiosos de todos os fronts possíveis - páginas são hackeadas e removidas do ar, servidores são afogados com DDoS, até o momento que a perseguição toma formas tangíveis - informações pessoais são distribuídas à turba ensadecida, que passa a apavorizar o alvo, a família do alvo, o cachorro do alvo, e qualquer outra criatura que tenha a infelicidade de se associar a ele.
Por isso comparei o grupo ao fenômeno hivemind (também conhecido pelo termo mais pejorativo mob mentality). Sem nenhum tipo de líder, sem qualquer tipo de organização arbitrária convencional, o exército dotado de consciência coletiva se mobiliza em prol do objetivo em mãos. Discussão filosófica à parte (eu sou particularmente contra esse comportamento de fazer justiça virtual com as próprias mãos, algo que eu chamo de Síndrome do Power Ranger Virtual).
Normalmente o Anonymous - ou Anon pros íntimos - se limitam a perseguir grupos virtuais que promovem racismo ou webmasters que se atrevem a provoca-los (estaria eu me colocando na alça de mira dos moleques?), mas essa semana a gangue resolveu destilar seu veneno contra um inimigo bem mais tangível e potencialmente perigoso - a Igreja da Cientologia.
Como esse post já tá muito mais parecido com reportagem investigativa séria, vou me ater à concisão. A Igreja da Cientologia é um culto (ou seja, uma religião de brincadeirinha) iniciado pelo fracassado autor de ficção científica L Ron Hubbard que, entre outras atrocidades contra a raça humana, transformou o outrora bacana Tom Cruise num proselitista religioso attention whore visivelmente insano. A Cientologia é famosa por apelar pra litígio jurídico toda vez que um crítico eleva sua voz contra a igreja, e seus dogmas a respeito da medicina (e mais especificamente a psicologia) moderna chegou ao extremo de provocar a morte de alguns membros. Lisa McPherson é a mais notória.
Recentemente, a Cientologia já gozava o status de alvo de gozação internacional. Aquele episódio de South Park (e a subsequente demissão de Isaac Hayes, cantor cientólogo que interpretava o personagem Chef) apenas atiçou o vozerio anti-cientologia. E, finalmente, a religião se viu às voltas com os nossos amiguinhos Anonymous.
De acordo com o manifesto postado em diversos sites relacionados ao grupo, Anonymous está realmente puto com a influência que os milhares de advogados a serviço da religião exerce sobre seus críticos, e resolveu se responsabilizar pelo maior e melhor orquestrado ataque contra a Igreja Cientóloga.
Primeiro vieram os ataques no campo virtual. Em uma assustadora questão de MINUTOS, aproximadamente trinta sites relacionados à crença cientóloga foram enviados pro limbo. Anonymous finalmente decidou que isso promovia pouco ou nenhuma influência no mundo real, e que a missão de realmente destruir o culto a L Ron Hubbard não se beneficiava com a remoção de meros websites. O que começou como uma piada acabou tomando espaço na mente da garotada por trás dessa putaria toda e a segunda via de ataque foi traçada - uma manifestação global, simultânea, diante dos prédios da igreja.
No momento da escrita desse texto, um tópico no Something Awful que debate o planejamento do protesto ultrapassa as 120 páginas. Usuários de várias partes dos Estados Unidos que nunca se viram na vida projetaram juntos dezenas de cartazes que serão impressos por milhares de outros nerds que também não se conhecem, e no dia dez de fevereiro essas placas serão erguidas em direção aos muros das igrejas e aos olhos de curiosos que estarão passando pela área.
E não é apenas isso. Cartas a respeito dos perigos da Cientologia (e, mais importante, reclamando pela revogação do status de isenção de importo da “religião”) foram redigidas e estão sendo enviadas aos montes a constituintes americanos. Usuários que planejam comparecer a comícios dos candidatos presidenciais americanos nas próximas semanas se imbuíram da responsabilidade de levar o assunto diretamente aos políticos, numa tentativa de conscientizar os futuros líderes da preocupação e ultraje popular em relação à Cientologia.
O movimento é tão maciço que até eu, um negativista convicto do tipo que acredita que as merdas nesse mundo são inerentemente impossíveis de consertar, começo a ver algum tipo de resultado positivo saindo dessa impressionante mobilização. E, lembrando, todo o movimento é completamente não-direcionado. Não existe uma pessoa sequer em posição de autoridade que esteja coordenando a logística da operação. O negócio simplesmente aconteceu.
A organização voluntária de uma massa tão numerosa por si só é algo absolutamente impressionante, como qualquer pessoa que já tentou organizar um grupo de 5 pessoas pra realizar um trabalho de faculdade pode concordar. Se algum resultado positivo sair dessa esculhambação, o negócio será verdadeiramente épico.
Aí vão uns links pra vocês que estejam totalmente ociosos no trabalho e queiram ler mais sobre o assunto, e que incidentemente torna esse artigo mais wikipedia-like:
http://www.whyaretheydead.net/ - Site que fala sobre as vítimas dos dogmas da Igreja da Cientologia
http://en.wikipedia.org/wiki/Project_Chanology - Um dossiê detalhado sobre as ações do Anonymous contra a Igreja
http://www.youtube.com/watch?v=UxWgRY1I_SI - Reportagem involuntariamente hilária sobre o Anonymous
Worst Spiderman Ever
Escrito por Kid on Jan 28, 2008
Dois Bobagens Internética do Dia seguidos é canalhice, eu sei. Mas vocês vão ter que me entender.
Eu tava até com vontade de atualizar o blog hoje, essa semi-confusão no Meio Bit sobre o iPod Touch me deu uns bons assuntos pra elaborar um ensaio de opinião como há muito tempo eu não postava aqui no HBD. Acontece que hoje eu levei uma queda formidável no gelo ao ir pro trabalho, esqueci a carteira e o celular em casa (o que me obrigou a passar fome o dia inteiro) e, pra fechar com chave de ouvo, levei uma bronca sensacional do meu chefe que - bronca merecida, não nego, mas mesmo assim - terminou de foder com o meu dia. Não tive mais paciência pra elaborar um textinho, ele terá que esperar.
Mas eis que surge a internet no horizonte, trazendo-me motivos pra sorrir novamente e dizer “amanhã será um novo dia, e lembre-se, sempre poderia ser pior”.
Sim, poderia. Eu poderia ser o Pior Spiderman Ever.
Imagina a situação do figura. Este é provavelmente um estudante de filosofia fodido e sem futuro que, por ter tido umas aulas de Ginástica Olímpica quando mais novo, conseguiu raspar o fundo do barril de semi-empregos e (com ajuda da pior fantasia de Spiderman já vista fora da Índia) descolar um emprego de animador de festas como Homem Aranha.
Com uma existência miserável dessas, ninguém pode culpar o cara por afogar as mágoas e aparecer no “trabalho” visivelmente embriagado. Note que após o primeiro backflip ele parece perder o equilíbrio e oscilar perigosamente pra fora do frame, sugerindo que um elevado grau etílico fluía por suas artérias. O terrível Spiderman tenta novamente impressionar as crianças com mais um backflip mal executado, que ele tenta compensar emulando os trejeitos do Spiderman cinematográfico no fim da pirueta. Então, pra fechar a apresentação, o performista decide usar seu tour de force, uma caminhada pela parede seguida de mais um backflip.
Como sabemos, a gravidade não costuma ser muito gentil com bebuns, e a manobra acabou sendo 5% wall run, 5% backflip e 90% vergonha. O maluco pisou em falso e sua apresentação caiu por terra, muito similarmente às suas esperanças de ocupar um espaço no mercado de trabalho através de um diploma de Filosofia.
Até aquele palhaço que tava pintando o rosto da pivetada deve ter ficado com pena do sujeito.
Professional Wolfenstein Player
Escrito por Kid on Jan 25, 2008
A internet está lotada de gente com bastante tempo livre nas mãos, uma câmera digital prontamente disponível e idéias criativas e/ou malucas que nos levam a especular quantos amigos este indivíduo possui, qual a última vez que ele teve um contato erótico consensual com um membro do sexo oposto, ou até mesmo durante qual gestão presidencial americana ele teve seu último banho. Esta seção do HBD é dedicada quase que inteiramente a dar mais visibilidade a esses talentosos cineastas internéticos e suas criativas produções youtubísticas.
Por causa da natureza fantástica ou surreal dessas produções, convencionamos a enxergar os criadores desses vídeos como idéias abstratas, pessoas que não existem de verdade no mundo real. Afinal, quem teria tanto tempo ou disposição pra executar esses projetos? Quando tive a idéia de trazer esse tipo de conteúdo pra vocês, não imaginava que ia acabar esbarrando pela internet a fora com algo produzido por alguém que eu conheço na vida real, uma pessoa de carne e osso cuja existência eu posso verificar.
O maluco narrando o vídeo se chama Clifford; ele trabalha no Wendy’s, onde eu trabalhava até o meio do ano passado. O que o maluco fez foi jogar Wolfenstein 3D por DUAS SEMANAS SEM PARAR, até decorar não apenas a localização de cada inimigo no jogo, mas as áreas secretas e os power-ups. O resultado disso é um speedrun de precisão cirúrgica, em que o moleque não apenas se posiciona na direção exata do inimigo antes mesmo de entrar na próxima sala, mas ainda dá a localização geográfica dos nazistas virtuais em relação angular à sua própria posição. “Vou entrar na próxima sala, virar 90 graus pra direita, dar três tiros, e em seguida 27 graus pra esquerda e matar os outros dois guardas que estão dando a volta na esquina nesse exato momento. Agora vou abrir essa porta e matar os dois guardas atrás dela antes mesmo da porta abrir completamente”.
O moleque vai e termina o jogo na dificuldade mais elevada permitida, sem levar um tiro sequer, em doze minutos. Toda essa habilidade, no entanto, não o impede de se referir aos guardas nazistas como “JESTAFO”, o que se provou mais irritante do que eu imaginava. A polícia nazista, a Gestapo, provavelmente não se agradaria disso. Mas eles também não se agradariam em levar tiros na cara com uma precisão que daria inveja ao Bullseye, então dá na mesma.
Eu me pergunto até agora a que tipo de ambiente o moleque foi submetido a ponto de que jogar Wolfenstein 3D por 14 dias consecutivos se tratasse de uma boa idéia. Aí conclui que eu não posso compreender a mente de um sujeito que quer se tornar mundialmente conhecido como o melhor jogador de Wolfenstein do mundo (e ele diz isso sem o menor sarcasmo).
Vá com deus, Clifford.
Orkut ceifa mais uma vida
Escrito por Kid on Jan 22, 2008
Ok, nem tanto. Mas vamos transformar a coisa em drama mexicano mesmo que é mais legal.
Antes de mais nada, peço perdão pela minha ausência. Ou nem tanto, qualquer um de vocês teria feito o mesmo se tivesse acabado de comprar Rock Band. nas palavras do imortal Gil Brother, “DÁ UM TEMPO, MORÔ?”. Deixa eu brincar de ser feliz com minha bateria de brinquedo.
Então, brinquei pra caralho no negócio, mas o show aqui tem que continuar. E nada melhor pra retomar as operações digitais que um dramalhão online trazido a você por cortesia da burrice humana associada ao uso indiscriminado do orkut. Eu nunca me canso de ver as tragédias que essa combinação tráz pra gente.
A Naty, uma internauta notavelmente peituda porém muitíssimo feia, resolveu expressar seus desejos pelo João Henrique através do popular site de relacionamentos. Até aí nada digno de nota, mulher com fogo na periquita é algo que existe desde os primórdios da raça humana e a internet é usada desde sua concepção pra finalidades sexuais.
E agora vem a parte que vocês estavam esperando.
Não, o mote principal não é o fato de que a Naty tem um namorado (o link ainda não foi desovado, mas nossos detetives internéticos estão trabalhando hora extra com esse objetivo em mente). Por motivos que eu jamais compreenderei, essa massa de retardados que compõe os usuários padrão do orkut passou a usar um método alternativo pra enviar mensagens secretíssimas pros seus destinatários - tais jumentos mandam as mensagens em forma de depoimento. “Assim”, pensam os retardados, “ninguém verá a mensagem!”. Não tendo conhecimento da existência do email, os imbecis enviam a sua mensagem de conteúdo compromissor de uma forma que torna sua exposição tão simples quando apertar um único botão.
E ADIVINHA O QUE ACONTECEU, AMIGO. Sim, isso mesmo.

O sujeito, por imbecilidade ou malícia (o ditado popular diz que ambos são indistinguíveis às vezes, eu adoto essa corrente de pensamento também), publicou o depoimento da menina. E a história rapidamente começou a correr fóruns pela internet afora, e no momento desta publicação os scraps da menina batiam a casa dos 5 dígitos.
Desesperada, a Naty tentou alertar seu concumbino. Ou seja, como se não bastasse a publicação de uma mensagem daquelas por depoimento, ela vai e manda um scrap confirmando que a missiva era autêntica.
O que leva alguém a adotar esse método de enviar mensagens de conteúdo sensível? Nego tá TENTANDO se foder, não é possível. Contemplei todas as possibilidades permitidas pelo nosso universo tridimensional e concluo que não há explicação a não ser “a menina estava intencionalmente tentando se lascar”.
Eu não sei nem o que pensar quando vejo uma história dessas. Essa tal de inclusão social me apavora algumas vezes, e o avanço dela pelo jeito é como o Juggernaut - absolutamente “imparável”. Não dá mais pra voltar aos tempos em que os usuários da internet eram poucos privilegiados - privilegiados tanto pela habilidade financeira de manter o hábito, quanto pelo intelecto necessário pra desvendar o uso dos serviços primitivos da Web 1.0. Esse acesso facilitado dá nisso aí.
Os mais socialmente consciente (você sabe, os filhinhos de papai estudantes de filosofia que dão esmola no sinal no caminho do shopping e por causa disso acham que estão atentos às necessidades do povão) vão nos chamar de elitistas metidos, e dirão que a internet deveria ser considerada um bem público que permite à massa acessar conhecimento de forma nunca antes possível.
Balela. Não sei quem eles estão tentando enganar com esse papinho comunista de Nova Era do Conhecimento, porque pobre burro não usa internet pra aprender sobre open source software, ou corrigir artigos na wikipedia, ou colaborar com o Folding@Home. Pobre burro usa internet pra mandar apresentação de powerpoint, pegar (e espalhar) vírus e postar mensagens comprometedores no orkut.
Sabe aquele lance de que às vezes a gente tem que tirar o direito de alguém pra proteger a pessoa dela mesma? A internet é um caso exemplar disso.
Rock Band
Escrito por Kid on Jan 15, 2008

Vamos ver se essa merda presta.
[ Update ] Presta, sim.
Só pra relembrar - comprei o jogo aproximadamente 12 horas atrás, e nunca toquei bateria na vida. Como disse o k-max, essa porra poderia ser implementada pra revolucionar a forma como alguém aprende a tocar instrumento rítmico.
Saudosista, eu?
Escrito por Kid on Jan 12, 2008


Next gen é o caralho. Viva os 16 bits, porque isso é tudo que eu preciso.
Sem Meias Palavras
Escrito por Kid on Jan 10, 2008
Há uns sete ou oito anos, quando eu morava no Brasil e cursava colegial, eu tinha uma rotina matinal consistente - acordar, conectar escondido dialupmente por quinze minutos e baixar mais 3% de alguma música no iMesh, escovar os dentes, comer meus sucrilhos e ligar a TV pra assistir o programa Bandeira Dois.
Pra qualquer pessoa que esteja lendo este relato e tenha a incrível sorte de não morar no Maranhão, eu explico. Bandeira Dois era um programa noticiário maranhense que se resumia a enviar um péssimo entrevistador pra delegacia local e “entrevistar” os elementos recolhidos pela força policial na noite anterior. O sujeito com o microfone tinha tanto talento pra reportagens quanto tinha pra pilotar uma astronave, e os valores de produção do programa sugeriam que ele era editado no Windows Movie Maker num Computador do Milhão cinco minutos antes da veiculação televisiva do episódio do dia. A gama de entrevistados variava desde “bebum arrumando confusão no bar da esquina” e “prostituta excepcionalmente feia (que pode ou não ser um travesti) provocando briga na praça atrás da igreja”, e somado ao fato de que o repórter era absolutamente incapaz de conduzir uma entrevista que fizesse qualquer sentido e não tentava nem esconder que estava se divertindo com a situação dos presos, assistir o programa era um exercício de humor involuntário.
Ou seja, era um programa horrível, seguindo a regra de qualquer coisa produzida no estado do Manhão (Guaraná Jesus, Família Sarney, e eu até corri pra wikipédia pra procurar mais personalidades famosas maranhenses mas adivinha só - não tem mais ninguém. A melhor coisa que sai do Maranhão são aviões e ônibus voltando aos seus estados de origem).
Programas dessa categoria são lugar comum no Nordeste. O Maranhão tinha o seu Bandeira Dois, meu querido Ceará tinha o Barra Pesada (que, comparado aos outros, era uma produção digna de um Emmy), e Pernambuco tem o atualmente célebre Sem Meias Palavras. Antes esses programas ficavam confinados à Região Nordeste do país, hoje em dia a magia do Youtube leva pra todo Brasil as reportagens non-sense que tanto alegravam minhas manhãs.
Não vou linkar o vídeo do Jeremias porque a essa altura do campeonato todas as pessoas que acessam a internet e falam português já viram as presepadas do adorável bêbado vagabundo sem futuro que está processando diversas empresas a quem ele culpa por seus infortúnios. Ao invés disso, darei preferência a um vídeo mais underground, mais alternativo, que estrela o ser humano mais embriagado da história do consumo do álcool.
O interessante desse programa é que ele consegue, tão sutilmente, falar tanto sobre o povo brasileiro. Veja que ninguém parece levar a sério as situações deprimentes em que os meliantes se encontram, bem no famoso costume brasileiro de rir das próprias desgraças. Aliás, por que deveriam levar a sério? Esses malandros estão de volta na rua em pouco tempo, e acabam se tornando personagens frequentes no progama sendo presos múltiplas vezes. Todo mundo sabe que a prisão dos caras nada mais é que um passeio de viatura e uma hospedagem no xadrez, pago pelos reais dos contribuintes. E no dia seguinte tá lá de novo, bebendo cachaça no meio da rua (e arrumando confusão em resultado) como se sua vida dependesse disso.
A beleza desse tipo de programa é que ele explora a pior qualidade de seres humanos em seus mais lastimáveis momentos, tudo pro nosso entretenimento e escárnio. Um sujeito que provavelmente nem sabe o que um computador se torna figurinha tarimbada em miríade de fóruns e chats de MSN. Uma verdadeira personalidade virtual.
A internet é de fato uma coisa linda.
Punhetas pré-internet
Escrito por Kid on Jan 4, 2008
Sabe, essa turminha da geração atual (pra contextualizar, ”turminha da geração atual” se refere a qualquer pessoa nascida após o auge dos sentais, aquele gênero de seriado japonês que nos trouxe Jaspion, Jiban, e aquele lá que tinha um ninja com uma máscara de leão) definitivamente tem uma vida muito mais fácil e confortável que a nossa.
Sim, sim, eu sei que esse papo de dizer que a galera mais nova se dá melhor é clichê normalmente exclusivo a membros daquele segmento da sociedade a quem comerciais de adesivo pra dentadura são direcionados. Apesar de ter quarenta anos a menos do que seria necessário pra me incluir nesse grupo, eu compartilho esse sentimento nostálgico e ao mesmo tempo invejoso em relação aos mais novos. Em meus breves 23 anos de existência, eu já presenciei pequenas revoluções que me dão autoridade de levantar o dedo e pretensiosamente afirmar que “NO MEU TEMPO ISSO NÃO EXISTIA”. Isso se deve ao fato que minha área de interesse pessoal (gadgets, videogames, nerdices em geral) é extremamente volátil e está em constante mudança. Alguém nascido no meio dos anos 80 como é o meu caso mal começou a viver propriamente dito, mas já pôde presenciar consideráveis revoluções.
Vejam os videogames, por exemplo. Videogames mudaram bastante nos últimos dez anos, ao ponto de que algo como o Megaman de NES (que tem algo em torno de méseros 15 anos de existência) carregue automaticamente o contexto de extrema velhice, de objeto antiquadamente paleolítico.
A própria internet, e os computadores por tabela, mudaram pra cacete em pouquíssimo tempo. É essa mudança rápida que me permite confabular nostalgicamente sobre os “bons tempos” com outros sujeitos de meros vinte e poucos anos de idade como se fôssemos veteranos da Segunda Guerra Mundial.
E uma das coisas que mudou dramaticamente nos últimos dez anos é a forma como os jovens entram em contato com a pornografia.
No contexto da minha infância, a posse exclusiva de uma revista pornográfica era praticamente um Santo Graal da putaria, a Ferrari da auto-gratificação, o símbolo máximo que simbolizava uma realização incomparável. Os moleques que as tinham eram invejados pelo item e admirados pela sua porra-louquice. Eu, previsivelmente, nunca tive uma. Não sei se isso se devia ao terror da possibilidade da revista ser descoberta pelos meus pais, ou pelo terror da possibilidade que a posse do material incluia uma passagem só de ida pros quintos dos infernos. E eu só fui acessar a internet em 1996, então dos meus 9 aos 12 anos - que é geralmente a época em que o interesse no sexo oposto começa a surgir - eu não consigo lembrar de ter visto o corpo feminino desnudo uma vez sequer. Se eu falar que eu achava que a vagina ficava um pouco abaixo do umbigo (tipo, bem na frente da virilha, ao invés de mais abaixo, entre as pernas), vocês acreditam?
Nem a chegada da internet facilitou tanto assim as coisas, ao menos não no começo. Não por falta de conteúdo online ou de desenvoltura pra acha-lo - em um dos maiores momentos “EUREKA” de toda a minha vida, eu percebi que marcas comerciais famosas já estavam representadas digitalmente na internerd. Bastava digitar o nome da empresa na barra de endereço, adicionar .com.br, e lá estava seu website. Resolvi experimentar a tática com “Playboy” e meus olhos brilharam quando a página carregou lentamente a 56kbps, oferecendo pouquíssimas imagens em baixa resolução que não traziam nudez alguma, organizadas naquele tipo de design que tornou os websites dos anos 90 tão icônicos.
Acontece que no dia seguinte meu pai notou a pecaminosa URL no histórico do navegador, e (por motivos que eu jamais compreenderei ou perdoarei), resolveu contar pra minha mãe. E lá estamos os três, na frente do PC, com a página aberta, os peitos siliconados da Tiazinha em formato jpg ocupando uma generosa porção dos 800 x 600 da tela do computador , e os dois me perguntando SE EU TINHA ACESSADO O SITE.
Até hoje não entendo qual seria o objetivo de um inquérito tão humilhante e desnecessário. Se a memória me serve bem, culpei meu irmão menor. A parte engraçada da história é que ele admitiu o crime, e por dois nanossegundos eu acreditei que ele estava se fazendo de mártir pra me salvar. Só depois é que entendi que não havia altruísmo algum da parte dele; ele também havia acessado o site e resolveu confessar logo na esperança de que a honestidade rendesse uma pena reduzida.
Porra pai, porra mãe. Um moleque de 13 anos usa a internet, e de repente a URL da Playboy aparece no histórico do navegador. Isso é realmente algo tão incrível que requer uma investigação? Os previews gratuitos no site se limitavam a meninas de bikini, nem peito descoberto aparecia. Certamente tamanha confusão não era necessária, né?
Ou seja, por causa do uso compartilhado do computador, a pornografia internética era disponível mas não aconselhável. Isso é, até eu descobrir formas de ocultar o conteúdo acessado previamente. Mas isso demorou algum tempo também. A solução era pedir que amigos mandassem as imagens pelo ICQ, imprimi-las (e esconde-las na carteira, o único lugar insondável em toda a minha casa) e apagar os arquivos logo em seguida. Ou seja meus queridos pais, se vocês nunca entenderam porque a tinta da impressora lá de casa estava sempre em nível inexplicavelmente baixo, aí está a razão.
VOLTANDO AO ASSUNTO:
Nós da geração pré-internet não estávamos totalmente desprovidos de material masturbatório. Graças ao abençoado hábito de venda casada Roliudiana (misturar ação/comédia/terror/desenho animado/ficção científica com alguns peitinhos pra garantir melhor aceitação da película), a TV entregava diariamente na minha casa programação semi-pornográfica com um eficiente disfarce embutido. O efeito colateral é que tal conteúdo televisivo costumava provocar um notável constrangimento quando assistíamos em família, mas isso é um preço pequeno a pagar pelo contato - ainda que superficial - com a anatomia do ser feminino.
E nessa singela listinha, honrarei aqueles momentos cinematográficos que chegaram às nossas telinhas como uma prece respondida pelo deus do onanismo.
Mulher Nota Mil (Weird Science)

O que era: Weird Science (inexplicavelmente nomeado “Mulher Nota Mil” na terra tupiniquim), é uma verdadeira obra de arte do famosíssimo John Hughes, o Steven Spielberg das comédias românticas adolescentes dos anos 80. O cineasta é responsável por três coisas - dar o pontapé inicial que inundaria a cena com os romances juvenis de roteiro previsível, catapultar a insípida Molly Ringwald a um estrelato incompreensível, e apressar minha puberdade em pelo menos três anos.
Hughes, após fazer aproximadamente oitocentos trilhões de dólares aperfeiçoando o clichezíssimo tema das comédias adolescentes que viria a se tornar um padrão mais xerocado que aquele livro de Cálculo Diferencial que ninguém mais lembra quem era o dono original e está lá no D.A. do seu curso há aproximadamente 900 anos, resolveu inalar mais cocaína do que de costume e criou a história de dois nerds que sem mais essa nem aquela criam uma mulher virtual, numa sequência cinematográfica que envolve escanear páginas de uma revista masculina e decidir que tamanho de peitos seria mais aproveitável.
A representação hollywoodiana das artes nerds SEMPRE dá motivo pra humor não intencional. Parece que existe um acordo entre cineastas que computadores e as práticas da informáticas devem permanecer para sempre sendo mal representados na tela dos cinemas. Mesmo que você leve em consideração que na época que o filme foi lançado, 90% da população mundial não sabia o que era um computador, a cena ainda é dolorosamente ridícula e surrealmente cartunesca. Eu sei que o filme é uma comédia, mas porra, há uma diferença entre “comédia adolescente” e “episódio do Pernalonga”, e esse filme passa a 80 quilômetros de distância da linha que separa os dois estilos. Abaixo, pra sua conveniência, a sequência supracitada.
Na época que eu assisti o filme, eu não havia me formado ainda na Faculdade Internética de Nerdice Aplicada, então eu estava pouco me lixando se sistemas operacionais como os exibidos no filme não existem, ou que escanear uma fotografia de Einstein não permitiria que você imbuísse alguém com a inteligência do famoso cientista. O que importa é que Kelly LeBrock, “atriz” que está pro papel de Mulher Gostosa Aleatória assim como Xuaznéguer está pro papel de Brutamontes Com Sotaque Engraçado Apesar de Morar Nos EUA a Quarenta Anos, fazia neste filme sua aparição mais célebre na frente de uma câmera.
Efeitos a longo prazo: Eu assisto um filme em que dois moleques usam um computador pra “programar” uma mulher deliciosíssima, e acabo passando o resto da minha vida encurvado diante um monitor, adotando nerdice como uma religião quase. Coincidência? Eu acho que não. Culpo John Hughes como responsável direto pelo meu atual estilo de vida, e sentenço-o a usar seus bilhões de dólares pra me financiar uma noite com a Kelly LeBrock de vinte anos atrás.
Jessica Rabbit

O que era: Uma Cilada Para Roger Rabbit foi um filme revolucionário. Foi um dos primeiros usos convincentes de mesclagem entre filmagem convencional e inserção digital de personagens animados, nele mascotes de empresas de entretenimento rivais (especificamente, Disney e Warner Brothers) dividiram a tela pela primeira vez, e foi o momento crucial na história da humanidade em que um desenho animado provocou uma inesperada ereção.
Jessica Rabbit era basicamente o motivo pelo qual qualquer homem com idade acima do recomendado por uma embalagem de caixa de LEGO assistiu aquele filme. A inclusão dela foi o resultado de um debate entre os produtores do filme, que perceberam que salpicar um trama policial ao redor de um desenho animado estrelando um Pernalonga-wannabe não seria o suficiente pra atrair adultos pro cinema.
Nem lembro qual era a relevância da voluptuosa personagem na trama do filme, além de se comunicar exclusivamente na voz lânguida mais “ME COMA AGORA PLZ” já utilizada por um personagem de desenho animado. Lembro vagamente que ela chifrava o personagem principal do filme com o produtor dela, que foi assassinado com todas as provas apontando pro infeliz marido traído. Ou algo assim, no momento que Jessica Rabbit aparece na tela pela primeira vez, eu estranhamente perdi o interesse na trama e nos outros personagens infantis. Eu estava muito ocupado tentando salvar mentalmente a imagem da Jessica pra seguir o roteiro do filme.
Aí vai uma palhinha da primeira aparição da Jessica, exatamente como eu me lembrava dela (com adição de artefatos de compressão do YouTube).
Efeitos a longo prazo: Historiadores ambos do cinema como da punhetagem concordam que Jessica Rabbit foi o catalizador que levou incontáveis jovens à prática de bater punheta assistindo desenho animado.
Elvira, a Rainha das Trevas

O que era: Uma blasfêmia dupla. Como se não bastasse que o filme fosse apenas um descupla pra espremer os seios mais redondos do mundo em decotes impossíveis sem o auxílio de supercola, ele ainda trazia no nome a combinação de palavras que insinuava relação com a Realeza do Inferno. Ou seja, no caso de Elvira, a Rainha das Trevas, o filme que eles embalaram junto com a putaria era igualmente inaceitável no meu lar cristão.
Não que isso me impedisse que apreciar uma das mais icônicas comédias sexualmente escrachadas dos anos 80, afinal de contas, casa dos primos é justamente pra assistir material duvidoso cuja presença você não arriscaria trazer pra sua própria casa.
Eu não lembro de PORRA nenhuma daquele filme. Bom, eu lembro que havia uma sequência de dança interpretativa parodiando Flashdance. Aliás, Flashdance também mereceria uma menção nessa lista, mas ter que pesquisar vídeos pra esse texto já tá dificultando muito minha concentração e eu preciso terminar logo essa porra. Pesquisar mais imagens de filmes levemente eróticos dos anos 80 vai atrasar ainda mais a produção desse post, porque por motivos puramente científicos eu começo a googlear as imagens dos filmes e nunca me satisfaço com uma só, acabou assistindo o filme inteiro só vendo as screenshots.
Sobre a trama, eu sei que ela se mudava pra um interior americano qualquer e recebia olhares reprovadores da turminha provinciana que aparentemente não considerava esse “vestido” dela apropriado pro uso público. E eu sinceramente acho que não perdi absolutamente nada da história. Pra provar meu ponto, aí vai um vídeo totalmente não-relacionado à história do filme, e aposto que você vai acha-lo bacana mesmo assim.
A única coisa que eu me lembro sobre o filme é que a Elvira não era apenas gostosa, mas ela tinha uma personalidade divertida que a tornava aquela vizinha imaginária que você pedia a deus toda noite quando deveria estar rezando pelo seu pai que está com hemorróidas ou por paz mundial ou algo assim.
Efeitos a longo prazo: Mais de vinte anos após a criação da personagem e do lançamento do filme e aqui estamos nós, googleando screenshots e assistindo clipes no YouTube. Se isso não é uma prova da marca permanente que Elvira deixou em nossas psiquês, não sei mais o que é.
Obviamente, o filme deixou várias outras marcas mais tangíveis, mas vocês já devem ter jogado aqueles shorts no lixo há muito tempo.
Lagoa Azul
O que era: Quando o assunto é putaria levemente disfarçada de filme mainstream, uma das maneiras que o filme é apresentado é através da abordagem da “putaria inocente” - a história fala de personagens pueris que passam pelas primeiras experiências e descobertas com o sexo oposto. Espera-se assim que o filme adquira um teor mais artístico e filosófico do que putanesco e onanístico, o que automaticamente o categorizará com “bom gosto”, que é o separador de águas que distanciará o tema do filme dos geralmente abordados em produções de quintal envolvendo sexo com múltiplos parceiros. Apesar disso, o diretor não estará livre de suspeitas de pedofilia latente. Caso você não saiba, Brooke Shields tinha CATORZE, isso mesmo camarada, CATORZE anos quando participou do filme. Em outras palavras, você está invariavelmente destinado as profundezas do reino de Satanás.
Apesar de toda essa papagaiada sobre inocência e sei lá mais o que eles estavam tentando realmente dizer, a única lição duradora aprendida através do filme é “senhor deus, por favor me permita ser vítima de um naufrágio que me confine a uma ilha deserta com a Brooke Shields”.
Nem vou procurar vídeos pra ilustrar esse item da lista, embora eu tenha certeza inabalável que metade dos que estão lendo este post já correram pra aba vizinha no Firefox pra procurar clipes do filme.
SEUS PEDÓFILOS.
Semi-legalidades do filme à parte, A Lagoa Azul se tornou um ícone das sessões de cinema no SBT, a ponto de que o filme passou a ser visto quase como uma espécie de ritual de passagem de virilidade. Todo moleque recém-chegado à puberdade irá em algum momento assistir A Lagoa Azul na esperança que a dublê de corpo da Brooke Shields se descuide com o vestuário ou mostre a bunda pra câmera num momento de distração. E aprendemos a dolorosa lição de que libido vem frequentemente acompanhada de uma insuportável frustração.
Efeitos a longo prazo: A Lagoa Azul tornou impossível que qualquer um de nós visse a Brooke Shield com respeito. A mulé já tava fazendo softcore porn (preguiçosamente disfarçado de sei lá qual era o disfarce proposto por esse filme) aos CATORZE anos, é verdadeiramente uma surpresa que ela não tenha se reduzido a oferecer favores sexuais em troca de chicletes na esquina.
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