Arrumação doméstica e retrospectiva

Escrito por Kid on Mar 31, 2008

Cheguei em casa do trabalho hoje e, tendo jogado todos os jogos e lido todos os livros e assistido todos os filmes que possuo, resolvi fazer algo inédito – arrumar meu armário.

Nos mudamos pra este apartamento em setembro, e desde então tínhamos algumas caixas ainda lacradas e entulhadas dentro do armário. Sabe nos desenhos animados, quando o sujeito abre a porta do armário e cai tudo em cima dele? Digo sem exagero nenhum – a situação era a mesma. Deslizava a porta pro lado, caiam calça, cintos, sapatos e outros badulaques aos meus pés. Eu catava uma camiseta do meio de uma bola de roupas acumulada em cima de algumas caixas, chutava a bagunça de volta pra dentro do armário e fechava a porta. Aqui está a única foto que eu encontrei da bagunça de outrora, e confiem em mim, esse era o MELHOR estágio de arrumação antes de hoje:


Isso porque não dá pra ver o outro lado do armário, o que eu acessava menos (já que minhas roupas ficam ali do lado direito) e que por causa disso havia se tornado uma montanha de malas, caixas e roupas sujas. Como você pode ver nessa foto, após a abertura da porta do armário, alguns itens rolaram pra fora cartunescamente.

Quatro horas depois, aí está o resultado:

Estou orgulhoso de mim mesmo. Como nem preciso dizer, a namorada ficou felicíssima.

Saí procurando fotos antigas do estado original da bagunça total do armário, e encontrei fotos dos nossos primeiros dias aqui no apartamento. Como essa:

Foi assim que passamos a primeira noite na casa nova – colchão no chão, uma mesinha com abajur embutido no canto do quarto, uma mala com algumas roupas e aquela sensação de aventura. Naquele dia, eu me despedi da minha família e abracei com minha namorada um estilo de vida que até então eu nunca havia experimentado antes – independência PLENA.

Seis meses depois, este é o meu quarto:

Falta algumas coisas, mas o que eu mais preciso (computador, TV de 32″, cabo S-VHS ligando os dois e HD externo com 300gb de South Park, Simpsons, My Name is Earl e filmes diversos) já está aí. Aproveitei o embalo e arrumei até a mesa do meu PC, que geralmente se encontra em perene desorganização.

O resto da casa está também lentamente tomando forma. Essa era nossa sala, poucos minutos após a mudança estar oficialmente terminada. Meu pai trouxe as últimas caixas, se despediu da gente, pulou de volta no SUV dele enquanto eu e a namorada nos abraçamos e víamos exatamente essa imagem:

Nada sensacional – uma TV tubão herdada do meu velho, duas poltronas pre-históricas, um laptop roubando a conexão do vizinho. Hoje, essa é a nossa sala:

Acho que o que eu estou querendo dizer é que os últimos seis meses foram sensacionais. Se já meio ano atrás eu estava muito assustado com o prospecto de morar por conta própria, hoje eu vejo que deu muito certo pra mim. Quando eu cheguei neste país em 2003, não tinha nem metade do que tenho hoje, e olha que eu era sustentado pela família. Me dá um orgulho besta ter conseguido tanto em tão pouco tempo. Chego em casa, jogo o paletó na cadeira, tiro os sapatos, me jogo no sofá e não conviso evitar um grande sorriso, lembrando dos tempos das vacas magras, quatro anos atrás, quando eu tinha que dormir no chão de uma casa que tinha mais ou menos o mesmo tamanho desta, mas tinha que comportar seis pessoas.

Vejamos o que mais o futuro me trará.

Se eu acreditasse em alguma divindade, estaria todo dia de joelhos agradecendo-a pelos bens materiais que acumulei ao longo do último semestre. Entretanto, eu sei que nenhum ser imaginário moveu pauzinhos em meu favor – eu tenho tudo que tenho por esforço próprio.

 ***

Por algum motivo, sempre que posto imagens centralizadas algumas linhas não quebram e os parágrafos ficam colados às imagens. Alguém saberia me explicar por que isso está acontecendo? Meu sexto sentido nerd indica que o editor visual do Wordpress fica adicionando tags center onde não deveria. Que porra é essa?


Carta aberta a Hollywood

Escrito por Kid on Mar 26, 2008

Oi, Hollywood. Sou eu, Israel Nobre, conhecido pelos cidadãos da internet como Kid, porém mais frequentemente por alcunhas impublicáveis que na maioria das vezes se referem à minha mãe. Certamente você lembra de mim, ou ao menos dos milhares de dólares que eu gasto todo ano frequentando os cinemas locais pra duas horas de escapismo regadas a Sprite e pipoca absurdamente cara.

Assistir filmes é um dos meus maiores hobbies, vício herdado do meu pai (assim como tantas outras de minhas características. Eu sou a prova viva de que nossos filhos acabam sendo versões 2.0 de nós mesmos) que era do tipo que colecionava trezentos VHSs com três filmes em cada um, devidamente catalogados com ajuda de adesivinhos amarelos da Verbatim na frente da fita.

Cinematografia é um de meus maiores interesses, ao ponto de que eu cheguei a entreter por algum tempo a fantasia de trabalhar na indústria de produção cinematográfica (edição/direção/essas merdas). Tal sonho foi abandonado em prol de uma ocupação mais edificante (assistir câmeras de vigilância enquanto treino Pokemons no meu Nintendo DS).

O motivo pelo qual escrevo essa carta é porque algumas coisas que você vem empurrando em cima da gente filme após filme começaram a irritar não apenas a mim, mas a muitos outros cinéfilos como eu. Tire um tempinho em sua ocupada agenda de lançar versões cinematográficas de seriados dos anos 70 estrelando Johnny Knoxville (pra que a turminha de 14 anos consiga se identificar com o filme) e leia essa pequena listinha que eu organizei pra você.

Que tal parar com essa onda de filmes de vampiros que tentam ser Matrix?

Sim, estou olhando pra vocês, Blade e Underworld. E pros inevitáveis copycats que aparecerão nos próximos anos por influência de vocês.

No finzinho dos anos 90, um filme escrito por irmãos de nome estranho com efeitos especiais mirabolantes e trama com diversas referências filosóficas revolucionou o cenário pros filmes de ação que o seguiriam. Estou falando de um dos meus filmes favorito, talvez O meu filme favorito – Matrix. A iconografia do filme (casacos pretos, trocas de tiros em câmera lenta, óculos escuros) foi “emprestada” por praticamente todo outro filme de ação lançado em seguida.

Pouco tempo depois, em alguma mansão na Califórnia, um executivo inescrupuloso decidiu que de todos os gêneros que poderiam se beneficiar dessa visão estilística, os filmes de vampiros seriam os mais indicados pra emular Matrix. O sujeito apanhou um guardanapo e passou imediatamente a escrever sequências de ação com um bonequinho-palito com uma inscrição dizendo “esse aqui é o caçador de vampiros”, e várias linhas saindo deste, indicando balas voando em direção a vários outros bonequinhos-palitos, entitulados “esses aqui são os vampiros”.

O problema óbvio com essa trama (”caçador de vampiros usando sobretudo e óculos escuros metralha oitocentos vampiros em 5 segundos”) é que vampiros, como você deve saber, não são pessoas como eu, você ou o seu primo Chiquim. Vampiros são, e estou citando diretamente do meu livro de Vampiro a Máscara, “cadáveres reanimados por rituais mágicos”. A parte “cadáver” garante que objetos como balas não os causam muito dano, já que eles já estão mortos. E a parte “rituais mágicos” garante que eu ou você ou o seu primo Chiquim estaríamos todos inevitavelmente fodidos se nos encontrassemos com um vampiro na vida real, queiram tenhamos uma metralhadora ou não.

Em outras palavras, vampiros são essencialmente imunes a danos físicos, e ainda que não fossem, eles têm milhares de truques escondidos na manga justamente praquela situação em que alguém quer encher suas bundas de bala.

Pra tornar possível o cenário de um caçador de vampiros metralhando os bichos, introduziu-se o conceito da “bala de prata”, e/ou misturada com essência de alho. É a única forma mais ou menos verossímil pra mostrar um vampiro sofrendo danos ao ser atacado pelo portador de uma arma de fogo. Afinal, vampiros têm aversão a tanto prata como alho, tornando-os efetivamente alérgicos a bala.

Aí que reside o problema. Ao contrário de um ser humano, ao ser atingido por uma bala de prata e/ou alho um vampiro literalmente explode. Não importa se você acertou o cara no meio do olho esquerdo ou se a bala passou raspando no dedinho do pé, o resultado é o mesmo. Se você assistiu algum desses filmes, deve ter chegado à mesma conclusão que eu – os vampiros nesses filmes são MAIS frágeis que os humanos que eles supostamente dominam. Um humano qualquer pelo menos tem a chance de sobreviver a um tiro.

Talvez seja por isso que os vampiros dos filmes sempre insistem em manter o mistério ao respeito da própria existência, o que parece um contrasenso já que eles se dizem ser tão mais poderosos que seres humanos. Tão com medo de um zé mané qualquer derreter os garfos da mãe e em seguida colocar a raça vampírica em extinção.

Eu já vi a explosão, não preciso-lo reve-la em cinquenta ângulos diferentes

Como você deve saber, fazer filmes custa caro. E algumas cenas costumam custar mais caro que outras. Grandes cenas de explosão, por exemplo. Se as imagens resultantes não foram conforme esperado, os produtores terão que desembolsar mais alguns milhares de dólares pra explodir outro barco/carro/Casa Branca em miniatura.

A solução pro problema é filmar a cena da explosão usando cinquenta câmeras e ângulos diferentes. A precaução garante que ao menos UMA sequência ficará boa e poderá ser usada no filme.

Acontece que por algum motivo que eu simplesmente não consigo compreender, na fase de edição do filme os caras falam pra si mesmos “sabe duma coisa? acabou acontecendo que todos os shots da explosão ficaram perfeitos. Vamos usar todos então!”. E por causa disso você é obrigado a assistir cenas de explosão três ou quatro vezes, de todos os ângulos diferentes. Talvez porque eles não tenham certeza que você entendeu a cena da primeira vez.

Então, vamos parar com isso? Se é realmente preciso enxertar uma cena desnecessária que só dura alguns segundos, por que não substituir as explosões por nudez gratuita? Tentem aí, garanto que ninguém vai reclamar, tenta aí. Visualizem: o mafioso entra em seu carro, bota a chave na ignição, o carro explode. Corta pra uma cena da Scarlett Johanson em nu frontal por 10 segundos. Volta pro filme.

Eu pagaria pra ver esse filme. Duas vezes, até.

Pessoas caminhando em slow motion em direção à câmera – já deu, né?

Não sei se a culpa é do John Woo ou do Jerry Bruckheimer, e é difícil estabelecer o pioneiro dessa “técnica” porque praticamente qualquer filme de ação, naquele momento que precisa estabelecer que os heróis são SUPERCOOL, apela pra tradicional “vamos todos andar lado a lado em câmera lenta em direção à câmera”.

É clichê. Não é sequer legal. Alguém por aí decidiu que isso é legal, mas alguém por acaso consultou a gente? Certamente não me incluiram nessa pesquisa.

Bruce Willis como um personagem que não seja um assassino, militar, ou policial? BLASFÊMIA!

Você esteve assistindo filmes ultimamente? Sim? Ah, então você vai me ajudar. Dá pra tu me indicar aí um filme em que o Bruce Willis não tenha interpretado um dos três papéis típicos aí em cima?

Sim, eu sei que ele fez filmes interpretando personagens diferentes. Mas se você somar todos, o número não chegaria nem na metade da quantia de filmes com os personagens clichês. Caso você não se lembre, vou aqui fazer as continhas pra não acharem que estou exagerando. Confiram aí embaixo.

Die Hard (a série inteira) – Policial

The Last Boyscout – Policial

Moonlighting – Detetive, que em interpretação é quase a mesma coisa que um policial se você parar pra pensar

Last Man Standing – Assassino de aluguel

In Country – Militar

The Jackal – Assassino de aluguel

Mercury Rising – Policial

The Siege – Militar

16 Blocks – Policial

Hart’s War – Militar

The Whole Nine Yards – Assassino de aluguel

Striking Distance – Policial

The Whole Ten Yards – Assassino de aluguel

Planet Terror – Militar

Lucky Number Slevin – Assassino de aluguel

Hostage – Policial

Tears of the Sun – Militar

Sin City – Policial

Astronaut Farmer – Militar

Perfect Stranger – Assassino, não necessariamente alugável

E isso são só os filmes que já saíram. Uma passada rápida no IMDB revela os próximos projetos dele, que incluem…

The Surrogates

Plot Outline:
Set in a futuristic world where humans live in isolation and interact through surrogate robots, a cop (Willis) is forced to leave his home for the first time in years in order to investigate the murders of others’ surrogates.

O cara praticamente nasceu pra interpretar homens intimidantes que andam armados. Ou pelo menos é isso que cineastas estão tentando convencer a gente há uns vinte anos. Algumas pessoas dizem que existem vários atores que só conseguem interpretar o mesmo personagem (Will Ferrel ou Samuel L Jackson, por exemplo). Mas na verdade esses caras interpretam vários personagens diferentes, DA MESMA FORMA. O Bruce Willis, coitado, sempre recai nos mesmos três personagens clássicos – militar, policial, assassino.

Vamos lá Hollywood, você consegue largar esses vícios. Fé em Deus, rapaz.


A morte de um videogame

Escrito por Kid on Mar 19, 2008

Alguém mais aí tem saudade do tempo em que consoles não se auto-destruiam?

Eu tenho.

Meu primeiro console foi um SNES usado que meu pai comprou de um amigo de trabalho. Posso honestamente dizer que aquele foi o melhor presente que eu ganhei na vida inteira. Primeiro porque foi totalmente inesperado – foi a única ocasião na minha vida em que meu pai se motivou a me dar um presente fora da época de fim de ano, quando eu tipicamente ganho presentes (aniversário em novembro, Natal em dezembro). Ele foi visitar o tal amigo em Brasília, e voltou com o console debaixo do braço.

E o segundo motivo é porque era, afinal de contas, um SNES. Eu ganhei a parada em 1998 se não me engano (ou seja, muito após o auge do console), mas àquela altura eu já havia passado literalmente anos jogando os clássicos do SNES. Eu morava bem na frente de uma locadora, e todos os amiguinhos da época compartilhavam meu interesse em joguinhos. Após a escola, toda a molecada do bairro convergia pra locadora. Mesmo que não tivessem dinheiro, iam pra assistir os amigos jogando, conversar sobre os lançamentos, fantasiar sobre jogos que claramente nunca iam existir (”imaginaí um Super Mario World, mas com o Sub Zero!”) ou – mais frequentemente - insistir pro amigo pagante pedir outro controle pra jogar como segundo player em International Superstar Soccer.  Minha existência orbitava ao redor de um console que eu nem tinha. Imaginem ai ganhar um inesperadamente.

O console era de terceira mão e tinha sinais claros de muito uso. A carcaça tinha aquele característico tom amarelado, tal qual aqueles monitores de tubo antigo que você vê em lan houses de baixa categoria. Algumas beiradas do console estavam amassadas, indício claro de quedas e maus tratos. Mas os danos eram apenas estéticos – o meu SNES funcionava perfeitamente e durou firme e forte, até o trágico dia em que eu o derrubei no chão.

Tenho certeza que se eu disser pra vocês que o dia em que eu quebrei meu SNES foi o dia mais triste da minha vida, vocês não vão pensar que é exagero. Então aí vai: o dia em que eu quebrei meu SNES foi o dia mais triste da minha vida.

Eu e meu irmão estávamos jogando Donkey Kong Country 2. Como vocês nerds devem saber (e aí vai uma pequena explicação pros que não sabem), a série DKC era fortemente inspirada mas mecânicas de Super Mario World, e o sistema multiplayer dele não era tão diferente. Assim como em Super Mario, o multiplayer de Donkey Kong não era simultâneo – o seu amiguinho ou irmão menor ficavam com o controle inerte na mão até que você morresse, então aí era a vez deles. A diferença estava no fato de que, mesmo inativo, o seu bonequinho seguia o bonequinho do colega pela fase inteira, pra tomar a vez dele quando este decidisse não desviar de um inimigo e morresse graças à própria burrice.

Esse sisteminha era diferente de Super Mario, em que o Luigi esperava “fora da fase”, digamos assim, até que o Mario batesse as suas botinhas italianas. A diferença tornava o jogo mais dinâmico e imprevisível, uma vez que o jogador inativo poderia a qualquer momento ser jogado no meio do jogo. Não era necessário nem morrer, aliás – o botão Select, se não me falha a memória, dava a vez pro jogador inerte trazendo o bonequinho dele pra ação.

Então. Entenderam?

Pois bem. Estávamos eu e meu irmão (meu irmão e eu?) jogando esse clássico da infância dos anos 90 quando eu me atrapalhei com os controles e mandei meu macaquinho de cara com um inimigo espinhudo qualquer. Morri, e meu irmão finalmente ganhou uma vez pra jogar. Como bom nerd viciado nas diversões eletrônicas, eu tinha uma habilidade sobrehumana nos controles do jogo, e por causa disso não era raro meu irmão passar a tarde inteira apenas me assistindo jogar o negócio. Quando ele finalmente ganhava a oportunidade de brilhar na tela, o moleque ficava todo contente, se aprumava na cadeira, e se concentrava todo no jogo.

Eu, é claro, precisava de uma forma de sacaneá-lo gratuitamente pela pequena vitória adquirida como uma forma de menosprezar seu esforço e minar sua auto-confiança. Afinal, é pra isso que irmãos mais velhos servem. E eu descobri a forma perfeita de me vingar – ir ao banheiro/quarto/qualquer outro cômodo da casa, mas passando NA FRENTE do moleque, obstruindo a TV. Obviamente, timing era essencial – a idéia era executar a manobra em momentos cruciais da fase, como aquela parte em que aparecem mil inimigos na tela e você precisa de cada grama de destreza manual e coordenação motora pra escapar ileso. Esperei o momento certo e me levantei da cadeira, pronto pra passar na frente da TV e sacanear o coitado sem nenhum motivo em especial.

Mas algo deu terrivelmente errado.

É engraçado que em momentos desse calibre, apesar de estar lá no meio da ação, você não consegue lembrar exatamente do que aconteceu. É como se sua mente estivesse se recusando a processar a informação que te dá conhecimento do evento. Eu não me lembro EXATAMENTE de todos os detalhes do acidente. O que eu me lembro é que eu estava indo pro meu quarto, pensando em procurar minhas figurinhas metálicas que brilhavam no escuro (um brinde que vinha dentro de pacotes de Cheetos na época) pra observar a arte e organiza-las enquanto meu irmão não morria no jogo. Eu havia colado algumas ao interior do meu armário, mas aí decidi que preferia colecioná-las e parei de fazer aquilo. Ia organiza-las alfabeticamente, pra impressionar meus amiguinhos. Eles diriam ”eu estou colecionando aquelas figurinhas que brilham no escuro!” e eu diria “pfff, se vocês fossem ao menos sofisticados estariam organizando-as em ordem alfabética” e aí pescaria a minha a coleção do bolso da calça.

Algo deu errado. Tremendamente errado.

Senti algo macio embaixo do meu pé. Meu passo empurrou o tal “algo macio” ao chão, mas não sem oferecer alguma resistência. E aí senti que aquela tensão que o “algo macio” oferecia inicialmente ao meu peso, provocada por algum peso atado à outra ponta, subitamente cedeu. Como se de repente  não houvesse mais nada pesado na outra ponta. Ouvi um barulho de coisa caindo no chão, e de plásticos se quebrando.

Foi como se de repente eu estivesse vivendo meu pior pesadelo. Me virei pra entender o que diabos tinha sido aquilo, mas na minha mente eu sabia exatamente o que havia acontecido. Eu havia pisado no fio do controle do meu irmão, e com isso trouxe o videogame ao chão.

A tela da TV parou imediatamente de exibir as cenas do jogo, e agora mostrava apenas estática. No chão estava meu SNES, luzinha apagada, aparentemente sem vida. A fita havia sido cuspida pra fora por causa do impacto e jazia perto da porta da cozinha.

Meu irmão segurava o controle com a mão mole, vacilante, alternando o olhar entre o videogame e eu. Eu imagino que pra um moleque mais novo, seu irmão maior é aquele “pai em miniatura”, a figura autoritativa a quem se procura quando precisa de ajuda ou consolação ou garantia de segurança. Meu irmão não falou nada, mas seus olhos diziam “pelo amor me Deus, me diga que ele não está quebrado“. Coincidentemente, isso era o que eu estava dizendo a mim mesmo.

Esqueci absolutamente as figurinhas. Como um salva vidas que se atira pra salvar um folião bebâdo que se afoga na orla marítima de Fortaleza durante as celebrações do ano novo, voei em direção ao SNES. Inspecionei-os por vários ângulos, tentando compreender a extensão do dano. Minhas mãos tremiam. Apanhei o cartucho, coloquei-o de volta no console (não sem antes dar aquela sopradinha de boa sorte) e, com muito medo do possível resultado, liguei-o à TV de novo.

Horrorizado, percebi que a TV continua a emitir apenas estática. Desliguei e religuei o console diversas vezes, tentei dar tapinhas, tentei essencialmente tudo que estava ao meu alcance. A TV insistia em exibir apenas estática.

Quando finalmente ficou estabelecido acima de qualquer dúvida que nosso SNES havia morrido, um silêncio sepulcral abateu a sala. Foi como se nossos pais tivessem morrido.

“O que a gente vai fazer agora, Israel?” – perguntou o moleque, com cara de choro, acalentando o controle do videogame, agora inútil, na mão.

“Não sei, Daniel. Não sei.”

O moleque continuava segurando o controle, olhando pra TV e lentamente apertando alguns botões, com semblante de total desalento.

Minha mente viajava a mil quilômetros por hora no momento. Sabe o Deep Blue, aquele computador colossal que a IBM fez especificamente no intuito de jogar dinheiro fora derrotando campeões de xadrez? Li numa Superinteressante que aquela máquina ”pensa” na ordem de tipo, setenta bilhões de cálculos por segundo, pra analisar todas os lances possíveis num tabuleiro de xadrez. Então, naquele momento eu me tornei um Deep Blue, computando simultaneamente mil e uma formas de explicar o acontecido pros nossos pais E convence-los a comprar um novo videogame.

Infelizmente, a situação que tínhamos em mãos produzia resultados mutualmente exclusivos, auto-derrotantes: se eu explicasse que havíamos quebrado o console, podia esquecer a esperança de ganhar um novo. Se falasse a verdade, ia ficar sem videogame. Se mentisse… provavelmente ia ficar sem videogame também.

Resolvi contar a verdade. Como você pode imaginar, não ganhamos outro SNES. Meu próximo console foi um Playstation 2, em 2006, muito anos depois do evento trágico que me excluiu das rodinhas de debate e apreciação de videogames na escola.

Hoje, uma década após da tragédia que levou meu maior hobby embora, meu irmão e eu discutimos o que aconteceu. Chegamos a um consenso de que, se tivesse sido ELE  o causador da morte prematura do nosso console, eu jamais teria deixado ninguém esquecer da história e o culparia pra sempre. Por ser o irmão mais velho, na época ele nem se atrevia a ficar com raiva de mim. Irmão mais velho nos olhos de um pivete de 10 anos é tipo uma poderosa figura intangível, um vice-pai, uma força da natureza quase. Não adianta ficar com raiva.

***

Há uma década, consoles já velhos pra época aguentavam toda sorte de porradas e maus tratos e só cediam quando a cacetada era tamanha que até o cartucho do jogo levantava vôo. E com todos os avanços tecnológicos que conquistamos nesses anos, onde chegamos?

Consoles cuja CPU e GPU foram retardadamente colocadas muito próximas uma da outra e acabam se torrando. Ou, pior ainda, a funcionalidade online mal acabada faz hardware se destruir.

Meu Xbox 360 já precisou de reparos duas vezes. O meu Wii morreu essa semana. Na mesma nota, meu Windows Vista precisou de formatação já que o Explorer tava totalmente fodido (abrir pastas e renomear arquivos causava total congelamento do sistema), e de tanto instalar bobagem no meu iPod touch, esse precisou de uma formatação também. Ah, e eu perdi a câmera digital que ganhei de Natal da namorada. Nada a ver com os consoles, mas isso talvez prova que eu realmente preciso ir a um pai de santo como o leitor de nome impublicável sugeriu.

A questão é que antigamente era preciso um irmão sacana pra acabar com a vida de um console. Hoje em dia eles fazem isso por si só.


Não morri ainda. Mas meu Wii…

Escrito por Kid on Mar 16, 2008

Tou meio ocupado com o trampo e uns projetos pessoais aí, mas já já volto com um texto novo.

Enquanto isso rezem pelo meu Wii, que acabou de morrer agora mesmo. Começou com artefatos na tela, sinal clássico de GPU indo pro saco. Tou no telefone com a Nintendo agora mesmo, vamos ver no que dá.


Coisas de infância

Escrito por Kid on Mar 9, 2008

Não sei se é por causa da recente chegada da adultice ou por saber que os textos com os quais vocês mais se identificam são os em que eu choramingo por causa da infância que ficou pra trás, mas eu ando muito nostalgico ultimamente. Volta e meia me surpreendo discutindo com meu irmao ou com amigos MSNísticos sobre os “bons tempos” que deixamos pra trás.

Tempos em que nao precisavamos pagar contas, ou impostos, ou aluguel, nem pílulas anticoncepcionais, nem tínhamos que ocupar nossa mente com a aflição de decidir uma carreira ou de se preparar pra comprar o primeiro carro ou de se preocupar patologicamente em se tornar bastante bem sucedido pra que bata aquela característico arrependimento sua ex-namorada cada vez que ela se atrever a visitar seu perfil no orkut.

Como sinto saudade daqueles tempo quando nossas únicas preocupações eram achar uma revista com cheat codes pra Duke Nukem 3D e chegar em casa a tempo de assistir o finzinho de Carrossel (pra quem estudava de tarde, como eu)! Minha mãe não mentiu pra mim - a infância realmente acaba quando menos se espera. Quando eu era mais novo minha mãe vivia me alertando a respeito de aproveitar bastante a infância. Assim como pilhas AAA, meias sociais e o telefone daquela garota da faculdade que você CERTEZA ABSOLUTA que chuparia sua piroca caso você pagasse um jantar, a sua infância desaparece quando você mais precisa dela. Eu não prestei muita atenção no que minha mãe dizia porque eu estava ocupado aproveitando a minha infância, mas a mensagem tem seu valor de qualquer forma.

Você aí, leitor de dezesseis anos de idade, sem dinheiro, possivelmente virgem, e absolutamente desesperado com a certeza de que não passará no vestibular numa faculdade federal e que apanhará em casa quando chegar no dia seguinte tentando convencer os pais que cursar uma faculdade particular é uma idéia melhor – estou falando contigo.

Olhe em sua volta. Essa casa confortável em que você mora? O dia chegará em que esse conforto te custará esforço e dinheiro, e o estado de conservação e organização dela ficará por sua conta. Sua comidinha sempre posta na mesa no momento que o relógio da sala bate o meio dia? Bem, espero que você goste de nissen miojo, porque é isso que você comerá por alguns meses quando sair de casa pra tocar a vida por conta própria. Essa internet que você se acostumou a usar com uma frequência diária que a “minha geração” (discadona 56kbps na veia) só podia sonhar a respeito? Ela não é grátis. Aliás, ela é substanciosamente cara. Aproveite enquanto dá, porque esse free ride vai acabar um dia. Confie em mim.

Ai meu deus do céu, eu tenho muita saudade de ser criança, puta que pariu.

Mas isso não significa que as lembranças dos tempos dourados estão eternamente relegadas ao pretérito perfeito. Pelo contrário – é justamente essa choradeira papo-de-velho que faz as experiências infantis parecerem muito mais gloriosas do que realmente eram. E por causa disso irei neste texto relembrar relíquias do passado que alguns de nós compartilhamos, e alguns de vocês jamais terão o excelentíssimo prazer de não apenas ganhar de Natal, mas de trazê-lo pra escola sob risco de confiscamento por professores fascistas pra provocar admiração e inveja nos amiguinhos escolares. Acompanhem-me por mais essa viagem pela minha incrivelmente desinteressante infância!

Pense Bem

A Promessa

Educar crianças na emergente “rodovia digital” que aparecia no horizonte e acostuma-las a lidar com esses tais de computadores.

A Realidade

Era essencialmente uma calculadora com botões coloridos, num formato que vagamente lembra um computador.

Mais que um brinquedo, quase um computador!” Quem não lembra desse safadíssimo slogan? Eu certamente lembro, porque foi ele que me levou a atormentar meus pais diariamente por três ou quatro meses até que eles decidissem que a única forma de me silenciar seria comprar essa merda pra mim no próximo Natal.

O que era o Pense Bem? Apesar da propaganda evidentemente enganosa, o Pense Bem era exatamente o que alegava não ser (um brinquedo), e estava muitíssimo longe de ser o que alegava ser (um computador). O Pense Bem era um computador na mesma proporção que um relógio de pulso é um computador. Talvez “Pense Bem, O COMPUTADOR DE BRINQUEDO” fosse uma chamada mais comercialmente honesta, mas perdia totalmente o apelo semi-tecnológico tão característico dos anos 90. Em outras palavras, a única coisa que o Pense Bem tinha em semelhança com um computador é que ambos são escritos com auxílio da letra M.

O Pense Bem era um brinquedo eletrônico fabricado pela Tec Toy no começo dos anos 90. Além de primitivas funções musicais que me permitiam reproduzir 20% da música tema de Jurassic Park para o fictício deleite de meus pais, o “computador” tinha algumas atividades matemáticas (o aparelho jogava uma adição/soma/divisão/subtração com um dos fatores como incógnita, e você tinha que descobrir a resposta. O outro joguinho era essencialmente um “descubra a média aritmética entre estes dois números!”), um joguinho de memória no estilo Simon Says, e alguns outros badulaques que se perderam na minha memória. Um das brincadeiras mais interessantes do troço eram os livros de atividades. Livrarias e lojas de brinquedos na época vendiam livros com perguntas sobre os mais variados assuntos, e você usava o Pense Bem pra selecionar as respostas entre as múltiplas escolhas. Eu tinha vários livros com personagens da Disney, livros sobre Astronomia, Biologia, e um bizarríssimo “Livro Pense Bem Plebiscito”, talvez produzido na esperança de educar a molecada sobre aquele plebiscito de 1993. Ganha três reais quem adivinhar qual era o meu livro menos favorito, que eu eventualmente acabei trocando na escola por algum boneco qualquer dos Comandos em Ação. Apesar de obviamente não atingir as expectativas criadas pelas propagandas enganosas, a posse do meu Pense Bem me proporcionou popularidade jamais antes vista na escola – até o momento que meus amiguinhos perceberam que a parada era simplesmente uma calculadora com botões coloridos e LCD vermelho, e deixaram de dar atenção ao meu brinquedo. Isso é o que devem chamar de “quinze minutos de fama”, apesar de que no meu caso ficaram faltando os outros catorze.

Que fim levou

Eu me lembro como se fosse ontem – eu havia passado o dia inteiro provocando meu irmão de maneiras juvenis e bastante engraçadas pra todo mundo exceto pra ele. O moleque se emputeceu de vez, catou o primeiro objeto que viu pela frente (um sapato) e arremessou-o e minhas direção com motivação homicida. Meus refletos apurados me permitiram desviar do projétil de uma forma que seria plagiada anos mais tarde no longa-metragem Matrix. Escapei do atentado, mas o objeto inanimado que estava bem atrás de mim não teve tanta sorte. O sapato acertou meu Pense Bem em cheio, destruindo a tela do aparelho. Chorei por três dias consecutivos e ainda não perdoeei meu irmão totalmente.

Xilitos

A Promessa

“É a mesma coisa que XÍTOS, meu filho. Só que é mais barato!” dizia minha querida vovó.

A Realidade

Ela estava certa. Chilitos tinha o mesmo sabor que Cheetos. Isso é, num mundo alternativo em que Cheetos era fabricado inteiramente com isopor e cola escolar.

Vocês devem aí estar coçando a cabeça. “Que demônios é Chilitos?”, você está perguntando a si mesmo retoricamente. Bem, meu amigo, eu compreendo sua ignorância. Duvido muito que alguém que tenha vivido fora do glorioso estado do Ceará durante toda sua vida tenha a menor chance de entrar em contato com CHILITOS. E você não sabe o que estava perdendo.

Chilitos era um salgadinho comumente vendido nas mercearias nos arredores do Montese, bairro fortalezense em que minha avó mora. Pra você ter uma idéia da natureza underground da parada, Chilitos era vendido em sacos plásticos transparentes selados com nada mais nada menos que ligas elásticas do tipo que alguém usa pra projetar um pedaço de papel contra a orelha de um amiguinho. Não havia nenhum tipo de informação na embalagem – não tinha nome, nem logotipo da empresa fabricante, peso, valor nutricional (AHAHAHAH até parece), absolutamente nada. Aliás, a própria alcunha do produto era essencialmente folclore regional, passado de boca a boca, já que não havia na embalagem nada que sequer sugerisse que a pessoa que o produziu se preocupou em dar um nome à criação. Tudo sugere que o tal do salgadinho era fabricado caseiramente em algum muquifo do bairro, utilizando todos os métodos clandestinos possíveis. E se o sabor da parada oferece alguma pista, é que os Chilitos eram fabricados por complexos processos alquimísticos que transformavam isopor, papelão e corante amarelo em um item alimentício que poucas pessoas nesse planeta tiveram a honra de experimentar.

Ainda não está convencido da undergroundzice da parada? Mencionei que o salgadinho custava DEZ CENTAVOS? Bom, agora mencionei. Ir à casa da minha vó e não comer Xilitos como lanche vespertino era como ir a Paris e não tirar uma foto na frente da Torre Eiffel usando uma camisa da seleção e em seguida uploadear no orkut com uma legenda que lê “EU EM PARIS, SOH PRA KEM PODE”.

Que fim levou

Assim como todos as outras porcarias alimentícias que eu ingeria impunemente quando moleque, os Chilitos que eu consumia avidamente enquanto assistia Chaves sentado na sala da casa da vovó se manifestaram na forma de um dos mais poderosos casos de caganeira em toda a história humana registrada. Se bem que, por dez centavos, até que valia a pena.

Sem contar no valor agregado da possibilidade de não dar descarga e surpreender o próximo visitante do banheiro com fezes amarelas.

Ferrorama

A promessa

Realize seu grande sonho – seja um engenheiro ferroviário! Baterias não incluídas.

A realidade

Nesse caso não houve decepção alguma – o Ferrorama era exatamente o que se propunha a ser, supondo que a palavra “propunha” exista na língua portuguesa, porque eu sinceramente não lembro dessa palavra e estou com uma ligeira sensação de que acabei de inventa-la.

O Ferrorama foi apenas um em uma longa série de brinquedos que meu pai queria muito obter, mas disfarçava como presente pra mim e pro meu irmão na esperança de não ouvir reclamações da minha mãe. Meu pai, que nunca vai deixar de ser uma criança no que diz respeito a brinquedos, nem mesmo esperava um evento de costumeira troca de presentes pra aparecer com algum pacote debaixo do braço. Nem meu aniversário era – eu chego em casa e lá estava ele sentado na sala, montando os trilhos do brinquedo e com um sorrisão na cara. “Pra você ó Israel”, disse ele enquanto mal tirava os olhos da parada, todo animado com o prospecto de sua ferroviária em miniatura. Quando ele finalmente cansava de brincar com a parada e ia fazer algo mais proveitoso, eu e meu irmão tomavam o lugar dele.

Livros viravam suporte pra pontes. Travesseiros viravam túneis. As grossas colunas de madeira que sustentavam a mesa de jantar da sala viraram enigmáticos cânions, perigosamente estreitos, do alto dos quais um solitário tusken raider caça droids pra revender pro mercado negro dos jawas. Não havia limites pra imaginação – lembro que um dia joguei um ônibus de brinquedo no meio dos trilhos e impiedosamente atropelei-o com a locomotiva, a fim de emular aquela cena de O Fugitivo, que estava em cartaz na época e cuja cena de destruição ferroviária featuring Harrison Ford e um gordo aleatório atiçaram minha imaginação infantil.

Vou deixar uma coisa clara aqui – “brincar com Ferrorama” é uma expressão que não faz muito sentido. Você montava o trilho, ligava o trem, e pronto. Acabava aí a sua interação com o brinquedo. Você sentava e assistia o trenzinho atravessar o percurso dele por horas até as pilhas acabarem ou sua mãe descobrir que você não apenas não arrumou o quarto como era condição de brincar com o Ferrorama, mas ainda roubou pilhas de outros eletrodomésticos pra liga-lo. 

Apesar disso, a parada era inexplicavelmente viciante e divertida.

Que fim levou

Quem teve Ferrorama lembra que aquelas pecinhas nas extremidades de cada trilho que permitiam a conexão entre os mesmos quebravam com muita facilidade. Some isso ao fato de que graças às nossas inúmeras mudanças, a caixa do brinquedo foi perdida e tivemos que guardar os trilhos dentro de um imenso saco plástico que era frequentemente derrubado no chão ou pisoteado em momentos de desatenção. O resultado dessa infeliz mistura é que nossos trilhos não se conectavam mais com muita firmeza, impossibilitando que eu revisitasse outras cenas cinematográficas clássicas de desastres de trens.

Walkie talkies

A promessa

A mágica da telecomunicação a seu alcance! Agora você pode coordenar à distância suas estratégias de apertar campainhas dos vizinhos e sair correndo!

A realidade

Morei por três anos no Paraná, e como cumprimento de lei estadual meus pais iam anualmente ao Paraguai comprar nossos presentes de Natal. Em dezembro de 1993 havia uma única caixa embaixo da nossa árvore, e meus pais me avisaram que o presente “era pra nós dois”. Eu e meu irmão nos entreolhamos desconfiadamente. Essa estratégia de “o presente é pros dois” é um dos truques mais velhos do livro de truques de pais mãos-de-vaca. Dessa vez ao menos o presente podia ser razoavelmente dividido pros dois, já que se tratava de um par de walkie talkies.

Como manda o roteiro de brinquedos chineses vendidos no Paraguai, nossos comunicadores portáteis pessoais eram de baixíssima qualidade. O auto-falante tornava nossas vozes praticamente irreconhecíveis, e a péssima recepção só viabilizava a brincadeira se estivéssemos praticamente um ao lado do outro. Ou seja, era essencialmente o mesmo que usar duas latas e um pedaço de linha de costura, porém pior.

Mas isso não nos impediu de imitar as melhores cenas de nossos filmes infantis favoritos, em que os protagonistas juvenis utilizam walkie talkies pra desenrolar algum plano elaborado contra adultos ou coisas parecidas. Infelizmente a única coisa que sabíamos fazer na época em matéria de traquinagem em grupo era tocar campainhas e sair correndo. Adicionamos os inteiramente dispensáveis walkie talkies na brincadeira e tudo parecia mais legítimo e profissional.

Pior que eu não sabia nem utilizar a parada direito, a despeito da simplicidade do brinquedo. Como em todo walkie talkie, os nossos tinham botões pra se comunicar em código morse, o que é mais ou menos uma admissão do fabricante de que ninguém poderia usar o brinquedo de forma satisfatória usando a própria voz. Acontece que eu não tinha a menor idéia do que era código morse e achava que a função servia pra irritar o seu interlocutor, já que ele cortava a fala dele no meio. Só descobri o que era o código anos depois, após ler o Manual do Escoteiro Mirim de um primo. Mas aí já era tarde demais, porque…

E que fim levaram

…no ano seguinte, um vizinho de sexualidade questionável cuja mãe provavelmente se envolvia na atividade de baixo meretrício me fez o favor de destruir meu walkie talkie. Sem motivo aparenet, o viado girou o botão de volume até a última casa e além. Quando ouvi o característico “plec” que indica plástico quebrando e notei que o botão girava livremente na mão do moleque, sem a familiar resistência provocada por travas mecânicas dentro do aparelho. Só o libertei de uma firme chave de braço mediante à promessa de que ele explicaria a situação pra mãe dele e me presentearia com um novo walkie talkie, se possível dentro de 24 horas.

O moleque nunca mais falou comigo, e por muita infelicidade se mudou do bairro pouco tempo após esse incidente. Se seu nome é Marcelo e você morava na Rua Marília no bairro Jardim Veraliz e estudou no Colégio Adventista em Londrina, VOCÊ ME DEVE UM WALKIE TALKIE SEU VIADO. Dois aliás, porque a destruição de um tornou o outro inútil.

Isso porque eu tou sendo gente boa. Se eu fosse ajustar a inflação e os juros de todos esses anos, essencialmente você me deveria uma Ferrari.

Armatron

A promessa

Um braço robótico mais ou menos portátil operado manualmente por você mesmo. Essencialmente, o Santo Graal dos brinquedos nerd dos anos 80.

A realidade

O Armatron é essencialmente o motivo pelo qual eu sempre perdoarei meus pais por suas inúmeras falhas como progenitores. Tenho certeza absoluta que meu pai comprou o brinquedo pra si mesmo, mas já que isso resultou no privilégio de ser um dos poucos moleque sque sequer chegaram a ter contato com a parada, considerarei como se tivesse sido um presente pra mim mesmo assim.

Produzido pela americana (e extinta) Radio Shack, o Armatron era na verdade um jogo. Tá vendo aquela caixinha plástica ali, com as bolas azuis e tal? Então. O objetivo da parada era abrir a caixa, remover os itens de dentro dela, posiciona-los numa outra base plástica, e fechar a caixa. Tudo cronometrado pelo timer mecânico do braço robótico. Tá vendo aqueles quadradinhos alaranjados na frente dos controles analógicos que moviam o bicho? Então, usando um disquinho plástico você setava um número qualquer de quadradinhos, que funcionavam como um contador. A cada minuto um quadradinho ia embora, e quando o último quadradinho se passasse, o Armatron se desligava. Assim, você decidia o nível de dificuldade da brincadeira. O que era muito legal pra impressionar os amiguinhos que se matavam pra completar a tarefa no tempo máximo permitido, enquanto você os empurrava pro lado e completava tudo em menos de um minuto. Um precursor do que, anos mais tarde, veio a se tornar minha forma favorita de jogar Pump it Up/Guitar Hero/Rock Band – se exibindo pros amigos com menos coordenação motora.

Como regra obrigatória que rege brinquedos, gambiarras e badulaques em geral, as pequenas pecinhas adicionais que compunham o aspecto de jogo foram perdidas em pouco tempo. Não que isso fosse um grande problema, porque o simples ato de controlar o Armatron era divertidíssimo. Se você não teve a oportunidade de receber um Armatron de presente durante sua infância, isso significa que seus pais não te amam e/ou que você foi o resultado de uma gravidez acidental.

Essas foram algumas das coisas que marcaram meus anos juvenis. O que te causa mais saudade a respeito da sua infância perdida? Os comentários tão aí pra isso.


iPod Touch, round 2

Escrito por Kid on Mar 8, 2008

Quatro dias se passaram desde a recompra do iPod Touch, o que significa que até agora eu tive 24 horas a mais com o mp3-que-quer-ser-PDA da Apple do que da última vez que me aventurei a comprá-lo.

Como vocês lembram, dizer que a experiência foi horrível é falar pouco – meu primeiro contato com o Touch foi marcado por tanta frustração e raiva que a sensação era de que eu havia jogado dinheiro no lixo. Praticamente todas as funções do aparelho exibiram alguma forma de defeito.

A funcionalidade de vídeo foi a mais problemática; nem mesmo desistir inteiramente do meu laptop (alguns culparam o Vista) e apelar pro meu desktop XP empoeirado ajudou.

Devolvi o Touch e, apesar de adquirir um outro gadget que ocupou minha atenção nérdica, o gostinho amargo da derrota ainda estava na minha boca. A despeito dos problemas que o Touch apresentou e da minha força de vontade pra soluciona-los, no final das contas eu havia sido derrotado. Eu queria tanto o aparelho, e me vi obrigado a devolve-lo contra a minha vontade. 

Não pensem que estou inocentando a Apple de sua culpa no caso. O iTunes da época era comprovadamente instável e levou muitos compradores à mesma atitude que eu. É que isso não me serviu como consolo. O orgulho nerd foi ferido. Como geek semi-profissional de traquitanas eletrônicas, eu gosto de ver a mim mesmo como uma espécie de MacGyver nerd, capaz de solucionar qualquer problema tecnológico em menos de meia hora incluindo os comerciais. Ao desistir do Touch, eu estava de certa forma jogando a toalha, admitindo que estava sem idéias. “Não tem mais jeito”. E realmente não tinha, mas o dano ao meu ego já havia sido causado. Apesar disso, o desejo de possuir um dos gadgets mais quentes do momento não desvanesceu, mesmo após a compra do Archos 605.

Não que o Archos seja ruim. O gadget alternativo é excelente, e eu ainda o usarei por anos, mas acontece  que eu ainda queria também um iPod Touch. Afinal, não foi que o aparelho em si que me causou fúria, foi o software. Tanto que, durante a discussão no Meiobit sobre o aparelho, falei publicamente que ainda tinha esperanças de obter um, caso a Apple resolvesse se mexer e aparar as pontas do odiável iTunes.

E já que estamos mencionando aquela discussão, queria deixar um negócio claro. Nos comentários do post anterior, o Cardoso havia alegado que a tela do Touch é maior do que a de qualquer PDA. Expliquei que isso não confere, já que tanto o Palm TX como o Axim x50 (dois PDAs com os quais tenho experiência) têm telas maiores. Em seguida ele, no que eu só posso classificar como ”melhor exemplo prático de falácia da extensão da analogia”, simplificou o meu argumento dizendo que eu tentei comparar as duas plataformas. Expliquei que esse não era o mérito do meu argumento, mas nem sei se ele leu meu comentário. Enfim, águas passadas.

E o que eu esperava aconteceu: uma nova versão do iTunes foi lançada, e cuidadosamente resolvi testá-la. Assim que percebi que os problemas com o Vista foram solucionados, a tentação de dar uma segunda chance ao Touch foi maior que meu auto-controle. Fui à Future Shop mais próxima e recomprei o aparelho.

Ainda no caminho da loja, três fatores cruzaram meus pensamentos, fortalecendo a impressão de que dessa vez a compra seria mais satisfatória. O primeiro era a certeza de que eu não teria as mesmas complicações pra “interfacear” o aparelho com meu PC, que foi a causa de maior dor de cabeça. O segundo era o preço – cem dólares de diferença. Aprendam com o meu erro – early adopters SEMPRE tomam no cu.

A terceiro e mais significatico fator era o Archos. Eu sei, parece paradoxal. Acontece que, como já possuo um vídeo player mais competente, não estou esperando tanto do Touch. Como falei antes, pra mim ele é um aparelho de mp3 com browser e uns badulaques extras. Só isso.

Vou explicar logo – por mais bacana que o iPod Touch seja, ele continua sendo um player de vídeo bastante medíocre. O suporte de formatos é patético, não há como gerenciar a mídia no aparelho, não há suporte pra legendas, não há um auto-falante, a resolução não é tão boa quanto poderia ser, nem mesmo fullscreen real essa porra faz (ao invés disso, o Touch dá um zoom na área central do vídeo, cobrindo toda a tela mas cortando pedaços imensos da imagem).

Pra resumir, no departamento de vídeo o iPod tem uma performance MUITO porca. Qualquer pessoa que diga o contrário ou é fanboy cego, ou não teve experiência com outros players de vídeo melhores, ou ambos. Por não me encaixar em nenhum dos demográficos acima, minhas expectativas se tornaram baixas. Basicamente, eu só queria um mp3 player legal.

Assim como o PSP, o DS e outros eletrônicos portáteis, o potencial real do Touch está nos homebrews. Como mal consegui pôr vídeos no troço da última vez, muito menos “jailbreakear” (leia-se: destravar a bagaça, liberando o uso de software não-produzido pela Apple), então eu não cheguei a experimentar esse aspecto do Touch da última vez. Talvez se a gente levar isso em consideração, podemos concluir que minha resenha anterior inteira não foi bem uma resenha, porque eu nem consegui usar a parada direito. Foi mais um grito de frustração.

Agora que realmente pude usar o Touch, acho que minhas impressões são mais acertadas. Algumas se confirmaram – como o fato de que o Touch é um video player muito medíocre -, algumas se refizeram – o player de mp3 é mais intuitivo do que eu julguei da última vez -, e outras se mantiveram – a tela de toque do iPod Touch é a melhor entre qualquer gadget, salvo apenas no caso do iPhone por motivos óbvios; o Safari é um excelente browser.

E vou dizer, é interessante voltar com expectativas diferentes a um aparelho que te causou tanta raiva no passado. É como reencontrar uma ex-namorada anos após as mágoas se passaram. Tudo bem que ela é meio burrinha e não consegue comer de boca fechada nem pra salvar a própria vida, mas se ela trepa bem, por que não tirar proveito disso? A analogia é terrivelmente sexista mas vocês entenderam. Comprar, usar e resenhar gadgets não é experiência nova pra mim, mas fazer tudo isso duas vezes é.

E, seguindo os passos deste texto do Cardoso, aqui estão os homebrews que eu instalei no meu iPod.

1) Safari

O navegador. Como já mencionei, é um dos melhores navegadores portáteis que já usei. Certamente não é o mais completo (java e flash, algo que o Opera do Archos faz nativamente, é um mistério pro Safari), mas a “overall experience” é bastante natural e intuitiva. Saquem só como o Safari renderiza o HBD:

Letrinhas pequenininhas, alguns devem ter dito. Bom, isso não é problema.

YouTube Preview Image

Como você pode ver no vídeo acima, iPod Touch detecta a orientação em que está sendo segurado, e com os dedos você pode movimentar a página e dar zoom. É bem bacana e permite um uso internético bem mais fluido e confortável que, digamos, o browser do Palm ou do PSP.

2) Youtube

O aplicativo que permite o usuário a assistir vídeos do Youtube, já que o Safari não lida com flash.

3) Calendar

Preciso realmente explicar isso? A única ressalva é que o calendário do Touch já foi bem mais usado nesses 4 dias que os aplicativos semelhantes do meu palm em três anos. Acho que isso se deve ao fato de que eu SEMPRE tenho meu mp3 player comigo, então o calendário me seguirá com mais frequência do que o Palm.

4) Contacts

Inútil pra qualquer pessoa que tenha um celular. Sim, o mesmo pode ser (parcialmente) dito sobre o calendário. Acontece que, ao contrário do calendário, a função de contato será sempre usada em conjunção com o telefone. Não faz sentido recadastrar todo mundo no iPod se eu já os tenho no celular mesmo. Além disso, digitar compromissos no Touch é muito melhor que no celular.

5) Clock

Um relogim.

6) Calculator

7) Settings

O painel de controle do bicho. Aí terminam os aplicativos que vem com o Touch; todos os ícones após esse são programas que eu baixei.

8) Apollo

Um instant messenger da vida. Seria bem útil, se o MSN/Hotmail não fossem estupidamente proprietários. Assim como não dá pra cadastrar emails do Hotmail no Outlook, é quase impossível fazer um programinha third-party conectar ao MSN. Vou acabar deletando.

9) Stumbler

Um localizador de wi-fi.

10) Pocket Guitar

Um aparelhinho que te permite tocar guitarra no Touch. “Ah, mais um Guitar Hero, sei”. Não, seu merda. Dá pra tocar guitarra MESMO. Olhaí. O formato do Touch torna a brincadeira um pouco complicada, mas sempre impressiona os amigos.

11) Chess

Um bom e velho xadrez.

12) Tris

Um clone de Tetris.

13) NES

Como você deve imaginar, é um emulador de NES. Bacaninha, mas tem alguns problemas de framerate às vezes e a falta de feedback tátil torna o controle meio esquisito. É mais interessante do que funcional. Só não desinstalo porque não tenho nenhum outro aplicativo com ícone referente a Mario, e como você deve imaginar isso é praticamente obrigatório pra mim.

14) Aquarium

Um “joguinho” bem retardado. A tela se torna um aquário em que um solitário peixinho dourado (ou peixe-palhaço, nem lembro agora) faz porra nenhuma. Você pode clicar na tela e dar comida pra ele, mas a animação é tão retardadamente simples que não tem apelo nem como demonstração do poder gráfico do Touch.

15) Tetromino

Outro clone de Tetris.

16) Domino

É dominó, ué. E tem um modo multiplayer.

17) Screenshot

O programa que trouxe essas imagens pra você.

18) Maps

É essencialmente o Google Maps, como programa stand-alone. Muito útil, mas não saia pensando que poderá substituir um GPS - o programa depende de wi-fi pra funcionar.

19) Tap Tap Revolution

Uma tentativa de clonar Guitar Hero no iPod Touch. Não sei se é porque já joguei muito GH nessa vida, ou se é porque o programa é bem tosquinho mesmo, mas não me interessei muito.

20) iSolitaire

Paciência. Fundamental pra alguém com um trabalho como o meu; hoje detonei a bateria jogando no expediente.

21) iShare

Um programinha que permite uploadear arquivos do iPod usando os servidores do SendSpace. Interessantezinho.

22) iFPD

Baixei, nunca usei e esqueci do que se trata.

23) Sudoku

Outro app essencial pra mim. Não sei se Sudoku é tão popular aí como aqui.

24) EvolutionRGB

Uma versão portátil do Falling Sand, aquele conhecido joguinho em flash estilo sandbox. Eu poderia brincar nisso por horas a fio, mesmo essa versão sendo mais simples e com menos opções que a original.

25) SMBPrefs

O painel de controle da SummerBoard, um programinha que te permite mudar a aparência do Touch. Dá pra pôr layout do Vista, do Leopard, de tudo. Tou esperando lançarem um tema de NES ou SNES, o que surpreendentemente ainda não foi feito.

26) Installer

O programa que te permite instalar todos esses apps. O processo é interessante porque tudo é feito via wi-fi. Você nem precisa de um computador pra baixar novos aplicativos. Muito legal.

27) iFob

Outro programa cuja funcionalidade exata eu esqueci. Tem algo a ver com detectar usuários de aparelhos wi-fi nas proximidades.

28) RSS

Um leitor de RSSs, ou seja, essencialmente o último prego no caixão do meu Palm TX que era usado exclusivamente pra ler sites offline via RSS no trabalho. O app não é tão bom quanto o Plucker que eu uso no Palm, mas é bom o bastante pra inviabilizar o ato de trazer ambos comigo pro trabalho.

29) iPhysics

Outro joguinho sandbox. Desenhe objetos na tela, e eles se materializam e se tornam sujeitos à ação da gravidade e tal. Você pode pega-los, jogar um contra o outro, afixa-los pelas extremidades no cenário, etc. Não há um propósito real, a menos que você baixe um dos vários mods pra ele que utilizam a engine como um jogo.

30) TextEdit

Outro app que tornou meu TX totalmente obsoleto. Eu costumava escrever textos no Palm, mas usar o tecladinho portátil meio que torna muito clara a minha vagabundagem no trabalho, e catar milho com a stylus é um exercício de paciência pra poucos. Digitar no TextEdit é infinitamente mais confortável. A propósito, adivinha onde escrevi este post!

Esse aplicativo me causou um leve arrependimento por ter comprado o Touch, pra ser sincero. Eu estava meio dividido entre o iPhone e o Touch, aí decidi pelo último achando que tela de toque seria meio desagradável como única forma de input num celular. Afinal, eu mando muito mais mensagens que faço ligações. Após usar esse programa por cinco minutos percebi que estava enganado. Bom, agora já era.31) MailCliente de email do Touch. Como mencionei, não dá pra cadastrar pra uso do Hotmail, tornando-o semi-inútil pra mim. Registrei meu gmail, entretanto.

32) Books

Leitor de ebooks.

Fiquei com preguiça de tirar um screenshot da última tela. Só havia dois programas mesmo: um clone de bejeweled que roda cmo problemas de framerate então será deletado, e um dicionário virtual. Nada de muito sensacional aí, com exceção que é possível instalar databases extras além da principal. Instalei um dicionário jurídico e uma versão da enciclopédia britânica, o que é incrivelmente útil pra mim porque eu adoro pesquisar trivialidades. Sério mesmo, não tou de putaria – passei boa parte no trabalho pesquisando curiosidades sobre países da América Latina.

E é isso. A verdadeira força do Touch, na minha opinião, é que ele é um mp3 que pode com competência substituir um PDA. Como player de vídeo ele deixa a desejar, mas em todas as outras áreas ele é impressionante. Adoro o fato de que ele é capaz de um pseudo-multitarefa: clique no home button duas vezes e um pop up com controles de música aparece na tela. Você pode trocar a música e imediatamente voltar pro que estava fazendo antes. Isso torna a experiência de “trabalhar” no Touch (como eu fiz ao escrever este texto) análoga ao uso de um PC doméstico. Bacana.

Resumão – O Kid  de um mês atrás jamais recomendaria um iPod Touch. O atual o recomendaria, com a ressalva a respeito do player de vídeo. Existem players de vídeo melhores lá fora.

E sim, eu já tenho um. Pra que ter um só quando posso ter todos?

[ Update ] Tou tendo um problema filho da puta com a quebra de linha nesse texto, como vocês devem ter notado. Alguém quer dar uma olhada no sourcecode e me explicar o que diabos tou fazendo errado? Grato.


Ultra-rapidinhas

Escrito por Kid on Mar 7, 2008

Vocês devem lembrar daquele texto em que eu expliquei como eu vivia fazendo merda em um dos meus empregos. Bom, demorou alguns meses, mas eu comecei a vacilar feio no novo emprego também.

Como operador da sala de controle, sou responsável pela logística do prédio, e uma das minhas obrigações é controlar o painel de alarmes de todo o tribunal. Como o prédio ainda está nos estágios finais de retoque, há construtores por todo lado fazendo buracos nas paredes e soldando coisas à outras coisas. Toda essa atividade gera poeira e fumaça, que acaba disparando alarmes de incêndio por todo o prédio e resultam numa pequena visitinha de uns três caminhões de bombeiros, ambulâncias, o diabo a quatro. Por causa da pequena multa de alguns milhares de dólares por “uso leviano de serviços públicos de emergência”, incidentes como esse devem ser evitados a qualquer custo, através de um bypass no sistema de alarme que é efetuado assim que eu chego na minha sala, às sete da manhã.

Desativando o link do tribunal com o painel de segurança, as emergências não são reportadas ao corpo de bombeiros, e sim a mim. Eu mando alguém averiguar o local de onde o alarme está vindo, e se ao invés de um pedreiro o sujeito encontrar uma sala em chamas, aí sim ativamos os serviços de emergência. Simples.

Exceto ontem, quando eu esqueci de desativar o painel de segurança. Por uma imensa sorte, nenhum alarme foi disparado. Pra você ter uma noção da minha sorte, uma média de CINQUENTA alarmes são disparados por dia por causa da construção no prédio. Se um desses tivesse soado, eu provavelmente estaria folheando os Classificados do jornal local a este momento.

Como vocês devem ter notado graças a uma das fotos abaixo, meu Xbox 360 voltou do conserto. Praqueles mantendo a conta, essa é a segunda vez que meu console é enviado de volta à Microsoft. Da primeira fez foi um belo caso de 3RL, e na segunda, foi problema de GPU (alguns jogos exibiam horríveis artefatos, Call of Duty 4 e Assassins Creed por exemplo eram absolutamente injogáveis). 

Recebei o console hoje e tudo parece estar de boa. Mas já escaldado, resolvi não comprar mais nenhum multiplataforma pro Xbox 360; só comprarei pro 360 os jogos exclusivos dele. Não ponho mais a mão no fogo.

O iPod Touch tá “performando”, se é que essa palavra é válida, infinitamente melhor do que da última vez que eu o comprei. E se ontem me bateu um certo arrependimento de ter jogado tantas centenas de dólares na parada, após o jailbreak a dúvida se foi. Pra começo de conversa, a funcionalidade de vídeo que me deu tanto trabalho está sendo ignorada inteiramente. As far as I’m concerned, este aparelho é um mp3 player com funções de PDA e um browser, assim as desvantagens do aparelho (suporte fraco a formatos de vídeo e reprodução meio fuleragem) desaparecem.

E o jailbreak (ou seja, o “destravamento” do gadget) dá oportunidade de instalar milhares de programinhas homebrew, aumentando ainda mais o uso do troço. A vantagem maior de um aparelho Apple é a imensa comunidade por trás dele, ou seja, há centenas de nerds desocupados programando bobagens pro Touch. Se você quer um mp3 player com wifi e algumas funcionalidades de PDA, eu recomendo o Touch.

Que fique claro, a reprodução de vídeo do Archos é INFINITAMENTE superior. E o Opera do Archos fica bem empatado com o Safari do Touch; onde o Safari ganha em interface fluida e lisinha, o Opera ganha em suporte e funcionalidade (Java e Flash, aprenda Apple).

Ok, chega de gadget pra mim.

Minha viagem pro Brasil está com data virtualmente marcada – dia 28 de outubro. Digo “virtualmente” porque ainda nem comprei passagens nem nada, mas essa foi a data que eu pus no meu formulário de férias lá no trabalho. Em duas semanas receberei a autorização, e no próximo mês pretendo comprar minha passagem.

O roteiro está mais ou menos definido entre Fortaleza, minha terra natal, e São Luís, cidade onde morei por três anos e fiz amigos inesquecíveis. Não tenho família nem nada lá, mas a passagem é praticamente obrigatória.

O livrinho acima pertence a namorada, que tá obcecada em desenvolver algum nível de fluência antes da viagem. Ela está tendo um progresso impressionante na conjugação dos verbos, uma estrutura linguística que é completamente desconhecida pros gringos. E o sotaque norte-americano dela é impagável, com direito a constantes erro de artigos (o bola/a menino) e concordância. Mas o que vale é a intenção, né?

Tenho 23 anos, trabalho tempo integral, pago impostos, lavo minhas próprias cuecas, moro por conta própria e estou estudando a idéia de transformar meu namoro de quatro anos em noivado. Devo me sentir envergonhado por jogar Pokemon, ou pior que isso, tomar parte da infantil brincadeira de abusar do privilégio RPGístico de dar nomes aos personagens da aventura? Preciso da aprovação da internet pra ir dormir tranquilo hoje.

Levante a mão quem também está tentando se livrar de malditas dívidas de cartão de crédito! Ninguém tinha me avisado que montar um apartamento é tão caro, puta que pariu.

A Tina continua viva, e perdidamente louca. Algumas coisas não mudam nunca, graças a deus.

Sobre o Concurso do Wii, eu avisei alguns dos participantes, mas pelo jeito meu email não chegou a todos. Descobri recentemente que a Nintendo toma no rabo e não permite que jogos sejam trocados entre usuários que moram em países diferentes. Ou seja, a mesma viadagem que eles fazem com as regiões dos discos, porém pior por que ao invés de marginalizarem apenas continentes, eles ergueram muralhas virtuais isolando países individuais. Nem EUA e Canadá, que são pra todos os efeitos praticamente o mesmo país, podem trocar games no Virtual Console. Ou seja, nos fodemos. Ou melhor, vocês se foderam, por que eu ao menos me diverti com as historinhas de vocês. Mil perdões aos mais ou menos oitenta leitores que participaram.

Atualizei todas as páginas do site (FAQ, Contato, Hits HBD, etc). Dêem uma olhada enquanto eu termino os outros posts.