A Saga de um Empinador de Pipas
Escrito por Kid on Jul 23, 2009
Vocês já perceberam que depois que você conhece uma pessoa nova, em breve a conversa se torna uma disputa de quem já se envolveu nos acidentes mais mirabolantes?
Passei os últimos 24 anos estudando essa tendência da psiquê humana. Aliás, de onde surgiu esse acento circunflexo, que minha professora de alfabetização (tia Socorro, que já morreu até, coitada) ficava muito puta se o chamassem de “acento chapeuzinho”? Qual o problema de chamar o circunflexo de chapeuzinho? Temo que agora apenas Satanás poderá perguntar isso a ela.
Não importa. Faça o teste aí; da próxima vez que conhecer alguém novo, comente COMO QUEM NÃO QUER NADA que no verão passado você perdeu um dedo do pé enquanto tentava, sei lá, operar um moedor de carne em cima de um skate. Pode ter certeza que o sujeito tirará a camisa, mostrará uma cicatriz entre a terceira e quarta costela e dirá que foi perfurado por uma viga de construção quando mergulhou do terceiro andar de seu prédio tentando capturar uma pipa desgarrada. Antes que você puxe de memória algum acidente mais imbecil, vai lembrar da minha teoria.
Falando em pipas desgarradas, já contei pra vocês o dia em que apanhei por causa de uma porra de uma pipa?
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Clássico HBD – Viagem de Ski
Escrito por Kid on Aug 29, 2008
O texto a seguir foi publicado aqui em 2005, quando eu estava cursando o colegial canadense e tal. O post retrata a minha quase trágica viagem a um resort de ski em Ontario. Muitos de vocês devem lembrar do texto, que na época foi publicado em 3 partes, enquanto a maioria de novos leitores provavelmente nunca leu. Aí está sua oportunidade de acompanhar uma saga clássica do HBD.
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Otakuzismo e você
Escrito por Kid on Nov 8, 2007
Dando uma olhada no mundo e na Intarnetch atualmente – tomando o devido cuidado de evitar passar muito perto do orkut, uma vez que cientistas de renome finalmente descobriram que retardadice é de fato espalhada pelo mundo virtual -, percebo que devo ter dormido durante uma reunião ou perdido algum memorando. É a única explicação pro fato de que eu não fui informado de que nos últimos anos, todos os seres humanos com acesso a clientes de torrent e codecs de divx devem obrigatoriamente venerar qualquer tipo de animação que tenha sido feita dentro do território japonês.
Meus esforços em entender o fenômeno (pesquisar “fenomeno” no Google, sem acento, e ver se o corretor ortográfico do sistema de busca compreende as nuances da pontuação portuguesa), foram infrutíferos. Com toda certeza, desenhos japoneses – conhecidos como “anime”, o que soa como um demônio romano com hemorróidas – são líderes mundiais em categorias prestigiosas como “cenas com flashes induzidores de ataques epiléticos” e “aberturas cantadas por mulheres que soam como um sujeito que teve as bolas explodidas por C-4″, sem contar no sucesso de crítica “lutas chatas na frente de linhas coloridas”, mas isso ainda não explica como a cultura Oriental em geral conseguiu invadir o nosso espaço. Se a Segunda Guerra Mundial me ensinou alguma coisa, é que japoneses tem uma pré-disposição para invasões inesperadas e para afundar navios de guerra arremessando aviões neles. A História nos deu uma lição sobre a insidiosa prática nipônica de atacar quando menos se espera, mas nós a ignoramos.
Existe um grupo responsável pela expansão da japanofilia em nosso hemisfério. Tal grupo responde pelo nome “otaku”. Falo japonês tão bem quanto falo japonês, então desconheço o significado “oficial” do termo e, francamente, eu nem quero saber. Uma tradução livre mais adequada poderia ser “adolescentes desprovidos de identidade cultural que pensam que espremer os olhos e fazer o símbolo da paz em toda foto que tiram é algo legal”.
Para entender melhor a complexidade da situação, precisamos compreender todas as facetas do fenômeno e identificar as raízes do problema. Mas antes de mais nada, você deve se fazer uma pergunta – quem é um otaku?

Esta mulher é moderadora de um fórum sobre Inuyasha
Qualquer pessoa pode ser um otaku. A nomenclatura arcaica exigia que um sujeito passasse horas e horas em canais obscuros na Undernet, trocando terabytes de vídeos de desenhos japoneses sobre samurais e ninjas e meninas que se transformam em gatos, se dando por satisfeito até mesmo por assistir animes em outras línguas e sem nenhuma legenda (para um anime, se tornar “mais incoerente ainda” é uma impossibilidade prática, então assistir o mesmo desenho em português ou em javanês faz pouca diferença), contanto que ele os assistisse por um mínimo de cinco horas por dia. Nos dias de hoje é mais fácil ser aceito no meio dos otakus, e a falta de critérios mais rígidos tornou o fenômeno extremamente popular.Quem pode ser um otakus? Eu receio que esta frase tenha se tornado redundante atualmente, e que a forma mais sensível devesse ser “quem NÃO É um otaku”? Qualquer pessoa pode ser um otaku. Sua mãe, seu vizinho, seu contador, sua professora de geografia, seu cachorro, ninguém está a salvo. Até você pode ser um otaku – se você alguma vez comprou uma peça de roupa dolorosamente ridícula apenas porque havia um ideograma japonês em algum lugar nela, a japanofilia já ceifou sua vida, assim como ceifou muitas outras que se aventuraram a assistir um episódio de Naruto porque “todo mundo tá assistindo cara!!!”

Este rapaz é considerado o mais prolífico cosplayer da atualidade, tendo sido fotografado vestido como mais de 2678 personagens de desenhos animados japoneses
O otaku comum é um sujeito branco, de classe média alta, e tem entre 14 e 18 anos de idade. Embora espécimes mais velhos tenham sido encontrados, considera-se que o desvio japanófilo tende a desaparecer quando a pessoa começa a ter obrigações adultas de uma pessoa normal, como um trabalho fixo e o interesse por temas que não sejam diretamente relacionado a animação japonesa. O otaku também coleciona aquelas revistinhas horríveis que exigem que você jogue toda sua dignidade na lata do lixo e as leia ao contrário e passa horas aprendendo frases triviais em japonês que ele prontamente usará erroneamente quando se encontrar com outros otakus na loja de artigos japoneses do shopping, pra debater sobre a última vídeo-montagem de Naruto, proclamada como a melhor vídeo-montagem dentre as 367 outras que eles uploadearam no YouTube ontem à noite. Otakus são – por via de regra – absolutamente inexperientes em qualquer atividade que requer destreza com o sexo oposto, tornando 135% deles virgens eternos.Um outro hábito característico do grupo é a mania de adicionar sufixos como “chan”, “kun” e outras palavras de origem satânica aos seus próprios nomes, em uma tentativa desesperada de se aproximar mais ainda da cultura nipônica. Nos fóruns otakus, locais amplamente reconhecidos por cidadãos de bem como “o ânus da Internet” é bastante comum ver participantes formando imensas famílias de faz-de-conta, adotando e declarando-se como tios, pais, sogros e irmãos de outros membros do fórum, catalogando esta árvore genealógica de mentirinha nas suas assinaturas. Como se sabe, isso é uma ridícula e deprimente forma encontrada pelos párias de simular o convívio social que eles não têm na vida real.
Qualquer otaku que se preze jamais seria surpreendido sem trazer no seu mp3 player ao menos 400 mb de j-rock, um estilo que é o equivalente musical de merda de bebê recém nascido. Os mais versados abrangem em suas coleções musicais o J-pop, e é sabido que pop é exponencialmente pior que rock qualquer seja sua forma.
A predileção otaku por j-rock é apenas rivalizada pela sua predileção por pirocas veiosas e/ou representações gráficas de pirocas veiosas desvirginando pequenas estudantes. O que levaria alguém a se masturbar vendo tais desenhos está acima de minha compreensão, mas por outro lado, muito do que os otakus fazem está acima da minha compreensão. O perturbador vídeo do link anterior é motivo mais do que suficiente pra chegar à conclusão de que otakus tem um profundo despeito pela humanidade e tudo que consideramos sagrado.
E como esquecer o cosplay? Para os que não conhecem o termo, cosplay é o que acontece quando anos de abandono e falta de convivência social encontram um cartão de crédito e um site de fantasias de personagens de desenhos animados. Abandonando de vez qualquer último resquício de dignidade que tenha sobrevivido a maratonas consecutivas de OVAs de Evangelion, o otaku não apenas se veste como um personagem fictício de seus desenhos favoritos, mas sai em público trajando essa atrocidade. Há diversos sites e fotologs dedicados a veicular imagens de pessoas que se sujeitam voluntariamente a esse tipo de humilhaçào pública. Sinta-se à vontade para pesquisar sobre o assunto, averiguar as fotos e rir com maldade dessas pessoas.
Otakus, como todo grupinho ignorante de subcultura pseudo-alternativa, se vêem no direito de rotular os outros de forma bastante preconceituosa, julgando-se com a autoridade de desprezar aqueles que em sua opinião não merecem ostentar o título de adorador de animes. Uma subcategoria dos otakus são os otakus posers, ou seja, todo aquele que não se masturbe ao menos cinco vezes por dia lendo fan-fics de Full Metal Alchemist ou que não tenha serialmente pensado em vender todos os seus pertences e mudar-se para o Japão. Para o resto do mundo, otakus posers são apenas pessoas que gostam de alguns desenhos japoneses. Para os otakus, qualquer sujeito que assista animes apenas como hobby casual e não como religião é sem qualquer sombra de dúvidas um mal caráter que merece a pior morte imaginável – o que me faz lembrar que a sociedade em geral raciocina de uma forma bastante injusta. Um sujeito pode ser um cidadão de bem, pagar seus impostos em dia, frequentar a Igreja e até dedicar seu tempo livre a fazer Mapas de Team Fortress de graça pros amigos. No entanto, basta ele fazer sexo com UM cavalo e a sociedade dará as costas para ele.
Agora você pode ser considerado um profissional no tema otaku. O que fazer para impedir o avanço dessa nova onda?
Resista. Otakus são conhecidos por ter uma atração patológica pelo defunto formato Real Video (assim como uma atração patológica por desenhos de tentáculos estuprando gatos antropomórficos). Como todos sabemos, o Real Player é um terrível software programado por Osama Bin Laden em pessoa, em mais uma tentativa de destruir a liberdade ocidental e instalar spywares que colocam “funcionalidades” não-requisitadas no seu navegador, como a excelente “funcionalidade” de mudar a sua página inicial e a “funcionalidade” de ser o pior player na história dos players. Enquanto você estiver longe desse software, anime não poderá tocar você. Cruzes e alho talvez ajudem também.
Ajude. Um otaku pode não ser uma pessoa como eu e você no sentido ético da palavra, e portanto não ser agraciado pelos Direitos Humanos que a sociedade mundial preza tanto. No entanto, isso ainda não é motivo para serrá-los no meio com uma moto-serra enferrujada. Faça como Jesus faria e os ame ou ande sobre água ou reparta pães ou expulse mercadores de um templo ou inicie um feriado mundial para celebrar seu nascimento ou algo assim. ENTRETANTO, se seu amigo otaku aparecer em sua residência com um convite extra praquela AnimeCon exclusiva, saiba que nenhum júri no planeta o condenaria por remover a coluna vertebral dele com uma lixa de unhas ali mesmo.
Espalhe a palavra. Mostre esse texto para todos os seus amigos, otakus ou não. O poder é de vocês, já dizia Capitão Planeta. Juntos podemos trazer essa invasão japonesa a um fim relativamente não-trágico. Pra fins práticos, qualquer meio de ação que resulte, mesmo que indiretamente, no fim da cultuação de iconografia japonesa – isso inclui por exemplo desenvolver uma nova forma do vírus Ebola que se propague através de arquivos .avi cujo nome contenha qualquer combinação das palavras “samurai” e “ninja” – será considerado não-trágico.
Manual dos Góticos
Escrito por Kid on Dec 18, 2005
Em março de 2004, na sequência de um texto bastante polêmico criticando um certo subgrupo, publiquei um post que se tornou indiscutivelmente o maior sucesso deste blog. O texto foi citado, linkado e plagiado em inúmeros fóruns, comunidades no orkut e blogs ao redor da internet. O que me deixou imensamente feliz, a propósito, já que foi meu primeiro texto a receber tamanha visualização e até então eu não achava que produzia alguma coisa que valesse a pena ser lida. A aparição no Uêba cimentou a notoriedade daquele texto, e muitos leitores old-school conheceram o HBD justamente por causa daquele post.
Acontece que o post era diretamente dependente das imagens que ele trazia. Tragicamente, seis meses após a publicação do texto, o servidor do Yuri - um amigo que me cedia hospedagem virtual - foi passear. Sem nenhum backup, as fotos foram invariavelmente mandadas pro limbo. O post continuava nos arquivos do site, mas sem as imagens, metade do humor se perdeu.
Apesar de inúmeros pedidos de um remake do post – o que requeriria fotos novas -, eu sempre me negava a faze-lo. Não queria apelar pra uma “fórmula de sucesso”; antes escrever um texto completamente novo e original que tentar atingir a mesma fama do post original de forma preguiçosa. Sabe quando uma continuação acaba ficando uma merda e suja o nome do original? Então.
Por essas e outras, preferi não dar um irmãozinho àquele post. Sem que eu pudesse republica-lo para os leitores antigos, e sem querer criar uma nova versão pros leitores novos, aquele texto seria eternamente apenas uma lembrança. Nada mais que uma parte do legado do site.
Até agora. Fuçando no Google, esbarrei com um dos muitos blogs que na época copiaram o texto. Muitos plagiadores, reforçando sua natureza preguiçosa, apenas linkaram as imagens. Mas acabei descobrindo uma garota que hospedou as fotos em seu servidor.E hoje, quase dois anos após a estréia do texto que catapultou as visitas e a visibilidade do Hoje é um Bom Dia, eu lhes dou o célebre MANUAL DOS GÓTICOS, versão remixada e aditivada.
Recebi muitos elogios por causa do post sobre os góticos, mas também recebi muitas reclamações. As pessoas ficaram com uma impressão errada de mim. Eu disse que odiava os góticos? Foi um erro de digitação, minha gente. Eu ADORO os góticos. Sério mesmo, amo de coração.Nesses últimos dias resolvi elevar minha devoção pelo goticismo a um nível nunca antes alcançado por ninguém: eu descobri a verdadeira ESSÊNCIA DO GOTICISMO! Sim, amiguinhos vampiros. Eu achei o que vocês procuravam esse tempo todo. Agora você poderá adquirir todo esse conhecimento, e não mais pagará mico quando algum coleguinha seu ler meu blog e arrumar um motivo pra encher seu saco.
Então, você quer ser gótico?

Certo. Mas a primeira coisa que precisa aprender é que a bela e transcendental filosofia gótica se basea – exclusivamente – em estética. Então se livre desse boné, ele não é nem um pouco gótico.

A propósito, se livre de qualquer peça de roupa que não seja de cor preta. Você é um vampiro deprimido, um poeta atormentado pela dor de coisas que nunca aconteceram, e esse tipo de pessoa não costuma usar roupinhas coloridas.

Isso mesmo, bom garoto. Agora entraremos num outro quesito importante: música!

11 em cada 10 góticos concordam que Blink 182 é uma das coisas menos góticas do mundo, perdendo apenas para “ser uma pessoa feliz” e “ter amigos”. Se você possui algum CD da alegre banda, jogue fora. Ofereça-os em sacrifício aos deuses pagãos nórdicos, à mãe natureza, ao Conde Drácula, sei lá.Vá à loja de CDs mais próxima da sua casa. Não vá de ônibus, isso é totalmente anti-gótico. Ao invés disso, espere pelo dia mais quente do ano, vista três camisetas pretas e cinco calças (pretas também, pra combinar) e vá caminhando até a tal loja de discos. Adquira o CD mais gótico que seus olhos góticos encontrarem.

Esse é um ótimo CD. Ele foi premiado três vezes consecutivas por revistas especializadas como melhor álbum gótico do milênio. Suas belas canções o ajudarão a percorrer o longo caminho de ser tornar um gótico. Mas se bem que já estamos na metade mesmo.

Isso mesmo. Sinta o goticismo penetrando o seu ser (não se preocupe, você vai conseguir sentar no dia seguinte). Sinta o ódio, a raiva, a depressão, a dor de barriga. No último caso, vá ao banheiro. E porra, eu não mandei você jogar esse boné fora, caralho? Que merda de gótico é você?

Hunf… Ok, ok.Agora você precisa de TATUAGENS. Você não será um gótico de verdade enquanto não tiver tatuagens. Afinal, o grande lance do goticismo é desenvolver uma personalidade única e ser diferente de todo mundo, e que melhor forma pra atingir isso que fazendo algo que milhões de pessoas ao redor do mundo inteiro já fizeram? Mas não vá em estúdios de tatuadores, isso é para os consumistas e os massificados. Você sabe, aquelas pessoas que compram roupas na C&A e assistem MTV (coisas que você também faz, embora não admita antes de uma tortura). Faça suas próprias tatuagens góticas com pincel marcador.

Perfeita tatuagem! Extremamente sinistra. Com apenas quatro riscos, você conseguiu captar todo o espírito e essência da filosofia gótica. Nem Edgar Allan Poe faria melhor, até porque ele era escritor e não desenhista, o que torna essa analogia injusta.Agora, seus cabelos. Vamos dar uma gotizada neles.

Sinta a essência do goticismo tomando conta da sua cabeça – literalmente.

Fenomenal! Ninguém diria que esse revoltado garoto gótico há apenas alguns minutos atrás era fã de Blink 182 e usava roupas felizes. A julgar por essa foto, poderíamos até imaginar que o sujeito realmente tem algum motivo pra andar por aí de cara fechada! O objetivo foi atingido com perfeição.Mais um cliente satisfeito.
Agora, o passo fundamental:
Gótico que é gótico precisa tentar se suicidar, nem que seja ao menos uma vez, por motivos banais e/ou inexistentes. Visto que ninguém consegue lembrar a forma certa de cortar os pulsos, não se perturbe com tecnicalidades e vá de cabeça num método testado e aprovado.

Se você obteve êxito, meus parabéns! Agora você é um gótico! Dê alô ao Cão por mim, a propósito.Se você não conseguiu da primeira vez, não deixe a ida ao hospital e a possível internação forçada numa ala psiquiátrica desencorajá-lo – continue tentando! Desistir de primeira é coisa pra porcos capitalistas. O corpo humano não é assim tão resistente quanto parece. Envenenamento, enforcamento, salto livre de um prédio de onze andares, jogar World of Warcraft por dias seguidos sem se alimentar ou tomar banho… Há muitas opções de suicídio neste mundo moderno em que vivemos. Escolha a opção que combine melhor com seu estilo gótico de ser.
Agradecimentos ao Trunks, modelo fotográfico profissional e meu irmão nas horas vagas
Ahhhh, que curiosa sensação de viagem no tempo.
Grandes Lendas dos Videogames
Escrito por Kid on Apr 11, 2005
Se há uma característica marcante da raça humana, além da nossa habilidade natural de não se dar bem uns com os outros, é o dom da criatividade. Duvido muito que um ser de outro mundo fosse capaz de escrever peças de teatro, compôr músicas que ficam presas nas nossas cabeças meses após termos ouvido-as pela primeira vez, ou descobrir como equilibrar um salário mínimo até o fim do mês que vem.
E a humanidade mostrou essa criatividade ao longo de sua (relativa) breve existência nesse planeta. Os nossos ancestrais primordiais combinaram pedras afiadas, cipós e paus e inventaram ferramentas que os permitiram pela primeira vez quebrar as cabeças de seus semelhantes. Os homens mesopotâmicos criaram um Deus que até hoje faz com que gente dê dez porcento do que ganha a líderes de igrejas. Nos tempos mais modernos, o homem misturou pólvora e ferro e criou as armas de fogo, excelentes ferramentas para acabar com discussões. Mais recentemente, o homem uniu computadores através de cabos e protocolos de comunicação e descobriu uma forma revolucionária de receber pornografia de graça em casa. Não precisa ser um gênio pra perceber que a criatividade humana foi a ferramenta que nos permitiu ser algo além de macacos jogando cocô uns nos outros.
Criatividade é um privilégio de qualidade divina. Vemos-na em muitos locares (entre os quais podem-se excetuar por exemplo o blog do Eduardo), e ela é sempre recompensada onde é encontrada. Porém, não há um grupo mais criativo neste universo do que os jogadores de videogame. Por um motivo simples.
Basta entregar um jogo qualquer na mão de um moleque de 13 anos, em menos de uma hora ele jurará que existem ao menos 3 vezes mais fases do que realmente há no jogo.
Xeu explicar melhor.
Todas as pessoas que têm mais ou menos a minha faixa etária, ou seja, que cresceram e amaram os mesmos jogos eletrônicos que eu, devem conhecer estas fábulas a que me refiro. Promessas de segredos escondidos, profecias sobre mundos nunca antes explorados, lendas de mistérios que esperavam por você.
Parece muito importante, a despeito do fato de que na verdade não era nem um pouco. Estou falando aqui daquilo que aconteceu com todos aqui, em algum momento de suas vidas, se você possuiu um videogame: seu primo/amigo de sala/vizinho chegava pra você e contava algo sobre alguma área secreta em um jogo qualquer, e a partir daí você deixava de ser um mero jogador de videogame, mas se tornava um verdadeiro desbravador.
Todos aqui tiveram experiências do tipo, de ter ouvido sobre uma suposta fase secreta/item escondido/personagem oculto no seu jogo preferido. Tais mistérios não eram como os de outrora, que eram confessados no leito de morte de um explorador moribundo, mas por um moleque cujo primo tem um amigo que pegou uma revista americana emprestada do vizinho, e que a tal revista explicava todos os passos de como atingir o Eldorado eletrônico.
E nós, claro, caíamos como patinhos. Toda vez. E passávamos boa parte de nossas infâncias procurando os tais locais misteriosos.
E é disso que esse post fala: das lendas mentirosas e dos sonhos destruídos quando descobríamos que não havia área secretíssima porra nenhuma. Algumas vezes a verdade era mais cruel; o amigo do primo do irmão do menino da escola nem existia!
A Fase na Nuvem
Essa aí esteve nos meus sonhos e pesadelos por quase 5 anos. Desde a época em que eu não tinha videogame e jogava minha mesada fora em locadoras em Fortaleza, eu já venerava Super Mario World. Dedicava todo meu tempo livre a catar moedas embaixo do sofá pra ir jogar na locadora do seu Roberto, um argentino que me odiava por causa de um certo episódio envolvendo um rato (explico um dia). Então. Um belo dia, eu e um vizinho discutíamos sobre quem havia aberto mais fases no jogo. Falei, orgulhoso, que tinha quase todas as 96 fases destravadas no meu cartucho de Mario. O garoto soltou, com um ar de desdém, que duvidava que eu tivesse aberto a “fase na nuvem”. Perguntei, intrigado, “que fase é essa?”. Ele tomou o controle da minha mão e levou meu Mario pixelizado até o segundo mundo, você pode ver na imagem aí em cima. Tá vendo essa nuvenzinha no meio do oceano? Então. O cara jurava que tinha uma fase aí. É desnecessário dizer que eu passei boa parte da minha infância em Donut Plains, o segundo mundo de Mario, tentando achar a passagem que me levaria pra Fase na Nuvem.
A banheira do Honda
Lendas videogamísticas envolvendo partes do cenário que são supostamente interativas com o jogador são mais numerosas que a quantidade de leitores que não me dão esmolinhas, mas a Banheira do Honda era a mais proeminente. Eu particularmente nunca fui muito chegado a Street Fighter, mas como vocês já devem saber, as lendas dos jogos não se limitam aos grupos que têm afinidado com os tais jogos. Eu só devo ter jogado Street Fighter umas duas vezes na vida, duas experiências extremamente tediosas (caralho, eu odiava esse jogo mesmo), mas ainda assim ouvi a história da banheira do Honda. Supostamente, havia uma combinação secreta que, se executada corretamente, no tempo certinho, permitia ao Honda pular dentro da banheira no fundo do cenário e lavar a bunda, ou algo do tipo. Vale lembrar nesse ponto que as lendas tinham muitas micro-variações, mas a idéia principal era sempre a mesma. Um dia, peguei Street Fighter emprestado de um amigo da escola, só pra ver se o negócio era verdade – a lenda tinha feito mais uma vítima. Imagino que pelo menos uns cinquenta mil controles de SNES foram destruídos por jogadores frustrados ao perceber que a banheira do Honda era tão inacessível pro avantajado lutador de sumô como portas, corredores e outras passagens estreitas.
A Triforce
Tenho certeza que quando leram os primeiros parágrafos do post, muitos se perguntaram se eu ia falar sobre a lendária Triforce em Zelda The Ocarina of Time. Não é pra menos; a lenda da Triforce era mais notória que Jebus, o doente mental que passa o dia inteiro lá no centro da cidade gritando contra semáforos e pedras. De longe a lenda mais bem trabalhada, a história da Triforce envolvia até mesmo, pasmem, a suposta participação da própria Nintendo! A lenda, ou ao menos a variação que ouvi, era a seguinte: um programador que trabalhou na equipe de de produção de Ocarina of Time fez, sozinho, um JOGO INTEIRO e escondeu o tal jogo, ou ao menos a passagem para ele, num artefato conhecido por gamers no mundo inteiro como Triforce. O tal programador teria morrido (e o contador da lenda sempre enfatizava o drama do cara, dando-o pestilências como hemorróidas cancerígenas ou tuberculepra leucêmica, porque afinal de contas todos tínhamos 13-14 anos e nomes complicados davam credibilidade à história) e o segredo do jogo escondido foi levado junto pra cova. A Nintendo ouviu o boato sobre o tal jogo secreto, e queria descobrir onde ele se escondia, para poder aproveitar e honrar o trabalho do programador, lançando o jogo no mercado. Obviamente a Nintendo não ia fazer algo inteligente, barato e rápido como, digamos, abrir o código fonte do jogo e localizar a anomalia. Não, não. Ao invés disso, a empresa resolveu pagar CINQUENTA MIL DÓLARES pra qualquer jogador que encontrasse a Triforce, tirasse uma foto da tela da TV e mandasse pra eles.
Essa lenda afetou a vida de muita gente. Amigos antes felizes e sorridentes viraram nada além de uma sombra do que eram antes, de tão obcecados estavam em encontrar a tal Triforce e filar os cinquenta mil paus. Tinha neguinho fazendo até planos pro dinheiro, e não tou inventando. Era uma parada semi-deprimente (não totalmente deprimente porque, em retrospecto, os caras eram otários mesmo e mereciam sofrer pela ingenuidade).
Quando Majora’s Mask, a continuação de Ocarina of Time, foi lançado, a lenda morreu. Os boateiros de plantão ainda lançaram mão de uma última tentativa de manter a saga viva, ou seja, deram uma espécie de patch na lorota: eis que de repente, “descobre-se” o sobrenome do tal programador morto era justamente MAJORA, e que o novo jogo era exatamente o mundo secreto atrás da Triforce! Como se pode ver, o engodo é realmente notável. A Lenda da Triforce foi a única mentira que conheço que passou até por update.
O Combo de 99 hits do Subzero
Esse não podia faltar, pois foi uma das lendas que mais ouvi na época gloriosa do SNES. Muitos clamavam ter alcançado o tal combo, outros diziam ter testemunhado a tal sequência, e um número equivalente alegava ter parentes que conseguiram acertar a combinação que fazia o Subzero desferir exatas noventa e nove porradas no seu inimigo. O combo de 99 hits virou uma espécie de nirvana dos videogames, um estado de espírito que apenas os mais iluminados poderiam alcançar. Até o grupo dos Grandes Mestres do MK (que era composto de malucos mais ou menos dois anos mais velhos que o resto da turma e que dominavam técnicas milenares dos jogos de luta como cobrir o controle com a camisa pra facilitar o desenvolvimento dos golpes) foi pego de surpresa com o boato. Júnior a.k.a. “Cabeça”, o líder não-oficial daquela patota de pré-adolescentes que controlava as partidas de Mortal Kombat com punhos de ferro e camisas de campanhas políticas, foi um dos primeiros a comprar a briga contra a lenda. O moleque passou MESES jogando MK3, e após muito tempo sem notícias sobre ter conseguido ou não o tal combo, foi obrigado a inventar as próprias mentiras. Segundo ele, uma vez ele QUASE conseguiu, mas faltou energia na hora H. Quando essa lorota se tornou velha, ele passou a alegar que tinha conseguido, e que tinha dado pause no jogo (usando um cheat code que permitia pausar partidas de MK3, o que realmente existe) mas aí a mãe dele não deixou ele sair de casa pra dar as boas novas pros amigos. Como ele tava com medo de deixar o videogame ligado por muito tempo e assim foder o aparelho, acabou desligando-o.
Eu tenho minhas suspeitas a respeito dessa lenda. Imagino que alguém tenha visto Killer Instinct pela primeira vez e achado que se tratava de um outro jogo como, digamos, uma versão nova de MK (a confusão entre jogos era um fenômeno muito comum). Havia um personagem em KI, o Cinder, que quando era azul parecia ser feito inteiramente de gelo. Alguém viu o jogo de luta, o personagem de gelo e aqueles combos brutais que eram o carro chefe de Killer Instinct, e pronto. Surgiu uma lenda que, se minha teoria está correta, foi mais um engano do que uma mentira proposital.
…
Da forma que vejo, as lendas dos videogames não são muito diferentes das lendas sobre montros marinhos, quedas d’água no fim do mundo e muitas outras histórias similares que eram senso comum em séculos passados. Assim como os primeiros navegadores, os jogadores de videogame estão diante de um mundo (ainda que virtual) praticamente inexplorado. Superstição, ignorância e imaginação são os responsáveis para que os exploradores preencham as lacunas desconhecidas com invenções próprias. Hoje, com o advento da informação (no caso, os sites especializados que podem rapidamente confirmar ou omitir tais segredos em jogos), as lendas deram lugar ao conhecimento (quase) pleno.
A humanidade pode ter demorado pra descobrir que um navio não cairá num abismo sem fim ao se aproximar do “fim do mundo”, mas eu demorei mais ainda pra finalmente abrir mão do sonho de jogar numa fase nas nuvens.
Melhores textos
Fui pro casamento de um amigo meu na sequência de umas 30 horas sem dormir. Como se pode imaginar, eu me fodi todo. Leia isso aí.
Esta é a maior pérola do cinema asiático e sua vida será infeliz eternamente se você não parar o que está fazendo e ler este texto.
Me ajude a solucionar este mistério que assola a humanidade desde seu primórdio. Clique aí.
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