Da arte de implorar por jogos
Escrito por Kid on Jun 23, 2008
Ei seus viados, já ouviram falar na EB Games? Não? Calma que eu explico. Com foto e tudo, olha só:

A EB Games é uma popular loja de jogos que era uma franquia da Electronic Boutique, que eu acredito que faliu há algum tempo. Nunca mais vi uma Electronic Boutique em lugar algum, embora haja EB Games em qualquer shopping. Ouvi falar por aí que a rede americana Gamestop havia comprado a EB Games; isso explicaria por que o departamento de jogos não sumiu junto com a Electronic Boutique.
A EB Games não é uma loja de jogos como as outras; o foco dela é venda de jogos usados. Ou, como os cartazes informam eufemisticamente, previously enjoyed. Há jogos lacradinhos também, naturalmente, mas são os jogos usados que ocupam espaço proeminente nas prateleiras da loja. E há um bom motivo pra isso.
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Velhos joguinhos
Escrito por Kid on May 29, 2008
Há alguns anos - muitos anos - eu abandonei totalmente a cena PC gamer. Apesar de ter a plena consciência de que certos gêneros só funcionam nessa plataforma (real time strategy games, por exemplo, que sempre foram meus favoritos), não consigo justificar pra mim mesmo o fato de que a cada sete ou oito meses eu preciso fazer uma longa e tediosa manutenção de software (formatação/atualização de drivers/etc) ou, pior, gastar algumas centenas de dólares em upgrades pra deixar o hardware no nível necessário pra rodar os jogos mais recentes.
Ser um PC gamer era mais fácil há alguns anos, quando eu morava com a minha família e só havia um computador na casa - o do meu pai, que todos compartilhávamos. Meu pai sempre foi e sempre será um extreme PC nerd, então volta e meia ele upgradeava o computador dele até o talo, mantendo a máquina nas condições de hardware necessárias pra rodar os jogos que ele gostava.
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A morte de um videogame
Escrito por Kid on Mar 19, 2008
Alguém mais aí tem saudade do tempo em que consoles não se auto-destruiam?
Eu tenho.
Meu primeiro console foi um SNES usado que meu pai comprou de um amigo de trabalho. Posso honestamente dizer que aquele foi o melhor presente que eu ganhei na vida inteira. Primeiro porque foi totalmente inesperado - foi a única ocasião na minha vida em que meu pai se motivou a me dar um presente fora da época de fim de ano, quando eu tipicamente ganho presentes (aniversário em novembro, Natal em dezembro). Ele foi visitar o tal amigo em Brasília, e voltou com o console debaixo do braço.
E o segundo motivo é porque era, afinal de contas, um SNES. Eu ganhei a parada em 1998 se não me engano (ou seja, muito após o auge do console), mas àquela altura eu já havia passado literalmente anos jogando os clássicos do SNES. Eu morava bem na frente de uma locadora, e todos os amiguinhos da época compartilhavam meu interesse em joguinhos. Após a escola, toda a molecada do bairro convergia pra locadora. Mesmo que não tivessem dinheiro, iam pra assistir os amigos jogando, conversar sobre os lançamentos, fantasiar sobre jogos que claramente nunca iam existir (”imaginaí um Super Mario World, mas com o Sub Zero!”) ou - mais frequentemente - insistir pro amigo pagante pedir outro controle pra jogar como segundo player em International Superstar Soccer. Minha existência orbitava ao redor de um console que eu nem tinha. Imaginem ai ganhar um inesperadamente.
O console era de terceira mão e tinha sinais claros de muito uso. A carcaça tinha aquele característico tom amarelado, tal qual aqueles monitores de tubo antigo que você vê em lan houses de baixa categoria. Algumas beiradas do console estavam amassadas, indício claro de quedas e maus tratos. Mas os danos eram apenas estéticos - o meu SNES funcionava perfeitamente e durou firme e forte, até o trágico dia em que eu o derrubei no chão.
Tenho certeza que se eu disser pra vocês que o dia em que eu quebrei meu SNES foi o dia mais triste da minha vida, vocês não vão pensar que é exagero. Então aí vai: o dia em que eu quebrei meu SNES foi o dia mais triste da minha vida.
Eu e meu irmão estávamos jogando Donkey Kong Country 2. Como vocês nerds devem saber (e aí vai uma pequena explicação pros que não sabem), a série DKC era fortemente inspirada mas mecânicas de Super Mario World, e o sistema multiplayer dele não era tão diferente. Assim como em Super Mario, o multiplayer de Donkey Kong não era simultâneo - o seu amiguinho ou irmão menor ficavam com o controle inerte na mão até que você morresse, então aí era a vez deles. A diferença estava no fato de que, mesmo inativo, o seu bonequinho seguia o bonequinho do colega pela fase inteira, pra tomar a vez dele quando este decidisse não desviar de um inimigo e morresse graças à própria burrice.
Esse sisteminha era diferente de Super Mario, em que o Luigi esperava “fora da fase”, digamos assim, até que o Mario batesse as suas botinhas italianas. A diferença tornava o jogo mais dinâmico e imprevisível, uma vez que o jogador inativo poderia a qualquer momento ser jogado no meio do jogo. Não era necessário nem morrer, aliás - o botão Select, se não me falha a memória, dava a vez pro jogador inerte trazendo o bonequinho dele pra ação.
Então. Entenderam?
Pois bem. Estávamos eu e meu irmão (meu irmão e eu?) jogando esse clássico da infância dos anos 90 quando eu me atrapalhei com os controles e mandei meu macaquinho de cara com um inimigo espinhudo qualquer. Morri, e meu irmão finalmente ganhou uma vez pra jogar. Como bom nerd viciado nas diversões eletrônicas, eu tinha uma habilidade sobrehumana nos controles do jogo, e por causa disso não era raro meu irmão passar a tarde inteira apenas me assistindo jogar o negócio. Quando ele finalmente ganhava a oportunidade de brilhar na tela, o moleque ficava todo contente, se aprumava na cadeira, e se concentrava todo no jogo.
Eu, é claro, precisava de uma forma de sacaneá-lo gratuitamente pela pequena vitória adquirida como uma forma de menosprezar seu esforço e minar sua auto-confiança. Afinal, é pra isso que irmãos mais velhos servem. E eu descobri a forma perfeita de me vingar - ir ao banheiro/quarto/qualquer outro cômodo da casa, mas passando NA FRENTE do moleque, obstruindo a TV. Obviamente, timing era essencial - a idéia era executar a manobra em momentos cruciais da fase, como aquela parte em que aparecem mil inimigos na tela e você precisa de cada grama de destreza manual e coordenação motora pra escapar ileso. Esperei o momento certo e me levantei da cadeira, pronto pra passar na frente da TV e sacanear o coitado sem nenhum motivo em especial.
Mas algo deu terrivelmente errado.
É engraçado que em momentos desse calibre, apesar de estar lá no meio da ação, você não consegue lembrar exatamente do que aconteceu. É como se sua mente estivesse se recusando a processar a informação que te dá conhecimento do evento. Eu não me lembro EXATAMENTE de todos os detalhes do acidente. O que eu me lembro é que eu estava indo pro meu quarto, pensando em procurar minhas figurinhas metálicas que brilhavam no escuro (um brinde que vinha dentro de pacotes de Cheetos na época) pra observar a arte e organiza-las enquanto meu irmão não morria no jogo. Eu havia colado algumas ao interior do meu armário, mas aí decidi que preferia colecioná-las e parei de fazer aquilo. Ia organiza-las alfabeticamente, pra impressionar meus amiguinhos. Eles diriam ”eu estou colecionando aquelas figurinhas que brilham no escuro!” e eu diria “pfff, se vocês fossem ao menos sofisticados estariam organizando-as em ordem alfabética” e aí pescaria a minha a coleção do bolso da calça.
Algo deu errado. Tremendamente errado.
Senti algo macio embaixo do meu pé. Meu passo empurrou o tal “algo macio” ao chão, mas não sem oferecer alguma resistência. E aí senti que aquela tensão que o “algo macio” oferecia inicialmente ao meu peso, provocada por algum peso atado à outra ponta, subitamente cedeu. Como se de repente não houvesse mais nada pesado na outra ponta. Ouvi um barulho de coisa caindo no chão, e de plásticos se quebrando.
Foi como se de repente eu estivesse vivendo meu pior pesadelo. Me virei pra entender o que diabos tinha sido aquilo, mas na minha mente eu sabia exatamente o que havia acontecido. Eu havia pisado no fio do controle do meu irmão, e com isso trouxe o videogame ao chão.
A tela da TV parou imediatamente de exibir as cenas do jogo, e agora mostrava apenas estática. No chão estava meu SNES, luzinha apagada, aparentemente sem vida. A fita havia sido cuspida pra fora por causa do impacto e jazia perto da porta da cozinha.
Meu irmão segurava o controle com a mão mole, vacilante, alternando o olhar entre o videogame e eu. Eu imagino que pra um moleque mais novo, seu irmão maior é aquele “pai em miniatura”, a figura autoritativa a quem se procura quando precisa de ajuda ou consolação ou garantia de segurança. Meu irmão não falou nada, mas seus olhos diziam “pelo amor me Deus, me diga que ele não está quebrado“. Coincidentemente, isso era o que eu estava dizendo a mim mesmo.
Esqueci absolutamente as figurinhas. Como um salva vidas que se atira pra salvar um folião bebâdo que se afoga na orla marítima de Fortaleza durante as celebrações do ano novo, voei em direção ao SNES. Inspecionei-os por vários ângulos, tentando compreender a extensão do dano. Minhas mãos tremiam. Apanhei o cartucho, coloquei-o de volta no console (não sem antes dar aquela sopradinha de boa sorte) e, com muito medo do possível resultado, liguei-o à TV de novo.
Horrorizado, percebi que a TV continua a emitir apenas estática. Desliguei e religuei o console diversas vezes, tentei dar tapinhas, tentei essencialmente tudo que estava ao meu alcance. A TV insistia em exibir apenas estática.
Quando finalmente ficou estabelecido acima de qualquer dúvida que nosso SNES havia morrido, um silêncio sepulcral abateu a sala. Foi como se nossos pais tivessem morrido.
“O que a gente vai fazer agora, Israel?” - perguntou o moleque, com cara de choro, acalentando o controle do videogame, agora inútil, na mão.
“Não sei, Daniel. Não sei.”
O moleque continuava segurando o controle, olhando pra TV e lentamente apertando alguns botões, com semblante de total desalento.
Minha mente viajava a mil quilômetros por hora no momento. Sabe o Deep Blue, aquele computador colossal que a IBM fez especificamente no intuito de jogar dinheiro fora derrotando campeões de xadrez? Li numa Superinteressante que aquela máquina ”pensa” na ordem de tipo, setenta bilhões de cálculos por segundo, pra analisar todas os lances possíveis num tabuleiro de xadrez. Então, naquele momento eu me tornei um Deep Blue, computando simultaneamente mil e uma formas de explicar o acontecido pros nossos pais E convence-los a comprar um novo videogame.
Infelizmente, a situação que tínhamos em mãos produzia resultados mutualmente exclusivos, auto-derrotantes: se eu explicasse que havíamos quebrado o console, podia esquecer a esperança de ganhar um novo. Se falasse a verdade, ia ficar sem videogame. Se mentisse… provavelmente ia ficar sem videogame também.
Resolvi contar a verdade. Como você pode imaginar, não ganhamos outro SNES. Meu próximo console foi um Playstation 2, em 2006, muito anos depois do evento trágico que me excluiu das rodinhas de debate e apreciação de videogames na escola.
Hoje, uma década após da tragédia que levou meu maior hobby embora, meu irmão e eu discutimos o que aconteceu. Chegamos a um consenso de que, se tivesse sido ELE o causador da morte prematura do nosso console, eu jamais teria deixado ninguém esquecer da história e o culparia pra sempre. Por ser o irmão mais velho, na época ele nem se atrevia a ficar com raiva de mim. Irmão mais velho nos olhos de um pivete de 10 anos é tipo uma poderosa figura intangível, um vice-pai, uma força da natureza quase. Não adianta ficar com raiva.
***
Há uma década, consoles já velhos pra época aguentavam toda sorte de porradas e maus tratos e só cediam quando a cacetada era tamanha que até o cartucho do jogo levantava vôo. E com todos os avanços tecnológicos que conquistamos nesses anos, onde chegamos?
Consoles cuja CPU e GPU foram retardadamente colocadas muito próximas uma da outra e acabam se torrando. Ou, pior ainda, a funcionalidade online mal acabada faz hardware se destruir.
Meu Xbox 360 já precisou de reparos duas vezes. O meu Wii morreu essa semana. Na mesma nota, meu Windows Vista precisou de formatação já que o Explorer tava totalmente fodido (abrir pastas e renomear arquivos causava total congelamento do sistema), e de tanto instalar bobagem no meu iPod touch, esse precisou de uma formatação também. Ah, e eu perdi a câmera digital que ganhei de Natal da namorada. Nada a ver com os consoles, mas isso talvez prova que eu realmente preciso ir a um pai de santo como o leitor de nome impublicável sugeriu.
A questão é que antigamente era preciso um irmão sacana pra acabar com a vida de um console. Hoje em dia eles fazem isso por si só.
Coisas de infância
Escrito por Kid on Mar 9, 2008
Não sei se é por causa da recente chegada da adultice ou por saber que os textos com os quais vocês mais se identificam são os em que eu choramingo por causa da infância que ficou pra trás, mas eu ando muito nostalgico ultimamente. Volta e meia me surpreendo discutindo com meu irmao ou com amigos MSNísticos sobre os “bons tempos” que deixamos pra trás.
Tempos em que nao precisavamos pagar contas, ou impostos, ou aluguel, nem pílulas anticoncepcionais, nem tínhamos que ocupar nossa mente com a aflição de decidir uma carreira ou de se preparar pra comprar o primeiro carro ou de se preocupar patologicamente em se tornar bastante bem sucedido pra que bata aquela característico arrependimento sua ex-namorada cada vez que ela se atrever a visitar seu perfil no orkut.
Como sinto saudade daqueles tempo quando nossas únicas preocupações eram achar uma revista com cheat codes pra Duke Nukem 3D e chegar em casa a tempo de assistir o finzinho de Carrossel (pra quem estudava de tarde, como eu)! Minha mãe não mentiu pra mim - a infância realmente acaba quando menos se espera. Quando eu era mais novo minha mãe vivia me alertando a respeito de aproveitar bastante a infância. Assim como pilhas AAA, meias sociais e o telefone daquela garota da faculdade que você CERTEZA ABSOLUTA que chuparia sua piroca caso você pagasse um jantar, a sua infância desaparece quando você mais precisa dela. Eu não prestei muita atenção no que minha mãe dizia porque eu estava ocupado aproveitando a minha infância, mas a mensagem tem seu valor de qualquer forma.
Você aí, leitor de dezesseis anos de idade, sem dinheiro, possivelmente virgem, e absolutamente desesperado com a certeza de que não passará no vestibular numa faculdade federal e que apanhará em casa quando chegar no dia seguinte tentando convencer os pais que cursar uma faculdade particular é uma idéia melhor - estou falando contigo.
Olhe em sua volta. Essa casa confortável em que você mora? O dia chegará em que esse conforto te custará esforço e dinheiro, e o estado de conservação e organização dela ficará por sua conta. Sua comidinha sempre posta na mesa no momento que o relógio da sala bate o meio dia? Bem, espero que você goste de nissen miojo, porque é isso que você comerá por alguns meses quando sair de casa pra tocar a vida por conta própria. Essa internet que você se acostumou a usar com uma frequência diária que a “minha geração” (discadona 56kbps na veia) só podia sonhar a respeito? Ela não é grátis. Aliás, ela é substanciosamente cara. Aproveite enquanto dá, porque esse free ride vai acabar um dia. Confie em mim.
Ai meu deus do céu, eu tenho muita saudade de ser criança, puta que pariu.
Mas isso não significa que as lembranças dos tempos dourados estão eternamente relegadas ao pretérito perfeito. Pelo contrário - é justamente essa choradeira papo-de-velho que faz as experiências infantis parecerem muito mais gloriosas do que realmente eram. E por causa disso irei neste texto relembrar relíquias do passado que alguns de nós compartilhamos, e alguns de vocês jamais terão o excelentíssimo prazer de não apenas ganhar de Natal, mas de trazê-lo pra escola sob risco de confiscamento por professores fascistas pra provocar admiração e inveja nos amiguinhos escolares. Acompanhem-me por mais essa viagem pela minha incrivelmente desinteressante infância!
Pense Bem
A Promessa
Educar crianças na emergente “rodovia digital” que aparecia no horizonte e acostuma-las a lidar com esses tais de computadores.
A Realidade
Era essencialmente uma calculadora com botões coloridos, num formato que vagamente lembra um computador.
“Mais que um brinquedo, quase um computador!” Quem não lembra desse safadíssimo slogan? Eu certamente lembro, porque foi ele que me levou a atormentar meus pais diariamente por três ou quatro meses até que eles decidissem que a única forma de me silenciar seria comprar essa merda pra mim no próximo Natal.
O que era o Pense Bem? Apesar da propaganda evidentemente enganosa, o Pense Bem era exatamente o que alegava não ser (um brinquedo), e estava muitíssimo longe de ser o que alegava ser (um computador). O Pense Bem era um computador na mesma proporção que um relógio de pulso é um computador. Talvez “Pense Bem, O COMPUTADOR DE BRINQUEDO” fosse uma chamada mais comercialmente honesta, mas perdia totalmente o apelo semi-tecnológico tão característico dos anos 90. Em outras palavras, a única coisa que o Pense Bem tinha em semelhança com um computador é que ambos são escritos com auxílio da letra M.
O Pense Bem era um brinquedo eletrônico fabricado pela Tec Toy no começo dos anos 90. Além de primitivas funções musicais que me permitiam reproduzir 20% da música tema de Jurassic Park para o fictício deleite de meus pais, o “computador” tinha algumas atividades matemáticas (o aparelho jogava uma adição/soma/divisão/subtração com um dos fatores como incógnita, e você tinha que descobrir a resposta. O outro joguinho era essencialmente um “descubra a média aritmética entre estes dois números!”), um joguinho de memória no estilo Simon Says, e alguns outros badulaques que se perderam na minha memória. Um das brincadeiras mais interessantes do troço eram os livros de atividades. Livrarias e lojas de brinquedos na época vendiam livros com perguntas sobre os mais variados assuntos, e você usava o Pense Bem pra selecionar as respostas entre as múltiplas escolhas. Eu tinha vários livros com personagens da Disney, livros sobre Astronomia, Biologia, e um bizarríssimo “Livro Pense Bem Plebiscito”, talvez produzido na esperança de educar a molecada sobre aquele plebiscito de 1993. Ganha três reais quem adivinhar qual era o meu livro menos favorito, que eu eventualmente acabei trocando na escola por algum boneco qualquer dos Comandos em Ação. Apesar de obviamente não atingir as expectativas criadas pelas propagandas enganosas, a posse do meu Pense Bem me proporcionou popularidade jamais antes vista na escola - até o momento que meus amiguinhos perceberam que a parada era simplesmente uma calculadora com botões coloridos e LCD vermelho, e deixaram de dar atenção ao meu brinquedo. Isso é o que devem chamar de “quinze minutos de fama”, apesar de que no meu caso ficaram faltando os outros catorze.
Que fim levou
Eu me lembro como se fosse ontem - eu havia passado o dia inteiro provocando meu irmão de maneiras juvenis e bastante engraçadas pra todo mundo exceto pra ele. O moleque se emputeceu de vez, catou o primeiro objeto que viu pela frente (um sapato) e arremessou-o e minhas direção com motivação homicida. Meus refletos apurados me permitiram desviar do projétil de uma forma que seria plagiada anos mais tarde no longa-metragem Matrix. Escapei do atentado, mas o objeto inanimado que estava bem atrás de mim não teve tanta sorte. O sapato acertou meu Pense Bem em cheio, destruindo a tela do aparelho. Chorei por três dias consecutivos e ainda não perdoeei meu irmão totalmente.
Xilitos
A Promessa
“É a mesma coisa que XÍTOS, meu filho. Só que é mais barato!” dizia minha querida vovó.
A Realidade
Ela estava certa. Chilitos tinha o mesmo sabor que Cheetos. Isso é, num mundo alternativo em que Cheetos era fabricado inteiramente com isopor e cola escolar.
Vocês devem aí estar coçando a cabeça. “Que demônios é Chilitos?”, você está perguntando a si mesmo retoricamente. Bem, meu amigo, eu compreendo sua ignorância. Duvido muito que alguém que tenha vivido fora do glorioso estado do Ceará durante toda sua vida tenha a menor chance de entrar em contato com CHILITOS. E você não sabe o que estava perdendo.
Chilitos era um salgadinho comumente vendido nas mercearias nos arredores do Montese, bairro fortalezense em que minha avó mora. Pra você ter uma idéia da natureza underground da parada, Chilitos era vendido em sacos plásticos transparentes selados com nada mais nada menos que ligas elásticas do tipo que alguém usa pra projetar um pedaço de papel contra a orelha de um amiguinho. Não havia nenhum tipo de informação na embalagem - não tinha nome, nem logotipo da empresa fabricante, peso, valor nutricional (AHAHAHAH até parece), absolutamente nada. Aliás, a própria alcunha do produto era essencialmente folclore regional, passado de boca a boca, já que não havia na embalagem nada que sequer sugerisse que a pessoa que o produziu se preocupou em dar um nome à criação. Tudo sugere que o tal do salgadinho era fabricado caseiramente em algum muquifo do bairro, utilizando todos os métodos clandestinos possíveis. E se o sabor da parada oferece alguma pista, é que os Chilitos eram fabricados por complexos processos alquimísticos que transformavam isopor, papelão e corante amarelo em um item alimentício que poucas pessoas nesse planeta tiveram a honra de experimentar.
Ainda não está convencido da undergroundzice da parada? Mencionei que o salgadinho custava DEZ CENTAVOS? Bom, agora mencionei. Ir à casa da minha vó e não comer Xilitos como lanche vespertino era como ir a Paris e não tirar uma foto na frente da Torre Eiffel usando uma camisa da seleção e em seguida uploadear no orkut com uma legenda que lê “EU EM PARIS, SOH PRA KEM PODE”.
Que fim levou
Assim como todos as outras porcarias alimentícias que eu ingeria impunemente quando moleque, os Chilitos que eu consumia avidamente enquanto assistia Chaves sentado na sala da casa da vovó se manifestaram na forma de um dos mais poderosos casos de caganeira em toda a história humana registrada. Se bem que, por dez centavos, até que valia a pena.
Sem contar no valor agregado da possibilidade de não dar descarga e surpreender o próximo visitante do banheiro com fezes amarelas.
Ferrorama
A promessa
Realize seu grande sonho - seja um engenheiro ferroviário! Baterias não incluídas.
A realidade
Nesse caso não houve decepção alguma - o Ferrorama era exatamente o que se propunha a ser, supondo que a palavra “propunha” exista na língua portuguesa, porque eu sinceramente não lembro dessa palavra e estou com uma ligeira sensação de que acabei de inventa-la.
O Ferrorama foi apenas um em uma longa série de brinquedos que meu pai queria muito obter, mas disfarçava como presente pra mim e pro meu irmão na esperança de não ouvir reclamações da minha mãe. Meu pai, que nunca vai deixar de ser uma criança no que diz respeito a brinquedos, nem mesmo esperava um evento de costumeira troca de presentes pra aparecer com algum pacote debaixo do braço. Nem meu aniversário era - eu chego em casa e lá estava ele sentado na sala, montando os trilhos do brinquedo e com um sorrisão na cara. “Pra você ó Israel”, disse ele enquanto mal tirava os olhos da parada, todo animado com o prospecto de sua ferroviária em miniatura. Quando ele finalmente cansava de brincar com a parada e ia fazer algo mais proveitoso, eu e meu irmão tomavam o lugar dele.
Livros viravam suporte pra pontes. Travesseiros viravam túneis. As grossas colunas de madeira que sustentavam a mesa de jantar da sala viraram enigmáticos cânions, perigosamente estreitos, do alto dos quais um solitário tusken raider caça droids pra revender pro mercado negro dos jawas. Não havia limites pra imaginação - lembro que um dia joguei um ônibus de brinquedo no meio dos trilhos e impiedosamente atropelei-o com a locomotiva, a fim de emular aquela cena de O Fugitivo, que estava em cartaz na época e cuja cena de destruição ferroviária featuring Harrison Ford e um gordo aleatório atiçaram minha imaginação infantil.
Vou deixar uma coisa clara aqui - “brincar com Ferrorama” é uma expressão que não faz muito sentido. Você montava o trilho, ligava o trem, e pronto. Acabava aí a sua interação com o brinquedo. Você sentava e assistia o trenzinho atravessar o percurso dele por horas até as pilhas acabarem ou sua mãe descobrir que você não apenas não arrumou o quarto como era condição de brincar com o Ferrorama, mas ainda roubou pilhas de outros eletrodomésticos pra liga-lo.
Apesar disso, a parada era inexplicavelmente viciante e divertida.
Que fim levou
Quem teve Ferrorama lembra que aquelas pecinhas nas extremidades de cada trilho que permitiam a conexão entre os mesmos quebravam com muita facilidade. Some isso ao fato de que graças às nossas inúmeras mudanças, a caixa do brinquedo foi perdida e tivemos que guardar os trilhos dentro de um imenso saco plástico que era frequentemente derrubado no chão ou pisoteado em momentos de desatenção. O resultado dessa infeliz mistura é que nossos trilhos não se conectavam mais com muita firmeza, impossibilitando que eu revisitasse outras cenas cinematográficas clássicas de desastres de trens.
Walkie talkies
A promessa
A mágica da telecomunicação a seu alcance! Agora você pode coordenar à distância suas estratégias de apertar campainhas dos vizinhos e sair correndo!
A realidade
Morei por três anos no Paraná, e como cumprimento de lei estadual meus pais iam anualmente ao Paraguai comprar nossos presentes de Natal. Em dezembro de 1993 havia uma única caixa embaixo da nossa árvore, e meus pais me avisaram que o presente “era pra nós dois”. Eu e meu irmão nos entreolhamos desconfiadamente. Essa estratégia de “o presente é pros dois” é um dos truques mais velhos do livro de truques de pais mãos-de-vaca. Dessa vez ao menos o presente podia ser razoavelmente dividido pros dois, já que se tratava de um par de walkie talkies.
Como manda o roteiro de brinquedos chineses vendidos no Paraguai, nossos comunicadores portáteis pessoais eram de baixíssima qualidade. O auto-falante tornava nossas vozes praticamente irreconhecíveis, e a péssima recepção só viabilizava a brincadeira se estivéssemos praticamente um ao lado do outro. Ou seja, era essencialmente o mesmo que usar duas latas e um pedaço de linha de costura, porém pior.
Mas isso não nos impediu de imitar as melhores cenas de nossos filmes infantis favoritos, em que os protagonistas juvenis utilizam walkie talkies pra desenrolar algum plano elaborado contra adultos ou coisas parecidas. Infelizmente a única coisa que sabíamos fazer na época em matéria de traquinagem em grupo era tocar campainhas e sair correndo. Adicionamos os inteiramente dispensáveis walkie talkies na brincadeira e tudo parecia mais legítimo e profissional.
Pior que eu não sabia nem utilizar a parada direito, a despeito da simplicidade do brinquedo. Como em todo walkie talkie, os nossos tinham botões pra se comunicar em código morse, o que é mais ou menos uma admissão do fabricante de que ninguém poderia usar o brinquedo de forma satisfatória usando a própria voz. Acontece que eu não tinha a menor idéia do que era código morse e achava que a função servia pra irritar o seu interlocutor, já que ele cortava a fala dele no meio. Só descobri o que era o código anos depois, após ler o Manual do Escoteiro Mirim de um primo. Mas aí já era tarde demais, porque…
E que fim levaram
…no ano seguinte, um vizinho de sexualidade questionável cuja mãe provavelmente se envolvia na atividade de baixo meretrício me fez o favor de destruir meu walkie talkie. Sem motivo aparenet, o viado girou o botão de volume até a última casa e além. Quando ouvi o característico “plec” que indica plástico quebrando e notei que o botão girava livremente na mão do moleque, sem a familiar resistência provocada por travas mecânicas dentro do aparelho. Só o libertei de uma firme chave de braço mediante à promessa de que ele explicaria a situação pra mãe dele e me presentearia com um novo walkie talkie, se possível dentro de 24 horas.
O moleque nunca mais falou comigo, e por muita infelicidade se mudou do bairro pouco tempo após esse incidente. Se seu nome é Marcelo e você morava na Rua Marília no bairro Jardim Veraliz e estudou no Colégio Adventista em Londrina, VOCÊ ME DEVE UM WALKIE TALKIE SEU VIADO. Dois aliás, porque a destruição de um tornou o outro inútil.
Isso porque eu tou sendo gente boa. Se eu fosse ajustar a inflação e os juros de todos esses anos, essencialmente você me deveria uma Ferrari.

Armatron
A promessa
Um braço robótico mais ou menos portátil operado manualmente por você mesmo. Essencialmente, o Santo Graal dos brinquedos nerd dos anos 80.
A realidade
O Armatron é essencialmente o motivo pelo qual eu sempre perdoarei meus pais por suas inúmeras falhas como progenitores. Tenho certeza absoluta que meu pai comprou o brinquedo pra si mesmo, mas já que isso resultou no privilégio de ser um dos poucos moleque sque sequer chegaram a ter contato com a parada, considerarei como se tivesse sido um presente pra mim mesmo assim.
Produzido pela americana (e extinta) Radio Shack, o Armatron era na verdade um jogo. Tá vendo aquela caixinha plástica ali, com as bolas azuis e tal? Então. O objetivo da parada era abrir a caixa, remover os itens de dentro dela, posiciona-los numa outra base plástica, e fechar a caixa. Tudo cronometrado pelo timer mecânico do braço robótico. Tá vendo aqueles quadradinhos alaranjados na frente dos controles analógicos que moviam o bicho? Então, usando um disquinho plástico você setava um número qualquer de quadradinhos, que funcionavam como um contador. A cada minuto um quadradinho ia embora, e quando o último quadradinho se passasse, o Armatron se desligava. Assim, você decidia o nível de dificuldade da brincadeira. O que era muito legal pra impressionar os amiguinhos que se matavam pra completar a tarefa no tempo máximo permitido, enquanto você os empurrava pro lado e completava tudo em menos de um minuto. Um precursor do que, anos mais tarde, veio a se tornar minha forma favorita de jogar Pump it Up/Guitar Hero/Rock Band - se exibindo pros amigos com menos coordenação motora.
Como regra obrigatória que rege brinquedos, gambiarras e badulaques em geral, as pequenas pecinhas adicionais que compunham o aspecto de jogo foram perdidas em pouco tempo. Não que isso fosse um grande problema, porque o simples ato de controlar o Armatron era divertidíssimo. Se você não teve a oportunidade de receber um Armatron de presente durante sua infância, isso significa que seus pais não te amam e/ou que você foi o resultado de uma gravidez acidental.
Essas foram algumas das coisas que marcaram meus anos juvenis. O que te causa mais saudade a respeito da sua infância perdida? Os comentários tão aí pra isso.
Punhetas pré-internet
Escrito por Kid on Jan 4, 2008
Sabe, essa turminha da geração atual (pra contextualizar, ”turminha da geração atual” se refere a qualquer pessoa nascida após o auge dos sentais, aquele gênero de seriado japonês que nos trouxe Jaspion, Jiban, e aquele lá que tinha um ninja com uma máscara de leão) definitivamente tem uma vida muito mais fácil e confortável que a nossa.
Sim, sim, eu sei que esse papo de dizer que a galera mais nova se dá melhor é clichê normalmente exclusivo a membros daquele segmento da sociedade a quem comerciais de adesivo pra dentadura são direcionados. Apesar de ter quarenta anos a menos do que seria necessário pra me incluir nesse grupo, eu compartilho esse sentimento nostálgico e ao mesmo tempo invejoso em relação aos mais novos. Em meus breves 23 anos de existência, eu já presenciei pequenas revoluções que me dão autoridade de levantar o dedo e pretensiosamente afirmar que “NO MEU TEMPO ISSO NÃO EXISTIA”. Isso se deve ao fato que minha área de interesse pessoal (gadgets, videogames, nerdices em geral) é extremamente volátil e está em constante mudança. Alguém nascido no meio dos anos 80 como é o meu caso mal começou a viver propriamente dito, mas já pôde presenciar consideráveis revoluções.
Vejam os videogames, por exemplo. Videogames mudaram bastante nos últimos dez anos, ao ponto de que algo como o Megaman de NES (que tem algo em torno de méseros 15 anos de existência) carregue automaticamente o contexto de extrema velhice, de objeto antiquadamente paleolítico.
A própria internet, e os computadores por tabela, mudaram pra cacete em pouquíssimo tempo. É essa mudança rápida que me permite confabular nostalgicamente sobre os “bons tempos” com outros sujeitos de meros vinte e poucos anos de idade como se fôssemos veteranos da Segunda Guerra Mundial.
E uma das coisas que mudou dramaticamente nos últimos dez anos é a forma como os jovens entram em contato com a pornografia.
No contexto da minha infância, a posse exclusiva de uma revista pornográfica era praticamente um Santo Graal da putaria, a Ferrari da auto-gratificação, o símbolo máximo que simbolizava uma realização incomparável. Os moleques que as tinham eram invejados pelo item e admirados pela sua porra-louquice. Eu, previsivelmente, nunca tive uma. Não sei se isso se devia ao terror da possibilidade da revista ser descoberta pelos meus pais, ou pelo terror da possibilidade que a posse do material incluia uma passagem só de ida pros quintos dos infernos. E eu só fui acessar a internet em 1996, então dos meus 9 aos 12 anos - que é geralmente a época em que o interesse no sexo oposto começa a surgir - eu não consigo lembrar de ter visto o corpo feminino desnudo uma vez sequer. Se eu falar que eu achava que a vagina ficava um pouco abaixo do umbigo (tipo, bem na frente da virilha, ao invés de mais abaixo, entre as pernas), vocês acreditam?
Nem a chegada da internet facilitou tanto assim as coisas, ao menos não no começo. Não por falta de conteúdo online ou de desenvoltura pra acha-lo - em um dos maiores momentos “EUREKA” de toda a minha vida, eu percebi que marcas comerciais famosas já estavam representadas digitalmente na internerd. Bastava digitar o nome da empresa na barra de endereço, adicionar .com.br, e lá estava seu website. Resolvi experimentar a tática com “Playboy” e meus olhos brilharam quando a página carregou lentamente a 56kbps, oferecendo pouquíssimas imagens em baixa resolução que não traziam nudez alguma, organizadas naquele tipo de design que tornou os websites dos anos 90 tão icônicos.
Acontece que no dia seguinte meu pai notou a pecaminosa URL no histórico do navegador, e (por motivos que eu jamais compreenderei ou perdoarei), resolveu contar pra minha mãe. E lá estamos os três, na frente do PC, com a página aberta, os peitos siliconados da Tiazinha em formato jpg ocupando uma generosa porção dos 800 x 600 da tela do computador , e os dois me perguntando SE EU TINHA ACESSADO O SITE.
Até hoje não entendo qual seria o objetivo de um inquérito tão humilhante e desnecessário. Se a memória me serve bem, culpei meu irmão menor. A parte engraçada da história é que ele admitiu o crime, e por dois nanossegundos eu acreditei que ele estava se fazendo de mártir pra me salvar. Só depois é que entendi que não havia altruísmo algum da parte dele; ele também havia acessado o site e resolveu confessar logo na esperança de que a honestidade rendesse uma pena reduzida.
Porra pai, porra mãe. Um moleque de 13 anos usa a internet, e de repente a URL da Playboy aparece no histórico do navegador. Isso é realmente algo tão incrível que requer uma investigação? Os previews gratuitos no site se limitavam a meninas de bikini, nem peito descoberto aparecia. Certamente tamanha confusão não era necessária, né?
Ou seja, por causa do uso compartilhado do computador, a pornografia internética era disponível mas não aconselhável. Isso é, até eu descobrir formas de ocultar o conteúdo acessado previamente. Mas isso demorou algum tempo também. A solução era pedir que amigos mandassem as imagens pelo ICQ, imprimi-las (e esconde-las na carteira, o único lugar insondável em toda a minha casa) e apagar os arquivos logo em seguida. Ou seja meus queridos pais, se vocês nunca entenderam porque a tinta da impressora lá de casa estava sempre em nível inexplicavelmente baixo, aí está a razão.
VOLTANDO AO ASSUNTO:
Nós da geração pré-internet não estávamos totalmente desprovidos de material masturbatório. Graças ao abençoado hábito de venda casada Roliudiana (misturar ação/comédia/terror/desenho animado/ficção científica com alguns peitinhos pra garantir melhor aceitação da película), a TV entregava diariamente na minha casa programação semi-pornográfica com um eficiente disfarce embutido. O efeito colateral é que tal conteúdo televisivo costumava provocar um notável constrangimento quando assistíamos em família, mas isso é um preço pequeno a pagar pelo contato - ainda que superficial - com a anatomia do ser feminino.
E nessa singela listinha, honrarei aqueles momentos cinematográficos que chegaram às nossas telinhas como uma prece respondida pelo deus do onanismo.
Mulher Nota Mil (Weird Science)

O que era: Weird Science (inexplicavelmente nomeado “Mulher Nota Mil” na terra tupiniquim), é uma verdadeira obra de arte do famosíssimo John Hughes, o Steven Spielberg das comédias românticas adolescentes dos anos 80. O cineasta é responsável por três coisas - dar o pontapé inicial que inundaria a cena com os romances juvenis de roteiro previsível, catapultar a insípida Molly Ringwald a um estrelato incompreensível, e apressar minha puberdade em pelo menos três anos.
Hughes, após fazer aproximadamente oitocentos trilhões de dólares aperfeiçoando o clichezíssimo tema das comédias adolescentes que viria a se tornar um padrão mais xerocado que aquele livro de Cálculo Diferencial que ninguém mais lembra quem era o dono original e está lá no D.A. do seu curso há aproximadamente 900 anos, resolveu inalar mais cocaína do que de costume e criou a história de dois nerds que sem mais essa nem aquela criam uma mulher virtual, numa sequência cinematográfica que envolve escanear páginas de uma revista masculina e decidir que tamanho de peitos seria mais aproveitável.
A representação hollywoodiana das artes nerds SEMPRE dá motivo pra humor não intencional. Parece que existe um acordo entre cineastas que computadores e as práticas da informáticas devem permanecer para sempre sendo mal representados na tela dos cinemas. Mesmo que você leve em consideração que na época que o filme foi lançado, 90% da população mundial não sabia o que era um computador, a cena ainda é dolorosamente ridícula e surrealmente cartunesca. Eu sei que o filme é uma comédia, mas porra, há uma diferença entre “comédia adolescente” e “episódio do Pernalonga”, e esse filme passa a 80 quilômetros de distância da linha que separa os dois estilos. Abaixo, pra sua conveniência, a sequência supracitada.
Na época que eu assisti o filme, eu não havia me formado ainda na Faculdade Internética de Nerdice Aplicada, então eu estava pouco me lixando se sistemas operacionais como os exibidos no filme não existem, ou que escanear uma fotografia de Einstein não permitiria que você imbuísse alguém com a inteligência do famoso cientista. O que importa é que Kelly LeBrock, “atriz” que está pro papel de Mulher Gostosa Aleatória assim como Xuaznéguer está pro papel de Brutamontes Com Sotaque Engraçado Apesar de Morar Nos EUA a Quarenta Anos, fazia neste filme sua aparição mais célebre na frente de uma câmera.
Efeitos a longo prazo: Eu assisto um filme em que dois moleques usam um computador pra “programar” uma mulher deliciosíssima, e acabo passando o resto da minha vida encurvado diante um monitor, adotando nerdice como uma religião quase. Coincidência? Eu acho que não. Culpo John Hughes como responsável direto pelo meu atual estilo de vida, e sentenço-o a usar seus bilhões de dólares pra me financiar uma noite com a Kelly LeBrock de vinte anos atrás.
Jessica Rabbit

O que era: Uma Cilada Para Roger Rabbit foi um filme revolucionário. Foi um dos primeiros usos convincentes de mesclagem entre filmagem convencional e inserção digital de personagens animados, nele mascotes de empresas de entretenimento rivais (especificamente, Disney e Warner Brothers) dividiram a tela pela primeira vez, e foi o momento crucial na história da humanidade em que um desenho animado provocou uma inesperada ereção.
Jessica Rabbit era basicamente o motivo pelo qual qualquer homem com idade acima do recomendado por uma embalagem de caixa de LEGO assistiu aquele filme. A inclusão dela foi o resultado de um debate entre os produtores do filme, que perceberam que salpicar um trama policial ao redor de um desenho animado estrelando um Pernalonga-wannabe não seria o suficiente pra atrair adultos pro cinema.
Nem lembro qual era a relevância da voluptuosa personagem na trama do filme, além de se comunicar exclusivamente na voz lânguida mais “ME COMA AGORA PLZ” já utilizada por um personagem de desenho animado. Lembro vagamente que ela chifrava o personagem principal do filme com o produtor dela, que foi assassinado com todas as provas apontando pro infeliz marido traído. Ou algo assim, no momento que Jessica Rabbit aparece na tela pela primeira vez, eu estranhamente perdi o interesse na trama e nos outros personagens infantis. Eu estava muito ocupado tentando salvar mentalmente a imagem da Jessica pra seguir o roteiro do filme.
Aí vai uma palhinha da primeira aparição da Jessica, exatamente como eu me lembrava dela (com adição de artefatos de compressão do YouTube).
Efeitos a longo prazo: Historiadores ambos do cinema como da punhetagem concordam que Jessica Rabbit foi o catalizador que levou incontáveis jovens à prática de bater punheta assistindo desenho animado.
Elvira, a Rainha das Trevas

O que era: Uma blasfêmia dupla. Como se não bastasse que o filme fosse apenas um descupla pra espremer os seios mais redondos do mundo em decotes impossíveis sem o auxílio de supercola, ele ainda trazia no nome a combinação de palavras que insinuava relação com a Realeza do Inferno. Ou seja, no caso de Elvira, a Rainha das Trevas, o filme que eles embalaram junto com a putaria era igualmente inaceitável no meu lar cristão.
Não que isso me impedisse que apreciar uma das mais icônicas comédias sexualmente escrachadas dos anos 80, afinal de contas, casa dos primos é justamente pra assistir material duvidoso cuja presença você não arriscaria trazer pra sua própria casa.
Eu não lembro de PORRA nenhuma daquele filme. Bom, eu lembro que havia uma sequência de dança interpretativa parodiando Flashdance. Aliás, Flashdance também mereceria uma menção nessa lista, mas ter que pesquisar vídeos pra esse texto já tá dificultando muito minha concentração e eu preciso terminar logo essa porra. Pesquisar mais imagens de filmes levemente eróticos dos anos 80 vai atrasar ainda mais a produção desse post, porque por motivos puramente científicos eu começo a googlear as imagens dos filmes e nunca me satisfaço com uma só, acabou assistindo o filme inteiro só vendo as screenshots.
Sobre a trama, eu sei que ela se mudava pra um interior americano qualquer e recebia olhares reprovadores da turminha provinciana que aparentemente não considerava esse “vestido” dela apropriado pro uso público. E eu sinceramente acho que não perdi absolutamente nada da história. Pra provar meu ponto, aí vai um vídeo totalmente não-relacionado à história do filme, e aposto que você vai acha-lo bacana mesmo assim.
A única coisa que eu me lembro sobre o filme é que a Elvira não era apenas gostosa, mas ela tinha uma personalidade divertida que a tornava aquela vizinha imaginária que você pedia a deus toda noite quando deveria estar rezando pelo seu pai que está com hemorróidas ou por paz mundial ou algo assim.
Efeitos a longo prazo: Mais de vinte anos após a criação da personagem e do lançamento do filme e aqui estamos nós, googleando screenshots e assistindo clipes no YouTube. Se isso não é uma prova da marca permanente que Elvira deixou em nossas psiquês, não sei mais o que é.
Obviamente, o filme deixou várias outras marcas mais tangíveis, mas vocês já devem ter jogado aqueles shorts no lixo há muito tempo.
Lagoa Azul
O que era: Quando o assunto é putaria levemente disfarçada de filme mainstream, uma das maneiras que o filme é apresentado é através da abordagem da “putaria inocente” - a história fala de personagens pueris que passam pelas primeiras experiências e descobertas com o sexo oposto. Espera-se assim que o filme adquira um teor mais artístico e filosófico do que putanesco e onanístico, o que automaticamente o categorizará com “bom gosto”, que é o separador de águas que distanciará o tema do filme dos geralmente abordados em produções de quintal envolvendo sexo com múltiplos parceiros. Apesar disso, o diretor não estará livre de suspeitas de pedofilia latente. Caso você não saiba, Brooke Shields tinha CATORZE, isso mesmo camarada, CATORZE anos quando participou do filme. Em outras palavras, você está invariavelmente destinado as profundezas do reino de Satanás.
Apesar de toda essa papagaiada sobre inocência e sei lá mais o que eles estavam tentando realmente dizer, a única lição duradora aprendida através do filme é “senhor deus, por favor me permita ser vítima de um naufrágio que me confine a uma ilha deserta com a Brooke Shields”.
Nem vou procurar vídeos pra ilustrar esse item da lista, embora eu tenha certeza inabalável que metade dos que estão lendo este post já correram pra aba vizinha no Firefox pra procurar clipes do filme.
SEUS PEDÓFILOS.
Semi-legalidades do filme à parte, A Lagoa Azul se tornou um ícone das sessões de cinema no SBT, a ponto de que o filme passou a ser visto quase como uma espécie de ritual de passagem de virilidade. Todo moleque recém-chegado à puberdade irá em algum momento assistir A Lagoa Azul na esperança que a dublê de corpo da Brooke Shields se descuide com o vestuário ou mostre a bunda pra câmera num momento de distração. E aprendemos a dolorosa lição de que libido vem frequentemente acompanhada de uma insuportável frustração.
Efeitos a longo prazo: A Lagoa Azul tornou impossível que qualquer um de nós visse a Brooke Shield com respeito. A mulé já tava fazendo softcore porn (preguiçosamente disfarçado de sei lá qual era o disfarce proposto por esse filme) aos CATORZE anos, é verdadeiramente uma surpresa que ela não tenha se reduzido a oferecer favores sexuais em troca de chicletes na esquina.
Rato na Locadora
Escrito por Kid on Dec 3, 2007
Lembram desse post? Claro que você lembra, foi um dos melhores textos que já apareceram nesta merda. Você lembra especificamente desta parte?

Então rapaziada do meu coração. Estava eu sentado lá na sala assistindo uma bobagem qualquer, quando comento com a namorada que preciso de alguma história dos anais da minha grande infância pra entreter uma porção de nerds desocupados que eu não conheço (dica - rima com OCÊS). A minha mulher, extremamente informada sobre todas as minhas estripulias pré-adolescentes, me sugeriu contar a vocês a lendária história do rato e meu subsequente banimento da locadora do bairro. Isso era na época que “banimento” significava realmente “você está proibido de frequentar um ambiente ao redor do qual seu círculo de amigos orbita”, e não “você foi expulso de um fórum e agora vários nerds revoltados poderão falar o que quiser a seu respeito sem precisar temer uma resposta”.
E me deu um estalo. Eu não prometi contar essa história pra vocês há anos atrás? Uma rápida busca no Wordpress me confirma que sim, realmente prometi uma crônica detalhando os pormenores de mais uma de minhas estripulias pueris. E como alguém me contou que os textos que vocês mais gostam é os que vos permitem imaginar minha pessoa se fodendo quando criança, aí vai.
Imaginei o verão cearense de 1996, ou seja, aquela época do ano em que as chuvas evaporam um pouco antes de tocar o chão e ar condicionados trabalhando a todo vapor mal conseguem reduzir a temperatura em salas de espera pros 30 graus. Eu tinha, deixa eu fazer as continhas, doze anos. Ou melhor, onze, porque como meu aniversário é em novembro a probabilidade dessa desventura ter se passado nos outros dez meses anteriores é mais alta.
Então, lá estava eu com meus doze aninhos vagabundando em casa. Não havia internet, TV a cabo era aquele tipo de sonho de consumo ainda impopular, eu não tinha um videogame ainda, e a constante vigilância materna tornava virtualmente impossível esconder uma revista de pornografias carnais nas dependências da nossa casa. Sem muitas opções de divertimento, meu estilo de vida na época se baseava em se encontrar com os amiguinhos do bairro na frente ou dentro da locadora da região para discutir os assuntos de vigência em nossas vidas infantis patéticas e sem propósito algum.
Justamente pela falta de propósito ou significado em nossas vidas, algumas idéias visivelmente retardadas não eram simplesmente discutidas em caráter de seriedade, mas também colocadas em prática prontamente, em questão de minutos. Passávamos dias inteiros planejando a logística de planos retumbantemente retardados, como por exemplo dar uma festa dentro daquela “casinha” no condomínio da esquina onde os zeladores do prédio estocam o lixo produzido pelos condôminos. Eu queria estar brincando. Nós realmente fizemos isso, com a ressalva de que no contexto infanto-juvenil cearense, a tal “festa” se resumiu a sete moleques confinados num espaço de cinco metros quadrados, comendo biscoito Passatempo e bebendo refrigerante genérico rodeados por camisinhas usadas, testes de gravidez e fraldas sujas. Aliás, algo que minha mente infantil não poderia apreciar na época é a cômica porém lógica sequência dos nojentos itens que nos rodeavam naquele ambiente. Mas divago.
Vou te dar um momento de ponderação pra que você possa apreciar a imagem mental de um punhado de moleques retardados de classe média alta se reunindo pra comer e conversar rodeados de lixo puramente por não ter nada melhor pra fazer. O contexto que você precisa extrair dessa anedota é que nós nem mesmo hesitávamos antes de aprontar algo completamente imbecil por causa da necessidade de arrumar alguma coisa pra fazer.
Num desses dias de completo ócio, eu dei a idéia (eu tenho certeza que deve ter sido eu quem sugeriu isso, porque entre meus coleguinhas infantis retardados, eu era provavelmente o menos intelectualmente abençoado) de irmos brincar num site de demolição (que costumava ser um conjunto habitacional até os tratores da prefeitura aparecerem) nas adjacências do nosso bairro. Eu lembro que tentei convencer a turma enchendo as cabecinhas deles com fantasias sobre todos os itens descartados - verdadeiros tesouros de valor incomensurável como relógios quebrados ou frisos de portas - que sem dúvida encontraríamos entre os escombros das casas destruídas, mas eu devo ter esquecido que praquela turma, uma idéia imbecil não precisava ser validada por uma justificativa duplamente imbecil. E fomos todos lá pra remexer as ruínas do conjunto habitacional.
Enquanto meus amigos saltitavam alegremente entre vigas de metal enferrujado e cacos de vidro como uma perseverante família de catadores de lixo daquelas que passam o dia inteiro vasculhando o esfíncter da sociedade moderna na esperança de achar comida apenas parcialmente consumida, eu vasculhava o chão atentamente em busca de algum tipo de material interessante que na manhã seguinte serviria na escola como evidência da minha aventura vespertina com meus amigos do bairro.
Mas minha busca foi sem sucesso, porque aparentemente os mendigos que de vez em quando perambulavam as redondezas já pilharam o lugar de qualquer objeto de valor. Além de uma caixa de sapatos molhada, tudo o que víamos era pedaços de tijolo e cimento quebrado.
Até que finalmente percebi no cantinho do olho aquilo que onze anos depois daria o título a este texto - um gordíssimo rato de esgoto; cinza, peludo e visualmente repugnante como manda o roteiro que descreve a aparência de ratos de esgoto caso tal roteiro existisse em algum lugar além da minha imaginação.
Foi aí que o meu espírito empreendedor floresceu na forma da mais genial idéia que eu tive naquela tarde - e se eu usasse aquela decrépita caixa de sapatos molhada para capturar aquele pokemon selvagem e em seguida trazer o fruto da minha caçada pra locadora, permitindo que meus amiguinhos que não participaram da aventura pudessem apreciar os resultados da ida ao terreno demolido? A idéia era tão sensacional que jamais poderia resultar em algum problema.
O rato se mostrou particularmente não-responsivo, então coloca-lo em cativeiro foi extremamente menos problemáticos do que todas as outras vezes em que eu tentei capturar um rato vivo. Se eu lembro bem, houve pelos menos cinco momentos distintos da minha vida em que eu precisava (ou apenas QUERIA) obter um rato.
Já de posse do meu roedor, reuni os companheiros e exibi o achado. A minha genial idéia de repente pareceu não mais tão genial, porque todos sugeriram exatamente a mesma coisa, quase ao mesmo tempo - vamos levar o bicho pro pessoal lá da locadora! A decisão foi unânime. Se tratava, de fato, de mais uma de nossas sensacionais idéias que não poderiam de maneira alguma dar errado. Além do mais, os mendigos começavam a orbitar o terreno, certamente tentando declarar posse de qualquer outro achado de valor que extraíssemos do seu território. Nenhum de nós tínhamos seguro de vida contra tétano adquirido por meio de esfaqueamento administrado por moradores de rua, então tava na hora de se mandar.
Serelepemente nos dirigimos à locadora do escrotíssimo Seu Roberto que, pra deixar a história ainda mais saborosa, era argentino. Neste ponto seria redundância desnecessária esclarecer que Seu Roberto se tratava de um dos maiores filhos da puta com quem eu já tive o desprazer de interagir. O único motivo pelo qual prestigiávamos o estabelecimento gueimer dele era a posição geográfica conveniente, até porque a tabela de preços era absurda. Um real por hora em jogos de SNES e Mega Drive (quando as outras locadoras frequentemente cobravam metade do preço), TRÊS por hora em Playstation, N64 e 3DO. Seu Roberto era o tipo de pessoa que fazia você interromper a expressão “…e eu não desejaria aquilo nem pro meu pior inimigo!” pra perguntar ao interlocutor se ele conhecia o dono da locadora do nosso bairro, em seguida adicionando que no caso dele uma exceção seria aberta.
Então. Adentrei o recinto do Seu Roberto com o rato a tiracolo e a minha turminha seguindo de perto, como caçadores nas planícies da Tanzânia retornando à cidade com um troféu em forma de um cadáver de um animal selvagem qualquer. Meus companheiros de aventuras serviam como anunciadores da minha proeza, indo em cada cabine e interrompendo as partidas de Mortal Kombat pra informar os fregueses da locadora sobre o grande e cinzento rato de esgoto que nós achávamos que seria de grande interesse pra eles.
E, contrariando o bom senso, a pivetada realmente estava interessada no meu rato. A patotinha esqueceu os videogueimes temporariamente e cercaram a trupe de intrépidos caçadores, curiosos em relação ao nosso ratinho de esgoto. Puxa aqui, puxa ali, todo mundo esquecendo o instinto de auto-defesa temporariamente e metendo a mão ao mesmo tempo pra afagar o bichinho. E então acontece.
Se você está prestando atenção na narrativa, a caixa de sapatos estava originalmente molhada por uma substância que apenas hoje em dia eu percebo que provavelmente se tratava de urina de mendigo aidético. Não precisa ser um engenheiro estrutural da NASA pra saber que a integridade física da caixa estava seriamente comprometida. A força exercida pela multidão de moleque puxando a caixa em vários vetores diferentes acabou rompendo os ligamentos da fibra molhada do papelão, fazendo o rato cair no chão. Deixando a letargia inicial de lado, o rato em seguida correu em direção às cabines onde os videogames ficavam, buscando refúgio.
Foi pensando em momentos tais como esse que o novo povo desenvolveu expressões como “aí fodeu tudo”. Como que movido por molas, a pivetada inteira pulou pra fora da loja, largando controles de SNES no chão, derrubando cadeias, empurrando-se uns aos outros. Se você frequentou alguma locadora de videogame na sua vida, você deve saber que o ato de derrubar um controle no chão era extremamente mal visto pela administração do estabelecimento; alguns até mesmo puniam o delito com a redução do período que o cliente pagou pelo jogo. Algumas simplesmente recusam serviço na segunda derrubada. O que é compreensível, afinal de contas, aqueles consoles e todos os periféricos relacionados eram o ganha pão dos nerds adultos que se aproveitavam do preço alto dos consoles aí no Brasil pra montar aqueles estabelecimentos comerciais.
Agora, eu tenho muita certeza que a pivetada não estava realmente apavorada com o rato. As duas meninas que de vez em quando frequentavam o lugar (e por muito azar escolheram justamente aquele dia pra jogar The Lion King) talvez estivessem genuinamente assustadas; o resto da pivetada deve ter ido junto pelo prazer de participar da algazarra.
Então, onde eu estava mesmo? Ah, sim a pivetada tava fugindo da locadora como os botafoguenses viados que provavelmente eram (Little known fact: todo botafoguense é viado. Isso é uma constante quântica), derrubando controles, cadeiras e as outras crianças que tinham o azar de se encontrar entre a gurizada e a saída. Sem compreender a balbúrdia, me resignei a me agachar perto de uma das mesas pra recapturar o rato, lembrando neste momento que eu ainda não havia dado um nome a ele.
Enquanto em pensava num bom nome cristão com o qual pudesse batizar meu novo animal de estimação, notei que um par de sapatos havia se posicionado bem do meu lado. Sapato muito sério, de couro marom que indicava que o dono dos pés que os calçavam eram sem dúvida um adulto. Um adulto de provável mau humor, o que era o resultado comum de minhas estripulias.
Era ninguém menos que o odiável Seu Roberto, dono da locadora, filho da puta local da nossa região. Sem emitir nenhum tipo de comunicação audível, Seu Roberto fez algo a respeito do qual eu só havia até então lido em revistinhas da Mônica - o filho da puta me pegou PELA ORELHA e me dirigiu até a saída do seu estabelecimento comercial.
Tudo em seguida aconteceu muito rápido. Eu lembro de ver a gurizada, uns vinte moleques mais ou menos, formando aquela rodinha estupefata na calçada. A gritaria atraiu alguns vizinhos, que correram pras portas pra averiguar quem estava arrumando confusão daquela vez. Seu Roberto finalmente largou minhas orelhas, mas não sem antes me dar um empurrão pro meio da pivetada. Os corpos franzinos de meus colegas amorteceram o impacto, não por solidariedade mas porque foram pegos de surpresa também. Finalmente, Seu Roberto decidiu se pronunciar.
Eu não falo espanhol, mas eu tenho bastante certeza que ele não estava recitando a letra de uma canção dos Menudos. Seu Roberto em alguns momentos lembrava que não entendíamos sua língua e enfiava alguns palavrões lusófonos no meio de sua gritaria, entre os quais o que me lembro com mais clareza é “lazarento”. Naquela época eu ainda era levemente religioso, então a maneira como o sujeito transformou um nome bíblico em um xingamento foi no mínimo fascinante.
O cara começava a se comportar de maneira bastante agressiva, de forma que eu achei que sair correndo em direção à minha casa era a única alternativa viável no momento. Por um momento eu achei que o cara ia me perseguir na corrida, mas as portas da locadora ainda estavam abertas e aquela multidão de moleque não pensaria nem 1/6 de vezes antes de pilhar completamente o interior da loja. Talvez eu deva minha vida a isso.
O desgraçado não me seguiu, mas no mesmo dia ele foi bater na porta da minha casa exigindo falar com meus pais. Não presenciei a conversa, mas o resultado dela é que eu fui colocado no castigo mais cruel que meus pais jamais me impuseram: fui proibido de sair na rua por aproximadamente seis meses. E eu, absolutamente retardado, segui o castigo à risca até mesmo quando meu pai estava de viagem e não teria forma nenhuma de saber que eu não estava em casa.
O ostracismo foi tamanho que, quando pena foi finalmente reduzida por bom comportamento e eu fui permitido sair em liberdade condicional, alguns de meus colegas tinham até se mudado de bairro, e outros alegaram achar que eu havia morrido. Tomei conhecimento de que, no mundo exterior, eu havia me tornado uma espécie de moleque prodígio, famoso por ter provocado o maior e mais memorável tumulto que a turma havia presenciado. Eu me tornei uma lenda entre a pivetada, mas o status de celebridade não veio sem um preço muito caro.
O tempo distante da minha turma resultou efetivamente numa total desconexão com a galera. Eu havia sido cortado do grupo, a patotinha havia sido desfeita, e a maioria do pessoal havia começado a se relacionar com outros grupos. Tinha até mesmo novos moleques na região que eu jamais havia visto, que me saudaram como uma espécie de celebridade ao tomar conhecimento de que eu era O Israel que havia soltado o rato na locadora. Não dava pra se reunir na casa de alguém pra jogar Sonic sem que algum novato me pedisse pra repetir a história mais uma vez.
E naquele dia eu jurei uma terrível vingança contra argentinos em geral e Seu Roberto em particular, que infelizmente jamais se materializou.
A Saga de um Empinador de Pipas
Escrito por Kid on Aug 14, 2006
(Re-postzinho. Tou meio ocupado agora pra terminar o post que estava sendo produzido.)
Vocês já perceberam que depois que você conhece uma pessoa nova, em breve a conversa se torna uma disputa de quem já se envolveu nos acidentes mais mirabolantes?
Passei os últimos 21 anos estudando essa tendência da psiquê humana. Aliás, de onde surgiu esse acento circunflexo, que minha professora de alfabetização (tia Socorro, que já morreu até, coitada) ficava muito puta se o chamassem de “acento chapeuzinho”? Qual o problema de chamar o circunflexo de chapeuzinho? Temo que agora apenas Satanás poderá perguntar isso a ela.
Não importa. Faça o teste aí; da próxima vez que conhecer alguém novo, comente COMO QUEM NÃO QUER NADA que no verão passado você perdeu um dedo do pé enquanto tentava, sei lá, operar um moedor de carne em cima de um skate. Pode ter certeza que o sujeito tirará a camisa, mostrará uma cicatriz entre a terceira e quarta costela e dirá que foi perfurado por uma viga de construção quando mergulhou do terceiro andar de seu prédio tentando capturar uma pipa desgarrada. Antes que você puxe de memória algum acidente mais imbecil, vai lembrar da minha teoria.
Falando em pipas desgarradas, já contei pra vocês o dia em que apanhei por causa de uma porra de uma pipa?
Era 1997, ou 1998, sei lá. Geralmente lembro os anos em que minhas putarias aconteciam porque bastava lembrar em que série eu estava (fiz a quarta em 94, a quinta em 95, a sexta em 96 e etecétera), mas dessa vez o ano me escapa da memória.
Eu morava na época no asqueroso Conjunto Ceará, um bairro escroto na periferia mais fodida de Fortaleza. Os leitores cabeça-chata não precisam que eu descreva a imagem, mas tem muito sulista lendo isso aqui, então vamos fazer um exercício mental. Pensem aí no bairro mais sujo das redondezas de Calcutá, e em seguida imaginem um caminhão-pipa cheio de esterco, muco, placentas, cadáveres em avançado estado de decomposição e cópias do último CD do Los Hermanos explodindo bem no meio dele, espalhando a repugnante mistura por todo lado. Esse é o Conjunto Ceará.
Meu pai, na época pastor evangélico, liderava uma congregaçãozinha quase ou tão fodida quanto o próprio bairro, bem no meio do sertão cearense. Morávamos na Aldeota, e se eu não estivesse com a imensa preguiça de abrir o Google Earth vocês veriam que há um continente inteiro entre os dois bairros. Depois de algum tempo gastando uma nota preta em gasolina, o coroa resolveu se mudar lá praquela invasão. Ir pra igreja à pé seria seria uma economia considerável, ainda que isso significasse ter que disputar a calçada com crianças peladas brincando dentro de poças de lama com carrinhos de plástico sem rodas e com as caras ocupadas por moscas varejeiras.
Sem putaria, o lugar era sinistrão. Era um misto de invasão do MST com favela indiana, muito tosco mesmo. Inclusive, foi lá que fui assaltado pela primeira vez na vida (o que é assunto pra um post que só escreverei depois de anos de cobranças dos leitores).
Voltando à história, papai-pastor se muda de mala e cuia pra uma periferia fodidaça e eu, filhinho de papai acostumado com colégio particular caro e amiguinhos ricos, me vi morando numa casa rente à rua sem asfalto e moleques que nunca nem tinham visto um computador de perto. Sem computador, sem videogame (eu havia destruído meu SNES acidentalmente pouco tempo antes da mudança), sem carros de controle remoto, tivemos que nos comunicar com base em um denominador comum, ou seja, nossos papos de brinquedos não podiam envolver coisas cujo preço ultrapassasse os dois dígitos.

Acima, uma simulação computadorizada de mim mesmo, aos 14 anos, empinando uma pipa. Perceba as gravatas borboleta com que eu enfeitei minha pipa
E a resposta foram as pipas. Pipas não eram apenas aeromodelos rudimentares construídos com bambu, papel de seda e cuspe; com um pouco de cola branca, cacos de vidro e malícia tipicamente brasileira, uma pipa comum se tornava uma fabulosa aeronave de combate. Nas mãos de pilotos habilidosos, uma pipa podia cruzar os céus com maestria e cortar a linha da pipa de um oponente, e aí fodeu. Alguém voltaria pra casa chorando, com um carretel de linha sem uma pipa na outra ponta.A confecção e decolagem de pipas era basicamente o único passatempo que aquela crianças dignas de um show beneficente do Bono Vox podiam desfrutar. Os que conseguiam arrancar algum dinheiro dos pais de vez em quando podiam se dar ao luxo de comprar pipas pré-fabricadas no mercantil do seu Joaquim da Mandioca. Desconheço o motivo dessa alcunha, porque jamais vi seu Joaquim com nenhuma mandioca, com M maiúsculo ou não. Por isso mesmo, temo o duplo sentido do apelido.Os mais miseráveis e desnutridos da turma (ou seja, aqueles para quem os dois reais que cada pipa custava constituia uma fortuna inalcançavel) tinham que implorar pelas pipas velhas de outrem, fazer suas próprias a duras penas ou disputar as pipas abatidas.
E as pipas abatidas, mas que espetáculo! Uma pipa derrubada era praticamente o equivalente do Conjunto Ceará do lançamento de um ônibus espacial. Pessoas vinham de todos os cantos pra assistir. Não, não é exagero, é literalmente mesmo: o fenômeno resultante de uma briga de pipas fazia muitos interromper seus afazeres e ir à rua assistir a putaria.
Quando uma pipa cruzava os céus à deriva, saíam pivetes de TUDO QUANTO ERA BURACO numa carreira desesperada no encalço da pipa grátis. Crianças desciam de árvores, pulavam da esquina, saltavam de dentro de bueiros, chutavam o portão de casa e passavam sebo nas canelas. Eu nem sabia que tinha tanto moleque naquele lugar. Imagino que estes passavam o tempo se escondendo e analisando o tráfego aéreo do bairro, aguardando o momento de correr. E a animação era porque, segundo o código de honra da pivetada, uma pipa cortada pelo cerol alheio pertencia ao povão. Aquele que a capturasse primeiro se tornaria o dono, e ai do dono legítimo se este se meter a reclamar a posse da pipa! Um delito dessa natureza requeria pena de pelo menos cinquenta cascudos em áreas variadas do corpo.
Segundos após a pipa perdida encontrar descanso no telhado da vizinha da frente, mais guris se juntavam à turba na corrida em direção à aeronave abatida. Chinelas havaianas não aguentavam a velocidade e as tiras estouravam, frequentemente levando rostos imberbes de encontro ao asfalto. Com tantos corpos caídos no chão, o negócio frequentemente se tornava uma corrida com obstáculos.
Sem o menor respeito à propriedade alheia, aos amiguinhos ou aos próprios ossos, a pivetada escalava os muros da casa da dona Francisquinha de Jesus - aquela que vendia pastel de queijo na feira -, disputando cada ponto de apoio na base do tapa, até que alguém finalmente tocasse a seda da pipa. Devia haver algum tipo de lei informal regendo a briga pelo brinquedo, porque no exato momento que alguém encostava na pipa, todo o resto da turma abandonava a disputa.
A cena era pitoresca; aquela criançada toda correndo feito loucos no meio do trânsito, desviando de carros, se empurrando, se esbofeteando, caindo de cara no chão, trepando em muros alheios… por algo que custava dois reais. Ah, Conjunto Ceará…
Além dessa putaria toda (ou por causa dela mesma), a brincadeira das pipas gerava uma perpétua inimizade entre as patotas de cada rua. O pessoal da Comendador Machado odiava a turma da Sete de Setembro, que por sua vez não podia sequer ver a galerinha da 89. Bando de metidos. Se achavam nova-iorquinos, só porque o nome da rua era um número!
O que acontecia é que tomar posse da pipa abatida da rua oponente era uma injúria imperdoável. Se alguém da turma oponente cortasse sua pipa no cerol, tudo bem, era parte do esporte. Bastava voltar pra casa, roubar o dinheiro do pão e comprar outra. Mas quando os amigos do algoz conseguiam pegar a pipa perdida e trazer de volta pro bando, ahhhh… Isso feria a dignidade. A pipa cortada de um oponente era praticamente um troféu de caça, um atestado de superioridade. Era quase como se seu inimigo estivesse de posse de sua própria alma.
Havia ainda uma patifaria ainda mais vilanesca, o ato de “fazer farofa”. “Fazer farofa” consistia em capturar a pipa do oponente apenas para destruí-la completamente.
Entendidas as regras do esporte, continuo a historinha.
Num belo dia de domingo, estávamos eu e a minha turminha empinando pipas. A galera da rua da frente, cujo nome não consigo lembrar, estava na mesma atividade. Eles lá, a gente cá. Olhares raivosos cruzavam a rua em ambas direções. No ar, as pipas materializavam o ódio mútuo que as nossas gangues infantis nutriam uma pela outra - com habilidade, os empinadores de cada lado jogavam suas pipas umas contras as outras, tentando faze-las se engancharem na linha acerolada (que é uma linha com cerol, e não acerolas. Embora o Manélzinho da 21 jurasse ter projetado uma pipa com suco de acerola ao invés de cola. Vai ser pobre assim na puta que pariu).
Num lance de sorte, o Adriano conseguiu desvencilhar a pipa do oponente da linha. Esta começou a cair, desenhando uma espiral no céu em direção à nossa turma. Por ser um domingo, o movimento no bairro era bem menor, e a pipa já caía em nossa direção mesmo. Nem foi necessário correr. Eu, por ser o mais alto entre a nossa turma, peguei a pipa caída com facilidade. Joguei um olhar pra turma da rua da frente, e as caras deles não eram das melhores. Um moleque saiu do meio do grupo em nossa direção.

Ele atravessou metade da rua e, com frases curtas, exigiu a devolução da pipa. Sua mão pendia no ar, insistente.“Ah, mermão” falei “tu sabe como é o negócio. Pipa bolada não tem dono!”O sujeitinho, que acho que se chamava Marcelo, não perdeu tempo debatendo. Ao invés disso, ele voltou rapidamente pro meio da sua turma, que aguardava do outro lado da rua. A retirada voluntária do inimigo foi algo ainda mais honroso que ter capturado a pipa dele. Meu espírito gozador não se conteve.
“Ei, ei, ô, ô, olhaqui!” o rapaz virou o corpo em minha direção “Brigado pela pipa nova, ein!” tendo dito isso, ergui o artefato acima da minha cabeça e ensaiei uma breve e constrangedora dança de vitória.
O moleque, indignadíssimo, apressou o passo em direção aos seus amigos. Ao chegar lá, conferenciou com eles brevemente. Em seguida, correram todos pra rua, saindo da nossa visão.
Minha turma e eu voltamos às nossas atividades normais. Em pouco tempo, a turma inimiga reapareceu na esquina.
Com paus e pedras nas mãos, e olhares sérios na cara.
Não minto, gelei instantaneamente. Nunca fui de brigar, especialmente quando os oponentes são mais numerosos e armados. Pensei em correr, mas eu era o mais velho da minha turminha e a vergonha jamais seria esquecida. Permaneci no mesmo lugar, com a pipa ainda na mão.
“Me dá” disse Marcelo, sem precisar especificar exatamente o que eu deveria dar.
As palavras quase não vinham à boca.
“Mas eu peguei…”
Sem pensar duas vezes, Marcelo girou o braço e o pedaço de pau em sua mão foi de encontro à minha perna. Virei o corpo instintivamente (e vi de relance que meus amigos tinham desaparecido), e a porrada pegou do lado do joelho. Dei um passo pra trás, irado, mas sabia que seria impossível me defender dos três ao mesmo tempo.
“Me dá essa porra, branquelo de merda” disse o menino. Com o joelho doendo e uma inegável vontade de sair em disparada, o orgulho falou mais alto. Fiquei calado. Reconheci um dos pedaços de pau que os moleques carregavam como a perna de uma cama que havia sido jogada num terreno baldio das proximidades (não o do mapa acima, um mais distante).
Sem esperar a minha resposta, Marcelo deu uma estocada com o pedaço de pau e perfurou a película de seda da pipa. Com um rápido movimento, ele arrancou-a das minhas mãos. Me senti como se alguém tivesse arrancado minhas roupas.
Na sua fúria e falta de planejamento na hora de reconquistar a pipa, o moleque acabou estragando-a. Sem pensar duas vezes, ele “fez farofa” ali mesmo. Depois jogou a pipa aos meus pés, e saiu. Até hoje me pergunto o que impediu o sujeito e seus amigos de me dar uma surra de perna de cama.
E eu passei uma semana sem falar com o Trunks, também. Aquele corno fazia kung fu na época e me deixou apanhar sem se manifestar!
Logo após os malfeitores abandonarem nossa rua, a minha turma começou a aparecer. Eu estava morrendo de vergonha, mas dava pra ver que a deles era ainda maior que a minha. Eu estava revoltadíssimo, afinal, éramos uns nove. Armados ou não, cada um dos moleques da rua rival teria que se virar contra três! Seria um massacre, se eu não tivesse sido abandonado como um filho cujo pai descobriu sua homossexualidade.
Mandei todos aqueles medrosos de merda irem pro inferno (incluindo o Trunks) e voltei pra casa. E passei o resto do dia jogando Command and Conquer.
Futebol Kombat
Escrito por Kid on Apr 17, 2006
Aposto que vocês querem saber mais sobre traquinagens infantis enolvendo agressão física desnecessária, impune e covarde. Confessem aí, vocês entraram no blog hoje só pra isso (se eu estiver errado, não respondam).
Uma outra brincadeira que mandava muitos moleques chorando pra diretoria era uma cujo nome não lembro, mas alguns moleques chamavam casualmente de “Futebol Kombat”, uma referência a um vídeo-jogo quase tão violento quanto a brincadeira. O envio à diretoria não era (apenas) graças aos machucados relacionados ao jogo, e sim pelo fato de que ele se tornou altamente ilegal nas dependências do colégio, e qualquer um flagrado no meio da brincadeira era enviado pra casa mais cedo. O que era bom, se você parar pra pensar; ninguém está disposto a assistir mais duas aulas de matemática com uma vertebra deslocada, especialmente se você não estava com muita paciência pra aprender logaritmos naquele dia em particular.
Futebol Kombat, assim como os outros jogos infantis que têm como único objetivo descer o sarrafo nos amigos sem se preocupar com as ramificações do ato, não tinha regras distintas. Por algum motivo, Futebol Kombat não era um esporte olímpico, então não havia um comitê pra decidir aspectos importantes com gameplay, como “chute no pescoço é falta”, ou “berrar o nome da mãe de um oponente não é o método oficial de pedir tempo”. Devido à falta de um comitê oficial com sigla importante pra nos dizer exatamente o que podíamos fazer durante uma partida de Futebol Kombat, a tarefa recaia sobre o moleque mais forte que estivesse na quadra naquele momento e/ou seus amigos - e se você discordar de alguma decisão do sujeito, seus dentes poderão formalizar uma reclamação oficial contra o punho dele. O fato de que o brutamontes ocupava a função de juíz não-oficial não significava, obviamente, que ele não quebraria as próprias regras que alterava ou inventava, especialmente (e principalmente) quando isso pudesse o beneficiar. E em Futebol Kombat, o “benefício” de alguém significa que alguma outra pessoa voltará pra casa com algumas unhas a menos.
“E o que diabos era Futebol Kombat, porra? VOcê está falando e falando e tentando enfiar piadinhas no texto e ainda não explicou nada sobre o maravilhoso esporte e desse jeito eu não vou clicar no seu banner ok tchau.“, você pensou com seus botões ou zíperes ou presilhas de velcro ou aqueles ganchinhos que prendem sutiãs no lugar. Não lembro todos os detalhes e minúcias a respeito daquele esporte, mas eu duvido que qualquer pessoa que jogou mais de quinze minutos daquilo lembre de muita coisa - há um limite de porradas que o cérebro humano pode levar até que algumas de suas funções como memória (ou controle intestinal) comece a falhar. Em minha experiência, eu diria que depois da terceira porrada você não sabe mais nem onde está. Na quinta, suas cuecas mudavam de cor e a viagem de volta pra casa seria bem desagradável pra todos que pegassem o mesmo ônibus que você.
Futebol Kombat é um esporte sem limite de participantes, embora um número alto seja mais aconselhável. Qualquer quantia inferior a vinte moleques não seria considerada uma partida séria; se muito, uma peladinha de várzea com travinha de tijolo. Pivetes de séries inferiores à quinta, pra todos os efeitos, não eram contados no número final de participantes. Não era apenas preconceito contra os guris menores (que realmente tínhamos), havia uma série de motivos pra explicar isso.
O primeiro é que tais crianças raramente possuem o porte pra defender seus pontos vitais das porradas que sem dúvida levariam exaustivamente, então a gente tinha que evitar esmurrar seus estômagos/chutar suas bocas com muita força. Por conta disso, não os considerávamos oponentes válidos. A menos que você saiba levar uma mísera joelhada na orelha e não sair correndo chorando, não nos faça perder nosso tempo considerando você um jogador.
O segundo motivo é que era muito comum um jogador subitamente arrancar um moleque menor do meio dos transeuntes e arremessá-lo contra os inimigos, ou ainda usá-lo como escudo humano. Por causa disso era extremamente difícil contabilizar com precisão o número de crianças menores que participavam (ainda que involuntariamente) da brincadeira, uma vez que o número era flutuante. Vale lembrar que, em Futebol Kombat, é incrivelmente complicado diferenciar participantes voluntários dos involuntários. Por via de regra, qualquer jogador que estivesse sendo vítima de porradas podia ser considerado um participante “involuntário”, ao menos naquele exato momento. Ninguém gostava de levar porradas por vontade própria.
Tudo que você precisa pra jogar Futebol Kombat é uma bola - embora uma mochila tivesse sido usada uma vez, com resultados catastróficos. Se você guarda seus óculos numa mochila, você tem a obrigação de me avisar antes do recreio - e um bando de garotos com pouco medo de quebrar ossos ou reputações impecáveis como estudantes comportados.
O setup do jogo era muitíssimo simples. A pivetada adentra a quadra. Definem-se os “locais salvos”, geralmente as traves ou “a bunda da tua mãe”, quando algum palhacinho estava jogando. Feito isso, a bola e/ou mochila era lançada no meio da quadra, e a partir daí o pandemônio se instalava no local. Poucas regras valiam, ninguém era de ninguém e no caso de esfaqueamento todo mundo sabia que “ninguém viu nada”.
O jogo resume-se em dominar a bola, enfiar-lhe um poderoso chute que a jogue em direção de um outro jogador, e rezar pra que ele seja atingindo pela bola sem controlá-la com pés ágeis (o que poderia resultar em um vingativo contra-ataque).
No momento que a bola entrava em contato com seu nariz, testículo esquerdo ou qualquer outro ponto cuidadosamente premeditado pelo oponente pra causar mais dor, você se tornava automaticamente o alvo dos outros quarenta moleques que povoavam a quadra; chamemos o jogador atingido de “Infeliz”. Nesse momento, a menos que o Infeliz tocasse os “pontos salvos” ou acertasse outro jogador com a bola, qualquer pessoa num raio de dois quilômetros tinha o direito quase bíblico de descer a porrada nele.
Os momentos imeditamente seguintes ao contato Bola-Infeliz eram os mais difíceis de se estabelecer o número exato de jogadores. Qualquer transeunte que por um motivo ou outro não fosse muito com a cara do Infeliz do momento sentia a obrigação moral de largar o que estivesse fazendo e participar do jogo imediatamente, mesmo que só por essa rodada. Não era raro encontrar no meio do público espectadores que assistiam ao jogo com a única finalidade de invadir a quadra quando um inimigo de longa data fosse transformado em Infeliz. Era o momento mágico em que você poderia se impulsionar da parede, arremessar-se em direção à turba ensandecida e, praticamente anônimo, introduzir uma potente voadora no meio do joelho do sujeito sem que ele tivesse muita chance de revidar. Com outros oitenta pés voando em direção ao seu rosto, é impressionante como você perde a capacidade de se defender.
Futebol Kombat dava uma chance única às castas reprimidas da escola, que no jogo podiam canalizar suas frustrações e os anos de abandono social escolar em um salto mortal com perna estendida em direção às órbitas oculares de alguém que fosse levemente (ou não) relacionado aos seus desgostos juvenis.
Ao contrário do que possa parecer, o Infeliz não era totalmente indefeso. Bom, ele estava invariavelmente fodido, isso é fato - mas havia algumas regras que davam uma efêmera sensação de segurança. Se não fosse por elas, a prática do Futebol Kombat dificilmente teria se estendido a uma segunda partida.
O Infeliz tinha basicamente duas escolha. A primeira era correr desabaladamente em direção aos supracitados “pontos salvos”, ou seja, verdadeiros totens de segurança mágica. Com um toque, todos os outros jogadores abandonam a perseguição e voltam sua atenção à bola, exceto aqueles que não queriam dar a corrida como perdida e metiam-lhe uma voadora nas costas anyway, alegando que “porra, não vi tu pegando na trave, ein! Mas tudo bem, isso são águas passadas. Sem ressentimentos, né? Cadê a bola?”
A segunda opção do Infeliz era defender-se como podia dos avanços bárbaros daqueles que há dois minutos eram bons amigos seus e até pegavam carona com você nos dias em que os pais deles voltavam bêbados pra casa, espancavam a mulher, chutavam o cachorro e dormiam sentados na privada, esquecendo de pegá-los no colégio. É desnecessário dizer que essa opção funcionava por menos de 10 segundos, até que você percebia que sair correndo em direção à trave talvez resultassem em menos hematomas.
Havia algumas táticas alternativas, também. O momento em que a bola te acertava no meio das costas (ou seja, sua “coroação” em Infeliz) era o exato instante em que muitas crianças ingênuas o bastante para assistir o jogo de perto eram arrancadas do meio da multidão e eram literalmente arremessadas em direção aos atacantes. Valia agarrar o que o braço encontrasse; vi moleques sendo puxados pela cueca, rodopiados e jogados no meio da galera como um pedaço de filé jogado num aquário de piranhas. Mas era um tipo especial de aquário que, invés de água, estava preenchido com uma mistura de ácido sulfúrico, urina e explosivo plástico em chamas.
Diz-se que a necessidade é a mãe da invenção. Seja lá quem falou isso devia jogar ou ao menos assistir Futebol Kombat - nos momentos de desespero, os Infelizes transformavam qualquer coisa em seu alcance em rudimentares armas brancas de curto e longo alcance, com considerável sucesso. No melhor estilo MacGyver de ser, camisas viravam chicotes e sapatos viravam luvas de boxe. Vi até um garoto arriscar uma tentativa de fabricar uma espécie de funda bíblica (como aquela usada por Davi contra Golias), que funcionaria propulsionando o sapato a velocidades indecentes girando a camisa acima da cabeça e liberando o sapato em seguida. É uma pena que alguém acertou-lhe um chute na virilha antes que sua invenção pudesse nos maravilhar com seu funcionamento.
Como é perceptível, a despeito do esforço e criatividade dos jogadores, lutar contra a maré em Futebol Kombat acabava sendo infrutífero em 127% dos casos. Ou você corria desesperadamente como o Thiago Fialho corre atrás de exposição internética, ou aceitava as porradas de peito (e braços, e cotovelos, e canelas, e pescoço) aberto como o Thiago Fialho aceita as pequenas menções de seu site como medalhas de honra ao mérito. Resistir, como diriam os guardas Vogons, era inútil.
Aquele que nunca jogou Futebol Kombat não sabe a definição correta de “adrenalina”, a menos que você tenha um dicionário ou uma conexão à internet e o link de um dicionário online, senão nesse caso você sabe a definição de adrenalina. Em um segundo de jogo, dúzias de emoções diferentes atravessavam sua mente - o puro terror de ver a bola avançando velozmente contra você; a conclusão quase imediata de saber que não poderá sair da rota de colisão com ela; o choque e a constatação de que ela havia de fato entrado em contato claro com seu joelho, e finalmente o momento em que os outros jogadores também percebiam isso… ahhh, era bom demais.
Arrume uns amigos, convença-os a aceitar porradas com esportividade ainda que estas signifiquem gastos desnecessários com meses de fisioterapia e vá jogar um Futebol Kombat hoje mesmo! Na pior das hipóteses, você tira umas fotos dos resultados da partida e ganha uma graninha vendendo as imagens pro Ogrish.com.
O Ogrish paga por essas coisas, né?
Castanha
Escrito por Kid on Apr 15, 2006
Hoje lembrei que havia prometido um texto a respeito de violência infantil há algum tempo, na sequência de um primeiro post sobre o assunto. Pra refrescar a memória de vocês - e pedindo licença pra repostar o texto original -, aí vai aquele primeiro post.
…
Não sei se vocês já perceberam, mas existe um inerente fascínio infantil por violência.
Quando eu era guri e ia a uma locadora, o primeiro lugar que eu ia era à sessão de terror. Terrores sobrenaturais não era o que me atraía, o que eu queria mesmo ver era sangue. Procurava entre as fitas a capa cujas imagens tivessem a maior quantidade do líquido vital. Achava o maior barato ver aquelas maquiagens que simulavam cortes e buracos na pele, que nos filmes invariavelmente esguichava plasma suficiente pra abastecer dois bancos de sangue em algum país africano.
Não sei se isso acontecia com todo mundo, mas era assim comigo. Se todos somos vítimas dessa estranha atração, está explicada a origem dos estranhos jogos infantis que envolvem violência gratuita entre moleques de treze anos.
Sem dúvida você já deve ter visto uns joguinhos desse tipo, onde dez ou mais crianças decidem duas ou três regras que apenas “legalizam” a troca de sopapos, dando algum tipo de pretexto para o ato. Se não, os meus amigos eram uns doentes que devem estar até hoje pagando por ajuda psicológica.
Quando eu era criança, havia duas brincadeiras (se é que posso chamar aquelas demonstrações de ódio de brincadeiras) que atraíram minha atenção muito mais do que o pega-pega ou esconde-esconde - com exceção às ocasiões em que a Fernanda, uma irmã gostosa de um dos amiguinhos do bairro, brincava com a gente. Não me entendam mal, ser agraciado com o direito impune de encher um desafeto de porradas (ainda consentindo em ser sujeito ao mesmo tratamento) é uma beleza, mas não se equivale à diversão se se espremer pra caber num lugar apertado junto com a Fernada, sob a convincente alegação de que “esse é o melhor lugar, eles nunca vão achar a gente aqui, hihihihi!”
Mas então, as porradas.

Uma das brincadeiras se chamava, inocentemente, “Castanha”. Os mais ingênuos de vocês poderão supor logo de cara que o jogo se tratava de arremessar castanhas uns nos outros, mas isso apenas prova que sua criatividade para violência é muito limitada, ao ponto de aceitar sugestões por causa do mero nome da brincadeira. Castanha era muito mais profundo que arremessar hortaliças (não sei se uma castanha é uma hortaliça, mas direi aqui que é pois nunca pude usar essa palavra num texto) no olho de um coleguinha.Castanha era um jogo simples, a despeito de que para algo ser considerado um “jogo” deve haver algum sistema de pontuação ou competição real. Por definição, Castanha não era um jogo muito mais do que era um método de tortura. A brincadeira era simples e consistia de apenas duas etapas simples:- Localizar alguém que acabou de se sentar na sua cadeira.
- Correr até o indivíduo que acabou de se sentar e enchê-lo de porradas.
Só isso. Incrível como algo tão simples conseguiu mandar tantas pessoas pra diretoria da escola. Havia variações nas regras básicas, mas a idéia principal nunca foi alterada: corra pra cima de quem se sentou e projete partes do seu corpo (mão, pé, cabeça, bunda, vai ao gosto do freguês) com violência contra o infeliz.
Ninguém estava imune, pois o privilégio de participar da brincadeira era dado a para todos todos, quer eles desejem brincar ou não. Era praticamente uma emulação da democracia adulta a qual nos acostumaríamos um dia, como o voto obrigatório.
A única forma de se excluir do jogo era sendo portador de alguma deficiência extremamente debilitante, (o que o salvaria das porradas mas não das piadas extremamente maldosas) ou não ir à escola. Sendo impossível passar um dia inteiro sem se sentar na cadeira, aqueles que optavam participar das aulas tinham uma única forma de se salvar das bordoadas: qualquer pessoa que desejasse sentar a bunda na cadeira deveria dizer, em alto e bom som para que todos ouvissem, “castanha” (daí o nome do jogo).
Nunca saberei por que escolheram essa palavra. O que sei é que esse verbete mágico salvou os órgãos internos de muita gente. Digo isso porque em algumas ocasiões, o som resultante de um murro nas costas dava a impressão de que os pulmões do sujeito foram atingidos pela mão cruel do indivíduo que administrou a punição naquele que foi burro o bastante pra esquecer de “pedir permissão” pra sentar (que frase longa, que horror).
Nenhum momento era sagrado. Você poderia estar emprestando uma fita de SNES pro seu amigo que senta atrás de você, e logo em seguida sentar-se sem pronunciar a palavra redentora (por esquecimento ou pela ilusão de que prestar um favor ao amigo o livraria do espancamento); levava porrada a despeito de qualquer coisa.
Eu estudava no Colégio Adventista; lembro-me de uma ocasião em que um garoto entrou na sala durante o momento da oração diária (eles nos obrigavam a orar no começo do horário letivo). Todos (ou quase todos) de cabeça baixa, falando pra Deus algo que ele supostamente já deveria saber mesmo, quando o moleque sentou-se na cadeira. Alguém estava de olho na situação e não perdoou o erro. Um baque surdo ecoou na sala, seguido de vários outro, menos potentes mas mais numerosos. A classe inteira abriu os olhos; o moleque recém chegado na classe estava debruçado no chão, e seus cadernos e livros espalhados pelo piso da sala. O carrasco voltava silenciosamente pra sua cadeira, com um olhar de “missão cumprida” no rosto, provavelmente pensando em contar vantagem sobre o fato de que ele foi o único a ver o menino que sentou sem dizer “Castanha”.
Ah, tinha outra brincadeira. Mas esse post tá grande demais, conto no futuro.
Grandes Lendas dos Videogames
Escrito por Kid on Apr 11, 2005
Se há uma característica marcante da raça humana, além da nossa habilidade natural de não se dar bem uns com os outros, é o dom da criatividade. Duvido muito que um ser de outro mundo fosse capaz de escrever peças de teatro, compôr músicas que ficam presas nas nossas cabeças meses após termos ouvido-as pela primeira vez, ou descobrir como equilibrar um salário mínimo até o fim do mês que vem.
E a humanidade mostrou essa criatividade ao longo de sua (relativa) breve existência nesse planet
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As cinco maiores construções fictícias imaginárias da cultura popular. Com um bônus não-imaginário
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