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	<title>Hoje é um Bom Dia &#187; Minha infância</title>
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	<description>Leia. Afinal, você não está fazendo nada mesmo!</description>
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		<title>Lembram de Faces da Morte?</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jan 2012 20:37:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minha infância]]></category>

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		<description><![CDATA[Meu pai sempre gostou muito de cinema. Quando ele era moleque, um de seus hobbies era azucrinar o projetista de um cinema lá de Fortaleza pelas sobras de tiras de filme que eles cortavam durante o processo de exibição das fitas. O projetista (provavelmente soltando um daqueles suspiros empregados por quem já está de saco<a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/lembram-de-faces-da-morte/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
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<br></div><p>Meu pai sempre gostou muito de cinema. Quando ele era moleque, um de seus hobbies era azucrinar o projetista de um cinema lá de Fortaleza pelas sobras de tiras de filme que eles cortavam durante o processo de exibição das fitas. O projetista (provavelmente soltando um daqueles suspiros empregados por quem já está de saco cheio de ser importunado por alguém, acompanhado daquela rolada de olhos) dava pro meu pai um monte de pedacinhos de filme cortado.</p>
<p>Meu velho corria pra casa, enchia uma lâmpada queimada com água, e usava isso como uma lupa pra examinar os pedacinhos do negativo contra a luz. Meu pai era praticamente um MacGyver nordestino.</p>
<p>Esse amor pela sétima arte acabou passando para mim e meu irmão. Meu pai foi um dos primeiros de sua turma a aderir ao videocassete, e por isso crescemos assistindo filmes com frequência praticamente diária. Foi nesse período que conheci e me apaixonei pelas franquias clássicas dos anos 80 e 90 &#8212; Aliens, Terminator, Back to the Future (este em particular eu devo ter assistido, sem putaria, umas 200 vezes quando era pivete).</p>
<p>Assim, as idas às locadoras era também um hábito constante. Meu pai era freguês da King Video, de Fortaleza, que é capaz de nem existir mais. Nosso programa familiar de domingo era comer um caranguejinho na Praia do Futuro e, na volta pra casa, passar na tal King Video, alugar uma ou duas fitas, e assistir o filme enquanto minha mãe preparava o almoço.</p>
<p>Isso é, este era o programa familiar até a chegada da internet e a minha descoberta do tal pulso único. A partir daí eu inventava desculpas pra ficar em casa &#8220;surfando na internet&#8221; como se dizia na época.</p>
<p>É curioso pensar que naquela época havia tão pouco pra ser fazer na internet, e mesmo assim eu me sentia irresistivelmente atraído por esta rede maldita. Não tinha youtube, nem twitter, nem facebook, nem comentário do HBD pra responder, nem reddit, nem porra nenhuma &#8212; e mesmo assim eu conseguia passar o dia inteirinho com o nariz colado naquele monitorzão CRT de 14 polegadas.</p>
<div id="attachment_4826" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2012/01/mirc.jpg"><img class="size-full wp-image-4826 " style="border: 1px solid black;" title="mirc" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2012/01/mirc.jpg" alt="" width="500" height="265" /></a><p class="wp-caption-text">A internet era essencialmente só isso aí</p></div>
<p>Naquelas idas à locadora, havia uma seção que era sempre fora do nosso alcance. Geralmente em um quartinho meio separado do resto do estabelecimento, as fitas de putaria dividiam espaço com a antológica série <strong>Faces da Morte</strong>.</p>
<p>Em algumas locadoras (creio que era o caso da King Video), Faces da Morte e filmes equivalentes eram categorizado junto com os filmes de terror. Agradeço essa prática, senão eu nunca teria tido contato com o filme quando era mais novo.</p>
<p>Faces da Morte era uma série que era discutida aos sussuros em todas as escolas do território nacional. Tratava-se de uma espécie de documentário repleto de nada senão cenas gráficas de mortes. Fiquei sabendo anos mais tarde que boa parte das filmagens eram reconstituições de eventos que não foram capturados em filme ou pura e simplesmente fake, mas na época a gente não tinha IMDB pra descobrir essas coisas. Ou melhor, até tinha, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Internet_Movie_Database#History" target="_blank">porque o IMDB começou em 1987</a>, mas tu entendeu o que eu quis dizer né.</p>
<p>Naquela época todo mundo tinha um primo de um vizinho que morava em outro estado que assistiu o filme e relatou as cenas. Sempre rolaram planos de alugar o filme e assistir na casa de um amigo durante ausência paterna, mas isso também nunca dava certo. Por causa disso Faces da Morte me pareceu, por muitos anos, o paradoxal fenômeno cultural que é onipresente (eu sempre o via na locadora e sempre ouvia os testemunhos daqueles que alegavam te-lo assistido), e ao mesmo tempo inalcançável.</p>
<p>Ah, e nenhuma conversa sobre Faces da Morte podia ser completa sem repetir a quase orgulhosa afirmação de que o filme havia sido banido (&#8220;proibido&#8221; era o termo mais usado na época, na realidade. &#8220;Banir&#8221; só entrou no vocabulário popular após a internet mesmo) de X países, sendo X um número aleatório de 2 dígitos que jamais coincidia com o número citado por outro suposto espectador.</p>
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</script></center></div><p>Aliás, a caixa do filme trazia essa informação dentro daquele graficozinho de explosão em WordArt, novamente num tom de orgulho.</p>
<p>Muitos anos mais tarde, quando eu já havia perdido as esperanças e boa parte do interesse em ver esse filme, finalmente assisti essa porra.</p>
<p>Se minha memória não me falha (e creio que não é o caso), era 1998. Para mim, é relativamente fácil lembrar em que ano eventos icônicos da minha juventude aconteceram: <a href="http://hbdia.com/wordpress/vida-maldita/sobre-dar-nomes-aos-filhos/" target="_blank">como estudei em mil escolas diferentes</a>, era só lembrar em que colégio eu estava quando tal evento aconteceu. As mudanças frequentes acabaram servindo como um marca página mental pra minhas memórias infantis.</p>
<p>O Flávio &#8212; um estudante repetente que cursava a 8a série comigo, mas tinha 18 anos &#8212; alugou a fita. Minha casa era o local perfeito pra assistir a película &#8212; não bastasse o fato de que eu era o único possuidor do que se chamava de &#8220;telão&#8221; na época (um tubão de humildes 29 polegadas que fez muito sucesso na época da Copa do Mundo), meus pais passavam boa parte do seu tempo livre noturno na igreja.</p>
<p>Combinamos a nossa sessão clandestina de cinema e no dia determinado apareceu todo mundo lá em casa. Era uma quarta feira, e eu sei disso, novamente, por causa de uma característica de minha infância que acabou servindo como âncora mnemônica. Nas quartas feiras acontecia o chamado &#8220;Culto de Oração&#8221;. A congregação inteira se reunia pra orar por causas diversas (uma seleção eclética que ia desde a fome na África até o iminente vestibular do Irmão Paulinho); frequentemente tais cultos iam além do horário determinado porque afinal de contas, quando a pauta da prece é a final do Brasileirão, é melhor ter <strong>certeza </strong>que Deus ouviu suas preces. Esse ano o Santos tá precisando!</p>
<p>Por isso, quartas-feiras eram o melhor dia pro nosso plano. Reunimo-nos todos na minha sala, onde eu ponderei em relação a obrigatória pipoca que tradicionalmente acompanha seções cinematográficas. Afinal, eu queria ser um bom anfitrião!</p>
<p>Entretanto, por causa do teor da fita e das evidências que pipoca deixam na cena do crime (experimenta dar pipoca pra molecada e observe o fenômeno gradual porém inexorável de engorduração do seu sofá à medida que a criançada limpa os dedos esfregando a mão nas almofadas), decidi que o programa não teria comes ou bebes. E botei o VHS no videocassete.</p>
<p>O filme é bem tosco. Ele tenta ter um viés de documentário mas não há contextualização entre uma cena macabra e a outra, a fita não tem nenhum tipo de teor argumentativo. É só &#8220;veja este maluco que teve sua face arrancada por uma <a href="http://www.google.ca/search?client=opera&amp;rls=en&amp;q=lampreia&amp;oe=utf-8&amp;channel=suggest&amp;um=1&amp;ie=UTF-8&amp;hl=en&amp;tbm=isch&amp;source=og&amp;sa=N&amp;tab=wi&amp;ei=qAcjT4GbIaeWiAKFrIz_Bw&amp;biw=1600&amp;bih=778&amp;sei=rAcjT4mtDKORiAKwwoD2Bw" target="_blank">lampréia</a>&#8221; seguido de &#8220;é isto que acontece quando alguém toma um tiro no nariz&#8221;. A molecada se estremecia com algumas das cenas mais fortes, mas ninguém iria admitir que estava com medo ou passando mal. Foi uma noite memorável.</p>
<p>E outro dia eu estava pensando no Faces da Morte e na importância que o filme teve na minha infância, quando percebi melancolicamente que meu futuro e <strong>hipotético</strong> filho (não seus retardados, minha mulher não está grávida) não terá um equivalente de um bicho-papão cinematográfico que foi o Faces da Morte. Com o advento do streaming online de vídeos (e imagina o que não vai existir quando esse moleque estiver crescendo&#8230;), filmes de violência gráfica estão a um clique de distância.</p>
<p>Ele não terá aquela misteriosa entidade filmística que, apesar de ser o assunto de todos os coleguinhas de sala, foi supostamente proibido na França e na Guatemala e mostra um sujeito levando uma flechada no meio do olho. Ele não fará planos de trazer amiguinhos pra minha casa pra assistir tal filme escondido. Ele não terá que fazer a difícil escolha entre recepcionar os convidados com pipoca ou preservar a integridade física dos meus móveis.</p>
<p>Acho isso meio triste.</p>
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		<title>2 situações de infância que resultaram em soco na (minha) cara</title>
		<link>http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/2-situacoes-de-infancia-que-resultaram-em-soco-na-minha-cara/</link>
		<comments>http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/2-situacoes-de-infancia-que-resultaram-em-soco-na-minha-cara/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 04 Dec 2011 04:21:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minha infância]]></category>

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		<description><![CDATA[Se você chutasse (baseado no meu preparo físico de comedor profissional de pudins) que eu não sou muito adepto a conflitos corporais, você acertaria. Não é nem só a adiposidade, aliás. Sim, nos últimos anos eu adquiri as proporções de um boi de engorda ou um dirigível sendo inflado. Entretanto, houve uma época em que<a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/2-situacoes-de-infancia-que-resultaram-em-soco-na-minha-cara/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
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<br></div><p>Se você chutasse (baseado no meu preparo físico de comedor profissional de pudins) que eu não sou muito adepto a conflitos corporais, você acertaria.</p>
<p>Não é nem só a adiposidade, aliás. Sim, nos últimos anos eu adquiri as proporções de um boi de engorda ou um dirigível sendo inflado. Entretanto, houve uma época em que eu pesava uns 50 quilos no máximo, e mesmo naquele período eu evitava a qualquer custo altercações físicas.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 306px"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/12/20111203-213159.jpg"><img class="size-full  " style="border: 1px solid black;" title="Jesus cristo" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/12/20111203-213159.jpg" alt="RISOS" width="296" height="274" /></a><p class="wp-caption-text">50 quilos? Só se eu estivesse me pesando enquanto carregava sacos de compras.</p></div>
<p style="text-align: left;">Não que eu fosse completamente contra todo e qualquer tipo de violência ou algo assim; como tantos outros moleques criados à base de televisão e videogame, eu acreditava plenamente que jogar Mortal Kombat e assistir Power Rangers me imbuía da capacidade de executar habilmente os movimentos dos meus heróis, o Ranger Verde e o Subzero.</p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/12/subzero-mk1-stance.gif"><img class="size-full wp-image-4429 aligncenter" title="Ó o subzero" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/12/subzero-mk1-stance.gif" alt="" width="68" height="135" /></a></p>
<p style="text-align: left;">99% das briguinhas de amigos começava com um ou ambos fazendo esse gingado do icônico ninja azul &#8212; que, caso você não saiba, tem sincronia <strong>PERFEITA </strong>com <em>Shoot to Thrill</em> do AC/DC. Duvida? Liga teu iTunes aí.</p>
<p>Mas uma coisa é brincar de lutinha com os amigos usando técnicas adquiridas tentando zerar Ultimate Mortal Kombat 3; outra coisa totalmente diferente é uma legitima briga de rua sem limites. Numa situação controlada como as briguinhas entre amigos baseadas no que sabíamos dos games e da TV, &#8212; que a gente insistia ser equivalente a praticar uma arte marcial &#8211;, nao havia tanto que podia dar errado.</p>
<p>Já numa verdadeira porrada de rua com desconhecidos, não há redes de segurança, e pode acontecer que eu descubra da pior forma possível que meus braços têm a densidade e resistência de batata palha.</p>
<p>Por isso eu nunca me meti numa briga real. Já tomei, no entanto, dois fenomenais socos na cara. E agora contarei pra você essas duas histórias.</p>
<p><strong>1) Soco na aula de inglês</strong></p>
<p>Como tantas outras crianças brasileiras de classe média alta, eu cresci com um domínio razoável do inglês. Muita atenção neste momento: isso não significa que eu &#8220;falava inglês&#8221;, como muita gente que se encontra na mesma posição alega no perfil do Facebook ou no Orkut.</p>
<div id="attachment_4431" class="wp-caption aligncenter" style="width: 194px"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/12/english.jpg"><img class="size-full wp-image-4431 " style="border: 1px solid black;" title="&quot;Knows English&quot;" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/12/english.jpg" alt="" width="184" height="62" /></a><p class="wp-caption-text">99% das pessoas que dizem falar inglês no Facebook usam a interface traduzida</p></div>
<p style="text-align: left;">Crescer ouvindo música gringa, jogando videogame, assistindo filme legendado e fazendo uma ou outra viagem aos EUA significa que você tem uma familiaridade com o idioma e é capaz de interpretar frases simples e/ou compreender um gringo que fale devagar. Isso não é equivalente a &#8220;falar inglês&#8221;, e eu aprendi isso da pior maneira quando vim pro Canadá em 2003.</p>
<p style="text-align: left;">Eu sempre achei que falava inglês, até imigrar pra cá e descobrir que dominar o idioma vai muito além de conseguir traduzir a letra de uma música ou conseguir ignorar a legenda em alguns trechos de um filme. Só adquiri fluência uns 4 anos mais tarde.</p>
<p style="text-align: left;">Aliás vou falar algo que me renderá alcunha de (mais) babaca (ainda), mas lá vai: nunca conheci alguém que não tenha morado no exterior e fale inglês <strong>fluente</strong>. Se é um pré-requerimento eu não sei, mas a verdade é que isso me causa a impressão de que é impossível adquirir fluência sem se imergir na cultura gringa.</p>
<p style="text-align: left;">Caralho, esse desvio de tema quase virou um texto separado.</p>
<p style="text-align: left;">Então, quando eu era moleque essa leve habilidade com o inglês fazia todos ao meu redor (e eu mesmo até) achar que eu falava inglês pra caralho. E eu me dava bem nas provinhas de inglês de colégio, que são ridiculamente água-com-açúcar.</p>
<p style="text-align: left;">O resultado disso é que eu virava rapidinho o favorito de todas as professoras de inglês. E elas me davam pequenas tarefas idiotas que, na cabeça da criança retardada, é um sinal de afeição e importância.</p>
<p style="text-align: left;">Por exemplo: entregar as provas da turma. Em vez de passar de carteira em carteira entrando as provas da turminha, a professora me alistava pra tarefa. Lá ia eu, imbecil, me sentindo um total vencedor simplesmente porque a mulher tava com o pé doendo e não queria passear pela sala toda pra entregar provas pra uma turma que ela já havia desistido de se esforçar pra ensinar.</p>
<p>Pois bem. Havia um rapazinho, creio que seu nome era Tiago, que me atormentava na escola. Na época ainda não tinham inventado o &#8220;bully&#8221;, então eu o chamava de &#8220;filho da puta&#8221; mesmo. Era maior que eu, mais forte, e metido a engraçadinho. Obviamente, as gracinhas dele envolviam truculência.</p>
<p>Um belo dia eu resolvi que seria engraçado rasgar a prova dele. Tal qual o sujeito que marca um encontro com a amante em sua própria casa quando sua esposa assiste novela na sala, meu plano não era perfeito.</p>
<p>Fui de encontro à minha patotinha e falei, triunfante, &#8220;<em>vou rasgar a prova deste filho duma puta</em>&#8220;. A molecada protestou, dizendo &#8220;<em>hahahaha, não faz isso cara, hahahaha, tu vai apanhar!</em>&#8221;</p>
<p>O problema é que as risadas anulam <span style="text-decoration: underline;">completamente </span>o conselho de não fazer a traquinagem. Ávido pra fazer a turma rir (que é, veja só, o motivo pelo qual o HBD existe),  triturei a prova do Tiago diante meus coleguinhas.</p>
<p>E o cara, que sentava no fundão e raramente voltava sua atenção para a frente da sala, me flagrou fazendo isso. Ele apenas berrou, lá de trás, que ia &#8220;<em>afundar minha cara</em>&#8220;.</p>
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</script></center></div><p>Tiago era um homem de palavra. No final daquela aula, eu imaginei que tinha vantagem estratégia por sentar-me mais próximo à saída. Ledo engano; Tiago apressou o passo em minha direção e me interceptou quando eu estava a poucos metros da liberdade. Interessantemente, eu vi o punho dele antes de ver o cara.</p>
<p>Eu estava bem do lado do quadro negro (criançada, google o termo. Acho que isso nem existe mais) quando a mão cerrada do moleque conectou com o lado esquerdo do meu maxilar. Projetando toda a força do corpo contra a minha cabeça, o golpe bateu em cheio no queixo, forçando meu rosto a mover-se na direção do impacto. Larguei a mochila durante o susto.</p>
<p>Num cantinho isolado da minha mente, que assistia o evento de forma objetiva e desconectada (&#8220;olha lá, dois moleques brigando&#8221;), uma súbita realização &#8212; levar um soco no rosto provoca imediatamente uma dor aguda no ouvido do lado oposto. Lembro de ter achado esse fato extremamente curioso, e supus que isso se deve às conexões que os órgaos da cabeça famigeradamente dividem.</p>
<p>Acontece que o golpe não foi certeiro; o impacto um pouco abaixo do meu queixo. Por isso, o punho do cara continuou a trajetória, seu antebraço raspando contra meu queixo até sua mão enfiar-se contra a lousa atrás de mim, fazendo um barulho estranho. Ele saiu correndo da sala (covarde que era, suponho que ele não queria dar chance para meus broders se meterem no meio) e faltou 3 ou 4 dias de aula.</p>
<p>Todos achávamos que o moleque havia sido suspenso. Na realidade, ele fraturou o punho por causa do golpe contra o quadro negro.</p>
<p>Ele acabou sendo expulso poucos meses após isso. A ironia do destino é que ele havia feito outra prova de inglês antes de ser chutado pra fora da escola (era o Evolutivo da Parangaba, colegas cearenses), prova que eu novamente fui encarregado de entregar. Rasguei-a novamente, rindo pra caralho.</p>
<p><strong>2) Soco no ônibus</strong></p>
<p>Essa aqui foi mais sinistra porque eu não fiz nada pra provocar a agressão. Estava eu num ônibus com dois chegados, voltando do cinema onde havíamos acabado de assistir o indescritível <em>Me, Myself and Irene</em>. Estou falando sério quando digo que não consigo descrever o filme, só vi uma vez e não lembro de absolutamente nada sobre ele. Só sei que tinha o Ace Ventura lá, o Bill Carrey.</p>
<p>Então, a gente adentra o ônibus e percebe rapidim que tava rolando algum tipo de confusão lá dentro. Um grupo de rapazes no fundo do ônibus berrava contra uma turma sentada na frente do coletivo. O fato de que os sujeitos estavam todos mal vestidos e suas aparências lembravam muito aquela de corintianos não melhorava a situação.</p>
<p>O ar tava tenso e eu e meus colegas decidimos telepaticamente tirar as pulseiras e os relógios, e esconder nossos Nokias 3310 nas meias.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" title="Esse aí não tinha sistema de acessibilidade, Lucas" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/09/Nokia-3310-Reviews.jpg" alt="" width="197" height="294" /></p>
<p>Sentamos em bancos próximos a uma das saídas do coletivo, já imaginando que em algum momento da viagem seria necessário fugir subitamente.</p>
<p>As provocações continuaram voando de um lado pro outro no ônibus, mas a situação começou a se acalmar. Me acalmei um pouco.</p>
<p>O que acabou acontecendo é que um dos vagabundos (visivelmente embriagado, o que confirma minha suspeita em relação ao seu time favorito) decidiu que não iria descer do ônibus sem antes machucar um dos passageiros. E adivinha quem foi o escolhido?</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="border: 1px solid black;" title=":(" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/12/20111203-213159.jpg" alt="RISOS" width="296" height="274" /></p>
<p>Os meliantes sinalizaram para que o motorista estacionasse o ônibus na próxima parada. Um a um os futuros presidiários desceram do ônibus; o último na fila, no entanto, andava devagar e inspecionando todos os passageiros no seu caminho.</p>
<p>&#8220;<em>Peraí, negada</em>&#8221; Disse o vagabundo, com o rosto perto do meu (eu estava sentado naquelas cadeiras mais altas). Meus olhos lacrimejaram com o vapor de cachaça exalado pelo sujeito, cujo nome jamais conhecerei mas que hoje provavelmente atende por Detento 43781-87. Eu olhava pra baixo, fingindo que não era comigo. Quanto mais removido da situação eu pareça, melhor, pensei estupidamente.</p>
<p><em>&#8220;Vou colocar esse aqui pra dormir!&#8221;</em></p>
<p>Antes que eu pudesse levantar a cabeça pra averiguar a situação, me veio o punho fechado no meio da cara. Num sinistro repeteco daquele soco que tomei na sala vários anos antes, o murro do vagabundo apenas raspou contra meu queixo. O soco enterrou-se contra minha clavícula, resultando numa dor desgraçada. O cara tentou socar de novo, mas eu desviei e o punho cerrado dele pegou no meu bíceps &#8212; que, considerando a situação, foi a melhor e única forma que eu tinha de me defender.</p>
<p>Doeu bem menos que levar um soco diretamente na mandíbula, uma dor que eu infelizmente a essa altura já conhecia.</p>
<p>E aí o destino novamente pareceu exercer sua vingança &#8212; o desocupado, que estava bêbado, tropeçou quando descia do ônibus.</p>
<p>E caiu <strong>DE BOCA</strong> no meio-fio da calçada. Toda a população do ônibus todo olhou pelas janelas enquanto os companheiros do sujeito o levantavam do chão, a calçada tingida de vermelho com o sangue do rapaz.</p>
<p>Eu me divirto com o fato de que nas únicas duas situações em que fui agredido na vida, o universo encarregou-se de foder os sujeitos muito mais do que eu seria capaz com os próprios punhos.</p>
<div style='clear:both'></div>]]></content:encoded>
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		<title>O tempo de escola era muito fácil e a gente não sabia</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Nov 2011 04:40:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minha infância]]></category>

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		<description><![CDATA[Como vocês sabem, eu sou nerd. Além disso (talvez POR CAUSA disso), eu sou uma fonte inesgotável de conhecimento inútil &#8212; resultado de um hábito de ler trivias de filmes do IMDB, ter o TVTropes como homepage do navegador, ler mais a wikipédia do que qualquer outra coisa na vida e acessar o subreddit TIL<a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/o-tempo-de-escola-era-muito-facil-e-a-gente-nao-sabia/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
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<br></div><p>Como vocês sabem, eu sou nerd. Além disso (talvez POR CAUSA disso), eu sou uma fonte inesgotável de conhecimento inútil &#8212; resultado de um hábito de ler trivias de filmes do IMDB, ter o TVTropes como homepage do navegador, ler mais a wikipédia do que qualquer outra coisa na vida e acessar o <a href="http://www.reddit.com/r/todayilearned/" target="_blank">subreddit TIL</a> religiosamente várias vezes por dia.</p>
<p>E eu tenho notado que muita gente confunde isso com inteligência, e por isso eu sou considerado &#8220;inteligente&#8221; entre meus amigos.</p>
<p>Eu não tenho uma carreira propriamente dita, nunca me formei, já fui num show do My Chemical Romance e pior, eu acredito piamente que aquele Game Boy que comprei recentemente foi o melhor investimento que eu poderia ter feito na vida. Mas por sempre saber o nome daquela atriz que fez aquele filme lá ou o termo técnico de um determinado clichê cinematográfico, muitos amigos meus pensam que sou algum tipo de <strong>gênio</strong>.</p>
<p>E isso me causava um pequeno problema &#8212; ninguém me levava a sério quando eu falava que tinha que estudar pra caralho <a href="http://hbdia.com/wordpress/a-internet-e-foda/khan-academy-o-melhor-servico-oferecido-pela-internet/" target="_blank">pros tais vestibulares que já mencionei aqui</a>.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 367px"><img class="     " title="Hoje não tem alt text." src="http://i.imgur.com/NZnnc.jpg" alt="" width="357" height="357" /><p class="wp-caption-text">Fig1: a foto mais baitola que tirei em toda minha vida</p></div>
<p>Vamos recapitular &#8212; minha escola aqui no Canadá fodeu a tradução do meu boletim brasileiro, a secretaria da educação do Maranhão me manda uma segunda via <strong>ESCRITA À MÃO</strong> que a faculdade evidentemente recusou. Sendo o histórico escolar o único requerimento para a maioria dos cursos técnicos ou superiores aqui, encontro-me na bizarra situação de ser essencialmente um <em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dropping_out" target="_blank">high school dropout</a></em>.</p>
<p>Ou seja: terminei o segundo grau, mas não posso provar isso, portanto se eu tivesse largado a escola na quarta série eu estaria na <strong>mesma</strong> situação que estou agora.</p>
<p>Lá na faculdade, me ofereceram a seguinte solução &#8212; estude as matérias específicas do seu curso (no caso, biologia, química e matemática &#8212; quero fazer um técnico relacionado à área de saúde) e faça as provas correspondentes de admissão para o curso no qual você quer entrar. Só isso.</p>
<p><em>&#8220;Só isso&#8221;</em>, diz a filha da puta da menina lá do departamento de Prior Learning, ou seja, o que avalia a escolaridade de gente em situação fodida como a minha. &#8220;Só isso&#8221;, como se fosse a tarefa mais fácil do mundo.</p>
<p>Eu tentei explicar pra garota que faz <strong>ANOS </strong>que não estudo. Aliás, faz anos ou <em>fazem </em>anos? Tá vendo? É exatamente disso que estou falando. Sou um analfabeto praticamente. Eu terminei o segundo grau em 2001 e não lembro de absolutamente <strong>NADA</strong> sobre aquele ano, com exceção do detalhe de que foi o ano em que perdi minha virgindade.</p>
<p>E agora querem que em 2 meses eu aprenda o conteúdo de um ano inteiro em três matérias?!?! Impossível!</p>
<p>Só que a mulher é irredutível; ela diz que não há outra alternativa, é isso ou nada. Vou à biblioteca e pego uma porrada de livro de biologia, química e matemática. Por meses fui ao trabalho com uma mochila que pesava uns 10 quilos, sem putaria.</p>
<p>Folheio as páginas dos tais livros e tenho um dramático reencontro com diversos elementos daquelas matérias que eu na época da escola simplesmente <strong>desisti </strong>de aprender e fui naquelas de &#8220;<em>tomara que não caia na prova</em>&#8220;. Manja qual é o espírito? Então.</p>
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</script></center></div><p>Estequiometria, por exemplo. Pode parecer zoeira mas eu me formei no segundo grau sem saber o que era um mol. Sério mesmo, era um conceito que eu não conseguia digerir. E polinômios então?! Aquele esquema de multiplicação de polinômios foi um dos momentos mais icônicos da minha carreira escolar, no sentido de que foi a situação mais memorável do &#8220;<em>foda-se, vou dormir, tomara que não caia na prova&#8221;</em>.</p>
<p>Portanto, quando vi aquela pilha de livros na minha frente e a ficha do &#8220;meu deus eu terei que estudar toda essa porra e pior ainda, sem um professor mastigando tudo pra mim&#8221; finalmente caiu, me desesperei. Comentei com amigos sobre o desafio, e todos falaram apenas &#8220;<em>pfff você tá preocupado com isso por que? Você é inteligente, você passa nessas provas fácil demais</em>&#8220;.</p>
<p>Esse povo não entende que saber o nome dos dubladores dos Simpsons ou lembrar o ano de lançamento de Fievel não significa capacidade acadêmica, mas esses jumentos jamais me levavama sério. TODOS que eu comentava sobre as tais provas falavam apenas &#8220;<em>E daí? Você é inteligente, vai passar fácil</em>&#8220;.</p>
<p>E isso não é lisonjeiro como você possa imaginar &#8212; é <em>irritante</em>. Não há nada mais chato do que explicar uma sitação complicada pros amigos e não obter solidariedade de <strong>NENHUM DELES</strong>. E pior &#8212; eu estava bem convencido que tomaria bomba em cada uma das provas, e aí nem o status de falso intelectual eu poderei mais manter. Essas provas do caralho me farão perder o pouco que já tenho!</p>
<p>Então não teve outro jeito &#8212; passei a estudar. Todo dia no trabalho, quando o movimento na loja diminuia, eu sacava os livros da mochila e estudava umas 2 ou 3 horas. Googleava termos que eu não entendia, ia pro Wolfram Alpha pra ver explicações detalhadas da resolução de certos problemas, perguntava no tuíter detalhes que eu não entendia (e a galera prontamente ajudava, foi impressionante usar o tuíter pra estudar. Até hoje eu só usava pra <a href="http://hbdia.com/wordpress/trollagem/tutorial-com-as-melhores-iscas-de-trollagem/" target="_blank">irritar os outros</a> e <a href="http://hbdia.com/wordpress/anuncie-aqui/" target="_blank">ganhar dinheiro</a>.</p>
<p>E aí o impensável aconteceu &#8212; eu comecei a <em>aprender</em>. Aqueles conceitos que pareciam indecifráveis na época de colégio desciam agora com facilidade incrível. Aprendi um monte de coisa que eu achei que jamais aprenderia na vida, e agindo por conta própria, durante intervalos no trabalho, estudando com livros em outra língua.</p>
<p>Fui lá, fiz a porra das provas, e passei. E não passei me &#8220;arrastando&#8221;, não &#8212; minha nota mais baixa nas provas foi 80%.</p>
<p>Isso me faz pensar que o tempo de escola era uma mamata incrível. Todo o sistema era bolado pra te fazer passar de ano de qualquer forma &#8212; trabalhinhos valendo nota, a chance da recuperação, reforço escolar, o sistema de médias e tudo mais. Não é à toa que eu passei de ano sem muito problema (embora ter passado em dois vestibulares de faculdades públicas permaneça um mistério).</p>
<p>Com todo aquele apoio eu era um aluno vagabundo e medíocre. Agora, sem nenhuma rede de segurança, com o meu futuro realmente na balança e podendo contar apenas em mim mesmo, estudei pra caralho e detonei aquelas porras de equações químicas como um vencedor.</p>
<p>Há meses atrás quando descobri que teria que estudar essa porra toda pra fazer provas de admissão, eu estava plenamente confiante que estudar seria um esforço em vão e que eu tomaria uma bomba atrás da outra. É bom adicionar um pequeno achievement desses à vida adulta &#8212; &#8220;vencer as barreiras do sistema educacional tendo que estudar sozinho em dois meses matérias que não aprendi em um ano inteiro na escola&#8221;.</p>
<p>Fico pensando que se eu tivesse investido na carreira escolar um décimo do esforço que fiz nos últimos meses, minha vida poderia ter tido um rumo bem diferente.</p>
<p>Ou não, já que fui aprovado de primeira nos dois vestibulares que tentei de qualquer forma, e isso valeu de nada já que tive que largar ambas faculdades pra imigrar pro Canadá.</p>
<p><em>But still&#8230;</em></p>
<div style='clear:both'></div>]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;: THE END</title>
		<link>http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/minha-primeira-suspensao-the-end/</link>
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		<pubDate>Sun, 14 Aug 2011 17:03:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minha infância]]></category>

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		<description><![CDATA[Ok, chegamos à conclusão dessa história épica de estripulia escolar e de mau-caráter infantil. Para sua conveniência, eis os episódios anteriores: Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;, parte I Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;, parte II Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;, parte III Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;, parte IV No último episódio (publicado aqui em JUNHO, hahaha), eu já havia sido apontado como<a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/minha-primeira-suspensao-the-end/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
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<br></div><p>Ok, chegamos à conclusão dessa história épica de estripulia escolar e de mau-caráter infantil. Para sua conveniência, eis os episódios anteriores:</p>
<p><strong><a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/minha-primeira-suspensao" target="_blank">Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;, parte I</a></strong></p>
<p><strong><a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/minha-primeira-suspensao-parte-ii" target="_blank">Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;, parte II</a></strong></p>
<p><strong><a href="http://hbdia.com/wordpress/geral/minha-primeira-suspensao-conclusao" target="_blank">Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;, parte III</a></strong></p>
<p><strong><a href="http://hbdia.com/wordpress/geral/minha-primeira-suspensao-conclusao-final" target="_blank">Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;, parte IV</a></strong></p>
<p>No <strong>último episódio</strong> (publicado aqui em <a href="http://hbdia.com/wordpress/geral/minha-primeira-suspensao-conclusao-final" target="_blank">JUNHO</a>, hahaha), eu já havia sido apontado como principal suspeito de ter apagado a luz da sala. A turma inteira me delatou, e minha ridícula justificativa pra coisa &#8212; &#8220;<em>foi sem querer, eu escorreguei e bati a mão no interruptor&#8230;</em>&#8221; &#8212; foi rejeitada imediatamente (com indignação da diretora até).</p>
<p>A mulher tirou da gaveta um daqueles formulários de suspensão, e aí aconteceu isto:</p>
<blockquote><p>A diretora preencheu o papel lenta e ostensivamente, falando em voz alta à medida que escrevia nele. “Israel Nobre será suspenso por três dias por causar danos às instalações da escola num incidente ocorrido ontem…” e aí ela parou no meio da frase. Olhou o papel, olhou pra mim. Pôs a caneta no formulário de novo, mas continuava pensativa. E aí ela me oferecendo uma alternativa à suspensão — e o motivo pelo qual os títulos dessa saga sempre trazem a palavra “suspensão” entre aspas.</p></blockquote>
<p>A diretora deitou o papel na mesa e olhou pra mim.</p>
<p>&#8220;É o seguinte, Israel. Eu não quero suspender você&#8221; e fez uma pausa dramática.</p>
<p>Eu não sabia se agradecia e levantava da cadeira, ou se esperava sentado pra ouvir o que ela ainda tinha pra falar. A mulher então quebrou o silêncio.</p>
<p>&#8220;&#8230;mas você tem que ser punido de alguma forma&#8221;, concluiu a diretora.</p>
<p>Eu balancei a cabeça positivamente, a essa altura já completamente desmoralizado. Ou melhor, quase completamente desmoralizado. A total desonra ainda estava por vir.</p>
<p>A mulher cruzou os braços e continuou.</p>
<p>&#8220;Vou te dar uma escolha. Você pode optar pela suspensão de três dias, ou&#8230;&#8221; e fez outra pausa dramática. Que agonia daquele suspense desnecessário que a mulher criava.</p>
<p>&#8220;ou&#8230;?&#8221;</p>
<p>E aí ela falou algo inacreditável.</p>
<p>&#8220;&#8230;ou você pode vir trabalhar na escola por três dias&#8221;.</p>
<p>&#8220;Trabalhar? Como assim?&#8221; imaginei-me rapidamente dando aula de matemática e ensinando tudo errado pra criançada, porque aqueles tais dos polinômios estavam me dando muita dificuldade.</p>
<p>&#8220;Você comparecerá na escola durante a manhã para ajudar o seu Gonçalves a limpar o pátio, a quadra, e os banheiros&#8221;</p>
<p>Seu Gonçalves era o zelador da escola, meu inimigo mortal desde o dia em que eu tive que esperar mais de uma hora até que meus pais viessem me pegar depois da aula. Com tanto tempo livre e a escola praticamente vazia, fui ao banheiro, armei-me com todos os rolos de papel higiênico de todas os pequenos cubículos sanitários, joguei tudo dentro duma pia cheia d&#8217;água e saí aplicando uma mão generosa de papel machê ao teto do banheiro.</p>
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</script></center></div><p>No dia seguinte declarei aos amigos, com tom profético, de que eles se surpreenderiam se entrassem no banheiro e olhassem pra cima. A molecada correu pro banheiro, e eu mal conseguia conter a minha satisfação. Os caras saíram do banheiro decepcionados, me perguntando qual era o tal grande lance. Entrei no banheiro avidamente e vi que minha obra de arte expressionista (no caso a expressão era &#8220;foda-se essa escola!&#8221;) havia desaparecido.</p>
<p>E só podia ter sido o zelador da escola que limpou a porra toda. Maldito seu Gonçalves destruiu minha obra e ainda me fez pagar de mentiroso perante os amiguinhos escolares!</p>
<p>Pois então, inacreditavelmente a diretora da escola reformou minha sentença de suspensão para trabalhos comunitários! Me senti um daqueles presidiários americanos que limpam as rodovias.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/08/preso.jpeg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3738" title="Tem mais é que botar vagabundo pra trabalhar mesmo" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/08/preso.jpeg" alt="" width="390" height="300" /></a></p>
<p>A diretora pôs minhas opções ali na minha cara e esperou minha decisão.</p>
<p>Agora, a parte curiosa desta história é a seguinte: meus pais estavam viajando durante aquela semana. Se eu fosse suspenso, daria perfeitamente pra esconder a confusão toda dos meus pais.</p>
<p>Aliás, outro dia eu liguei pro meu pai pra perguntar o que ele achava dessa história &#8212; queria incluir no texto a perspectiva dele da minha traquinagem &#8212; e o velho nem sabia que nada disso tinha acontecido.</p>
<p>Pra você ter uma idéia de como eu sou burro, mesmo sendo perfeitamente possível ocultar toda aquela merda dos meus pais, eu vou e opto pelo serviço comunitário nas dependências da escola pra evitar a suspensão.</p>
<p>A diretora se satisfez com minha escolha e falou:</p>
<p>&#8220;Amanhã esteja no pátio às 7 da manhã em ponto. O seu Gonçalvez vai te dizer o que você deve fazer&#8221; e assim, ela me liberou de volta pra classe.</p>
<p>No dia seguinte, apareço na escola às 7 da manhã em ponto. Mais estranho que estar na escola no horário &#8220;errado&#8221; era estar na escola usando roupas normais. Me senti no ápice da rebeldia escolar.</p>
<p>Entrar na escola no horário diferente àquele durante o qual você estuda é uma experiência muito estranha; rola uma <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Dissonância_cognitiva" target="_blank">dissonância cognitiva</a> foda por causa do contraste do familiar com o estranho.</p>
<p>Por um lado, as dependências da escola são a sua &#8220;segunda casa&#8221;, como os professores costumavam me dizer. É um ambiente ao qual você estava completamente acostumado. Por outro, toda a molecada (e boa parte do corpo docente aliás) é desconhecida pra você. É estranho ver tanta gente estranha num local que você frequenta diariamente e conhece tão bem.</p>
<p>Sem contar que rola uma inversão do sentimento de propriedade: durante toda a minha vida, vi as escolas a que frequentei como a &#8220;minha&#8221; escola. Aquele é o meu mundinho, os meus amigos, a minha sala, a minha carteira. Ir à escola de manhã é como explorar uma dimensão paralela em que a sua escola pertence a outros moleques.</p>
<p>Outro resultado curioso do breve contato com a molecada do turno da manhã é que foi quase como visitar outro país e descobrir pela primeira vez as opiniões deles sobre a sua terra natal. Por exemplo, descobri que a turma da manhã considerava os alunos da tarde vagabundos (por serem incapazes de acordarem cedo) ou problemáticos (e por isso os pais os matriculam pras aulas vespertinas, assim a pivetada está longe de casa durante a tarde e os pais podem finalmente relaxar).</p>
<p>Eu sentei lá no pátio esperando o seu Gonçalves aparecer e me dar minhas tarefas enquanto a molecada uniformizada/fardada &#8212; no Sul fala-se uniforme, no Nordeste, farda, ou pelo menos é assim que me lembro &#8212; entrava nas salas.</p>
<p>Seu Gonçalvez aparece e me dá as tarefas: varrer as folhas secas do pátio, limpar o banheiro, varrer e pintar a quadra. Executei as tarefas da seguinte forma:</p>
<ul>
<li>Varri as folhas secas pra baixo dos bancos do pátio, ao invés de jogar no lixo;</li>
<li>Enchi o balde com água várias vezes e apenas joguei água em tudo &#8212; paredes, privadas, teto, eu mesmo, em tudo. Uma lâmpada estourou por causa do choque térmico causado pelo contato com a água fria. Não falei nada pro zelador e ainda joguei o sabão em pó na pia;</li>
<li>Nem me dei ao trabalho de varrer a quadra. Comecei a pintar uma das paredes mas parei quando descobri que a sala que guarda as bolas estava destrancada; peguei todas as bolas de basquete e comecei a chuta-las contra a parede diretamente à minha frente, pra praticar minha habilidade de esquiva. As bolas ficaram todas meladas de tinta.</li>
</ul>
<p style="text-align: center;"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/08/banheiro.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3741" style="border: 1px solid black;" title="Preciso atualizar meu currículo depois desta obra de arte MSpaintística" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/08/banheiro.jpg" alt="" width="394" height="200" /></a></p>
<p>E foi isso. Acabei não sendo suspenso, só tive que &#8220;trabalhar&#8221; no colégio por três dias. E fiz o trabalho mais porco que alguém jamais fez naquelas tarefas.</p>
<p>Mas uma vez eu fui suspenso de verdade. E isso foi a combinação de um site que eu e um amigo criamos sobre a escola, e algo que uma professora interpretou como uma &#8220;ameaça de morte&#8221;.</p>
<p>Mas isso é uma história pra outro dia&#8230;</p>
<div style='clear:both'></div>]]></content:encoded>
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		<slash:comments>55</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;: Conclusão</title>
		<link>http://hbdia.com/wordpress/geral/minha-primeira-suspensao-conclusao/</link>
		<comments>http://hbdia.com/wordpress/geral/minha-primeira-suspensao-conclusao/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 20 May 2011 06:37:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Minha infância]]></category>

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		<description><![CDATA[No último capítulo, a aventura terminou assim: E além disso, eu continua pensando — quanto estrago essa criançada pode ter realmente causado em míseros 5 segundos? Por maior que fosse a fúria anarquista daquela cambada de crianças de classe média, não é como se eles tivessem destruído a sala completamente, né? Acalentado por este pensamento,<a href="http://hbdia.com/wordpress/geral/minha-primeira-suspensao-conclusao/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="in_post_ad_top_1" style="margin: 5px;padding: 0px;"><script type="text/javascript"><!--
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<br></div><p>No <a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/minha-primeira-suspensao-parte-ii" target="_blank">último capítulo</a>, a aventura terminou assim:</p>
<blockquote><p>E além disso, eu continua pensando — quanto estrago essa criançada pode ter realmente causado em míseros 5 segundos? Por maior que fosse a fúria anarquista daquela cambada de crianças de classe média, não é como se eles tivessem destruído a sala completamente, né?</p>
<p>Acalentado por este pensamento, fui dormir naquele dia.</p>
<p>Na tarde seguinte, ao entrar na sala de aula, eu percebi o quão errado eu estava.</p></blockquote>
<p>Então. Como expliquei, a sala virou um total pandemônio quando apaguei a luz. Eu já estava no meio da minha fuga e por isso não pude testemunhar por mim mesmo a destruição que a galera tocou. Apesar de ter ficado assustado com o barulho vindo da sala, ao fim do dia decidi que não era possível que uma cambada de pivete de 13-14 anos tivesse de fato causado <em>tanto</em> estrago assim.</p>
<p>Aliás, acho que a sala não ficou no escuro nem 5 segundos inteiros; parece muito tempo.</p>
<p>E, além disso, eu me evadi da escola antes que fosse possível lavrar o flagrante. Embora este raciocínio fosse falho (afinal, seria mais lógico que o sujeito que apagou a luz estava entre os primeiros a correr pra fora da sala, e neste caso ser um dos poucos que fugiu da escola apressadamente testemunhava CONTRA mim), por ora ele me acalmava.</p>
<p>&#8220;<em>Nunca vão descobrir que fui eu</em>&#8220;, eu pensava. Oh, a inocência!</p>
<p>No dia seguinte, no pátio da escola antes de entrar pras aulas, a turma estava estranhamente silenciosa sobre o ocorrido no dia anterior. As rodinhas de conversa abordavam todos os assuntos triviais (quem da turma havia ganhado um tamagotchi nessa semana, o fato de que o amigo do primo do vizinho de um dos garotos tinha conseguido soltar o lendário combo de 99 hits do Sub Zero, e por aí vai), mas ninguém falava muito sobre o que aconteceu na noite anterior.</p>
<p>Aliás, eu não lembro de ninguém falar <strong>NADA</strong>. Era estranho que algo tão fora do comum tivesse acontecido há menos de 24 horas, mas ninguém estava discutindo o evento. Estariam eles evitando o assunto propositalmente? Ou a confusão não foi tão séria quanto eu imaginava &#8212; e por isso o desinteresse &#8212; ou a turma também estava apreensiva e preferia não tocar no assunto.</p>
<p>É bem coisa de criança isso, evitar mencionar um assunto que você sabe que pode resultar em merda pro seu lado. Lembro que de vez em quando na minha infância, meu pai estava chateado comigo na magnitude propícia para uma surra &#8212; só que às vezes isso acontecia quando não estávamos em casa. O castigo foi prometido, mas havia uma leve chance de que o velho esquecesse que tava com raiva no caminho pra casa.</p>
<p>Então eu voltava no carro no maior silêncio do mundo, com medo de que qualquer assunto que eu puxasse tivesse sete ou menos graus de separação com o motivo que deixou meu pai com raiva. Se ele esquecesse que prometeu uma surra, eu sairia ileso.</p>
<p>E era essa a impressão que eu tinha naquela tarde, no pátio da escola. Algo incrível aconteceu na noite anterior e ninguém parecia interessado em comentar o assunto. Estaria todo mundo tão preocupado quanto eu? É bem possível. Esse pensamento me confortou. &#8220;Se eu me foder, não me foderei sozinho, pelo jeito!&#8221;<strong></strong></p>
<p>Eu tava morrendo de curiosidade pra descobrir o que tinha rolado na sala, mas concluir que exibir tal interesse (especialmente quando o resto da turma parecia estar despreocupada ou tentando evitar o assunto) era dar mole. Fiquei na minha.</p>
<p>Bate o sinal e a gente entra na sala.</p>
<p>A primeira vista, notei que haviam menos cadeiras na sala. E algumas delas não eram as carteiras que estávamos acostumados &#8212; as nossas carteiras tinham acabamento liso, de fórmica azul.</p>
<p>Acho que era fórmica, sei lá. Eu lá tenho cara de quem entende de madeira? Era um acabamento envernizado azul. Era exatamente assim, só:</p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<div id="attachment_3289" class="wp-caption aligncenter" style="width: 330px"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/carteira.gif"><img class="size-full wp-image-3289   " style="border: 1px solid #000000;" title="carteira" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/carteira.gif" alt="" width="320" height="391" /></a><p class="wp-caption-text">Só que azul</p></div>
<p>Então, várias carteiras estavam faltando, e em seu lugar haviam modelos mais antigos, de madeira marrom. Aliás, não haviam partes de metal na carteira: eram inteiramente de madeira, e davam a impressão de ser bem velhas e pesadas.</p>
<p>E quase todas as carteiras &#8220;novas&#8221; estavam no fundo da sala.</p>
<p>O cérebro engrenou enquanto eu me dirigia ao meu assento. Sem dúvida, no meio da bagunça a molecada mais <strong>TERRORISTA</strong> deu um jeito de quebrar algumas carteiras. Como eles deram um jeito de fazer isso em tão pouco tempo é difícil de entender, mas não havia dúvidas. Aquelas cadeiras marrons velhas, que destoavam completamente o visual da sala, eram o testemunho do real potencial de uma cambada de pivete no escuro.</p>
<p>Duas janelas estavam estilhaçadas, também. Alguns riram do estado da sala, e finalmente começaram a comentar os acontecimentos do dia anterior, mas eu me tornava cada vez mais preocupado. Por mais que eu não tivesse tido parte ativa na destruição dela, no meu íntimo eu sabia que o engraçadinho que apagou a luz acabaria como bode expiatório.</p>
<p>Nisso já estávamos todos sentados nas carteiras, naquela algazarra comum de sala sem a presença da professora. A primeira aula do dia seria justamente da Cibele, de biologia.</p>
<p>Aí eu notei que um dos ventiladores da sala, o do lado esquerdo (o que ficava mais longe de mim) havia sumido. Não dei muita importância ao fato.</p>
<p>Percebi também a ausência de ambos o Hugo e o Thiago &#8220;Cambota&#8221;, os bullies oficiais da nossa sala, que sentavam lado a lado no fundão. Aliás, o fato de que o mapa da sala não separou os dois nem os trouxe à frente da sala provava o quão sem moral era o sistema lá no Colégio Adventista.</p>
<p>Caso você esteja curioso, o Thiago Cambota foi apelidado de tal forma por ter pernas arqueadas; talvez &#8220;cambota&#8221; seja um termo cearense/nordestino pra esse defeito, não sei.</p>
<p>Basta imaginar o personagem que acabou virando o outro apelido dele (&#8220;Tommy dos Anjinhos&#8221;) pra entender a figura.</p>
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<p>Os bullies da sala mediam forças chamando uns aos outros de apelidos indesejados perante a sala inteira, numa disputa de virilidade que remete aos documentários da Discovery com alces se atracando ou pavões arreganhando o rabo pra impressionar as fêmas com a sua plumagem. Uma demonstração de masculinidade e tal.</p>
<p>Entretanto, pra nós reles mortais, esses apelidos aloprativos dos bullies eram estritamente proibidos. Usávamos pra nos referir a eles apenas quando rodeados de colegas de confiança. Se chegasse aos ouvidos do Thiago que você o chamou de Cambota, é capaz da surra ser ainda maior pela suposta covardia do ato (afinal, você teria falado &#8220;pelas costas&#8221;).</p>
<p>Já que estamos entrando nesse assunto, vale lembrar que melhor que os apelidos jocosos era o clássico &#8220;filho da Fulana&#8221;. A identidade da mãe era um segredo guardado a sete chaves naquela época; se alguém descobrisse o nome da sua mãe (geralmente roubando os nossos boletins e lendo a área que menciona a nossa afiliação), jamais te chamariam pela sua graça novamente. Dali em diante você seria eternamente &#8220;Fí da Fulana&#8221;.</p>
<p>Aliás, mais um parêntese: O Hugo era tão filho da puta que, uma vez, ele interceptou uma troca de cartuchos de SNES que eu fazia com o Luciano. Ele simplesmente se meteu na conversa, catou a minha fita de Super Star Wars the Return of the Jedi, e não devolveu por MESES. Achei até que tava perdida pra sempre.</p>
<p>E, de panaca que eu era, demorei meses pra finalmente reclamar com a diretoria e reaver o cartucho.</p>
<p>Então, voltando à história. O Thiago e o Hugo, dois bullies que a gente nunca sabia se eram amigos ou se odiavam (tão acirrada era a sua competição pela posição de macho alfa da sala) haviam faltado a aula.</p>
<p>Perguntei ao Norman &#8212; acho que o nome dele era Leandro, mas a gente só chamava ele de Norman, em referência a um filme qualquer que eu nunca assisti e por isso não entendi a correlação &#8212; e ele falou que eles foram &#8220;suspensos ontem&#8221;. Aparentemente, na confusão do escuro da sala, ambos começaram a se estranhar e acabaram saindo no braço. Quem espancou quem seria um debate pra toda a eternidade, e a resposta ia depender de quem estava contando a história (Team Hugo ou Team Cambota).</p>
<p>Engoli em seco. Pelo jeito a brincadeira do dia anterior já começara a ter casualidades. Duas suspensões até agora.</p>
<p>Comecei a rabiscar o caderno pra ocupar a mente. Todo mundo já sentado nas suas carteiras, esperando a professora.</p>
<p>Cinco minutos do começo da aula e nada da mulher aparecer.</p>
<p>Dez minutos e nada.</p>
<p>QUINZE minutos se passam e nenhum professor na nossa sala ainda. Neste momento a baderna aquiesceu um pouco, porque até a meninada começava a se preocupar.</p>
<p>Nisso entra Chiquinho, nosso professor de matemática. Ele era um cara até gente boa, muito inteligente, mas por namorar (ou ser noivo, sei lá) da Socorro &#8212; a cordenadora do colégio, que tinha hilários 1,45m de altura &#8212; ele se achava coordenador por associação. Volta e meia tava dando voltar pelo pátio durante o recreio pra admoestar os brincalhões e tal. Tivesse eu naquela época a mentalidade de hoje, teria falado pro cara que a posição de coordenadora de uma escola não é que nem herpes &#8212; você não pega por comer alguém que já tinha.</p>
<p>O Chiquinho, severo, explica pra gente que a ausência da Cibele se devia pelo fato de que, na noite anterior, ALGUÉM (ele deu uma ênfase quase teatral no ALGUÉM) havia apagado a luz da sala, e como resultado a turma tocou o terror e a professora acabou sendo machucada por uma cadeira voadora.</p>
<p>Yep. ALGUÉM JOGOU UMA CADEIRA NA PROFESSORA. E não é que o machucado fosse tão grave que ela não podia trabalhar &#8212; ela simplesmente resolveu não ir pra escola, e talvez nunca mais voltasse.</p>
<p>O Chiquinho explicou também que foram cadeiras voadoras que derrubaram o ventilador esquerdo e quebraram as vidraças, e que as cadeiras feionas eram pra substituir as cadeiras quebradas durante a baderna.</p>
<p>Ele desfiou uma ladainha chatíssima e cheia das lições de moral que nós bagunceiros dos tempos de escola tavam cansados de ouvir &#8212; que estudar numa escola particular era um privilégio, que estávamos agindo como gente sem educação, blá blá blá.</p>
<p>Por incrível que pareça, o papo dele me acalmou. Em nenhum momento ele fez menção de punição por causa do acontecido. Achei que ia ser só aquilo mesmo &#8212; suspensão dos brigões, bronca por causa dos danos à propriedade da escola, e uma aula substituta de matemática enquanto a Cibele decidia se queria ou não continuar dando aula no colégio.</p>
<p>&#8220;<em>Escapei</em>&#8220;, pensei comigo. &#8220;<em>No final das contas não deu em nada &#8212; pra mim, isso é. Fodam-se o Cambota e o Hugo.</em>&#8221;</p>
<p>Nisso o Chiquinho cansa de dar lição de moral e começa a aula. Até hoje ainda lembro do assunto da aula: DIVISÃO DE POLINÔMIOS. Não era o meu forte, mas eu tava me sentindo tão aliviado com o desfecho da estripulia que resolvi me esforçar pra entender o material.</p>
<p>E aí aparece a Socorro na porta da nossa sala. Meu sangue congelou no ato. Lendo uma folha que ela trazia na mão, ela chamou 5 nomes. Os alunos chamados seguiram-na até a coordenação, e só retornaram depois de uma meia hora &#8212; a aula do Chiquinho já estava quase acabando.</p>
<p>Perguntei à Mara (que era uma gostosíssima, eu nunca perdia uma oportunidade de falar com ela) qual era o lance.</p>
<p>&#8220;Ah, eles nos fizeram umas perguntas lá. Queriam saber quem apagou a luz ontem&#8221;.</p>
<p>Senti a espinha esfriar. Pro meu horror, pelo jeito eles iriam investigar a história a fundo.</p>
<p>E estavam atrás da pessoa que apagou a luz.</p>
<p>(Opa, falei que era a conclusão, né? Na verdade, foi erro de digitação. <a href="http://hbdia.com/wordpress/geral/minha-primeira-suspensao-conclusao-final/" target="_blank">O texto continua aqui na quarta parte</a>)</p>
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		<item>
		<title>Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;: parte II</title>
		<link>http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/minha-primeira-suspensao-parte-ii/</link>
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		<pubDate>Tue, 17 May 2011 03:59:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minha infância]]></category>

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		<description><![CDATA[Onde foi que eu parei mesmo? Ah, sim. Mas foda-se. A decisão estava tomada; eu iria recolher minhas tralhas 5 minutos antes do final da aula e, ao soar o toque do final do dia, passaria sem cerimônia do lado do interruptor, e apagaria as luzes da sala. Durante o planejamento da brincadeira, eu jamais<a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/minha-primeira-suspensao-parte-ii/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
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<br></div><p>Onde foi que eu parei mesmo? Ah, sim.</p>
<blockquote><p>Mas foda-se. A decisão estava tomada; eu iria recolher minhas tralhas 5 minutos antes do final da aula e, ao soar o toque do final do dia, passaria sem cerimônia do lado do interruptor, e apagaria as luzes da sala.</p>
<p>Durante o planejamento da brincadeira, eu jamais havia parado pra pensar que o resultado tinha potencial pra ser tão catastrófico.</p>
<p>Mas agora já era. O sinal tocou, a turma começou a se levantar pra sair da sala. Levantei-me da cadeira como que impulsionao por uma mola e me joguei em direção ao interruptor.</p>
<p>Nada poderia ter me preparado para o que aconteceu em seguida.</p></blockquote>
<p>Como falei no post anterior, eu já estava esperando o sinal do fim da aula. Estava me preparando psicologicamente pra sair correndo assim que tocasse o sinal, me condicionando a reagir ao sinal como um corredor olímpico a um disparo de largada. Eu cruzaria o espaço que me separava do interruptor em tempo recorde!</p>
<p>O coração batia acelerado na antecipação do momento chave da brincadeira.  Bate o sinal, eu me levanto apressado em direção ao interruptor.</p>
<p>Neste momento, dei uma olhada de soslaio na direção da Cibele, a professora gostosa. Ela olhava pra baixo enquanto catava suas coisas &#8212; o que permitia uma visão bem vinda dos amplos seios dela, parcialmente ocultos pela renda da blusinha que ela usava. Os peitos da Cibele eram fartos e sadios como os peitinhos de garotas de vinte e tantos anos tendem a ser.</p>
<p>Era o sinal verde, a mestra estava distraída. O plano ia em frente.</p>
<p>Aproveitando-me do efeito de afunilamento provocado pela porta da sala (ou seja, vários moleques pertinho da saída, na ânsia de evacuar a sala o mais rápido possível), estendo a mão e bato no interruptor, extinguindo as luzes da sala.</p>
<p>Foi como se a molecada inteira estivesse, como eu, esperando uma deixa. Quase instantaneamente, a sala explodiu em ensurdecedora gritaria. Eu já estava um pouco longe (e colocando mais distância entre eu e a sala, já que corria), mas consegui ouvir claramente a baderna.</p>
<p>A inspetora do colégio, que agia como <em>gatekeeper</em> no portão que separava o interior do colégio do pátio (creio que para impedir que espertinhos saíssem do colégio antes da hora), estava conversando com uma professora. Atrapalhada, ela não viu o começo da confusão, mas notou vários estudantes correndo pra fora da sala escura onde outrora havia uma classe escolar, mas no momento parecia que havia sido substituida por uma jaula de chimpanzés com síndrome de tourette.</p>
<p>A inspetora se apressou pra posicionar-se como uma cancela na frente do portão, certamente numa tentativa de aprisionar os fujões (já que entre eles estava, sem dúvida, o causador da celeuma). Acontece que a turba foi mais rápida e, antes que ela tivesse chance de fechar o portão na nossa cara, conseguimos escapar para o pátio.</p>
<p>Durante toda essa fuga alucinada pelo portão, dava pra ouvir a barulheira vinda da sala. &#8220;<em>A turma aproveitou o escuro pra despirocar geral</em>&#8220;, pensei.</p>
<p>Entretanto, um som me causou mais alarme &#8212; de dentro da sala pôde-se o som característico de metal batendo violentamente contra metal, repetidamente, e em seguida caindo ao chão. Segundos mais tarde, o alarmante e inconfundível ruído de vidro quebrando. Subitamente eu notei que a gritaria (que até então tinha tom de baderna juvenil) adquire timbre diferente.</p>
<p>Gritos de desespero, e de dor. Gritos do tipo que, quando você está usando o computador à noite sozinho e ouve vindo da rua, pensa em se mudar de bairro.</p>
<p>Nesse momento parei pra olhar pra trás. Fui o único &#8212; os alunos que fugiram junto comigo estavam pouco se lixando pra situação. É natural, afinal de contas, eles não tinham culpa no cartório. Minha preocupação estava inerentemente associada com a autoria da confusão.</p>
<p>Olho pra trás e noto que a inspetora abandonou seu posto em frente ao portão, sem dúvida pra inspecionar a condição da sala escura. E noto também que a molecada das outras salas agora saiam ao átrio do colégio e olhavam, chocados, para a minha sala. Por causa do ângulo em que eu me encontrava, era impossível ver o que causava tanto choque.</p>
<p>Era tarde demais pra voltar atrás.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><img title="Zona de Extração" src="http://i.imgur.com/ztng6.jpg" alt="" width="600" height="516" /><p class="wp-caption-text">Diagrama da minha fuga</p></div>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<p>Nesse momento, em pé no meio do pátio escuro do colégio, ouvindo a gritaria ecoando pela escola, comecei a compreender a gravidade da brincadeira. Me veio uma sensação horrível no estômago, e pouco a pouco comecei a aceitar a realidade &#8212; o resultado da brincadeira foi bem mais grave do que eu antecipava.</p>
<p>Obviamente eu não havia previsto que a falta de luz na sala reverteria os seres humanos que ali se encontravam em primatas pré-históricos. Mas, como já falei, era tarde demais.</p>
<p>Tive um estalo, sei lá por que, de que permanecer no colégio não melhoraria a minha situação. Talvez eu estava inconscientemente tentando evitar o flagrante. O fato é que vi a saída da escola, a meros 200 ou 300 metros de distância, como uma zona de extração &#8212; e retomei a corrida em direção a ela.</p>
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</script></center></div><p>Manja nos filmes em que as ações militares tem um ponto pre-determinado onde a equipe de super-soldados será resgatada por um helicóptero? Então, essa é a zona de extração &#8212; o local de segurança onde o time se vê livre da ameaça dos soldados inimigos, e a caminho de volta pra casa.</p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<div id="attachment_3265" class="wp-caption aligncenter" style="width: 478px"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/extraction.jpg"><img class="size-full wp-image-3265 " style="border: 1px solid #000000;" title="extraction" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/extraction.jpg" alt="" width="468" height="307" /></a><p class="wp-caption-text">Isso aí, só que geralmente eles correm pro helicóptero com mais pressa devido a chuva de balas, pedras e impropérios árabes sendo arremessados contra eles</p></div>
<p>E era assim que eu me sentia. Quanto mais tempo passava no colégio, maior era o perigo. E quanto mais próximo do portão dos fundos, mais próximo do ônibus que me resgataria pra longe dali.</p>
<p>Corri loucamente. A mochila pendurada atrás de mim oscilava descontroladamente, atrapalhando o ritmo dos meus passos. Cadernos, livros e estojo chacoalhavam ruidosamente nas minhas costas.</p>
<p>Atravessei as duas quadras correndo como se minha vida dependesse daquilo.</p>
<p>Se isto tivesse acontecido no século XXI, talvez houvesse toda uma infra-estrutura de comunicação com o porteiro que guardava a saída dos fundos, e quem sabe a inspetora poderia ter alertado o velho pra trancar o portão e não deixar nenhum aluno sair. De repente hoje o porteiro teria uma conta no tuíter que a coordenação da escola usaria pra repassar esse tipo de informação pra ele</p>
<blockquote><p>Aew @SeuZe, ñ deixa esse minino aí de óculos sair ñ, q ele aprontou alguma merda aqui #pegaeleseuzé</p></blockquote>
<p>Não era o caso; a distância do portão dos fundos garantia que o porteiro não tinha nenhum conhecimento sobre o que havia acontecido.</p>
<p>Passei correndo e ofegando pelo porteiro, que nem olhou pro meu lado. Naquele momento, um radinho de pilha que emitia a voz esganiçada do narrador da partida Fortaleza x Ceará recebia toda a sua atenção.</p>
<p>(Pros colegas do sudeste &#8212; tal partida é o equivalente cultural nordestino de um Fla Flu ou Curíntia vs São Paulo)</p>
<p>Cheguei na parada de ônibus com o pulmão em chamas. O Montese/Lagoa, o coletivo que me levaria de volta pra casa, apontava na esquina. Subi no ônibus apressado, sentei no fundo, e suspirei aliviado.  E cheguei à conclusão de que havia eu vencido.</p>
<div id="attachment_3266" class="wp-caption aligncenter" style="width: 506px"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/montese.jpg"><img class="size-full wp-image-3266" title="montese" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/montese.jpg" alt="" width="496" height="215" /></a><p class="wp-caption-text">A condução dos vencedores</p></div>
<p>Afinal, apaguei a luz da sala com sucesso e escapei do colégio sem ser identificado como o terrorista causador do atentado. Por algum motivo eu estava plenamento certo de que, evandindo as dependências do colégio antes de lavrarem o flagrante, e oculto pela pequena multidão que tentava sair da sala ao mesmo tempo, seria impossível ser apontado como o causador da confusão.</p>
<p>Mas os gritos e os ruídos de destruição continuavam me preocupando. Enquanto o coletivo salteava pelas ruas esburacadas do centro fortalezense, eu me perguntava quanto estrago uma turma de pivetes de 13 ou 14 anos poderia ter provocado. A narrativa pode ter parecido longa, mas a coisa toda durou poucos segundos &#8212; 4 ou 5, no máximo.</p>
<p>Eu só teria conhecimento deste fato (a duração exata da algazarra) no dia seguinte, aliás. O que aconteceu, e eu eventualmente descobri através do relato de testemunhas oculares, é que quase toda a parte da frente da turma evacuou a sala ao mesmo tempo, e a professora ficou temporariamente atordoada tentando impor controle no estouro da manada de estudantes no escuro.</p>
<p>Esses instantes de confusão (aliados ao fato e que a parcela da sala que se encontrava perto do interruptor havia fugido para o pátio, criando um vácuo  que deixou sobrar apenas a galera do fundão) permitiram os 4 ou 5 segundos de escuridão.</p>
<p>Outra coisa que me ficou óbvia nos dias seguintes é que a turma escapando da sala não teve interesse, aparentemente, de reacender a luz da sala e assim reestabelecer a civilização no local. Mas isso, aparentemente, não foi levado em consideração. Toda a culpa do evento recaiu-se sobre mim.</p>
<p>Entretanto, naquele momento no ônibus, eu não sabia de nada disso &#8212; e nem dos futuros resultados da brincadeira, que eu teria que encarar nas próximas 24 horas. Mas eu já antecipava que a coisa toda tinha fugido do controle e que alguém se foderia como consequência.</p>
<p>Ainda preocupado, tentei me acalmar com dois pensamentos: o primeiro é que eu não era o real culpado pelo estrago que sem dúvida causaram na sala naquela noite (afinal, toda a real confusão aconteceu quando eu estava FORA da sala; meu álibi estava estabelecido).</p>
<p>E o segundo motivo é que eu estava realmente convencido de que, tendo escapado da sala antes da intervenção das figuras autoritativas da escola, seria impossível imputar a mim a autoria do crime.</p>
<p>E além disso, eu continua pensando &#8212; quanto estrago essa criançada pode ter realmente causado em míseros 5 segundos? Por maior que fosse a fúria anarquista daquela cambada de crianças de classe média, não é como se eles tivessem destruído a sala completamente, né?</p>
<p>Acalentado por este pensamento, fui dormir naquele dia.</p>
<p>Na tarde seguinte, ao entrar na sala de aula, eu percebi o quão errado eu estava.</p>
<p>(<a href="http://hbdia.com/wordpress/geral/minha-primeira-suspensao-conclusao/" target="_blank">Terceira parte</a>)</p>
<div style='clear:both'></div>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Minha primeira &#8220;suspensão&#8221;</title>
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		<comments>http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/minha-primeira-suspensao/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 14 May 2011 17:12:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minha infância]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8230;E lá estava eu, sentado perante a diretora, sendo interrogado pela mulher enquanto meus amigos sofriam numa aula de matemática. Visitar a sala da mulher não era exatamente novidade pra mim; geralmente me mandavam à coordenação, mas minhas reincidências ultimamente me rendiam viagem sem escalas pra sala da diretora. Especialmente num caso de traquinagem séria,<a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/minha-primeira-suspensao/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
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<br></div><p>&#8230;E lá estava eu, sentado perante a diretora, sendo interrogado pela mulher enquanto meus amigos sofriam numa aula de matemática.</p>
<p>Visitar a sala da mulher não era exatamente novidade pra mim; geralmente me mandavam à coordenação, mas minhas reincidências ultimamente me rendiam viagem sem escalas pra sala da diretora. Especialmente num caso de traquinagem séria, como era o caso dessa vez.</p>
<p>Eu encarava minhas bagunças escolares com muito descaso; pra total revolta dos meus professores e meus pais, eu nunca parecia compreender a seriedade das galhofas que eu aprontava na escola quase diariamente. &#8220;<em>Esse moleque só vai aprender quando acabar sendo expulso do colégio</em>&#8220;, ouvi meu pai dizer mais de uma vez quando se via obrigado a comparecer à escola por minha causa, ou assinar notas enviadas pela coordenação. &#8220;<em>E se você for expulso</em>&#8220;, ele continuava, &#8220;<em>vou te colocar numa escola pública! Não vou gastar meu dinheiro com vagabundo!</em>&#8221;</p>
<p>Eu sempre considerava tal diagnóstico alarmista demais. Expulsão da escola era uma solução final drástica pra contravenção séria (tipo, sei lá, nego fumando no banheiro ou se masturbando durante aula de Geografia). Ninguém é expulso da escola porque conversa demais na sala ou porque vive zoando os amiguinhos, que era o meu modus operandi costumeiro.</p>
<div id="attachment_3233" class="wp-caption aligncenter" style="width: 161px"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/abc.jpg"><img class="size-full wp-image-3233" style="border: 1px solid #000000;" title="abc" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/abc.jpg" alt="" width="151" height="248" /></a><p class="wp-caption-text">Eu como orador da turma na formatura da alfabetização -- O início de uma longa carreira de perturbador de sala</p></div>
<p style="text-align: left;">Acontece que isso não era o que eu havia feito dessa vez. Dessa vez, a brincadeira (e mais relevante, seus resultados) havia sido &#8220;um pouco&#8221; mais grave. Quando digo &#8220;um pouco mais grave&#8221;, compreenda-se &#8220;causou danos sérios a propriedade escolar, alunos <strong>E</strong> a uma professora, que agora considerava se demitir da escola&#8221;.</p>
<p>Sob investigação impiedosa da diretora, me bateu aquela horrível sensação de &#8220;dessa vez eu me fodi&#8221;. Minhas mentiras estavam apenas atrasando o inevitável.</p>
<p>A expressão facial da diretora era de profunda intensidade; ela sondava meu rosto, meus pequenos movimentos involuntários, tentando detectar qualquer sinal que indicasse que eu estava nervoso ou pior, mentindo. Senti o suor frio brotar na testa.</p>
<p>Aos meus tenros 12 ou 13 anos, eu não havia vivido o suficiente pra adquirir características de mau-caratismo que me permitiam mentir com total cinismo. E eu sabia que a minha versão da história estava soando cada vez menos verossímil. Mas não importava &#8212; enquanto a diretora não tivesse provas, ela não poderia me condenar. Fingi que ia aprumar o óculos no rosto e aproveitei o movimento pra enxugar a testa.</p>
<p>Talvez eu devesse começar esta história pelo começo.</p>
<p>***</p>
<p>Era uma tarde de terça feira em Fortaleza, meu querido Ceará, no longínquo ano de 1997. Eu cursava a sétima série no Colégio Adventista de Fortaleza, que ficava ali no centro.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 496px"><img style="border: 1px solid #000000;" title="Colégio" src="http://i.imgur.com/gStNy.jpg" alt="" width="486" height="397" /><p class="wp-caption-text">Ó a escola aí.</p></div>
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</script></center></div><p style="text-align: left;">Naquele ano eu estudava de tarde, e às seis horas &#8212; o horário de saída da escola &#8211;, o céu já estava bastante escuro. Há alguns dias eu matutava comigo mesmo: &#8220;quão escura essa sala ficaria se alguém apagasse a luz na hora da saída?&#8221;.</p>
<p>Nosso colégio, como você pode ver na foto acima, ficava bem do lado de um prédio. Isso bloqueava boa parte da luz que vinha da rua. De fato, na hora da saída, o colégio inteiro estava bastante escuro.</p>
<p>(A proximidade do prédio rendeu boas confusões quando um aluno &#8212; não direi quem fui &#8212; incitou os coleguinhas a arremessar pedras nas varandas acima, &#8220;só pra ver quem consegue acertar o apartamento mais alto&#8221;)</p>
<p>Passei uns dias bolando meu plano de ação. O mapa de sala (tou ligado que o termo é diferente em alguns estados; me refiro à tabela que rege a posição em que os alunos sentam na sala. O objetivo é separar os focos de baderna) me colocava numa posição privilegiada bem próximo da frente da sala &#8212; e do interruptor.</p>
<p>Meus professores conspiraram contra mim me separando do meu grupo e me colocando numa posição completamente indefesa, sentado na frente da turma. Ironicamente, naquele dia eu usaria isso contra eles.</p>
<p>Ou melhor, contra UM deles &#8212; Cibele, a professora de biologia. Naquele dia fatídico, a aula dela era a última. Senti uma certa pena da mulher &#8212; a Cibele era mais nova, devia ter uns 20 e tantos anos. E era a que encarava minhas palhaçadas com mais espírito esportivo; de fato, não lembro de ter sido mandado pra fora de sala por ela nenhuma vez sequer.</p>
<p>E era gostosa. A Cibele (e mais especificamente, as saias curtas e blusas decotadas que ela frequentemente usava, pro delírio dos estudantes) tornava minha posição na frente da sala menos indesejável.</p>
<div id="attachment_3234" class="wp-caption aligncenter" style="width: 285px"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/cibele.jpg"><img class="size-full wp-image-3234" style="border: 1px solid #000000;" title="cibele" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/cibele.jpg" alt="" width="275" height="382" /></a><p class="wp-caption-text">Imagine que essa era a professora</p></div>
<p style="text-align: left;">Mas foda-se. A decisão estava tomada; eu iria recolher minhas tralhas 5 minutos antes do final da aula e, ao soar o toque do final do dia, passaria sem cerimônia do lado do interruptor, e apagaria as luzes da sala.</p>
<p style="text-align: left;">Durante o planejamento da brincadeira, eu jamais havia parado pra pensar que o resultado tinha potencial pra ser tão catastrófico.</p>
<p style="text-align: left;">Mas agora já era. O sinal tocou, a turma começou a se levantar pra sair da sala. Levantei-me da cadeira como que impulsionao por uma mola e me joguei em direção ao interruptor.</p>
<p style="text-align: left;">Nada poderia ter me preparado para o que aconteceu em seguida.</p>
<p style="text-align: left;">(<a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/minha-primeira-suspensao-parte-ii/" target="_blank">Segunda parte</a>)</p>
<div style='clear:both'></div>]]></content:encoded>
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		<title>Dia dos Pais na segunda série</title>
		<link>http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/dia-dos-pais-na-segunda-serie/</link>
		<comments>http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/dia-dos-pais-na-segunda-serie/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 07 Mar 2011 17:09:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minha infância]]></category>

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		<description><![CDATA[Bom, eu acho que estes eventos aconteceram na segunda série. Pode ter sido na terceira. Minha memória daquela época formativa é meio turva, infelizmente. Mas vamos começar do começo. Estava aqui eu assistindo Carrossel no youtube, aquela antológica novelinha escolar infantil que resultou em&#8230; olha, eu tinha pensado numa frase mó relevante e engraçada mas<a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/dia-dos-pais-na-segunda-serie/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="in_post_ad_top_1" style="margin: 5px;padding: 0px;"><script type="text/javascript"><!--
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<br></div><p>Bom, eu <em>acho </em>que estes eventos aconteceram na segunda série. Pode ter sido na terceira. Minha memória daquela época formativa é meio turva, infelizmente. Mas vamos começar do começo.</p>
<p>Estava aqui eu assistindo Carrossel no youtube, aquela antológica novelinha escolar infantil que resultou em&#8230; olha, eu tinha pensado numa frase mó relevante e engraçada mas aí eu lembrei que o principal resultado de Carrossel foi nos apresentar à Maria Joaquina, que um dia se tornaria uma gostosa classe A.</p>
<p><span id="more-2974"></span></p>
<div id="attachment_2975" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/03/mariajoaquina.jpg"><img class="size-full wp-image-2975" title="mariajoaquina" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/03/mariajoaquina.jpg" alt="" width="300" height="506" /></a><p class="wp-caption-text">Eu nem sabia que existiam mexicanas gostosas</p></div>
<p>Sem dúvida este foi a melhor coisa advinda da série, muito do que os LPs com músicas, que os álbuns de figurinha, e o sofrível Carrossel das Américas &#8212; que segundo o IBGE foi responsável por causar AIDS em quem assistiu.</p>
<p>Como Carrossel era bom, né? A turma da nossa idade (que se encontrava na mesma faixa etária e etapa escolar que os personagens) se identificava muito com a série &#8212; e eu imagino que os adolescentes ou jovens adultos da época achavam ridiculamente imbecil. Mais ou menos como nós zoamos Justin Bieber/banda Restart e seus fãs e qualquer outro entretenimento da galera infantojuvenil.</p>
<p>Agora que eu paro pra pensar nisso, nós adultos somos meio babacas mesmo, né? Não é à toa que quando criança, julgávamos os adultos incapazes de se divertir e carecendo de um senso de humor. Tudo que a gente gostava, os caras davam um jeito de descreva-la parecendo um passatempo pra crianças com síndrome de down. Mas divago.</p>
<p>Então, eu estava vendo Carrossel, relembrando o quão maravilhosamente tosca era a dublagem, e aí me passou pela cabeça uma situação estranha que me ocorreu quando eu cursava o ensino fundamental.</p>
<p>Eu estudava no Colégio Adventista de Londrina. Inclusive, tive que parar de escrever esse texto pra procurar na web fotografias do colégio. Achei <a href="http://www.youtube.com/watch?v=RPdLJ4WvHnY" target="_blank">este vídeo no youtube</a> e, apesar da infraestrutura ter mudado quase que completamente, os elementos da construção que eu reconheci me emocionaram. Incrível pensar que fazem mais de quinze anos desde a última vez que pisei naquele lugar&#8230;</p>
<p>Então. Como eu disse no começo antes da gostosa lá em cima, era a segunda ou a terceira série. O dia dos pais estava chegando, e na aula de artes &#8212; estou <em>chutando</em> que era aula de artes, porque tamanha boiolagem jamais teria sido permitida numa aula séria como matemática ou ciências &#8212; a nossa professora nos encarregou de confeccionar tosquíssimos cartões pros nossos pais.</p>
<p>A mulher passou pra turminha cartolina, cola em bastão, purpurina (calma, <em>it gets gayer</em>) lantejoulas, aquelas merdas todas. Pelos próximos 20 minutos a gurizada ficou lá labutando silenciosamente em seus cartões.</p>
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</script></center></div><p>Se me lembro bem, desenhei um robô com a cola e afixei lantejoulas por cima. Pus mais cola no centro do &#8220;desenho&#8221; e arremessei uma mão cheia de purpurina cinza, pra colorir o robozinho. Era o autômato mais homossexual desde o personagem da <a href="http://www.youtube.com/watch?v=_zvc_igb2-Y" target="_blank">canção icônica dos Mamonas</a> (in memorian).</p>
<p>Pausa rápida: vocês que nasceram nos anos 90 e não tinham consciência cognitiva na época em que os Mamonas estavam vivos perderam o que significou um momento singular da cultura brasileira. Se matem logo, pois suas vidas jamais farão sentido.</p>
<p>Então. A gente fez os cartõezinhos tudo bonitinho, e a &#8220;tia&#8221; começou a passar os envelopes em que colocaríamos os cartões.</p>
<p>E aí veio a merda.</p>
<p>A professora começou a distribuir batons pra classe. Sim, meu querido amigo: BATONS. Uns 2 ou 3 &#8212; o que implicava que a molecada ia <em>compartilhar batons</em>, mas isso nem é a pior parte da história.</p>
<p>A professora então instrui a molecada a passar o baton e selar o envelope com um beijo. A ala masculina meio que torceu o nariz (exceto o Henrique, aquela bicha estridente, que se espevitou todo pra passar o baton), mas a mestra garantiu que &#8220;não tem problema&#8221;. Ainda duvidosos, a molecada aquiesceu e começou a passar o cosmético muito sem jeito, pra selar o envelope.</p>
<p>O baton chegou à minha carteira. Àquela altura umas 12 crianças já tinham enfiado aquela merda na boca. Mesmo desconhecendo coisas como herpes, a idéia me pareceu asqueirosa o bastante pra eu dispensa-la só pelos motivos higiênicos. Mas eu estava incerto.</p>
<p>Os gringos chamam o fenômeno de &#8220;<em>peer pressure</em>&#8220;. Quando todos os seus amigos fazem algo (e pior, quando uma figura de autoridade aparentemente apoia o ato), é quase impossível recusar alguma coisa. Confesso que o fato de que todos os meus coleguinhas escolares estavam com lábios pintados e parecendo dragqueens mirins puseram minha convicção em dúvida. &#8220;Se eles todos fizeram, não deve ser tão ruim assim&#8221;.</p>
<p>Felizmente, a criação religiosa e homofóbica falou mais alto. Decidi que baton &#8220;era coisa pra menina&#8221;, independente do que minha professora dizia. Considerei meus colegas uma cambada de bichas enrustidas e recusei o baton.</p>
<p>Hoje, anos mais tarde, eu fico imaginando qual teria sido o imenso desgosto do meu pai em receber um cartão com marca de beijo de um filho.</p>
<div style='clear:both'></div>]]></content:encoded>
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		<title>Brincadeiras de infância: Futebol Kombat</title>
		<link>http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/brincadeiras-de-infancia-futebol-kombat/</link>
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		<pubDate>Fri, 18 Feb 2011 17:41:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minha infância]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma das importantes partes do crescimento de meninos homens do sexo masculino são as brincadeiras com violência. E a brincadeira violenta que mais mandava moleques chorando pra diretoria era uma cujo nome não lembro, mas alguns moleques chamavam casualmente de &#8220;Futebol Kombat&#8221;, uma referência a um vídeo-jogo quase tão violento quanto a brincadeira. Já ouvi<a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/brincadeiras-de-infancia-futebol-kombat/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="in_post_ad_top_1" style="margin: 5px;padding: 0px;"><script type="text/javascript"><!--
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<br></div><p>Uma das importantes partes do crescimento de meninos homens do sexo masculino são as brincadeiras com violência.</p>
<p>E a brincadeira violenta que mais mandava moleques chorando pra diretoria era uma cujo nome não lembro, mas alguns moleques chamavam casualmente de &#8220;Futebol Kombat&#8221;, uma referência a um vídeo-jogo quase tão violento quanto a brincadeira. Já ouvi chamarem de &#8220;Porradabol&#8221; também.</p>
<p>O envio à diretoria não era (apenas) graças aos machucados relacionados ao jogo, e sim pelo fato de que ele se tornou altamente ilegal nas dependências do colégio, e qualquer um flagrado no meio da brincadeira era enviado pra casa mais cedo. O que era bom, se você parar pra pensar; ninguém está disposto a assistir mais duas aulas de matemática com uma vertebra deslocada, especialmente se você não estava com muita paciência pra aprender logaritmos naquele dia em particular.</p>
<p><span id="more-2889"></span></p>
<p>Futebol Kombat, assim como os outros jogos infantis que têm como único objetivo descer o sarrafo nos amigos sem se preocupar com as ramificações do ato, não tinha regras distintas. Por algum motivo, Futebol Kombat não era um esporte olímpico, então não havia um comitê pra decidir aspectos importantes com gameplay, como &#8220;chute no pescoço é falta&#8221;, ou &#8220;berrar o nome da mãe de um oponente não é o método oficial de pedir tempo&#8221;.</p>
<p>Devido à falta de um comitê oficial com sigla importante pra nos dizer exatamente o que podíamos fazer durante uma partida de Futebol Kombat, a tarefa recaia sobre o moleque mais forte que estivesse na quadra naquele momento e/ou seus amigos &#8212; e se você discordar de alguma decisão do sujeito, seus dentes poderão formalizar uma reclamação oficial contra o punho dele.</p>
<p>O fato de que o brutamontes ocupava a função de juíz não-oficial não significava, obviamente, que ele não quebraria as próprias regras que alterava ou inventava, especialmente (e principalmente) quando isso pudesse o beneficiar. E em Futebol Kombat, o &#8220;benefício&#8221; de alguém significa que alguma outra pessoa voltará pra casa com algumas unhas a menos.</p>
<p>&#8220;<em>E o que diabos era Futebol Kombat, porra? Você está falando e falando e tentando enfiar piadinhas no texto e ainda não explicou nada sobre o maravilhoso esporte ok tchau abs</em>&#8220;, você pensou com seus botões ou zíperes ou presilhas de velcro ou aqueles ganchinhos que prendem sutiãs no lugar. Não lembro todos os detalhes e minúcias a respeito daquele esporte, mas eu duvido que qualquer pessoa que jogou mais de quinze minutos daquilo lembre de muita coisa &#8212; há um limite de porradas que o cérebro humano pode levar até que algumas de suas funções como memória (ou controle intestinal) comece a falhar.</p>
<p>Em minha experiência, eu diria que depois da terceira porrada você não sabe mais nem onde está. Na quinta, suas cuecas mudavam de cor e a viagem de volta pra casa seria bem desagradável pra todos que pegassem o mesmo ônibus que você.</p>
<p>Futebol Kombat é um esporte sem limite de participantes, embora um número alto seja mais aconselhável. Qualquer quantia inferior a vinte moleques não seria considerada uma partida séria; se muito, uma peladinha de várzea com travinha de tijolo. Pivetes de séries inferiores à quinta, pra todos os efeitos, não eram contados no número final de participantes. Não era apenas preconceito contra os guris menores (que realmente tínhamos), havia uma série de motivos pra explicar isso.</p>
<p>O primeiro é que tais crianças raramente possuem o porte pra defender seus pontos vitais das porradas que sem dúvida levariam exaustivamente, então a gente tinha que evitar esmurrar seus estômagos/chutar suas bocas com muita força. Por conta disso, não os considerávamos oponentes válidos. A menos que você saiba levar uma mísera joelhada na orelha e não sair correndo chorando, não nos faça perder nosso tempo considerando você um jogador.</p>
<p>O segundo motivo é que era muito comum um jogador subitamente arrancar um moleque menor do meio dos transeuntes e arremessá-lo contra os inimigos, ou ainda usá-lo como escudo humano. Por causa disso era extremamente difícil contabilizar com precisão o número de crianças menores que participavam (ainda que involuntariamente) da brincadeira, uma vez que o número era flutuante.</p>
<p>Vale lembrar que, em Futebol Kombat, é incrivelmente complicado diferenciar participantes voluntários dos involuntários. Por via de regra, qualquer jogador que estivesse sendo vítima de porradas podia ser considerado um participante &#8220;involuntário&#8221;, ao menos naquele exato momento. Ninguém gostava de levar porradas por vontade própria.</p>
<p>Tudo que você precisa pra jogar Futebol Kombat é uma bola &#8212; embora uma mochila tivesse sido usada uma vez, com resultados catastróficos. Se você guarda seus óculos numa mochila, você tem a <strong>obrigação</strong> de me avisar antes do recreio &#8212; e um bando de garotos com pouco medo de quebrar ossos ou reputações impecáveis como estudantes comportados.</p>
<p>O setup do jogo era muitíssimo simples. A pivetada adentra a quadra. Definem-se os &#8220;locais salvos&#8221;, geralmente as traves ou &#8220;a bunda da tua mãe&#8221;, quando algum palhaço estava jogando. Feito isso, a bola e/ou mochila era lançada no meio da quadra, e a partir daí o pandemônio se instalava no local. Poucas regras valiam, ninguém era de ninguém e no caso de esfaqueamento todo mundo sabia que &#8220;ninguém viu nada&#8221;.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img style="border: 1px solid #000000;" title="cavalheiros" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/02/cavalheiros.jpg" alt="" width="400" height="310" /><p class="wp-caption-text">Ou seja, é igual o futebol de verdade, este esporte de cavalheiros</p></div>
<p>O jogo resume-se em dominar a bola, enfiar-lhe um poderoso chute que a jogue em direção de um outro jogador, e rezar pra que ele seja atingindo pela bola sem controlá-la com pés ágeis (o que poderia resultar em um vingativo contra-ataque).</p>
<p>No momento que a bola entrava em contato com seu nariz, testículo esquerdo ou qualquer outro ponto cuidadosamente premeditado pelo oponente pra causar mais dor, você se tornava automaticamente o alvo dos outros quarenta moleques que povoavam a quadra; chamemos o jogador atingido de &#8220;Infeliz&#8221;. Nesse momento, a menos que o Infeliz tocasse os &#8220;pontos salvos&#8221; ou acertasse outro jogador com a bola, qualquer pessoa num raio de dois quilômetros tinha o direito quase bíblico de descer a porrada nele.</p>
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</script></center></div><p>Os momentos imeditamente seguintes ao contato Bola-Infeliz eram os mais difíceis de se estabelecer o número exato de jogadores. Qualquer transeunte que por um motivo ou outro não fosse muito com a cara do Infeliz do momento sentia a obrigação moral de largar o que estivesse fazendo e participar do jogo imediatamente, mesmo que só por essa rodada. Era uma oportunidade única de sentar o cacete num desafeto de forma completamente impune.</p>
<p>Não era raro encontrar no meio do público espectadores que assistiam ao jogo com a única finalidade de invadir a quadra quando um inimigo de longa data fosse transformado em Infeliz. Era o momento mágico em que você poderia se impulsionar da parede igual o Megaman, arremessar-se em direção à turba ensandecida e, praticamente anônimo, introduzir uma potente voadora no meio do joelho do sujeito sem que ele tivesse muita chance de revidar. Com outros oitenta pés voando em direção ao seu rosto, é impressionante como você perde a capacidade de se defender.</p>
<p>Futebol Kombat dava uma chance única às castas reprimidas da escola, que no jogo podiam canalizar suas frustrações e os anos de abandono social escolar em um salto mortal com perna estendida em direção às órbitas oculares de alguém que fosse levemente (ou não) relacionado aos seus desgostos juvenis.</p>
<p>Ao contrário do que possa parecer, o Infeliz não era totalmente indefeso. Bom, ele estava invariavelmente fodido, isso é fato &#8211; mas havia algumas regras que davam uma efêmera sensação de segurança. Se não fosse por elas, a prática do Futebol Kombat dificilmente teria se estendido a uma segunda partida.</p>
<p>O Infeliz tinha basicamente duas escolha. A primeira era correr desabaladamente em direção aos supracitados &#8220;pontos salvos&#8221;, ou seja, verdadeiros totens de segurança mágica. Com um toque, todos os outros jogadores abandonam a perseguição e voltam sua atenção à bola, exceto aqueles que não queriam dar a corrida como perdida e metiam-lhe uma voadora nas costas <em>anyway</em>, alegando que &#8220;<em>porra, não vi tu pegando na trave, ein! Mas tudo bem, isso são águas passadas. Sem ressentimentos, né? Cadê a bola?</em>&#8221;</p>
<p>A segunda opção do Infeliz era defender-se como podia dos avanços bárbaros daqueles que há dois minutos eram bons amigos seus e até pegavam carona com você nos dias em que os pais deles voltavam bêbados pra casa, espancavam a mulher, chutavam o cachorro e dormiam sentados na privada, esquecendo de pegá-los no colégio. É desnecessário dizer que essa opção funcionava por menos de 10 segundos, até que você percebia que sair correndo em direção à trave talvez resultassem em menos hematomas.</p>
<p>Havia algumas táticas alternativas, também. O momento em que a bola te acertava no meio das costas (ou seja, sua &#8220;coroação&#8221; em Infeliz) era o exato instante em que muitas crianças ingênuas o bastante para assistir o jogo de perto eram arrancadas do meio da multidão e eram literalmente <em>arremessadas</em> em direção aos atacantes.</p>
<p>Valia agarrar o que o braço encontrasse; vi moleques sendo puxados pela cueca, rodopiados e jogados no meio da galera como um pedaço de filé jogado num aquário de piranhas. Mas era um tipo especial de aquário que, invés de água, estava preenchido com uma mistura de ácido sulfúrico, urina e explosivo plástico em chamas.</p>
<p>Diz-se que a necessidade é a mãe da invenção. Seja lá quem falou isso devia jogar ou ao menos assistir Futebol Kombat &#8212; nos momentos de desespero, os Infelizes transformavam qualquer coisa em seu alcance em rudimentares armas brancas de curto e longo alcance, com considerável sucesso.</p>
<p>No melhor estilo MacGyver de ser, camisas viravam chicotes e sapatos viravam luvas de boxe. Vi até um garoto arriscar uma tentativa de fabricar uma espécie de funda bíblica (como aquela usada por Davi contra Golias), que funcionaria propulsionando o sapato a velocidades indecentes girando a camisa acima da cabeça e liberando o sapato em seguida. É uma pena que alguém acertou-lhe um chute na virilha antes que sua invenção pudesse nos maravilhar com seu funcionamento.</p>
<p>Como é perceptível, a despeito do esforço e criatividade dos jogadores, lutar contra a maré em Futebol Kombat acabava sendo infrutífero em 127% dos casos. Ou você corria desesperadamente, ou aceitava as porradas de peito (e braços, e cotovelos, e canelas, e pescoço) aberto. Resistência, como diriam os guardas Vogons, era fútil.</p>
<p>Aquele que nunca jogou Futebol Kombat não sabe a definição correta de &#8220;adrenalina&#8221;, a menos que você tenha um dicionário ou uma conexão à internet e o link de um dicionário online, senão nesse caso você sabe a definição de adrenalina. Em um segundo de jogo, dúzias de emoções diferentes atravessavam sua mente &#8212; o puro terror de ver a bola avançando velozmente contra você; a conclusão quase imediata de saber que não poderá sair da rota de colisão com ela; o choque e a constatação de que ela havia de fato entrado em contato claro com seu joelho, e finalmente o momento em que os outros jogadores também percebiam isso&#8230; ahhh, era bom demais.</p>
<p>É por isso que <a href="http://g1.globo.com/parana/noticia/2011/02/menino-e-agredido-durante-uma-brincadeira-em-escola-no-norte-do-pr.html" target="_blank">esta notícia</a> me causa uma certa revolta. Essencialmente, um garoto tava jogando Futebol Kombat com a molecada, apanhou mais que mulher de malandro, voltou pra casa chorando e de alguma forma isso acaba virando matéria de jornal.</p>
<p>Porra, Londrina! Quando eu morei aí (e estudei em escola estadual também, a Carlos Dietz, e não sei como demônios eu lembro disso porque o ano era 1991), e o povo aí era mais macho.</p>
<div id="attachment_2892" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/02/porrada.jpg"><img class="size-full wp-image-2892" style="border: 1px solid #000000;" title="porrada" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/02/porrada.jpg" alt="" width="408" height="330" /></a><p class="wp-caption-text">Agora eu já expliquei a parada, porra.</p></div>
<p style="text-align: left;">Sinceramente, ein.</p>
<p style="text-align: left;">Arrume uns amigos, convença-os a aceitar porradas com esportividade ainda que estas signifiquem gastos desnecessários com meses de fisioterapia e vá jogar um Futebol Kombat hoje mesmo! Na pior das hipóteses, você tira umas fotos dos resultados da partida e ganha uma graninha vendendo as imagens pro liveleak.com</p>
<p>O Liveleak paga por essas coisas, né?</p>
<div style='clear:both'></div>]]></content:encoded>
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		<title>Meu primeiro emprego</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Jan 2011 19:46:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Kid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minha infância]]></category>

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		<description><![CDATA[Nem toda a minha infância/adolescência consistiu de vagabundagem na rua com os amigos e madrugadas em claro batendo papo no IRC. Houve uma época na minha vida em que eu acordava cedinho de manhã, tomava um banho (ok, essa parte nem sempre), caminhava sonolento até a parada de ônibus &#8211; inevitavelmente lotado &#8211; e batia<a href="http://hbdia.com/wordpress/minha-infancia/meu-primeiro-emprego/">&#160;&#160;[ Read More ]</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="in_post_ad_top_1" style="margin: 5px;padding: 0px;"><script type="text/javascript"><!--
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<br></div><p>Nem toda a minha infância/adolescência consistiu de vagabundagem na rua com os amigos e madrugadas em claro batendo papo no IRC.</p>
<p>Houve uma época na minha vida em que eu acordava cedinho de manhã, tomava um banho (ok, essa parte nem sempre), caminhava sonolento até a parada de ônibus &#8211; inevitavelmente lotado &#8211; e batia ponto numa empresa. Trabalhei quase um ano como operador do CPD de uma grande empresa de metalurgia do Maranhão.</p>
<p>O dono da empresa, um cara tão gente boa quanto era rico (o que é raro) era amigo de igreja da minha mãe e praticamente me empurrou pro emprego.</p>
<p>Pra fins práticos, chamarei este de meu primeiro emprego &#8220;oficial&#8221; &#8212; na verdade, a primeira função que eu exerci na vida pra ganhar dinheiro tratava-se de digitar trabalhos pra estudantes universitários. Contarei essa história outro dia.</p>
<p><span id="more-2487"></span></p>
<p><a href="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2004/06/cubículo.jpg"><img class="aligncenter" style="border: 1px solid #000000;" title="cubículo" src="http://hbdia.com/wordpress/wp-content/uploads/2004/06/cubículo.jpg" alt="" width="450" height="431" /></a><br />
O lugar onde eu &#8220;trabalhava&#8221; era parecido com esse aí, porém um pouco mais espaçoso. Digo &#8220;<em>trabalhava</em>&#8221; porque na verdade eu não trabalhava, eu <strong>ESFORÇAVA-ME AO MÁXIMO PARA NÃO FODER MUITO COM A EMPRESA.</strong></p>
<p>Mas esse esforço era em vão. Bom, na verdade eu nem lembro de me esforçar muito &#8211; esse era o problema.</p>
<p>Enfim, independente das minhas tentativas contrárias, eu fazia merdas que fariam até mesmo o cara mais atrapalhado e inútil do mundo olhar pra mim revoltado e dizer &#8220;<em>Caralho mermão, sai daí, deixa que eu faço!</em>&#8221; Se chefe tivesse idéia das merdas que eu fazia quase todo dia, eu teria ido pra rua <strong>muito</strong> antes.</p>
<p>Existem seis níveis de cagada no emprego, que listei abaixo em ordem crescente de magnitude destrutiva:</p>
<p><strong>1)</strong> Aquele vacilo pequeno, que pode ser escondido facilmente;</p>
<p><strong>2)</strong> O errinho que é percebido por alguns, mas pode ser consertado antes que o chefe volte;</p>
<p><strong>3)</strong> A pisada de bola estrondosa que todos percebem mas que, com sorte e ajuda dos astros, ainda pode ser remediada;</p>
<p><strong>4)</strong> A merda astronômica que causa prejuízos irreparáveis e demissões;</p>
<p><strong>5)</strong> A catástrofe apocalíptica que destrói a empresa além de provocar queimaduras de terceiro grau, litígio jurídico e mortes;</p>
<p><strong>6)</strong> As coisas que eu fazia quando trabalhava &#8211; também conhecido como <strong>Fator Quide(sgraça)</strong>.</p>
<p>Meu trabalho não era muito complicado, mas ainda assim eu conseguia foder tudo e todos em minha volta. Parecia que um campo de energia negativa provocada por Vênus rodeava minha aura mística transcendental, provocando um sem-número de contratempos e putarias. Não era culpa minha não.</p>
<p>Uma de minhas funções era operar o sistema de controle de distribuição de material, designando rotas para os caminhões que entregavam ferro e aço aos pontos de construção ao redor da cidade. No programa, os bairros eram representados por números de 001 até 023, se não me falha a memória. Quando eu ia cadastrar uma nova entrega, digitava um desses números. O nome do bairro que seria o destino do material saía impresso numa folha, junto com a relação do inventário.</p>
<p>Pra começo de conversa, como eles atribuem uma tarefa dessas <strong>A MIM</strong>!? Qualquer pessoa que leia este diário virtual dificilmente me deixaria a cargo de sequer fritar um ovo, e nos os culpo. Se o chefe lesse o HBD<strong> </strong>(que já existia na época, aliás) nada disso teria acontecido.</p>
<p>Entretanto, vejam que a tarefa em questão era bastante simples, bastava prestar um pouco de atenção. Infelizmente, tal faculdade mental é uma desconhecida para mim.</p>
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</script></center></div><p>Então eu de vez em quando (leia-se <strong>COM FREQUÊNCIA ASSUSTADORA</strong>) errava o número dos bairros e ocasionava a entrega de material em endereços errados ou inexistentes. Uma vez mandei um caminhão cheio de barras de aço pra um bairro que ficava praticamente numa cidade vizinha. Os caras chegam lá só pra descobrir que, onde deveria estar a construção de uma escola, funcionava uma padaria.</p>
<p>Minha outra função era ainda simples: eu deveria pegar as segundas-vias das compras efetuadas pela empresa e grampear nelas os canhotos das terceiras-vias. Aquilo tudo ia pro contador, para que ele controlasse o fluxo de grana dentro da compania.</p>
<p>Um serviço <strong>SIMPLES</strong>. Ninguém seria capaz de foder algo tão trivial. Quer dizer, ninguém além deste que vos escreve. Um serviço simples não significa que eu não vou descobrir uma forma de faze-lo de maneira errada.</p>
<p>Uma vez, no fim do dia, após ter grampeado mais de <strong>DUZENTOS</strong> canhotos, percebi que havia anexado-os à <strong>PRIMEIRA VIA</strong>, ao invés da segunda. Eu teria que tirar todos os grampos, descer ao almoxarifado, procurar as segundas-vias do dia e regrampear tudo. Mas era minha hora de ir embora, porra. Sem consternação, passei uma liga elástica em volta dos papéis e entreguei na mesa do meu supervisor.</p>
<p><em>- Aê chefia, tudo beleza.</em></p>
<p>Outra vez, fui pedido para destruir as duplicatas antigas (as que tinham mais de um ano). O supervisor deixou bem claro que eu devia prestar muita atenção na data das duplicatas antes de rasga-las. Eles precisavam arquivar as mais recentes, a perda de uma delas não podia ser cogitada.</p>
<p>Os documentos estavam todos dentro de um grande saco de lixo. Era duplicata pra caralho, eu calculo que havia ali uns 15 quilos de papel. Fui pegando, olhando a data e, dependendo dos números, rasgando ou colocando na caixa ao lado. Aí as influências satânicas se mobilizaram pra foder comigo mais uma vez.</p>
<p>Havia muito mais duplicatas antigas que recentes, então quase todas que eu pegava, rasgava. Era o seguinte: Meter a mão no saco, pegar um papel, olhar a data, coçar o saco, rasgar. Não o saco, o papel.</p>
<p>Acontece que, quando se começa a fazer uma coisa repetidamente, o cérebro liga o piloto automático e desliga a atenção.</p>
<p>Assim, a etapa &#8220;<em>olhar a data</em>&#8221; acabou sendo eliminada do procedimento.</p>
<p>Quando me dei conta, havia rasgado <strong>TODOS</strong> os papéis dentro do saco, com exceção de duas que ainda sobraram no fundo. Peguei os papéis consternado: nenhum deles era uma duplicata recente, o que significava que eu havia rasgado <strong>TODAS</strong> as outras.</p>
<p>Sem exasperação, fui até o armário de material de escritório, apanhei um monte de papel de duplicata e joguei no meio das que ainda não estavam rasgadas. Nunca fiquei sabendo qual foi a surpresa do meu supervisor ao descobrir que, onde deveriam estar as duplicatas recentes, nada havia além de duas antigas e papéis em branco. Aquela era minha última semana no trampo, e eu não vi o cara até meu último dia porque ele tava viajando.</p>
<p>Isso sem mencionar as incontáveis vezes que eu ia lanchar numa padaria próxima e, quando voltava ao prédio, dava <strong>DE CARA</strong> com o chefe, com as mãos cheias de quitutes e guloseimas.</p>
<p>Isso me irritava demais. <strong>TODO MUNDO</strong> ia lanchar numa boa e nunca era pego no flagra. Bastava <strong>eu</strong> pôr o pé na rua e a porra do chefe por algum motivo tinha que sair da sua sala e dar uma volta pelo complexo. As salas ficavam acima do depósito de material, e volta e meia (leia-se <strong>SEMPRE QUE EU RESOLVIA SAIR PRA FAZER UMA BOQUINHA</strong>), ele ficava dando voltas lá por baixo. E era batata, sempre esbarrava com ele na entrada, trazendo pastéis e refrigerante nas mãos.</p>
<p>Havia muito mais merda, por exemplo, a bagunça que eu fazia com os cobradores. No sistema de cobrança, eu deveria atribuir certas duplicatas a certos cobradores. Eu <span style="text-decoration: underline;">sempre</span> errava, designando as cobranças erradas para os cobradores errados. O que acontecia era que, como o cara não estava designado para efetuar aquela cobrança que eu registrei com o nome dele na máquina, ele não ia. E o devedor não pagava.</p>
<p>Falando em não pagar, o erro mais aloprante era sem dúvida o que eu fazia na hora de registrar pagantes e devedores. Na lista de devedores, um Enter em cima de um nome significava que o indivíduo já havia pago seus débitos, e seu nome era removido da lista. Como eu fazia sempre com pressa pra acabar logo, acabava dando Enter em nomes errados. Esse vacilo causava prejuízo à empresa (pois o sistema entendia que o fulano já havia pago algo que na verdade não pagou), e deixava puto o cliente que <strong>havia</strong> pago sua dívida, mas cujo nome não havia sido &#8220;Enterizado&#8221; por mim. Um formidável erro duplo.</p>
<p>Meu Deus, agora que escrevo essas memórias, percebo que não produzi nada naquele lugar &#8211; pelo contrário, só avacalhei. Seria melhor para a empresa se eles me pagassem para <strong>NÃO</strong> ir trabalhar.</p>
<p>É de se admirar que eu eu tenha passado quase <strong>um ano</strong> lá, tempo mais do que suficiente para destrui-la. Mais admirável ainda é que isso não aconteceu.</p>
<p>Googleei o nome da empresa e achei o site deles. Pra minha surpresa, boa parte dos vendedores ainda trabalha lá, e o administrador do site é o meu supervisor da época. Que curioso.</p>
<div style='clear:both'></div>]]></content:encoded>
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