Como os senhores devem saber (não é possível que leiam esta merda e me sigam no tuíter e não saibam), eu trabalho no turno de madrugada numa loja de… erh, artigos adultos.
Então.
Trabalhei aqui, neste expediente (11 da noite até 7 da matina), por um pouco mais de um ano. A adaptação ao novo horário de sono foi um pouco punk, e causou uns desarranjos biológicos sinistros – passei alguns meses dormindo 3-4h por dia -, mas agora já estou plenamente acostumado ao estilo de vida notívago. Chegou ao ponto em que eu nem consigo mais lembrar como era a vida antiga de acordar de manhã e ir dormir à noite.
Bom, nos últimos dias eu tento lembrar, porque em breve voltarei a ser um ser humano comum.
Além do desgaste físico e social relacionado a trocar a noite pelo dia, a constante ausência noturna começa a after meu relacionamento, também. Moro com minha mulher, e apenas em dois dias da semana posso dormir ao lado dela. Perder esse pequeno privilégio da vida de casal pareceu inicialmente pouca coisa, mas é algo que gradativamente começou a nos incomodar.
Nos últimos meses, ambos nos tornamos insatisfeitos com esse estilo de vida. Então, pedi à gerência que me transferisse pro turno da tarde.
O problema de fazer um bom serviço num expediente em que não há muita gente disposta a cumprir, é que a gerência não se sente feliz em ter que arrumar outra pessoa que execute o serviço da forma exata que eles gostam.
Por isso, por um bom tempo meus pedidos de transferência foram empurrados com a barriga. Me vi na tragicômica situação de me dar mal no emprego por ser um bom funcionário.
Dei um ultimato. Ou me transferiam pro turno da tarde, ou eu teria que procurar outro emprego. Dois dias depois eu já tava treinando meu futuro substituto aqui.
E puta que pariu, que infeliz CHATO.
O cara tem uns 50 e tantos anos e, como ele não deixa ninguém esquecer, já foi piloto, instrutor de vôo e de paraquedismo. Por causa de um acidente de carro ou algo assim (eu parei de prestar atenção no papo dele logo cedo), ele não pode mais exercer a função para qual treinou por mais de vinte anos.
Ok, beleza. Consigo me sensiblizar com a desgraça que deve ser perder todo o tempo e esforço que você investiu numa especialização. E pior, parece que o acidente era meio culpa dele ou algo assim, ele não conseguiu muita grana do seguro. Uma desgraça, não há dúvida.
Mas não espere que eu seja seu amiguinho ou queira ouvir as merdas que você tem a dizer.
Como já mencionei, o desgraçado tem o infeliz hábito de sequestrar as conversas e empurra-las na direção da aviação. Qualquer ligação, por mais tênue que seja, é suficiente pra ele começar a tagarelar sobre aeroportos e ailerons e flaps e trens de pouso e sei lá mais o que. Fico o tempo todo me policiando, tomando cuidado pra não falar nada que tenha conexão com esses assuntos.
Infelizmente, o que eu acabei descobrindo é que não existe assunto distante o bastante que ele não seja capaz de rapidamente achar uma conexão com aeronáutica e comece então a matraquear sobre aviões e equipamentos relacionados.
Pior que isso, ele é aquele tipo sujeito que tenta muito soar inteligente. Sabe qual é? Lembra aquele CDF da sala que insistia em “completar” a explicação da professora, pra deixar claro que ele tá entendendo a matéria melhor que todo mundo, ao ponto de clarividência?
Então, esse filho duma égua tem esse hábito. Eu tento explicar algo sobre procedimentos da loja, e ele se adianta e fala “ah, e a gente faz isso porque X, Y e Z, né?”
“Ahn, não.” e lá ia eu explicar, de uma forma relativamente educada, que não tinha nada a ver com o que ele sugeriu e que ele deveria parar de tentar soar inteligente e me deixar treina-lo em paz.
Ele faz isso insistentemente, sem qualquer cerimônia, e em sua pressa ele acaba falando uma pérolas incríveis. Por exemplo, eu mencionei pra ele que se um cliente pedir pra usar o telefone da loja, a política é de não permitir. Aí lá vai ele:
“É mesmo, porque se alguém pegar nosso telefone e sair correndo, ele poderá ficar usando nosso telefone o quanto quiser.”
Encarei-o sem dizer nada. Ele explicou:
“É, porque aí ele poderia sair por aí usando nossa linha até que a gente a cancelasse!”
Eu não sabia nem o que responder pro indivíduo. Como é que alguém recebe autorização dos órgãos reguladores responsáveis pra pilotar um avião cheio de passageiros, e não compreende o funcionamento de um telefone sem fio? Fiquei embasbacado com essa incomum mescla de expertise com estupidez.
Além disso, ele parece não se tocar quando alguém não tem interesse em conversar sobre alguma coisa. Por exemplo, tudo que ele faz da vida, pelo que pude analisar de acordo com as conversas dele, é assistir TV.
Volta e meia ele tenta me contar sobre alguma coisa que aconteceu em algum reality show que na melhor das hipóteses eu nunca ouvi falar, e na pior, eu odeio que falem sobre.
No primeiro dia ele falou sem parar das aventuras de um tal capitão Phill sei lá o que, de um programa chamado The Deadliest Catch. Um programa de PESCARIA.
Agora, você sabe quem eu sou. Sou um nerd, curto quadrinhos, videogames, tecnologia, ficção científica, essas coisas que você também provavelmente gosta. Sabe qual é o meu interesse num reality show de pesca? Absolutamente nenhum.
A outra situação relacionada foi quando ele veio me falar sobre alguma das últimas presepadas da Paris Hilton. A essa altura eu já tava mais ousado e de saco cheio e por isso falei, de sopetão, interrompendo uma frase dele:
“I don’t care about Paris Hilton”.
Alguém talvez pergunte “mas Quide/EasyPobre, que boçalidade é essa de escrever em inglês quando um simples “EU NÃO GOSTO DA PARIS HILTON” serviria?
Aí que tá, amigos. A expressão “I don’t care” é muito mais potente do que um simples “eu não gosto”. O “I don’t care” implica algo maior e mais abrangente que simplesmente não gostar. Ele representa um estado perpétuo e irreversível de indiferença e desinteresse.
E outras palavras, ele equivale a dizer “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”.
Então. Falei “I don’t care about Paris Hilton”, que deveria servir como um aviso claríssimo de que eu não me interessava na conversa. A reação dele?
“Oh, I don’t care about her either. But I saw on TV that she bla bla bla bla bla bla bla”.
Incrível. Eu achava que a indireta havia sido direta até demais, ao ponto de beligerância, mas pelo jeito o cara é mais burro do que eu dei crédito anteriormente. Resolvi chutar o pau da barraca.
“Acho que você não me ouviu. I don’t care about Paris Hilton”.
Impassível, ele continuou:
“Eu também não, mas olha só o que ela aprontou agora!”
Não é possível. Como é que o cara é – supostamente, porque já começo a ter minhas dúvidas – capaz de ler complicadas instrumentações aviônicas, mas fracassar tão miseravelmente na simples e clara comunicação verbal humana?! Cabe uma tese de TCC aí.
Foda-se então, vai ter que ser na truculência mesmo.
“Cara, quando eu digo que eu don’t care sobre a Paris Hilton, isso significa que eu realmente não me interesso no assunto e não vou participar da conversa, tu vai ficar falando sozinho aí, na boa mesmo”.
E nessa o cara FINALMENTE se calou. Por uns 3 minutos, aí passou a comparar aviões. Você pensa que eu estou brincando né?
Outra coisa enlouquecedora que ele faz é seguir você. Saca só, imagina eu falando uma bobagem qualquer pro cara (nos momentos de solidariedade em que eu decidi estender a ele o contato humano verbal).
Agora, se eu me levanto e dou umas voltas nas redondezas da loja, mesmo numa distância pequena e que mantém a linha de visão o tempo inteiro, o cara se levanta e me segue BEM DO MEU LADO. A distância é pequena, a loja é vazia e silenciosa, dá pra manter a conversa sem problema. Mas não – ele tem que seguir você colado.
Isso é enlouquecedor e não demorou muito pros outros funcionários reclamarem do hábito. Por mais que eu dê voltas pela loja tentando despistar o cara, ele me segue numa distância que seria apropriada apenas para a Sra Izzy Nobre, e ninguém mais. É de enlouquecer, sério.
Por causa da presença inconveniente do desgraçado, eu perdi uma boa parte da diversão do meu emprego, que era justamente chegar aqui na porra da loja, trancar a porta (uma nova medida de segurança, depois daquele assalto), ligar o iPad e ler livros/revistinhas/assistir filmes/acessar a web no maior conforto, silêncio e solidão.
Não é que eu seja totalmente anti-social. Amo meus amigos e meus momentos mais felizes são justamente aqueles em que saio com eles, ou nos encontramos pra jogar videogame, etc.
Acontece que na nossa vida contemporânea, não há muitas oportunidades pra nos isolarmos completamente. E isso é bom às vezes.
Ou melhor, era. Tive que abrir mão dos meus turnos soliltários pra trabalhar durante a tarde, com uma menina que provavelmente vai dar assunto pra outro post similar porque ela também não é exatamente um cientista de foguetes da NASA.
Bom, tudo isso pra poder voltar a dormir abraçadim com a mulher. Valerá a pena.






É bem esse o tipo de preconceito arrogante que espera-se de um trollzinho que se acha o rei dos trolls.
Aposto como vai ter dezenas de puxassacos aqui pra te apoiar esse desrespeito com o cara. Você são patéticos.
Milson, que desrespeito? Ele nem falou o nome do cara!
>> Chama todo mundo de patético gratuitamente;
>> Reclama de “desrespeito”.
>> Faz a suposição automática de que TODOS vão discordar com ele e por isso os ataca;
>> Reclama de “preconceito”.
Volte sempre.
Pior que tem gente mesmo que não se toca brother. Agora tu tem que aturar e torcer para ele ficar com seu horário mesmo né?
Parabéns pelo post Kid, divertido como sempre!
P.S.: Engraçado o cidadão aí em cima, acho que patético é ficar acordado até às 5 da matina para comentar num blog simplesmente ofendendo outra pessoa!
Porra Izzy, ele tem mais de 50 anos? Ele poderia ser seu pai, trate-o melhor e vá lanchar com ele na McDonalds.
HAHAHAH pow, estranho demais a situação. Ele simplesmente quer mostrar que entende de alguma coisa e só tá vendendo piroca pq fez merda no acidente e tal, mas vc escreveu um post para provar que vende piroca melhor que ele e que está tentando passar a arte de vender dildos para ele e ele o interrompe falando da Paris hilton. Bem, ela deve curtir pirocas, então o assunto estava dentro do contexto. LOL
Muito bom, pelo menos voltará a dormi com a Sra. Izzy.
Izzy, indo para o cerne do assunto, tem uma outra definição da frase “I don´t care about Paris Hilton”, que é a que o Cientista de Foguetes aí deve ter entendido – Em muitos lugares, é a MESMA coisa de dizer “Eu não gosto” da Paris Hilton” ou “A Paris Hilton não me agrada”, por mais que parecem iguais, não são, é como se essa locução quisesse dizer “A Paris Hilton me irrita”, mas de um jeito mais polido.
Comparando meio cruamente, é como o cara dizer “I beg your pardon”, quando quer dizer mesmo “WTF?” como você mesmo disse.
E em relação ao imbecil ali de cima, seria interessante ele ter um chato do lado para ver como funciona esse primor de educação que ele claramente tem. Certamente iria aguentar por um bom tempo. Tortura lenta, mas é a tortura que o cara escolhe. Você escolheu ser sincero e estabelecer seus limites.
Para mim está certíssimo.
O cara xinga o escritor, mas está lá lendo o que é escrito. Quem está desrespeitando quem?
Ae, Kid, essa história também vai pro livro né? hehehe
Parabéns pelo post. Divertido como sempre.
BTW, tô desconfiado que o Milson é “aquele” Mariano do orkut. Fica de olho. xD
Adoro meu trabalho solitário também. Lidar com seres humanos é extremamente péssimo.
Eu te entendo. Juro que te entendo.
=~
Se fosse comigo, acho que eu enlouqueceria também. Mas analisando por um outro lado… Ele até que é bitoladinho. Tbm, passar VINTE ANOS treinando pra pilotar aviões…
(agora, reality shows de pesca são de MATÁ, viu)
Bela dissertação, Kid! Adoro seus textos!
Divertido como sempre!
Odeio essa modinha de chamar todo mundo de “troll” e derivados. Isso é coisa de criança, de pseudo-intelectual antenado em memes que a MTV deturpa e leva pras massas. Ridículo.
Ahhhh se eu tivesse como sair daqui – AGORA – e ir aí pegar esse turno da noite…
Tu toparias, Easy? (Acho que pessoalmente eu consigo ser menos “malístico” que no Twitter)
PS: Falar ou não sobre o troll de comentários em questão?
Por questões éticas (e o último artigo que fiz pro meu próprio blog), é melhor não… ~_~’
parece que você não entende que essas pessoas se sentem solitárias, por isso puxam tanto assunto o tempo todo.
Izzy.
O melhor de tudo, é que quanto mais miserável é a sua vida… mas interessante são os posts.
Portanto…. fico no aguardo de vários deles relatando a sua sobrevivencia no turno da tarde !
Boa sorte
pequenos sacrifícios para voltares a ter uma vidinha humana comum …
Esse cara parece até minha avó (sério).
By the way, “I don’t care” equivale à “Eu não dou a mínima”.
O que não fazemos por uma foda constante…
Abrazos,
Eu conheço um cara relativamente parecido, doutor em engenharia eletrônica mas sem o menor tato pra vida social, aquele tipo que explica piadas e não entende nenhuma ironia. Pelo menos é do tipo que vc diz “quieto! junto!” e ele sossega.
Acho que o “don’t care about” teria similar num “tô cagando para” ou “tô pouco me fodendo para”.
Agora, depois disso tudo você se surpreende dele ter causado o acidente que o jogou em uma sex shop de madrugada?
Deixa o cara, já não chega ele chamar Milson?
Cara, nem me fala. É horrível mesmo. Conheço pessoas “chatas” assim. Agora, essa do te seguir sofro de uma versão parecida. O cara simplesmente vira da mesa de trás, vem do lado e começa a olha o meu monitor pra ver o que estou fazendo (virei agora pra ver se ele não tava aqui enchendo o saco, sério mesmo). Mas acho que tu ainda ganha nessa.
kkkkkkkkkk