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Simulacro e Simulação: filosofia, dinossauros e pornô

Postado em 31 maio 2011 Escrito por Izzy Nobre 82 Comentários

Em 1999 foi lançado um filme que mudou a minha forma de ver o mundo pra sempre.

Caralho, ainda lembro da empolgação de ver esse poster no cinema

O motivo pelo qual eu me tornei um fanboy eterno de Matrix é porque os irmãos Wachosmqhioeuiski bolaram um roteiro que, além de justificar cenas de ação inigualáveis na época, orbitava ao redor de uma questão que me angustiava há muito tempo (e olha que eu só tinha 15 anos na época): o que exatamente é real?

Sempre fui fascinado pelo conceito filosófico da definição do real, desde pivetinho. Quando a verdade sobre as existências do Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Bicho Papão foi revelada, comecei a pensar: o que mais contam pra gente que não é verdade? E se eu não sou realmente “eu”? E se meus pais não forem realmente meus pais? E se Deus também foi uma invenção humana? E se o mundo que vejo nos meus sonhos é a realidade, e o que eu penso ser realidade é na verdade algum tipo de ilusão? E se eu sou a única pessoa que existe de verdade, e todos que eu vejo ao meu redor são construções da minha imaginação? E se o mundo que nos rodeia é uma simulação de computador?

Desde então me tornei um ávido consumidor desse tipo de história. Nem preciso dizer que Inception se tornou o meu filme favorito desta década, por abordar muitos dos conceitos utilizados em Matrix. Qualquer filme, história em quadrinho, desenho, livro, artigo na wikipédia ou TVTropes que aborde realidades alternativas e a angústia de não conseguir distinguir entre o que é real e o que é ilusório muito me interessa.

Aliás, até Monteiro Lobato abordou o assunto, sabiam? Se não me engano, é no Memórias de Emília. A Dona Benta conta sobre o filósofo chinês que sonhou que era uma borboleta, e quando acordou achou intrigante a idéia de que talvez, ele seja uma borboleta que está sonhando que é um homem. Li isso quando tinha 8 ou 9 anos, e acho que talvez essa passagem do livro seja a origem do meu interesse por esse tema.

Então. Outro conceito filosófico que o filme aborda (e com uma metalinguagem muito interessante) é a do simulacro, um termo que deriva do latim “simulacrum”. Significa literalmente “similaridade”.

Simulacrum é, em termos simples, uma “cópia” de algo que não existe realmente; é tentativa de copiar algo que existe de verdade, mas com tantas diferenças que acaba não sendo uma cópia autêntica — mas que muitos compreenderão como uma representação fiel da realidade. Em seu livro Simulacro e Simulação, Jean Baudrillard argumenta que um simulacro não é uma cópia do “real”, mas que por ser aceito por muitos, acaba se tornando real — ou “hiper-real”.

Um artigo do TVTropes que lida com o assunto é o Reality is Unrealistic.

Um bom exemplo de simulacro são os dinossauros de Jurassic Park (que, inclusive, noto que foi abordado no tal artigo do TV Tropes).

Num trecho do livro (que não foi abordado no filme), John Hammond — o dono do parque — reclama praquele cientista chinês lá, o Doutor Wu, que os dinossauros clonados se movem muito rápido. Aos olhos do povo em geral, que está acostumado a ver animais grandes se movendo lentamente (um elefante ou uma baleia, por exemplo), a visão de um dinossauro imenso se movendo muito rapidamente parece surreal.

E ele tem medo que o povo volte pra casa após um dia no parque achando que os dinossauros são robôs ou algo assim. Por isso, ele pede pra Wu que talvez modifique o código genético da próxima “versão” dos bichos (no livro, eles tratam os dinos como software mesmo, com versões 2.1 e coisa assim). O Wu reclama de pronto, alegando que os dinossauros não deveriam ser modificados pra ficar mais próximos das expectativas dos leigos.

Se ele tivesse aceitado, os clones lentos seriam um simulacro — uma “cópia” que na verdade não é fiel à realidade, mas que todos aceitariam como se fosse.

Em Matrix, o assunto é abordado de forma deliciosamente metalinguística. Você deve lembrar da cena em que o Neo tá vendendo um software ilegal pro seu amigo  cyberpunk estranho.

Sabe porque foi fácil achar essa imagem no Google? Porque até hoje eu ainda lembro que o nome do cara era "Choi".

Lembra dessa cena? Claro que você lembra.

O cara dá o dinheiro pro Neo, e aí o hacker vai lá e cata um livro da estante. Este aqui:

Que ele abre e revela isto:

Manjou a brincadeira? O livro que trata sobre cópias falsas era falso e utilizado apenas como um compartimento pra disquetes. Mais interessante ainda é o fato de que Simulacro e Simulação tem apenas 164 páginas, enquanto o livro do Neo é visivelmente bem mais grosso. Ou seja, a cópia é bastante diferente do real.

O fato de que os irmãos Wachowacho usaram justamente o livro do Baudrillard pra fazer essa tomada é genial.

Então, o motivo pelo qual estive pensando nisso tudo esses dias é porque notei recentemente no trabalho que o mundo pornô também tem exemplos interessante de simulacro.

Este texto sobre filosofia agora é sobre putaria

Eu poderia dizer que pornografia é um simulacro porque ele sempre mostra casais muito mais atraentes do que a média da população humana, em situações completamente absurdas (ao contrário do que roteiristas pornográficos parecem pensar, no mundo real entregadores de pizza não saem comendo tantas clientes assim, se é que comem alguma sequer), e praticam modalidades de sexo que não são seguras, práticas, ou sequer tão prazerosas assim.

Mas esses dias eu descobri um exemplo mais interessante do simulacro pornográfico. É o conceito de fluffers — ou, mais especificamente, filmes que divulgam a existência das “fluffers de verdade!”

Tipo esse aí

Aulinha de terminologia pornográfica: no mundo pornô, uma “fluffer” é uma garota contratada pela produção pra manter os atores em estado de ereção entre takes.

Acontece que fluffers nunca existiram. O que acontecia é que, nos anos 70 e 80, a indústria pornográfica não era um lance tão sério e profissional como é hoje. E rolava que amigos(as) dos atores e dos diretores costumavam frequentar os sets, pra ver como as coisas eram e tal.

E esse povo era, digamos, chegado a uma putaria. Não era raro aquele grupinho de espectadores começarem a se bolinar atrás das câmeras, ou se envolver com os atores ou membros da produção. Surgiu a mitologia de que essas meninas que pintavam a toa em sets de filmes e acabavam trepando com os atores entre as tomadas eram contratadas pra fazer justamente isso — mante-los excitados enquanto as atrizes retocavam a maquiagem ou reaplicavam lubrificante.

Contemporaneamente, sabe-se que fluffers eram um mito. Havia realmente esses “extras” orbitando os sets, e algumas acabavam de fato trepando com os atores, mas era um lance espontâneo, não era uma função oficial das meninas. O Ron Jeremy, aliás, ajudou a desmistificar a prática em sua auto-biografia.

Então. No ano passado esse estúdio Immoral Productions lançou a série “Fluffers”, que mostra o behind the scenes dos filmes pornográficos. Um ator tá lá comendo a atriz, ele anuncia que tá perdendo a ereção, nisso as filmagens páram e uma fluffer entra em cena pra “ajudar” o cara. A tagline da série é “real-life Fluffers caught in action”. O verso da caixa do DVD diz algo como “a única série com fluffers de verdade!”.

Aí que tá. Como fluffers nunca existiram, essa “simulação” é na verdade um simulacro — havia uma lenda, muitas pessoas acreditavam na lenda, e então um estúdio bolou um filme se baseando nessa mitologia, e vende aquilo como se fosse uma representação da realidade.

Mas como as fluffers nunca realmente existiram, a idéia por trás do filme é hiper-realista. A “realidade” que ela anuncia é completamente inventada.

Taí um assunto interessante pra você puxar na sua próxima aula de filosofia. Duvido algum outro aluno conseguir relacionar pós-modernisno com pornoputarias, seu professor ficará impressionado!

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Categorias: Contos da porn shop

82 Comentários \o/

  1. AgaGê disse:

    Thanks, você acaba de me garantir um 10 em filosofia xD

  2. Nat disse:

    Simulacro seria mais ou menos o contrário dos Mythbusters. Você tem um mito e, invés de mostrar a realidade (ou não-realidade) dele, vc basicamente inventa um modo pra que ele seja real. LOL, vou atrás desse livro.

  3. AgaGê disse:

    P.S.: penultima linha ta escrito filosogia xD

  4. davi disse:

    Simplesmente lol.

  5. CCCC disse:

    Kid viado vai morrer de tanto simulacro no cu.

    Um post de merda, em um blog de merda, feito por um merda.

  6. Agora entendi de vez de onde vem o nome “simulacro” para airsoft :P

  7. Felipe disse:

    A grande diferença entre Inception e Matrix é, pra mim, toda a questão política e a crítica a direita ideológica que não está presente no filme de Cristopher Nolan. Algo que não foi citado, mesmo sendo, sem sombra de dúvida, a coisa mais importante na trilogia.

  8. Bruno disse:

    Safado… postou a continuação da suspensão no outro site, hein? O desfecho realmente surpreendeu! =)

  9. Dessa vez eu discordo, Kid: “The Matrix” foi um dos pouco filmes que me fizeram dormir no cinema. Aliás, antes de o primeiro Matrix passar nos cinemas, eu já havia lido scans de Ghost in the Shell e Gunnm Battle Angel, isso sem falar no VHS do movie Akira e outras fontes de cultura cyberpunk, como quase todo aborrescente otaku da época…

    8-)
    Digamos que tive déjà vu de muita coisa daquele filme que, aliás, kiba muita coisa japa sob o pretexto de “inspiração” para a arquitetura da Matrix. Acho que fui o único que concordei com o José Wilker quando ele julgou “The Matrix” como um filme fraco para o Oscar, mas tive outros motivos. Em termos de enredo original, acho o terceiro Matrix, o Revolutions, como o melhor em tal quesito.

    :-?

    Não consigo considerar esse filminho religioso/filosófico (com bons efeitos especiais, reconheço) como o melhor de 1999: prefiro colocar Fight Club no topo daquele ano.

  10. João disse:

    A comparação entre o livro do Baudrillard e o The Matrix é um dos maiores clichês de qualquer aula que aborde o pós modernismo… Mas tá valendo…

  11. galogalei disse:

    deixa eu ver se entendi..
    simulacro é quando alguém fala que vai continuar uma história no blog dele, mas não vai. Ai o povo fica esperando como se isso fosse verdade. Mas não é hahaha

  12. Lucas disse:

    Izzy kd a continuação do post da suspensãoo ??

  13. Wilerson disse:

    Pensei em trollar o Quide, mas desisti.

    Kid, já leu Invisibles, do Grant Morrison? Recomendo, e ele trata sobre esse assunto.

  14. Romney disse:

    Realmente, quem nunca parou pra pensar se tudo não é uma mentira! E a pergunta seguinte a este pensamento: O que vem depois?

    A analogia do mito “fluffers” com matrix surgiu de um momento de profunda inspiração, hein?

  15. Kantynho disse:

    Teressante!

  16. TioJoao disse:

    Se tu gosta de Matrix le Neuromancer, se já nao leu. Depois voce decide se foi influencia, copia descarada e coisas do tipo

  17. Algust21 disse:

    Kid, só pra dar um feedback, seu site tá zuado no internetexplorer9.0

    Os títulos não aparecem.

  18. @thiagostocco disse:

    Texto foda, amigo Israel.
    Matrix = filme mais épico da história cinematográfica do universo

  19. CCCC Real disse:

    Kid viadinho vai morrer de… EI! Qualé…