Hoje eu tive a infelicidade de ter o conhecimento de que divido o mesmo planeta com pessoas da estirpe da Barbara Gancia.

Esta senhora aí é a Barbara Gancia, colunista da Folha de São Paulo e, aparentemente, entusiasta do ciclismo. Terei o respeito de escrever a graça dela corretamente, pois estou familiarizado com os chiliques que ela dá se alguém ousa acentuar como em "Bárbara".
Eis o motivo pelo qual eu rezarei diariamente para que esta respeitável senhora seja atropelada por uma colheitadeira nas próximas semanas.
A senhora Gancia escreveu em seu blog não um, não dois, não três, mas QUATRO artigos em defesa do diretor Roman Polanski, estuprador confesso e fugitivo da justiça americana há mais de trinta anos. Eis aqui o mais recente, que eu destrincharei a seguir.
Aos que estiveram por fora da história – em 1977, o aclamado diretor foi preso sob acusação de estuprar uma menor de idade (a garota tinha 13 anos). Entre as acusações constavam “fornecer drogas/álcool a um menor de idade” e “sodomia”. É isso mesmo, o sujeito – que na época estava em seus 40 anos – estorou as pregas de uma garota de 13 que havia ido à sua casa pra ser fotografada por ele.
Agora, eu já havia tido contato com o tipo de relativismo cara de pau que os fãs do diretor elaboram pra inocentar o indivíduo. Entretanto, eu não estava ciente que alguém com (supostamente) uma reputação a zelar se daria ao luxo de escrever argumentos tão vis na defesa de um pedófilo condenado pelo sistema judicial.
Vamos ver o que a mulher escreveu. Pra não achar que estou sendo tendenciosamente criterioso na escolha de quais trechos do argumento dela eu escolhi reproduzir aqui, faça um favor a si mesmo e clique no link acima e leia o texto por si mesmo. Debaterei apenas os pontos principais do discurso da mulher. Vamos lá:
1) a menina não era mais virgem quando se encontrou com Polanski. Apesar da pouca idade, ela já tinha tido mais de um namorado
Veja que a Sra Barbara Gancia não perde tempo tentando fingir que tem um bom argumento na manga – ela já parte logo pro absurdo.
A frase é tão estapafúrdia que eu tive que ler três vezes pra me assegurar de que estava entendendo direitinho. Barbara Gancia, pelo que pude entender, está insinuando que se uma menina já teve relação sexual alguma vez na vida, ela se torna incapaz de recusar os avanços masculinos, e portanto qualquer encontro carnal que acontecer em seu futuro foi por sua vontade livre.
A conclusão que ela tenta chegar, presumo, é que é “impossível” o diretor ter estuprado a menina, porque ela não era mais virgem. Se o texto não tivesse sido publicado num blog eu suporia que era parte do vernáculo legal vigente em alguma província inglesa do século XVI.
Quero colocar isso de uma forma perfeitamente inequívoca – Barbara Gancia tenta nos convencer de que, se você é mulher e não é mais virgem, você é legalmente incapaz de rejeitar um avanço sexual.
2) ela declarou que já tinha se embriagado outras vezes e também já havia ingerido quaalude em outras ocasiões
Nesta aqui Barbara Gancia mostra que além de todos seus outros louros (não encontrei nenhum, até onde sei a única coisa de nota que ela fez é ser colunista da Folha de São Paulo), ela também detém uma profunda ignorância na forma como a lei funciona.
É completamente indiferente, do ponto de vista legal, se a garota tinha ou não consumido álcool e drogas em algum ponto no passado. Fornecer álcool drogas a uma criança será ilegal de qualquer forma. Não há atenuantes.
Obviamente, alguém que está se esforçando em pintar a vítima de estupro como real culpado do crime não se preocupa com bobagens como “coerência” ou “conhecimento do processo legal relacionado ao caso que ela alega entender tão bem”.
3) a mãe da menina frequentava as festas do círculo de Polanski e sabia muito bem onde estava levando a filha
Li a frase sem entender por que ela acabava tão abruptamente – cadê o argumento aí? Polanski não é um estuprador pedófilo porque a mãe da menina o conhecia…?
Vou dar um crédito à colunista, imagino que ela esqueceu de completar a frase. Sem dúvida uma articulista que doma a retórica tão bem não escreveria algo tão desastrosamente ignorante, quase vilanesco, pra depositar a culpa de um estupro na estuprada (e, por extensão, em sua família).
Imagino que, se tivesse um pouco mais de disposição pra voltar ao assunto, Barbara Gancia culparia também os fabricantes da bebida alcoolica com a qual Polanski embebedou a garota, e a Kodak, por produzir o filme que ele usava na câmera com a qual fotografava a menina.
Um último ponto importante a ser lembrado é que Polanski namorou Natassja Kinski quando ela tinha 15 anos. E foram as fotos que ele tirou da atriz que ajudaram a lançar sua carreira no cinema.
Barbara Gancia é uma visionária. Ela não deixa seu estilo autoral ser reprimido por coisas insignificantes, como coesão ou parâmetros estabelecidos por ela mesma. Por isso, ela continua a listinha de desculpas a favor do estuprador, mas aboliu a numeração pra ser mais original e quiçá descoladinha.
Na primeira frase a Barbara acha importante frisar que há mais provas de que Polanski sente de fato uma atração doentia por menores de idade. Em seguida, como atenuante, ela salienta que, não fosse as fotos que ele tirou da atriz, ela seria uma desconhecida total.
Isso é mais ou menos como exigir que um filho agradeça o assassino do seu pai – se não fosse ele, como a foto do seu pai teria aparecido na primeira página do jornal local da cidade?
Na noite em que Polanski manteve relações sexuais com a menina Samantha (a acusação nunca foi de estupro), ela havia sido levada até ele pela mãe, para que ele a fotografasse para a revista “Vogue Homme”.
Barbara volta a bater na tecla de que a culpa era toda da mãe da garota, quase como quem diz “ei, se você não quisesse que o Polanski drogasse e estuprasse sua filha analmente, por que o apresentou a ele?”, como se isso fosse algo perfeitamente comum e de conhecimento público. “Como assim você não sabia que o Roman Polanski estupra crianças?”
Lembre-se, ela está tentando DEFENDER o cara enquanto insinua que alguém que não soubesse o que esperar dele era ingênuo.
Em seguida Barbara comete uma gafe que, se tivesse vindo de um mísero BLOGUEIRO, seria vergonhoso – imagine então de uma colunista publicada pela Folha de São Paulo: Barbara Gancia alega que a acusação contra Polanski “nunca foi de estupro”.
Talvez se a frase fosse “nunca foi APENAS de estupro”, ela estaria correta. Entretanto, sim, Polanski foi formalmente acusado de estupro. Acusação que ele CONFESSOU quando foi levado ao tribunal. That’s right – o julgamento foi uma formalidade. Polanski se declarou culpado e admitiu a culpa.
E, desde o primeiro momento, a família da menina nunca quis que Polanski cumprisse pena de reclusão.
Lembra quando eu mencionei que Barbara Gancia não entende como a lei funciona? Ela não quer que você esqueça disso, pelo que parece.
Acusaçao de estupro não é uma contravenção civil – é criminal. Não há diferença se a família da menina, ou a própria, perdoou o cara anos após o acontecido. Eles não tem mais como “voltar atrás” e largar o processo, como se poderia fazer em caso de difamação, por exemplo.
Começo a pensar que se essa mulher se ativesse a pedalar por aí e falar menos bobagem na internet, eu não teria tido todo o trabalho de esculacha-la e poderia, quem sabe, estar jogando Scribblenauts neste momento.
E, por isso tudo, 32 anos depois, querem levar um velho de 76 anos e de um metro e meio para a cadeia pelo resto de seus dias…
Este é o argumento final de defesa da Barbara Gancia – Roman Polanski tem 76 anos e apenas um metro e meio. Obviamente isso toma precedência sobre os fatos de que ele embebedou, drogou e sodomizou uma garota de TREZE ANOS DE IDADE (acusações que ele nunca negou), e em seguida covardemente fugiu do país quando viu que a casa cairia pro seu lado.
Vale lembrar também que, antes dessa listinha lamentável®, a colunista tentou relativizar a coisa toda lembrando que o cara é sobrevivente do Holocausto, e que teve a esposa assassinada pela turminha do Charles Manson (ela acusou o Manson pessoalmente do assassinato, o que não é exatamente o que aconteceu – ele foi o mandante, não o autor).
Me pergunto se ela fez parte do coro em protesto contra o filme brasileiro Ônibus 174 que, por mostrar a infância difícil do sequestrador do ônibus, foi visto por muitos como uma tentativa de atenuar o crime dele. Mas divago.
Barbara Gancia encerra seus “argumentos” com a seguinte frase:
Esse mundo cada vez mais asséptico que nós estamos criando me dá nojo!
Exatamente. Ao manter a opinião de que um estuprador com histórico de pedofilia e que fugiu da condenação deve pagar pelos seus crimes, estamos criando um “mundo asséptico” que a causa “nojo”.
Barbara Gancia deixou inequívoco que pedofilia e estupro são coisas triviais (pelo menos, quando cometidos por um diretor que ela admira) e que lutar contra elas tornará nosso mundo muito “asséptico”.
Poderia mencionar também a forma como ela age com afetada indignação contra o “desperdício de dinheiro dos contribuintes em encarcerar um velhinho”, como se seu dinheiro estivesse indo pro Fisco americano. Ou sobre como ela se mostrou completamente intransigente quando questionada no twitter, bloqueando qualquer um (a despeito da forma) que pedisse que ela elaborasse seu argumento em defesa do diretor.
Chega de “barbarismos”. Cadê meu Scribblenauts? Vamos ver se o jogo contém “colunista retardada” e “colheitadeira”, que eu resolvo o problema aqui.

Já me sinto melhor. Realmente tem tudo nesse jogo, puta que pariu.





Eu em, defender criminoso tem que ser outro criminoso.
Ótimo post! Diferente de tudo!
2º? vou ler o texto
Não poderia concordar mais com você!
Perfeito o texto, Kid. Apesar de nao ser necessario muito esforço pra argumentar contra uma pessoa que defende estupradores pedófilos.
Queria ver se fosse com a filha dessa barbara gancia, se ela ainda estaria defendendo o pedófilo…
Ela foi mal comida pelo marido. Unica explicação.
Ela deve ter seus motivos para defender esse animal. Quais seriam? Só a peninha que ela sente por um ‘velhinho’ de 76 anos?
Muito esquisito ela comprar uma briga dessas de graça.
Barbara Gancia é uma visionária.. Mas será que ela tem filhos? Será que ela pensa que isso pode acontecer com eles?
Poourra, eu só queria saber: onde diabos foi parar o post das Patricinhas Intercambistas!?! Ele estava aqui agora mesmo, e quando eu olho de novo… sumiu!
Com essa cara aposto que ela quis dar pro lazareto qdo criança mas ele falou que nem com drogas e alcool o bagulho ia.
Disgusting.
É. O “Free Polanski” da Barbara Gancia foi o “Fail” do final de semana. Gostei do texto.
De fato essa senhora se equivocou muito, espero que ela tenha bom senso em reformular sua opinião e pedir desculpas pela ofensa a justiça e as todas pessoas de bem.
Boa análise Kid.
Geralmente comento algo que acrescente o texto. Mas dessa vez não é preciso. Então só escreverei duas palavras: Flawless Victory.
Melhor salvar um print screen da análise incoerente e hipócrita dela,porque prevejo um edit daqui a pouco da opinião dela no site.
Fiquei sem entender o real motivo da defesa dela, mas deve ter algum, resta saber qual…
O texto não me faz colocar oposicao alguma…
não importa quem você é ou o que voce fez. se fez merda vai ter que limpar. quem defende os cagão esta comendo a merda dele.
textos de gente que se acha importante falando merda na net sempre são comédias involuntárias ^^
porra…. concordo plenamente com todo o texto, como alguem pode defender uma pessoa que CONFESSA que fez merda? foooods
O único argumento que eu entendi o que ela quis dizer mas não disse é da mãe que levou a criatura lá.. Na minha opinião ela quis dizer que a mulher levou a criatura lá SABENDO o que ia rolar e esperando que por isso a criaturinha fosse ficar famosa (em resumo, testinho do sofá – dá pro cara que ele te faz famosa)… O que, acredito, seja bem possível e bem possível inclusive que a menina tenha concordado… Mas daí a isso não ser crime ou ser correto, são outros 500..
Ótimo texto, como sempre
Acho que podemos provienciar uma vaquinha pra alguém de SP comprar uma colheitadeira e fazer esse trabalho mais rápido que por reza. ;D
Acho que existe um limite até quando você pode justificar atos errados cometidos por gente que você não quer admitir que os cometeu, mas essa mulher atravessou essa linha umas três vezes…
HBD escrevendo para a utilidade pública, curti demais. =D
Cara, enquanto ela foi obtusa e especulativa, você foi pedante e sem graça. Valeu.