Lá pelos meados de 2004 ou 2005, nem lembro agora, eu criei uma comunidade no orkut com um objetivo simples*. Entre numa comunidade séria (grupos de debates políticos ou ideológicos eram nosso principal alvo), invente um argumento contrário à maré filosófica do grupo — repleto de dados e números errôneos –, e continue defendendo seu ponto fria e calmamente, com ar de autoridade.
Em questão de minutos a confusão e o ódio se instaurava no ambiente, porque se tem uma coisa que nós usuários da internet em geral não sabemos como lidar é o erro alheio.
A motivação por trás da brincadeira era simplesmente ver quanto tempo demorava pra tirar alguém do sério não por ofende-lo pessoalmente (aliás, essa era essencialmente a única regra da comunidade — deixe que ELES baixem o nível, mantenha etiqueta de lorde inglês durante toda a discussão), mas sim por se opôr à opinião alheia usando explicações falaciosas e, algumas vezes, visivelmente erradas.
Aquela era a Semeadores da Discórdia. A filosofia por trás da comunidade era simplesmente provocar (previsível) revolta e indignação apenas por estar errado.
Infelizmente a coisa degringolou.
Quando a fama da Semeadores ganhou a internet, uma legião de wannabes se juntou à comunidade. O nosso pequeno grupo de 300 pessoas inflou-se quase da noite pro dia aos 15 mil membros, e com a popularização o espírito original da brincadeira inevitavelmente se diluiu até desaparecer por completo.
Essa nova safra de Semeadores usava perfis falsos (até então, armávamos nossas algazarras com nossos perfis pessoais no orkut, porque a brincadeira era relativamente inócua e não tínhamos o que esconder) pra entrar em comunidades religiosas, ou de defesa dos direitos dos animais, pra provocar revolta de uma forma mais baixa e agressiva: usando imagens apelativas e perseguições pessoais.
A Velha Guarda da comunidade veio a mim em peso reclamar da direção que a comunidade estava tomando. Os veteranos julgavam que os novatos estavam tirando a coisa do rumo original, que estavam apelando. Eu não dei muita atenção de início, achei que era apenas frescura de usuários de longa data esnobando os iniciantes.
Mas eles estavam certos. A comunidade tinha virado um antro de perfis anônimos que, por falta de habilidade em provocar comunidades de forma sutil, apelava pra ataques de preconceito e racismo. Tinha perdido o nível e, pior, a graça. Nisso eu deletei a comunidade, genuinamente envergonhado por ser o líder daquela esculhambação.
O que aconteceu com essa mudança de atitude é que os Semeadores, que eram essencialmente gente brincalhona fazendo pegadinhas inocentes, viraram sinônimo de terroristas virtuais e racistas.
Como a História é cíclica, isso se repete. O artigo sobre “trollagem” no Encyclopedia Dramatica resume da melhor forma: “trollar é uma arte perdida, repleta de tentativas fracassadas de pessoas que não sabem o que é trollar“.
“Trollar” é, essencialmente, irritar alguém através de uma brincadeira que tem como resultado extrair uma reação esperada do alvo. Uma trollagem bem sucedida é quando o indivíduo se espevita todo pra te corrigir e, segundos após enviar sua resposta, cai em si e percebe que agiu como um fantoche nas mãos do brincalhão, e que acabou fazendo exatamente aquilo que o troll esperava.
Assim como nas brincadeiras dos Semeadores originais, uma trollagem realmente bem sucedida é quando o alvo se vê obrigado a admitir “haha, seu filho da puta, você me pegou“.
É nesse espírito que surgiram memes como o Troll Physics, por exemplo — o “artista” cria uma tirinha em que alguém subverte as leis da física de forma completamente absurda, posta num fórum, e se deleita na confusão resultante de neguim corrigindo ou ratificando o fenômeno desenhado.
Um exemplo pessoal meu é a brincadeira do horário errado, ou do “último brasileiro acordado”, ou o híbrido das duas. Em um momento qualquer do dia eu posto algo como “porra, ainda são 10 da noite aí no Brasil e já sou o único brasileiro acordado”. A reação de corrigir o meu “erro” é sobrepujante e o interlocutor se vê quase obrigado a me informar que eu não sou o único brasileiro acordado, e que não são 10pm no Brasil.
Outro exemplo é quando alguém cita um preço absurdamente surreal pra algum aparelho eletrônico no Brasil (sei lá, um iPad custando 5 mil reais) e eu respondo com “acho um preço justo”. Invariavelmente, alguns — muitos — se emputecem.
E os que já conhecem a brincadeira correm pra ler minhas mentions e rir com a reação inevitável da brincadeira.
Outra trollagem que segue o mesmo caminho é a do “Por que o Xbox 360 tem esse nome“. O troll explica que é porque “quando você vê um Xbox 360, você dá um giro de 360 graus e vai embora“, insinuando que o videogame é de baixa qualidade e não merece ser comprado.

Ao ouvir isso pela primeira vez, todas as células do seu corpo berram em uníssono que após dar um giro de 360 graus, você continua de frente para o console. E quem estiver presenciando a conversa e conhecer a brincadeira rirá da correção.
Claro que não está em meu poder definir como as pessoas deveriam usar um termo, mas pra mim, ISSO é trollagem. Falar uma bobagem qualquer que resultará em correção de milhares de pessoas que não compreendem que você queria justamente a atenção da correção. É relativamente (aliás, é TOTALMENTE) inocente e o alvo da brincadeira acabará eventualmente rindo da pegadinha, e aplicando-a nos amigos.
O problema é que, assim como aconteceu na Semeadores, o que passa por “trollagem” hoje em dia é atacar alguém pessoalmente. Se o litmus test de uma trollada é que no final o alvo poderá enxergar que foi alvo de uma brincadeira e rir da audácia da provocação, essas “trollagens” amadoras falham absolutamente. Ninguém vai rir da sua “trollada” que consistiu em ofender a mulher, o emprego ou a escolha acadêmica de alguém, por exemplo. Isso não é “brincadeira”, é um ataque pessoal.
Não é a toa que o autor daquele artigo na ED deixou claro que muitos sequer sabem o que significa ser um troll. Troll, me parece, virou sinônimo de hater — alguém que odeia você, por qualquer motivo que seja, e quer que você saiba disso (nem que pra isso seja necessário o mais ácido ataque pessoal que ele puder elaborar contra você).
Trollagem, pra mim, é quando eu digo no twitter que sou o único fã brasileiro da banda X, ou que usuários de Android são o tipo de pessoa que fazem nissin miojo com sardinha e levam pro trabalho dentro de uma garrafa térmica. Idem com o Troll Physics, idem com o “adoro visitar (insira um estado do Sul/Sudeste do país), me lembra muito o meu Ceará”. Ou quando digo que “naruto” é o nome de desenhos animados japoneses.
É algo absurdamente errado dito apenas pra angariar correções revoltadas.
Se você tá consistentemente tentando atacar alguém de forma pessoal e baixa, você não é um “troll”. Não se julgue algum tipo de humorista da web simplesmente porque você tem coordenação motora suficiente pra xingar alguém usando um teclado (ou a coragem pra fazer isso estando atrás de um monitor).
Este vídeo exemplifica de forma perfeita o que eu tou tentando explicar:
Este é o roqueiro Andrew WK fazendo uma performance no Gathering of Juggalos, um evento de fãs de rap/hip hop com notória tendência a hostilizar artistas que faz outro tipo de música. A platéia revoltada joga no palco e no cantor tudo que têm em mãos, e enquanto isso o cara tá lá cantando e dançando e dizendo que dedica a música a eles — em suma, provocando ainda mais os participantes do evento, mas sem xinga-los ou atacar de volta ou qualquer coisa assim.
O cara conhece o histórico do evento e SABIA que isso iria acontecer, e ele participou do show justamente pra arrancar essa reação do público.
Isso é um retrato do microcosmo webernético. Na definição atual, diriam que os “trolls” são a galera que tá atacando o Andrew WK, né? Errado. O Andrew WK, por estar provocando total revolta no público e rindo disso, está trollando milhares de pessoas ao mesmo tempo.
Sacaram a diferença? No público, haters. No palco, um troll rindo da raiva dele (e provocando raiva, note, sem apelar).
Me façam um favor? Pare de se referir a alguém que te odeia através da internet como “troll”. Como defensor da idéia de que uma boa trollagem é uma forma de arte, você está dando muito crédito a alguém que apenas te lança ataques pessoais.
*Nota importante: o termo “troll” foi adicionado à matéria por escolha da redação do Estadão. Eu não uso tal termo dessa forma, e nunca falei a frase “fui um troll”.





Não confundam TROLL com HATER.
Imagem do MJ cheia de vitória. Usei muito esse trollbait em chats aleatórios.
Fucking magnets… How do they work?
Texto foda! Realmente, agora ta cheio de pivetinho que chega numa comunidade e cria um tópico ”vaum c foder kkk” e se acha O ”TROLL” -.-
Somos raça em extinção, Kid. Os trolls de outrora se perderam em uma enxurrada de merda que estourou quando popularizaram demais a internet.
O problema não é a popularização em si, mas sim a falta de cultura da maioria esmagadora (educação tem pouco haver com isso, já vi gente que se proclama um feliz portador de diploma de curso superior).
Eu sou um dos que (ainda) me delicio com as trollagens à forma antiga, fico vendo elas, não respondo e só fico acompanhando a enxurrada de gente indo na onda.
E, claro, “sucessful troll is ALWAYS sucessful”.
Texto essencial! devia cair no vestibular junto com Memorias postumas de Bras cubas. Já encheu o saco esses moleques criados a base de leite com pera se achando os trolls porque ficam xingando a mãe de não sei quem.
*trollface*
Pronto. Parabens por trollar um monte de haters.
They see me trollin’ they hatin’
You Win!
Primeirão.
LOL
Acabei de ler e já mudou o post.
Excelente post, KID!!!
eu sou um dos que vai sempre nos mentions toda vez que leio o ” último brasileiro acordado…” no twitter!
Bom, antigamente ninguém nem sabia o que isso queria dizer. Aí o Felipe Neto fez um vídeo falando sobre “trolls” e agora “FALOU MAL DE MIM É TROLL, OLHOU PRA MIM É TROLL, GUUUR HUUUR DUUUR TROLL”.
Eu não quero mais viver nessa internet.
Concordo com o que vc disse. Muita gente vem disseminando o significado errado do termo, um exemplo disso é aquele video do seu amigo felipe neto, no qual ele descreve um hater babaca como troll.
Muito bom o post, esclarecendo o primeiro e mais importante significado de “troll”, “trollagem”… Até hoje mesmo, eu estava assistindo a Twitcam de um amigo meu, chegou uma pessoa e falou: “Tira a máscara, ou melhor, você é feio do mesmo jeito #trollface”. Ou seja, praticamente, manchando o significado de troll. Triste isso…
Trolling is a art.
Quanto tempo até alguém gritar um “culpado: inclusão digital”?
Also, era realmente divertida aquela época, trollagem de várzea, de raiz, trollagem muleque, aquela trollagem de entrar na “Desculpe, eu sou inteligente!” e aguardar até o primeiro/segundo inteligentão do dia descobrir que a trollagem era exatamente ir contra quem chegasse…
Mas ao mesmo tempo acho bobeira elevar a trollagem a um “estado de arte”, ou “uma técnica milenar perdida”.
Trollar é tão arte e tão milenar quanto implicar com seu priminho mais novo. O único problema é que as pessoas são retardadas e acham que trollar = ser um sem noção que xinga a mãe dos outros.
Na verdade o Felipe Neto trolou os trolls quando trocou os conceitos de troll e hater…
Brilhantes elucubrações sobre uma diferença sutil e importante.
No entanto, seria interessante utilizar algum neologismo para referir-se a essa categoria menor de trolls – ou de aspirantes a.
Nem uma idéia ainda.
Hoje em dia quando a pessoa está em uma discurssão no twitter e perde os argumentos, virou moda dizer “não vou alimentar um troll” como falta de argumentos, e assim não se pode mais questionar nada que reapidamente vem um dizer “TROLL”.