Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

A gafe da NASA

Postado em 3 dezembro 2010 Escrito por Izzy Nobre 38 Comentários

Um negócio legal sobre ser uma “personalidade virtual” — é, não tem jeito de se declarar FAMOSO sem soar babaca ou arrogante, então foda-se — é que há uma variedade imensa no tipo de pessoas que te acompanham.

Ontem mesmo eu recebi um email de um leitor que é PILOTO DE AVIÕES, algo incrivelmente foda que eu jamais farei nessa minha vida miserável.  Tenho dois leitores (ou melhor, sei de dois leitores) médicos. E, pelo que parece, tenho leitores que trabalham na redação de veículos jornalísticos.

A Ana Freitas, por exemplo, trabalha no Estadão. É por isso que você leu aquela matéria sobre trolls lá, com uma entrevista minha. Ou essa matéria no Gizmodo, que me menciona como delator do suposto ataque ao Legendas.tv (que eu comentei aqui, lembra?). E ontem rolou isto aqui, no Terra:

No Brasil, a notícia gerou frustração entre os tuiteiros. Como a Nasa havia divulgado que iria anunciar informações relativas à vida extraterrestre, muitos estavam na expectativa de que a descoberta estivesse relacionada a seres mais evoluídos fora do Planeta Terra. O tuiteiro @izzynobre, por exemplo, publicou que a Nasa está “fazendo esse estardalhaço pq ela sofre dificuldade de garantir fundos de pesquisa e quer mostrar bom trabalho (sic).”

A notícia se referia ao anúncio de ontem da NASA, e a decepção generalizada entre internautas que aguardavam da agência espacial uma revelação mais bombástica. Aparentemente o meu mimimi foi mais alto do que da maioria, vá entender essa.

O foda é que simplificaram a minha opinião (desenvolvida ao longo de uns 40 tweets) a uma mísera frase. E pior, atrelaram um (SIC) no final — um termo que por causa da forma que é comumente utilizado, praticamente significa “ignore tudo que esse cara acabou de falar, ele é um analfabeto”.

Sobre a notícia da NASA, algumas considerações:

Primeiro, temos que entender a NASA funciona como uma empresa qualquer — ela precisa garantir capital pra operar suas pesquisas. E como a NASA não mostra nada realmente relevante ou significativo há, sei lá, uns 40 anos, fica difícil justificar a grana que recebe. Não é à toa que todas as notícias recentes envolvendo “NASA” e “fundos” involvem a palavra “cortes” no meio.

Aí uma pesquisadora faz uma descoberta ainda não completamente compreendida ou confirmada, e a NASA faz estardalhaço na forma mais baixa da prática do marketing — ela faz um anúncio de um anúncio.

O pior é a escolha de palavras do tal anúncio. No original, em inglês:

“..an astrobiology finding that will impact the search for evidence of extraterrestrial life”

Ok. O problema é que foi uma “descoberta” biológica, não ASTRObiológica. Quando uma agência ESPACIAL diz que realizou uma “descoberta” ASTROBIOLÓGICA, é óbvio que a imaginação  do povo pintará um quadro de, na pior hipótese, bactérias em uma pedrinha marciana. Se houve decepção sobre o anúncio, foi por causa da forma marketeira que eles escolheram pra divulgar a “descoberta”.

Você deve ter notado o uso das aspas na “descoberta”. O motivo disso é que tal bactéria não foi realmente “descoberta”, pelo menos não no sentido que a maioria das pessoas aplicaria ao termo. Tal bactéria foi o resultado de uma experiência da pesquisadora em que ela pegou bactérias e as expôs a ambiente com níveis crescentes de arsênico. Ou seja, tal “forma de vida” não é naturally-occuring, ela não ocorre naturalmente.

Aliás, pra quem assistiu ontem a entrevista coletiva que a Felisa Wolfe-Simon deu à CNN, era notável o desconforto da cientista com a forma como a NASA anunciou o achado, a julgar pelas repetidas vezes em que ela tentou retificar a situação.

Os vários sites reportando a “descoberta” de uma “nova forma de vida feita de arsênico” cometeram gafe ainda maior (nenhuma nova forma de vida foi descoberta na verdade, e ela não é “feita” de arsênico). Bactérias que subsistem de e sintetizam arsênico não são nenhuma novidade — aliás, bactérias que vivem em ambientes inóspitos e que tornam vida extraterrestre hipoteticamente provável também não são –, ou seja, a menos que tivessem realmente descoberto uma forma de vida NOVA (digamos, baseada em silício ao invés de carbono), aí sim.

E outra coisa a ter em mente: a tal pesquisa que descobriu isso era bancada pela NASA. Tá entendo melhor agora a situação? Esse alarde todo aí é essencialmente um press release: uma empresa mostrando ao público e aos acionistas que seu último “produto” é a oitava maravilha.

Quando você para pra pensar que a descoberta já havia sido divulgada pelo meio científico apropriado (ou seja, numa publicação oficial com crédito perante a comunidade científica, a Science), aí mesmo que fica patente que esse anúncio da NASA foi nada senão uma ação de mídia social feita por gente que tinha mais é que largar o twitter e trabalhar num jetpack viável.

Afinal de contas, já estamos em 2010, caralho.

A descoberta é significativa pra biólogos e demais especialistas na área? Sim, claro. E por isso que o resultado da pesquisa foi publicado numa revista científica. Qualquer anúncio além desse tem como alvo o público não-especialista, e se você, uma agência espacial que põe homens na lua, vai dizer pra nós leigos que fez um ACHADO ASTROBIOLÓGICO e me aparece com míseras bactérias encontradas num laguinho na Califórnia, você esperava o que da gente?

Da próxima vez, não divulguem um press release que insinue descaradamente que vocês encontraram ETs. “Astrobiológico” meu ovo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Categorias: Grandes Malandros

38 Comentários \o/

  1. Pedro disse:

    Kid, “fundada pela NASA” era pra ser “financiada pela NASA”? Tipo, trocadilho com “to fund”? Claro que você pode ter dito no sentido de “iniciada”, mas me soou estranho…enfim.

  2. Wilerson disse:

    “Involvem” é anglicismo, vc quis dizer “envolvem”. ;)

    (grammar-nazi)

  3. Maurílio disse:

    Sei que pode parecer inocência minha, mas o Sr.° realmente acredita que haverá uma rage storm quanto a esse post, quando é evidente que não há muitas justificativas em favor da atitude tomada pela NASA?

  4. eduardo disse:

    Concordo que todo o estardalhaço foi mesmo pelos motivos citados, mas pelo que eu li no site da NASA as bactérias são sim feitas de arsênio, já que todo o fósforo do meio de cultivo das bactérias foi substituído por ele.
    E outra coisa, os pesquisadores pegaram uma bactéria de um lago, botaram-na em um meio diferente e ela sobreviveu. Como isso não é naturally-occuring?

  5. Agronopolos disse:

    Concordo…
    Se não era alienigena eles poderia ter falado que agora teriam que rever todo o conceito de vida para as novas procuras extraterrestes…
    PUTA FALTA DE SACANAGEM DELES

  6. @LipeML disse:

    @Eduardo:
    Não foi TODO o fósforo que foi substituído pelo arsênico. Ainda tem fósforo no DNA, e espera-se no futuro saber como vai funcionar o fósforo e o arsênico juntos na hora de replicar o DNA e etc.
    E quanto ao “naturally-occurring”: Você vê quando as pessoas fazem o maior estardalhaço quando um animal procria em cativeiro? É por aí. O meio onde a bactéria vive foi alterado com a retirada gradual do fósforo (que existia no lago). Você não encontrou (na natureza) uma bactéria com dna com arsênico, você modificou o meio pra modificar a bactéria.

  7. Sly disse:

    Tem uma piadinha infame que rola entre biólogos(na verdade microbiólogos, gente mais maluca ainda. Tipo eu.) que é: “A astrobiologia é a única ciência SEM objeto de estudo”. E porra, pode até aparecer decepcionante pelo jeito que a NASA falou disso, mas a descoberta é fantástica(Pelo menos pra quem trabalha na astrobiologia e na microbiologia. E é sim uma descoberta. Sim, a bactéria não foi descoberta, entretanto ela já estava preparada pra desenvolver esse tipo de adaptação quanto ao arsênico. Afinal ela subistituiu em estruturas vitais o fósforo pelo arsênico. Tem gente especulando(E que fique bem claro, ESPECULANDO)que o arsênico fazia o “papel” que o fósforo tem a um tempo atrás, e essa bactéria manteve a capacidade de utiliza-lo. A questão não é achar bactérias ambientais multiextremófilas, já foram descobertas várias(A Deinococcus radiodurans por exemplo, conhecida como Bactéria Conan). A questão é que essas bactérias multiextremófilas encontradas anteriormente só sobreviviam em ambientes extremos. Essa bactéria especificamente é capaz de utilizar um componente que anteriormente era conhecido como um grande “matador celular” pra subistituir um elemento vital, o fósforo.

  8. Miguel disse:

    Concordo com o @eduardo.
    Tem um detalhe, o achado é sim uma descoberta astrobiológica. Não porque foi feita em outros planetas mas porque tal descoberta a partir de agora exige uma ampliação no leque de possibilidades resultando em um grande impacto à biologia como um todo e por extensão a astrobiologia também.

  9. Eduardo disse:

    Engraçado foi o pessoal do Terra te citando na matéria, como se fosse um ‘super especialista’, sem ofensa. aheuihaeiiae

  10. Ivan disse:

    Ou seja, é a mesma situação de quando sai o anuncio do anuncio que o Steve Jobs vai lançar alguma coisa, certo?

  11. Sam disse:

    Astrobiologia é a ciência que estuda as possibilidades de existência da vida no universo(não a vida no universo, pelo menos por enquanto), o que foi descoberto não foi a bactéria mais sim que é possível que vida exista sem precisar de fósforo que é o que se acreditava( e pessoas bem inteligentes ainda não se convenceram) então é sim uma descoberta da astrobiologia já que os modelos de busca de vida agora terão que incluir a possibilidade de vida em lugares com muito arsênio.

  12. Sam disse:

    Putz foram mais rápido que eu ahsahshahsh mais é isso ai, descoberta da astrobiologia

  13. Tiago Sá disse:

    Lembrei do HBDcast. NASA fez o anúncio do anúncio de algo que eles estavam procurando a 50 (?) anos e no final era uma supernova. Vocês até disseram que o próximo anúncio da NASA seria algo parecido. HBDcast prevendo o futuro.

  14. Eduardo disse:

    E o pessoal ainda usando meu nick ¬¬ Lamentável

    Sobre o tópico, nem acompanhei muito, vi mais as notícias, coisa e tal, nem sabia que o “ser vivo” tinha que ter os tais elementos. Então pensei, “que legal. E eu com isso?”

  15. DocFHBD disse:

    As Kid, um dos médicos leitores deste ilustre blog sou eu? :D
    Tb fiquei ansioso com o anuncio da NASA, e mto frustrado tb qdo anunciaram um negocio de 94…

  16. Nossa, estou impressionado com o naipe dos leitores do HBD, tem até microbiologo (o sr Sly.).

  17. Romulo disse:

    Kid,

    Parabéns cara.

    Sua opinião foi muito bem sustentada e concordo completamente por você.

    Você provou que não é apenas um maluco na net que fala coisas pra gente rir de suas perolas… Nesse caso ri da Nasa também!

    Abs

  18. Dani disse:

    O negoço é que a bactéria é acostumada a um meio com fósforo e arsênio e usa as duas substâncias no seu metabolismo. O que a pesquisadora fez foi tirar o fosforo e constatar que a bactéria também cresce só com arsênico. Ai que tá a novidade, pois até então só se conhecia bactérias que usam carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, enxofre ou fósforo. Mas isso tbm nao quer dizer q a bactéria seja feita de arsenico. Não é por que vc come alface que vc é um alface. ^^

  19. Nailson disse:

    Antes de um jetpack, prefiro um Powerlaces… aquele Tênis doidão do Back to the Future.
    (via AVGN http://www.youtube.com/watch?v=mBBwKWSxoMI)

  20. Rafael disse:

    Ponto de Impacto (Dan Brown) feelings.