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A brincadeira do "dilema"

Postado em 11 julho 2010 Escrito por Izzy Nobre 81 Comentários

Acho que todo mundo brincou a brincandeira do “dilema” quando moleque na escola.

Opa, notaram que eu escrevi “brincadeira” errado na frase anterior? Lembro de uma época que a turma competia nos comentários pra apontar os erros mais triviais que eu cometia aqui no blog. Minha permanência cada vez mais longa no Canadá canibalizou meu domínio da língua portuguesa e agora eu erro tanto que acho que vocês nem percebem mais!

Enfim. Se você não brincou da célebre brincadeira do dilema é porque você era (ou é, ein) aquele cara chato da sala do qual ninguém gostava, daquele tipo que passa o ano  inteiro sem ser convidado pra nenhum evento de camaradagem escolar ou sem pegar nenhuma coleguinha de sala.

A brincadeira do dilema é terrivelmente simples. A idéia é oferecer ao colega uma soma monetária imaginária (“um milhão de dólares” é geralmente uma constante) em troca de executar alguma coisa socialmente repugnante.

E a graça da brincadeira estava justamente em bolar as situações mais insólitas que o colega deveria se submeter ficticiamente (que diabos, não sei se essa palavra existe. Faça de conta que eu falei “imaginariamente”).

Nojeiras e asquerosidades eram escolhas típicas (“você comeria uma colher de bosta por dez mil reais? Ok, CINQUENTA mil reais então”)…

E aí?

…mas hors concour mesmo era qualquer atitude até mesmo ligeiramente relacionada a homossexualidade – algo que naquela época a gente nem entendia direito, mas já era doutrinado desde moleque a repudiar sem muito motivo. Essa nossa bendita sociedade brasileira…

Você daria a bunda por um milhão de dólares” era muito simples, muito preto-e-branco. Era pouco sofisticado. No alto dos nossos 13 anos a gente não tinha a menor idéia do que era um milhão de dólares, mas isso não importava: a resposta era automaticamente “não”. E por isso era um dilema fraco; bons mesmos eram os que faziam o sujeito pensar.

Além das baitolices, haviam os dilemas estilo “você fazia X pra evitar que o Fulano/Fulana morresse?”. Imaginativos que éramos, não demorava pra que combinássemos o dilema Bom Samaritano com nojeira e/ou gayzismo.

“Ok, que tal essa: você comeria 200mg de vômito pra salvar a vida da sua mãe?”

Os moleques particularmente cruéis inventaram os dilemas que requeriam executar ato sexual com um dos pais pra salvar o outro, uma depravação de tal calibre que nem reproduzirei o desafio ipsis literis aqui pra não ofender meus pais (eu sei que eles acessam essa porcaria, agora POR QUE eu não sei).

Esses realmente faziam o indivíduo parar e pensar. Entretanto, como o objetivo era salvar a vida dos pais, o órgão regulador não-oficial da brincadeira decidiu unanimemente que qualquer ação era justificada. Não havia nada tão desgraçadamente reprovável que não valesse a pena pra salvar a vida paterna, e com isso tal modelo de dilema caiu em desuso e passou a ser utilizado apenas pelos neófitos da brincadeira (e sempre resultava em olhares reprovadores dos mais experientes).

Sim, dilemas envolvendo atos de boiolismo (por causa da homofobia inerente ao povo brasileiro) eram os mais utilizados. Mas como expliquei, o simples “daria a bunda por um milhão?” – por resultar numa resposta negativa automática – não tinha graça. Desenvolvemos então os dilemas com baitolismo “light”, os que eram leves o bastante pra fazer o sujeito realmente considerar cometer o ato.

Havia o “você deixaria um homem felá-lo por cinquenta mil reais?”. “Felação”, pra você que é dimenor e desconhece essas coisas da vida, significa “boca naquilo”.

E a pergunta era cuidadosamente projetada pra fazer o sujeito avaliar a condição por pelo menos alguns segundos. Como inexplicavelmente sempre existiu essa impressão de que apenas quem executa gesto baitolístico passivo é que é homossexual, ninguém negava logo de cara como o lance de dar a bunda.

E reduzíamos também o milhão pra parcos 50 mil que é pra não fazer com que neguim aceitasse logo DE CARA, se sentindo seguro por trás do princípio de que gay ativo na realidade não é gay.

Quando descobrimos que tornar o dilema “gay light” fazia o sujeito realmente considerar a idéia ao invés de dizer “não” sem pensar duas vezes, começou a surgir milhares de variações. Uma particularmente cruel era “você beberia o equivalente a uma colher de esperma por 500 mil dólares?”

E tinha até corolários: havia a garantia que o doador dos fluidos não tinha qualquer doença sexualmente transmissível, mas por outro lado todos saberiam como você adquiriu a fortuma. E aí?

Eu nunca caí nessa pegadinha, aliás. Mesmo quando era novato nessa putaria, logo a princípio a brincadeira me pareceu uma forma perversa de fazer os coleguinhas da sala admitirem que, dada as circunstâncias propícias, topariam participar dos mais variados atos homossexuais. E o pior – tal admissão vinha a troco de nada, já que todas as cifras debatidas eram completamente imaginárias.

Nego tava simplesmente sendo engambelado a admitir que eram bichas latentes!

Deve ter sido essa minha atenção às nuances da brincadeira que me garantiu assento vitalício na bancada de organizadores da parada. Éramos nós que, em segredo, bolávamos novos dilemas pra oferecer à consideração das vítimas.

Esses dias soltei lá no tuíter uma coleção “Best Hits” desses dilemas, só os mais cabulosos e tal, e pra minha surpresa um número microscópicos de homens recusava os dilemas de cunho homossexual.

Normal, né. 15 anos atrás, no pátio da escola, sem filho pra criar, sem aluguel pra pagar, sem microempresa pra tocar adiante, sem apartamento pra quitar, “um milhão de reais” não parecia lá tão uma quantia importante pra galera.

Hoje em dia no entanto, parece muita gente lamberia uma piroca de bom grado em troca de não ter que aguentar mais um dia sequer num emprego que eles odeiam e que só mantém pra poder arcar com essas merdas da vida adulta.

Ah, e teve um follower meu que, quando perguntei “você beberia seu próprio mijo por 5 mil reais?”, perguntou sem titubear de quanto exatamente de mijo estávamos falando.

Esse aí tem o espírito empreendedor viu, puta que pariu.

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Categorias: Minha infância

81 Comentários \o/

  1. Giovanni /Aulto disse:

    hahaha
    Todo mundo tem um preço, a brincadeira prova isso perfeitamente. Sem contar que tem aquelas que de tão absurda você ouve e pensa: “eu aposto que ele aceitaria, e só tá perguntando pra saber se é o único”.

    O texto ficou ótimo =D

  2. pH disse:

    … aquele cara chato da sala do qual ninguém gostava, daquele tipo que passa o ano inteiro sem ser convidado pra nenhum evento de camaradagem escolar ou sem pegar nenhuma coleguinha de sala.
    :(

    uahuahauha, mas eu já brinquei disso sim… bons tempos :)

  3. Muito bom o texto, amigo CHULIPA.

    Eis uma brincadeira que sempre existiu em todos os lugares, todas as idades

  4. Myojo2w disse:

    ai era tenso essa bosta, nunca tinha visto isso passar do “vc daria a bunda por 1milhao de reais”, e nem sabia que tinha nome.

  5. eumesmo disse:

    “Você beberia seu próprio mijo por 5 mil reais?”
    Ora, mas é claro, faz bem pros rins. Tem gostinho de suco de abacaxi azedo, uma delícia. Imagina ainda ser pago pra isso!!

  6. Rafael Lopes disse:

    Caralho, Kid!

    Aqui no curso de Ciência da Computação da UFRJ começou a rolar uma imensa discussão sobre um dilema desses. A pergunta era se por 1 bilhão de dólares a pessoa daria o cú.

    A resposta de quase TODOS os alunos foi “Sim. Se souber de alguem que esteja disposto a me enrabar por 1 bilhão me avisa que dou na hora.”

    A conclusão que chegamos foi: Após 5 períodos de faculdade de ciência da computação na UFRJ, a pessoa faria qualquer coisa para abandonar a faculdade e a carreira. =P

  7. Kid disse:

    Porra, por UM BILHÃO DE DÓLARES a lista de coisas que a pessoa comum não faz é minúscula hahahahaha.

  8. valmir disse:

    Lendo sobre o post do dilema, lembrei de um video dos melhores do mundo. http://migre.me/W2Di

  9. Haiiro disse:

    Opa, fui citado no finalzinho do texto :P

  10. Ramon disse:

    Pois é, o “dilema” está nos alicerces da escola moderna.

  11. Fábio disse:

    Sobre esse assunto de dilema, quem aí lembrou do filme “Proposta Indecente”?

  12. ZeHgS disse:

    O Lyoto Machida lutador do UFC bebe diariamente um copo do seu próprio mijo no café da manhã lol de graça

  13. rodflo disse:

    “Se você não brincou da célebre brincadeira do dilema é porque você era (ou é, ein) aquele cara chato da sala do qual ninguém gostava, daquele tipo que passa o ano inteiro sem ser convidado pra nenhum evento de camaradagem escolar ou sem pegar nenhuma coleguinha de sala.”
    Este parágrafro me definiu. Acho que não preciso ler o resto.

  14. Reinaldo disse:

    Isso só nos leva a uma conclusão: todo ser humano se torna uma grande puta em algum ponto de sua vida.

  15. @Smarcs disse:

    Sempre brincávamos dist, só não sabia o nome ^^

    Mais atos homosexuais, acredite ou não, não era cogitado.

    mais o dilema do “voce comeria uma barata” era classico.

    premios, ferrari, 30 mil kkkk sem noção alguma de valores…

  16. Daniela disse:

    Muito foda o seu texto. É o que eu sempre digo: TODOS tem um preço. E NÃO adianta negar. Até a próxima… ;)

  17. @Gustavopereira disse:

    PUTZ, acho que nunca brinquei disso, mas sempre rolava algo do tipo, mas nunca com cunho baitolistico. kkkkkkkkkkk

  18. André disse:

    Nunca ouvi falar desse “dilema”… Aqui em Recife essa moda ainda não chegou não.

  19. tplayer disse:

    Eu já bebi meu próprio mijo num daqueles clássicos desafios para provar quem era mais corajoso na escola.

  20. CCCC (discípulo) disse:

    Kid viado, vai morrer de tanta brincadeira no cu.