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O problema com o Total Recall

Postado em 7 setembro 2010 Escrito por Izzy Nobre 56 Comentários

Deixa eu começar esse texto justificando o uso (aparentemente presunçoso) do título original em inglês, ao invés da escolha das distribuidoras brasileiras.

“Vingador do Futuro” é um nome incrivelmente tosco. Além da breguice deixar explícito pro espectador que o filme se passa no futuro (qual a necessidade disso, sinceramente?), o simples fato de que a adição de “do futuro” torna o título muito parecido aos outros filmes do Xuáza deveria ter servido pros tradutores reconsiderarem a nomenclatura.

total

Apesar do chilique, Total Recall é memorável porque faz parte de um panteão de clássicos característicos dos anos 80/90. Meu pai sempre foi muito fissurado em cinema, e por influência dele eu acabei me tornando muito fã dos filmes da época. Aliens, Predador, Exterminador do Futuro, Um Tira da Pesada, Guerra nas Estrelas, De Volta para o Futuro, Duro de Matar…

(Aliás, a tradução de “Die Hard” – que significa “obstinado/aquele que vai contra as circunstâncias ou as dificuldades” – pro simplório “Duro de Matar” dava outro chilique, mas chega por hoje.)

Meu pai tinha todos esses clássicos – e muitos outros – em várias fitas VHS, sempre embaixo da TV com aqueles adesivinhos da TDK e os nomes escritos em letra de forma com caneta esfereográfica azul.

Essas memórias me remetem a um tempo de descoberta, quando os clássicos não eram franquias conhecidas universalmente e você ainda estava tentando entender as tramas como as histórias completamente novas que elas eram pra você. Lembra quando você não entendia direito o que a Força era? Ou por que o Bishop sangrava “leite”?

Enfim.

Total Recall conta a história de Douglas Quaid (originalmente Douglas Quail, mas alterado pra não soar como Quayle, o vice-presidente americano na época em que o filme foi lançado), um peão de construção sem grana ou disposição – leia-se “permissão da esposa” – pra tornar realidade seu sonho de visitar Marte.

Por isso ele contrata os serviços da Rekall Inc (“recall” não significa “ligar de novo” seu animal, mas sim “relembrar”), uma empresa especializada em implantar memórias falsas. Através dela, o cliente experimentaria uma viagem de férias por um preço mais acessivo, e sem os riscos ou inconvenientes relacionados a viagens.

O problema é que a linha que separa a realidade das memórias falsas (será que eram falsas mesmo? Ih caralho…) começa a borrar, e o Quaid se vê envolvido numa trama de espionagem e pá e tal. E pior, às vezes parece que ele não é sequer ele mesmo – a identidade que ele PENSA que tem pode ter sido um outro implante, feito por inimigos pra esculhambar a missão dele. Imagina você descobrir de repente que você não é você mesmo, e que suas memórias são falsas.

Ou algo assim. O filme é confuso pra caralho, não lembro dos detalhes com clareza, e até HOJE se discute o final do filme, que termina com ambiguidade.

O filme foi pelo Paul Verhoeven, o mesmo cara que assinou RoboCop e Starship Troopers. Ou seja, dá pra notar que o cara curte uma ficção científica mais galhofada e ultra-violenta – e com um tom mais subversivo até, eu diria.

O que é uma pena, porque a história foi escrita pelo Philip K. Dick, um autor de ficção que curtia muito a temática do real versus ilusório. Não acho que o Paul Verhoeven foi a melhor escolha prum filme desse tipo.

Acordei de madrugada e, sem nada pra fazer, fui reassistir Total Recall. Durante toda a primeira metade do filme, um aspecto da trama me perturbou tanto que eu tive que ligar o netbook na calada da noite pra escrever esse texto.

A questão é – quem diabos iria querer implantar memórias falsas em si mesmo?

Pensa bem. Lembre aí de tudo que você fez ontem. Você acordou, tomou café, foi pro trabalho, tomou uma mijada do chefe porque fez alguma merda no dia anterior, ficou puto e começou a pesquisar empregos no Catho, voltou pra casa e jogou GTA4 online, foi jantar, e finalmente caiu no sono na sala enquanto se masturbava assistindo um filme pornográfico.

Agora, imagine que tudo isso não aconteceu de verdade, era apenas uma memória falsa. Suponha que na memória falsa você interagiu com um amigo, mas quando conversa com ele sobre o fato, ele faz cara de dúvida e afirma que vocês nem se viram ontem.

Ou que você pegou aquela menina que sempre sonhou em comer, mas que tudo se tratava de uma ilusão e ela não entende o motivo desse seu comportamento afetivo na próxima vez que vocês se encontram.

Ou que seu chefe nunca te deu aquela bronca e acha completamente estranho o fato de que você se demitiu abruptamente, alegando não aguentar mais trabalhar pro cara.

Uma memória falsa não ia apenas te deixar completamente louco, sem nunca mais conseguir distinguir fantasia da realidade. O que é realmente assustador é que as lembranças implantadas alterariam suas próximas decisões REAIS, tendo potencial pra esculhambar sua vida de forma irreversível.

Qualquer ato que você executasse que usasse como referência uma memória implantada teria potencial pra ser catastrófico. Imagina se todo dia você acordasse e baseasse suas ações no sonho que teve na noite passada, sem saber que a coisa se tratava de uma simulação virtual na tua cabeça?

E isso porque estamos considerando uma memória falsa de apenas um dia. No filme, os pacotes oferecidos são de duas semanas. Imagina quantas coisas acontecem ao longo de duas semanas, e quantas ações suas se baseam no que vocês fez nas últimas duas semanas.

Pior ainda, no filme é estabelecido que a empresa produz artefatos (cartas, fotografias, etc) que corroboram suas memórias. Ou seja, por mais que seus amigos tentassem te convencer que você não realmente passou as últimas duas semanas surfando no Havaí, o seu álbum de fotografias te diz o contrário. Em quem confiar?

E aliás, num mundo em que memórias falsas são lugar comum, como os amigos de alguém que experimentou essas “viagens” se comportariam quando você chegasse contando algo pra eles que obviamente não aconteceu? Todo mundo apenas acenaria e concordaria com tudo que tu diz? Seria como viver com um bando de malucos!

Quando comentei no twitter que memórias falsas teriam o potencial de estragar sua vida pra sempre, o @ThiagoSiqueiraF comentou “o Wolverine que o diga!”. É verdade, boa parte da história do pobre canadense lida com o fato de que ele nunca sabia que memórias dele eram reais, e quais haviam sido implantadas.

Não saber distinguir fantasia da realidade é um dos meus temas favoritos, tanto que Matrix e Inception figuram posição alta na minha lista de filmes favoritos de todos os tempos.

Aliás, o recente (e excelente) Inception solidificou a posição do Christopher Nolan como um diretor habilidoso com o tema. Só posso imaginar que sensacional seria um remake de Total Recall dirigido pelo Nolan.

Infelizmente, o tal remake já tá acontecendo, e será dirigido pelo Len Wiseman. Tudo que o cara tem no currículo é a série Underworld e o último Die Hard, ou seja, não tou muito confiante de que sairá algo muito bom ou fiel à temática da história original.

Bom, contanto que eles dêem um nome diferente de O VINGADOR DO FUTURO quando chegar ao Brasil, já foi uma melhoria.

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Categorias: Cinema

56 Comentários \o/

  1. @rhobsonv disse:

    O título brasileiro vai ser O VINGADOR DO FUTURO DOIS, to até vendo… =(

  2. @rhobsonv disse:

    …a propósito quidê, cadê o texto discutindo Inception? E aquele fim putaquepariudiretorfilhodumaputadocaralho,oq tu achou? :D

  3. @ronalcaz disse:

    Troque “acessivo” por “acessível” que fica perfeito.

  4. CCCC disse:

    Kid viado, vai morrer de tanta memória falsa enfiada no cu.

  5. Leandrolopesp disse:

    Lembro desse filme da MESMA MANEIRA que você, com excessão que esse em especial estava numa fita da verbatim. Engraçado que quando compararam inception com matrix, eu, na mesma hora, comparei com esse filme, que faz mais sentido, e com Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças.. Lembro que a idéia da total recall era realizar o seu sonho de maneira mais barata e inclusive descompromissada. E isso eu acho que todo mundo ia preferir fazer sozinho. Não era comer a vizinha, mas ter um romance com a Grace Kelly, com 20 anos ou dependendo da sua fantasia fazer uma suruba com anões, cachorros e travestis. Vai saber. O cara queria ir pra marte e ter uma ventura. Ele foi, mas foi burro de escolher uma trama tão complicada. isso talvez fosse útil pra casos de distúrbios, tipo necrófilo, pedófilo, viciados em drogas e tal.

  6. @LipeML disse:

    A do “Die Hard” eu não sabia… Que massa.
    Quanto ao Total Recall, eu já assisti de velho e os carai, mas ainda assim não lembro das coisas.

  7. mariane disse:

    Concordo que os títulos em português não são bons, mas acho engraçado que todo mundo que crítica nunca sugere uma solução melhor.

  8. marsson disse:

    @izzynobre Tradução é foda mesmo… há alguns anos atrás teve uma discussão acerce disso no mundo das HQs .Esqueci o nome do tradutor, mas ele achava que tudo deveria ser traduzido, inclusive nomes e codinomes, que sempre foram traduzidos ao deus dará (por que a rougue virou “Vampira” e o bishop não virou “Bispo”? era um dos argumentos do cara), apesar de traduzir rouge como vampira ter o mesmo sentido de traduzir apple como elevador, mas divago…
    Ele Sugeriu entre outras coisas uma revisão completa de todos os nomes, e entre as pérolas, Wolverine seria traduzido como Carcajú.
    Eu sou completamente contra tradução de nomes e títulos. Mas é apenas minha opinião….

  9. Pedro... disse:

    Assisti Repo Men, tambem fala sobre isso.

  10. Christian disse:

    Não gostei do Total Recall, não combinou com o Arnold esse tipo de filme, pois pra uma trama destas não caberia uma cena de ação tão grande quanto o ego dele.
    Ademais aqueles mutantes me davam nojo e não entendo porque ele iria para um lugar tão pobre numas férias em Marte.

    ps: não consigo fazer o Mario de capa rodando :( http://img26.imageshack.us/img26/4825/mariospinhn3.gif

    ps2: achp que Ctrl+V Ctrl+V não vai né?

    ps3: Playstation 3

  11. Leandrolopesp disse:

    E Gotha City que antes era Riacho Verde e o Robin que era Ricardito? Tradução é assim mesmo. Duro de Matar é um bom nome, mesmo tendo outro sentido. O que não vale é VIngador do futuro pq isso nada tem a ver com o filme. Tem um romance que chama algo como amor sem limites que em inglês é Dançar com a cadela branca. Era de um casal de velhinhos que a véia adorava dançar, morre e volta como uma cadela, que dança com o dono. O nome em pt, de novo, nada tinha a ver. Inception é outro que o título já é difícil, mas A Origem não.

  12. Lílian disse:

    Eu nao vi esse filme, e eu nao me ligo muito nessas coisas, mas eu adoro ler suas opinioes sobre esses temas e tal =D

  13. Cidraman disse:

    “Vingador do Futuro” é um título legal, embora não tenha nada a ver com o filme ou com o título original.

    Mais um caso de “tradução-por-osmose”.

    Assim como aquele outro clássico dos anos 80, com Michael J. Fox, cujo título original, “Teen Wolf” (Lobo Adolescente), foi traduzido para “O Garoto do Futuro”, simplesmente porque Fox participou de “De Volta Para O Futuro”.

    Sobre o filme, ele é “confuso”, mas é exatamente isso que faz o espectador pensar no que o Kid escreveu, por exemplo.

    Mas acho que o filme se torna “confuso” quando o espectador, assim como o protagonista, não sabe, não pode ou não quer escolher qual “personalidade” é a verdadeira: o trabalhador comum ou o agente secreto.

    Em tempo: Superman é o escambau! É Super-Homem, carai!
    Agora, Carcaju é complicado. Deixa Wolverine, que está tudo certo.
    Mas em compensação, como seriam traduzidos Daredevil e Nightcrawler? “Demônio Destemido” e “Rastejador Noturno”? Demolidor e Noturno parecem melhores, não?

  14. Roberto disse:

    Pois é, memória curta é um elemento essencial para a felicidade.

  15. Kid disse:

    @Cidraman
    Boa lembrança o lance do “O Garoto do Futuro”, que mania bizarra essa de enfiar “do futuro” no título dos filmes…

  16. Fábio disse:

    Não achei problema em traduzir “Die Hard” para “Duro de Matar”. Muitos termos em inglês têm um significado intrínseco que exigem artigos inteiros para serem explicados para lusófonos. No caso do “Die Hard”, uma coisa mais próxima do significado real seria “O Durão” ou “Duro na Queda” ou como sugere o Kid, “O Obstinado”. Será que ficaria melhor do que “Duro de Matar”?

  17. Claus disse:

    Demolidor é palha e não tem nada a ver com o original, acho que só “destemido” já dava conta.
    Duro de Matar acho legal, não é perfeito mas funciona, Inception seria ótimo como “Inserção”, não entendo essa necessidade de evitar títulos ambíguos dos nossos tradutores, já Total Recall é FODA, não sei o que botaria, mesmo.

  18. Leandrolopesp disse:

    Ué! Total Recall pofia se chamar TOTAL RECALL! ninguém traduziu Judge Dredd e nem Tank Girl. Acho que títulos, se não têm tradução, melhor não traduzir.

    esses do futuro eram claramente da série de nomes pra atrair o público. Deby & Lóide, Quanto Mais Idiota Melhor e o melhor exemplo que eu encontro é um que eu ouvi o Magrão do SBT falar. Eles iam apresentar Madame X, mas o Silvio Santos resolveu mudar o nome pra Eu Odeio Minha Mãe pra chamar atenção.

  19. Vigo disse:

    Esse filme é foda. Cheio de cenas épicas que vão ficar na minha cabeça pra sempre:

    A mina com 3 peitos, o cara vivendo dentro da barriga do outro, a cabeça do Arnold inchando e os olhos quase pulando das órbitas… entre outras. Tenso demais!

    E Kid, e aquele projeto em vídeo que você postou faz um tempo que ia fazer?

  20. Mefna disse:

    Também acho foda algumas traduções de títulos de filmes, se ñ der pra traduzir diretamente, por ex:De volta para o futuro = Back to the future, seria melhor ñ traduzirem.
    Mas assim como “Teen Wolf” foi traduzido para “O Garoto do Futuro” por que MJF era famoso por BTTF; “Total Recall” foi traduzido para “Vingador do Futuro” pq AS era famoso por “Exterminador do Futuro” aqui sim enfiaram esse “do Futuro” talvez numa tentativa de explicar a trama p/ os beócios eleitores de moluscos.
    Não sei há qto tempo Kid está no Canadá (aliás, pra q traduzir nomes de lugares também?)mas talvez ñ tenha relacionado pq pense nesse filme apenas como “Terminator”