Nós vivemos no futuro. Não há dúvidas sobre isso.
Não chegamos ao amanhã conforme descrito por De Volta Para o Futuro (ainda) — com implantes biônicos, hoverboards e roupas que se secam e se ajustam ao seu corpo automaticamente –, mas o tipo de habilidade que a tecnologia moderna nos permite seria absolutamente espantosa 10 anos atrás, inimaginável 20 anos atrás, e simplesmente macumbaria uns 30 anos atrás.
Trago no meu bolso um aparelhinho que me permite navegar a internet, controlar meus PCs de forma remota em qualquer local do mundo, acessar satélites de posicionamento pra saber onde estou, tirar fotos e compartilha-las imediatamente com amigos que moram em outro hemisfério e até mesmo fazer tradução instantânea.
Se até o Guia do Mochileiro das Galáxias (que era essencialmente uma agenda eletrônica) me parecia cartunescamente surreal — tamanha era a sua inviabilidade quando li o livro nos anos 90 — imagina o que eu pensaria do meu iPhone 4? Macumbaria, não haveria outra explicação.
Mas apesar desses avanços tecnológicos, uma marca registrada da ficção cientifica jamais se materializará: o carro voador.
E existem quatro motivos distintos.
1) A dificuldade de pilotar um avião
Não deixe o termo “carro voador” confundir você. Tal máquina seria, na realidade, um avião com permissão pra transitar pela cidade.
Feio pra caralho, né?
Os problemas inerentes a essa equação (o fato de que um carro voador é mais avião do que carro) são óbvios. Este é o painel de um carro:
Por mais que você nem tenha sua carteira de motorista, o automóvel é uma figura tão conhecida da nossa cultura popular que você reconhece facilmente os elementos da imagem acima. O volante, o câmbio, o freio e acelerador, a ignição, o velocímetro.
Talvez você NUNCA tenha sequer dirigido na vida, mas tu deve conhecer a teoria por trás da operação básica de um veículo automotor — põe a chave na ignição, gira, passa a marcha, etc.
Este é o painel de um avião.
Poisé. Tem tanto botão, alavanca e chavinhas que faltou espaço e eles tiveram que enfiar o resto no TETO, tamanha é a complexidade de manobrar um aparelho que se desloca em três dimensões. A dificuldade é tamanha que existe a necessidade de um co-piloto, pra ajudar a gerenciar os processos relacionados ao vôo.
As academias aéreas (é esse o nome das escolas de piloto? Nem sei, acho que inventei esse termo sem querer) variam em preços e durações dos cursos, mas em média custa quase 10 mil dólares pra obter uma licença de vôo. Isso custa mais do que os carros que a maioria das pessoas dirigem aqui.
Grande parte dos motoristas com quem você divide as estradas não deveriam estar dirigindo nem um carrinho de mão, que dirá então um carro voador. O nível de habilidade requerido pra isso garantirá que um carro voador jamais seria acessível o bastante para se popularizar.
Você consegue imaginar o tipo de catástrofe se cada um dos inúmeros motoristas imbecis que tu vê por aí todo dia estivesse atrás de um manche ao invés de um volante?
E isso nos leva ao próximo ponto…
2) Todo e qualquer acidente de carro voador seria fatal
Você lembra a primeira vez que estancou um carro?
Eu lembro. Era um domingo e minha família estava saindo da igreja. Naquela época meu pai estava me dando aulinhas de direção e, pra impressionar a namoradinha, pedi permissão ao meu velho pra dirigir a família pra casa. Na frente dos olhos curiosos dos meus amiguinhos, me atrapalhei com a embreagem, o carro deu aquele pinote e morreu.
Eu não sabia onde enfiar a cara. Mas pelo menos, ninguém morreu como resultado da atrapalhada.
Pequenos vacilos automobilísticos se resumem, na maioria das vezes, a vergonha ou acidentes tão insignificantes que o teu airbag nem se interessa em sair pra dar um alô. Este é o acidente de carro comum a qual estamos acostumados:
Este seria um “acidente comum” envolvendo um carro voador:
Pra um acidente de carro realmente catastrófico, requer-se combinações do tipo velocidade alta + negligência + carro lotado + álcool + local densamente populado.
Já pro mais catastrófico acidente de avião da história (583 fatalidades), basta o piloto interpretar erroneamente uma única palavra dada pela torre de controle.
Eu já sei o que você está pensando — “mas não costuma-se dizer que voar é cinco milhões de vezes mais seguro que dirigir um carro? Um carro voador seria então mais seguro, não?”
Absolutamente errado. Aviões são mais seguros por causa de fatores dos quais carros voadores não gozariam — aviões não são um meio de transporte “popular” (no sentido de que não é qualquer pessoa que pode sentar num cockpit e sair voando), e existem muito menos aviões no céu do que carro no asfalto.
Lei dos grandes números garante que carros baterão mais que aviões simplesmente porque existem mais carros que aviões — e porque sua operação, por não ser acessível a qualquer um, passa por rigorosíssimas etapas de manutenção e controle.
Carros voadores combinariam a mais perigosa característica dos carros — o número massivo deles zanzando por aí — e a mais perigosa característica dos aviões — eles caem e explodem. Seria o pior dos dois mundos.
Imagine agora todos aqueles motoristas que tu presencia diariamente que acreditam que sinalizar antes de mudar de faixa é uma operação opcional. Imagine-os sobrevoando a sua casa, reproduzindo lá em cima as barbeiragens que eles rotineiramente aplicam no asfalto.
Mas não é assim, ao deus dará, né? Existe todo um sistema que coordena vôos. Haveria um sistema de controle aéreo para carros voadores, não?
Bem…
3) Seria completamente impossível impor controle de tráfego aéreo “civil”.
Para a maioria das pessoas, seu único conhecimento sobre controle de tráfego aéreo é este:
A realidade é bem menos colorida. Ou divertida.
Controladores de tráfego aéreo tem uma responsabilidade imensa — monitorar e gerenciar o fluxo de aviões nos céus de um país. É, compreensivelmente, uma das mais complexas e estressantes profissões no mundo.
Você acha que um cirurgião é um sujeito tenso e estressado? Imagina coordenar o vôo de 50 mil aviões (cada um carregando entre 200 e 300 pessoas em média), todo santo dia, sabendo que uma única palavra mal-interpretada pode trazer morte flamejante a centenas de pessoas em um piscar de olhos?
Pra que o tráfego aéreo funcione de forma não-explodível, existem protocolos tão flexíveis quanto uma barra de titâneo coordenando todas as operações de controle de tráfego aéreo. Linhas de vôo precisam ser traçadas com semanas de antecedência. Emergências que requeiram pistas para pousos de emergência requerem checagem e re-cechagem antes que uma possa ser liberada para o pouso.
Tudo que acontece nos céus e nos aeroportos passa por um rigoroso sistema de verificação e controle. E esses malucos aí precisam gerenciar tudo isso. Observe a maluquice que é trabalhar numa torre de controle.
50 mil aviões por dia sobrevoam os Estados Unidos. Imagina qual seria o número de carros voadores, supondo que o cenário futurista Jetson-style requer a popularização deles.
Existem 250 milhões de automóveis nos Estados Unidos. Mesmo que o número de carros voadores fosse UM DÉCIMO DISSO, ainda seria 500 vezes maior que o atual tráfego aéreo mundial. Como poderia ser possível controlar o tráfego aéreo de tanta gente?
E lembrem-se: um carro não é utilizado da mesma forma que um avião. Rotas aéreas são planejadas com semanas de antecedência, e verificadas inúmeras vezes pra garantir que sua trajetória não é conflitante com outra aeronave. Enquanto isso, tu sobe naquele teu Chevette 88 a alcool asqueroso pra ir ao supermercado quando acaba de notar que papel higiênico tá acabando.
Num mundo de carros voadores, ou você precisaria fazer seus planos de vôo com muitos dias de antecedência (tornando a posse do carro uma encheção de saco ao invés de uma praticidade), ou se acostumar com chuva de carro flamejantes todo dia na hora do rush.
Mas porra, poder voar por cima dos carros na hora do rush é justamente o motivo pra ter um carro voador, não? E daí se isso custará algumas milhares de vidas todo dia?
Na verdade…
4) Carros voadores seriam inúteis para combater congestionamentos
Essa é a imagem mental que qualquer pessoa que já desejou ter um carro voador tem. Aquele engarrafamento filho da puta na Marginal Tietê se estendendo por 7 quilômetros, solzão filho duma puta torrando o chão a 35 graus, tu simultaneamente com fome e com vontade de ir ao banheiro.
É nesse momento que você olha pro pisca-alerta e pensa, “não seria legal se ao apertar esse botão, o meu carro decolasse e eu pudesse passar voando por cima de todos esses cornos?”
Não é bem assim. O vôo VTOL, ou Vertical Take Off and Landing, é quase que completamente inviável. Não é à toa que só existem três aviões atualmente que fazem serviço dessa tecnologia: o Harrier, o F-35 e o V-22 Osprey — este último sendo notoriamente inseguro.
Existe um bom motivo pelo qual a tecnologia VTOL se resume a aplicações militares: ela não é prática. A sua fantasia de levantar um cubinho de acrílico, apertar o botão vermelho embaixo dele e sair voando por cima do congestionamento jamais se realizará.
E o pior não é isso. Tendo que depender de pistas de pouso e aterrissagem, carros voadores provocariam congestionamentos dignos de épicos da antiguidade. Sabe quando tu precisa esperar 25 minutos no avião em Congonhas enquanto pistas são liberadas pra decolagem? É um saco, né?
Agora multiplique as decolagens e aterrissagens por 800. Você chegaria rapidinho onde quer chegar com um carro voador, mas precisaria esperar duas horas pra aterrissar.
O pior não é nem isso. De acordo com um estudo do ano passado do Instituito de Transporte do Texas, um americano passa em média 34 horas por ano em engarrafamentos.
34 horas por ano? É isso? Porra, não dá nem dois dias, e leve em consideração que há mais carros nos EUA do que brasileiros no Brasil.
Existe REALMENTE uma necessidade vital de poder voar por cima do trânsito…? Especialmente quando você considera todos os outros problemas que essa “solução” traria?
Aceitem a realidade: jamais teremos carros voadores.












Concordo com o texto. Se nós já temos um CAOS com carros não-voadores, imagina a chuva de carros que seria se tivéssemos voadores!
Nem daqui a 100 anos existirão.
Acabou o sonho.
os irmãos Wright ja inventaram o carro voador … chama-se avião …
abs
chubiruba
Izzy, fodástico o texto
Mas sobre as 2 primeiras situações tem 1 solução, que seria o piloto automático, já tem carro da google andando por vários países sem motorista, se fizerem o carro voar podem traçar rotas padrões que os carros seguiriam TODOS automaticamente tipo em trilhos, pelo menos pelo que eu andava lendo sobre isso, a idéia “principal” sobre carros voadores envolvia esses “trilhos” automáticos…
Acabou com os meus sonhos.
Eu concordo com o texto, porém com algumas ressalvas. O texto mostra bem que com a tecnologia de hoje seria muito complicado um carro voador, no entanto se grande parte das operações ficassem a cargo de um computador de bordo, com uma tecnologia muito mais avançada do que a que temos hoje, não acho que teriam tantas dificuldades. Eu não entendo muito de aviação, mas sei que existe um louco que defende a idéia de abolir a função de co-piloto, pelo menos na sua companhia, mas como disse não entendo bem.
Concordo plenamente! Só porque você não enxerga como resolver esses 4 probleminhas não quer dizer que seja impossível. E se for possível, e as pessoas querem, alguém a tornará viável.
Ou você acha que as viagens turísticas ao espaço surgiram do nada. Nunca se imaginou viajar no espaço antes da guerra fria.
Sempre vi os carros voadores como inviáveis, pelos mesmos motivos, especialmente a complicação que seria controlar o tráfego de veículos que podem se deslocar verticalmente. Já é um problema controlar os que temos hoje. Mas quanto à complexidade dos controles, tu usou como exemplo um avião comercial que tem uma complexidade absurda mesmo, mas existem aviões de pequeno porte que possuem pouquíssimos controles, como os ultra-leves. Se algum dia se pensar em fazer carros voadores eu creio que os modelos iniciais serão bem mais próximos de um ultra-leve avançado do que de um avião comercial.
Curiosidade, quanto tempo de pesquisa mais ou menos tu gastou pra escrever esse texto? Porque tem muitas referências e tal. Ta muito bom
Mas vc falou da popularização de aviões, não de carros voadores.
Aviões usam as turbinas pra empurrar o ar e pra ir pra frente. Pra subir, descer e ir pros lados eles usam de gambiarras.
Carros voadores não empurrariam o ar pra lugar nenhum, eles venceriam a gravidade e flutuariam. Com isso seria possível deixar um carro parado no ar.
Muito mágico né.
Teremos carros que não precisam ser pilotados bem antes de termos carros voadores.
Sim, na verdade não faz sentido, se você parar pra pensar, que as pessoas controlam os carros em viagens. Carros em alta velocidade que dependem da habilidade humana, isso é insano. Um sistema eletrônico que faça isso faz muito mais sentido, tanto que o Google já desenvolveu isso até.
Tipo aquela cena de Eu, Robô, em que o Will Smith tira o piloto automático pra se salvar do ataque dos robôs e quando vão analisar o acidente, concluem que provavelmente foi porque ele resolveu dirigir o veículo rs.
Nunca quis carros voadores mesmo… Prefiro Need For Speed e quando eu bater o carro, ele volta piscando pra pista, bem melhor.
O que o Izzy postou é verdade! È melhor a gente se acustuma com um farol quebrado, do que com uma casa sem teto!
Disse tudo, sem mais!
Carro voador é coisa de engenheiro frustrado. Eu quero mesmo é que seja disponível para o público jetpacks.
Abs!
Estamos perto disso. A companhia neozelandesa Martin Jetpack ( http://martinjetpack.com/ ) espera liberar a “mochila” para seu primeiro comprador por volta de 2012. Ah, o valor do equipamento é de US$100.000
[...] This post was mentioned on Twitter by Byte Que Eu Gosto!, Fabio Coelho, tls!, Pedro bobalhão., Danilo Silva and others. Danilo Silva said: RT @izzynobre: 4 motivos pelos quais nunca teremos carros voadores » http://t.co/OiiDDsP (não dê RT ou meu servidor explode, obg) [...]
é realmente algo q parece impossivel, maas, como foi dito acima, quem sabe daki a 30 anos mudemos d opiniao
deu preguiça de ler… Mais tarde eu leio… =)
Concordo completamente com a afirmativa inicial, também não acho que um dia vai haver como organizar um tráfego aéreo pra geral. Nunca entendi aquelas “estradas” imaginárias que a gente ve nos céu de Coruscant.
Porém tenho alguns fatores em mente que podem mudar a equação.
1.Dificuldade? Há alguns anos atrás quantos homens eram necessários pra mexer num computador do tamanho de uma sala que fazia contas com luzes? E em quanto tempo seu irmão aprendeu a usar o aparelho mais apelão da atualidade? Cada vez mais os controles vem se tornando digitais. Nada como um pc assumir alguns dos controles que um cidadão não precise prestar atenção (como manter o avião paralelo ao chão).
2.Com relação à segurança acho que os pilotos automáticos que cada dia são mais absurdos daqui a um tempo serão os novos airbags, então se tu fez merda, rapidamente um computador de bordo redefine a rota e toma o controle. why not?
3/4.O tráfego de helicópteros que rola em cidades como São Paulo (acho que New York se assemelha. Os grandes empresários (grande minoria mesmo alias) que realmente não podem perder tempo com trânsito tem seus carros voadores que já infestam os céus. Acho que de certo modo os carros voadores começam a tomar forma. Assim como alguns anos atrás era impensável seu iPhone 4, hoje é impensável um controle aéreo pra cambada.
A sua fantasia de levantar um cubinho de acrílico, apertar o botão vermelho embaixo dele e sair voando por cima do congestionamento jamais se realizará.
Jamais é uma palavra muito forte hein…
Muito bom texto, parabéns, nunca ousei entrar num ônibus do sistema fura-fila que trafegam no alto da cidade.
Admito que já sonhei com essa possibilidade. Vi que não era possível assim que voei num avião pela primeira vez…
PS: Titânia tá escrito errado. E em que cenário otimista a Marginal Tietê estaria com apenas 7Km de congestionamento?!