Você alguma vez se chateou imensamente por algo completamente banal e inconsequente? Tou me referindo àquela bobagem totalmente inofensiva, e que você pode reverter com pouco ou às vezes nenhum esforço, que não deixa qualquer sequelas permanentes.
Hoje isso aconteceu comigo.
No meio dos anos 80, a Coca-Cola lançou uma promoção em que você levava algumas tampinhas de garrafa e uma quantia desprezível de dinheiro aos “postos de troca” e obtinha iô-iôs iguais a estes aí:
Eu nasci em 1984, então obviamente os únicos iô-iôs dessa série aí que eu tive contato foram as relíquias que meus tios deixaram pra trás nos seus antigos quartos na casa da minha avó.
Felizmente nos meus queridos anos 90 a promoção dos iô-iôs (“iô-iô” é uma palavra incrivelmente chata de digitar, tenta aí procê ver) voltou, com uma remodelação dos brinquedos:
Foto do Roberto Tumminelli
Eu sempre tive a teoria de que a promoção dos iô-iôs (sério, não aguento mais digitar essa palavra. Tu tentou aí?) era o resultado de algum tipo de ordem judicial com o objetivo de responsabilizar a coca-cola pelos bilhões de tampinhas de garrafa que se acumulavam nas sarjetas do nosso Brasil. Nos meses seguintes ao início da campanha, não se achava mais UMA SÓ tampinha no chão em todo o solo nacional.
Então, assim como muitos de vocês, fucei todas as esquinas num raio de dez quilômetros da minha casa (não se consumia muito refrigerante lá em casa, aí tive que dar uma de indigente catador de latinha mesmo), economizei duas ou três idas à cantina da escola, e adquiri meu próprio ioio. Sim, “ioio”. Cansei mesmo.
Bons tempos. Avance a fita pra uns 15 anos mais tarde.
Em uma de minhas sessões nostálgicas, percebi num estalo que havia quase duas décadas que eu não amarrava um ioio no dedo médio da mão direita e me divertia em fazer o briquedinho desafiar a lei da gravidade.
Comentei com a muié e esta, se compadecendo da minha ânsia de reproduzir uma fase icônica da minha infância, saiu comigo à caça de um ioio. Fomos ao Walmart e achei isso aqui:
Se houvesse na prateleira do lado uma máquina que transformasse peidos em barras de ouro, pelo menos preço do ioio, e eu tivesse 2 dólares no bolso, eu teria comprado dois ioios.
Peguei o troço no ímpeto e corri pro caixa. Já no caminho pra casa, destruí a embalagem, fixei o bichim no dedo e me deleitei falhando desgraçadamente em todas as tentativas de reproduzir os truquezinhos rudimentares que eu saiba fazer quando criança.
O barbante apertava o dedo cortando a circulação e eu não tava nem aí. A cada rodopio, um grama daquela clássica habilidade infantil perdida voltava; pouco a pouco meus músculos lembravam exatamente a sequência de movimentos sutis que faziam o ioio parar a centímetros do chão e rodopiar em seu eixo sem subir de volta.
E tudo estava perfeito com o mundo.
Hoje fui jogar Magic com meus broders, como fazemos várias vezes por semana – tou vivendo um período de vício doentio no jogo.
A casa do meu chegado (que não aparece nessa foto) fica próxima ao McDonalds da região, então virou tradição se empanturrar de comida porcaria após jogar com as cartinhas. Fomos à lanchonete, e eu rodopiando o ioio com alegria e explicando pros amigos a história da promoção da coca-cola, a caça das tampinhas, etcétera.
Após o lanche meu irmão recebe uma ligação do meu pai – ele estava nas redondezas, e nos ofereceu uma carona de volta pro nosso apê.
E lá estava eu, ocupando o assento da frente (que é meu direito inalienável de filho primogênito) e, enquanto meu irmão e irmã tagarelavam no banco traseiro, notei que havia algo de errado. Bati nos bolsos e detectei que havia um ioio a menos do que esperado.
Houve um misto de tristeza com desespero. Comecei a apalpar todos os bolsos da bermuda, do suéter, os compartimentos da mochila. Nada. O ioio havia sumido, certamente deixado pra trás na mesa do McDonalds.
Senti como se meu próprio espírito tivesse levado um chute na cara. Como uma legítima criança de 11 anos, eu havia esquecido meu brinquedo na porra de um restaurante!
A tristeza foi irresistível. Sem muita esperança, continuei tateando os bolsos, revirando a mochila, tendo a plena certeza que o brinquedo havia sido perdido, mas incapaz de parar de procurar.
“Não há motivo pra chateação”, tentei negociar comigo mesmo. “Amanhã você vai no Walmart e compra outro, aliás, foda-se, compra logo DEZ duma vez se quiser”. Afinal, a porra do ioio custa um mísero dólar. Não é um imenso prejuízo.
Mas algo ainda continuava me chateando, e eu não sabia por que. E finalmente entendi a tristeza.
A minha infância, assim como aquele ioio, foi perdida – deixada pra trás há quase duas décadas. E embora há muito tempo eu tento revive-la (aquele post dos abandonwares é um exemplo recente desse hábito, assim como a própria compra do ioio), volta e meia eu sou relembrado que o que passou passou e jamais voltará de novo. Assim como o ioio que eu deixei no McDonalds, minha idade áurea já era.
Mas lá vou eu tentar comprar outro pra mitigar a perda. Perder o ioio que me trouxe tanta alegria e planejar substitui-lo foi um triste paralelo da minha condição de estar eternamente tentando reviver minha infância esquecida.
![]()









Tempo bom que não volta nunca mais… e sim, tive 3 iô-iôs da década de 80, mas se perderam. Nostalgia à parte, uma hora a gente ou se desprende da infância ou nunca mais se livra dela.
primeiro! lol! nem li! foda-se!
Dá pra me identificar fácil com seu texto!

To pra fazer 20 anos e sempre me pego pensando que não tem mais volta os anos felizes da infância.Pelo menos eu guardo a lembrança de que tive uma infância bem vivida.
ótimo post! Abraço.
Sensacional Kid, eu me lembro desses iô-iôs da década de 80, teve até um campeonato disso no programa Os Trapalhões.
Caralho, tô ficando velho. :-/
[...] This post was mentioned on Twitter by izzynobre. izzynobre said: http://hbdia.com/wordpress/2010/05/17/puta-que-pariu/ leia agora caro amigo que ainda está acordado. [...]
Comprei um Jace Beleren e um Iô-Iô depois de ler seu blog véio. 103 Reais a menos na minha conta. Culpa sua, mate.
Abraço, keep the good job.
Demais o teu texto.
De um tempo pra cá também
comecei a ter esse espírito
nostalgico.
As vezes é bom reviver esses tempos.
O da Sprite era o mais bonito.
O Galaxy, que brilhava e tinha luzes, era privilégio dos ricos. Aqui em Natal ignoravam os anéis de lata. A gente ia atrás dos selos dos copos de plástico nos lixos da praça de alimentação do shopping (pq na época, só havia um shopping na cidade)
Tinha também o manual com os truques. “Cachorrinho Passeando”, “Volta ao mundo”, etc.
Nossa… Eu sempre estragava meus io-ios e com isso minha mãe brigava muito comigo… =( Mas era uma época maravilhosa…
Mas não deixe-se abater não… compre outro mesmo… Mesmo sabendo que esses tempos de “ouro” não voltarão, o que importa é a sua felicidade. =)
Muito bom o post,
Estou morando nos EUA a tres meses e sexta fui no Walmart e tinha visto este iô-iô mas acabei deixando pra tras e nao comprei, agora vou ser obrigado a voltar la pra comprar e relembrar a infancia perdida.
Sou de 77 e tinha esses iô-iôs da Coca, bem como os mini engradados tb.
Lembro que nas festas de familia era uma briga pra quem ficava com as tampinhas…
Eu tive um desses da promoção da Coca-Cola…
Mas é engraçado como a gente passa mesmo boa parte da vida adulta tentando encontrar algo que nos dê a mesma alegria que tínhamos na infância. E não sei se é pior achar algo e se prender à infância ou não achar e ser forçado a abdicar de tudo que já te fez feliz inocentemente.
Cara, com imensa tristeza me identifiquei com tua situação. Por mais que eu compre meus vídeo-games, por mais que encha-os de jogos, nunca mais reviverei os momentos de minha tenra infância, tomando uma surra do meu pai no Street Fighter. Dá um puta saudosismo do caraleo, vontade de voltar no tempo e reviver aqueles momentos que, mesmo curtos, sempre estarão na minha memória.
É Izzy, infelizmente o tempo tá passando pra nós.
Abraços.
Volta ao mundo já me deixava orgulhoso. Eu esperava os domingos pra assistir Transformers.
Cara, lia seu blog há eras. O seu e muitos outros clássicos da internet (olha aí a porra da nostalgia). Hoje, de alguma forma, cheguei até aqui de novo e já estou há 2 horas lendo (6 horas da matina, tenho que dormir pra acordar às 10h30 pra trampar…fffuuu), e vejo que continua bem legal.
Agora, passados os flashbacks e elogios, devo dizer que eu, assim como a torcida do Framengo e do Curintia, me identifiquei muito com esse post.
Essa tristeza nostálgica, por umas 2 vezes já conseguiu me conduzir à beira das lágrimas. haha
Os iô-iôs (uma merda mesmo escrever) da Coca-Cola eram um clássico, quando conseguia fazer algumas manobras como aquela do balanço, eu quase morria de felicidade.
Involuntariamente você me despertou uma lembrança nostálgica um pouco mais recente: Magic. Me arrependo, mesmo não jogando mais, de ter vendido uma caixa com 1200 cartas e uns 4 decks por 180 mangos, só pq eu era um duro.
Com isso aprendi a não tentar reviver o que passou e a se conformar que não sou mais criança… mas a verdade é que sempre vem a tona alguma memória.
Enfim, desconsidere a grande carga de comentários aleatórios e mal organizados, são 6h17 da matina, eu mereço um desconto.
Continue com o bom blog.
Grande abraço.
Caralho, Kid… Que merda =
é tudo verdade…
Mano, se você tá assim aos vinte e poucos anos, temo por você na meia idade. Cada fase da vida tem suas prerrogativas e saudades da infância querida que não volta mais é uma prerrogativa da idade avançada. Você vai chegar lá, não tenha pressa.
e assim caminha toda a humanidade… triste, mas verdade…
Carai KID, entendo a tristeza, acima de tudopor olhar as promções atuais da Coca-Cola.
p.s se tomou ácido nesse final de post?
Muito triste… Mas é verdade… Nós crescemos, e finalmente podemos satisfazer nossos caprichos infantis com facilidade…
Mas daí percebemos que deixamos a infância pra trás…
Entendo a sua tristeza mais não entendo pq vc não usa Ctrl+C e Ctrl+V ai os iô-iôs ficariam mais fáceis