Rapaz, eu acho que mereço mesmo tudo que tou passando.

Outro dia eu tava no MSN conversando com amigos sobre presepadas que aprontamos na escola quando somos crianças. Alguém falou sobre roubar lanches dos estudantes menores (e portanto, menos vingativos). E eu fiz muito isso quando era pivete.

O pátio da escola era o cenário das ações mafiosas. Eu e alguns colegas interpelávamos as crianças que comiam avidamente seus pastéis de queijo com orégano. Essa era a tática: abordar o alvo em grupo. Dificilmente alguém se rebelava contra a exploração se atacassemos todos juntos. Claro que o pastel teria que ser dividido entre a quadrilha, mas os resultados de um ataque em massa eram sempre melhores.

Se o garoto fosse esperto, ele racharia o lanche com a turma e ninguém saía ferido ou chorando pra coordenação. Se não… Bem, nos primeiros instantes não acontecia nada, e o malandro achava que ia sair impune. O pobre infeliz continuava a comer seu pastelzinho de queijo com guaraná quando de repente, não mais que de repente, alguém passava correndo e ACIDENTALMENTE mandava um tapão na mão do moleque, derrubando seu pastel. Antes que a criança ao menos pensasse em recolher o lanche do chão (alguns sopravam a areia do pastel e continuavam a comer sem a menor cerimônia), a turma ACIDENTALMENTE corria pra cima do salgadinho e ACIDENTALMENTE pisoteavam-no até que ficasse irreconhecível, enquanto ACIDENTALMENTE cantávam um hino de escárnio, aloprando o egoísta.

A vingança era maligna, mas essa era a Lei. Não repartia o lanche, ficava com fome. E que não pensassem em cagüetar os criminosos!

Mas ocasionalmente uma vítima corajosa reportava às autoridades. Entretanto, por medo de retaliação, o X-9 não apontava diretamente o autor do crime, aquele que maldosamente derrubou seu lanche. Algumas vezes o coitado nem ao menos conhecia aquele que derrubou seu pastel, porque o colégio era grande. E além disso, todos sabiam que, uma vez fora dos portões da escola, o buraco era mais embaixo… Dessa forma, passei um ano inteiro lanchando de graça, impune.

Mas melhor que isso era roubar lanche diretamente da cantina do colégio. Em dias de rush, quando ninguém trazia lanche de casa, a cantina ficava absurdamente lotada. Os carinhas que trabalhavam na cantina ficavam sobrecarregados, e só viam dezenas de guris com suas mãos estendidas através do balcão, esperando receber seus lanches, enquanto gritavam “cadê meu lanche, me dá meu lanche…“. Eu e alguns amigos nos infiltrávamos na turba, estendíamos os braços e nos juntávamos ao coro do “cadê meu lanche, me dá meu lanche…“. Vez ou outra alguém conseguia filar um pastel. Se ninguém mais conseguia pegar um salgado, aquele que teve êxito tornava-se vítima da mesma extorsão que os guris menores sofriam.

Era um mundo cruel.

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