Lembranças do Brasil

Aí uma vez eu estava num busão voltando do centro da cidade – quase dormindo – quando subiu um velhinho no coletivo. O idoso entrou no veículo sem pagar a passagem, e carregando diversas malas. Ele deixa algumas no piso do busú, e desce pra pegar mais algumas. O motorista, achando que o digno senhor já estivesse a bordo, pisou na tábua. Imediatamente ouviu-se uma sequência de pancadas na lataria do ônibus e gritos de desespero dos passageiros, porque o velhinho tinha colocado suas malas no ônibus, mas ainda não havia subido. E então descobriríamos que o velhinho era bastante invocado.

[ Velhinho Bastante Invocado ] Ô seu motorista feladaputa! – gritou ele, assim que subiu no veículo – Seu corno! Quando eu tiver entrando é pra parar essa porra! – ele parou momentaneamente de xingar para erguer seu chapéu de vaqueiro que caia e ocultava seus olhos. Imaginem um velhinho com um chapéu de vaqueiro no meio da cara, xingando como um técnico de futebol com hemorróidas.

[ Motorista “Feladaputa e Corno” ] Hmpft…

O Velhinho achou que os passageiros do ônibus estavam muito interessados em ouvir suas histórias gloriosas de brigas com outros motoristas – coisa que aparentemente persegue o coitado. Ele então começou a desfiar peripécias anteriores e xingamentos (exatamente nessa ordem, porque ele contava uma história e em seguida falava alguns impropérios)

[ Velhinho Bastante Invocado ] Outro dia um desses motoristas palhaços fez a mesma coisa comigo… Nós tava subindo e eles num espera nós, quer logo ir embora… Esses bando de feladaputa… Esses corno…

[ Passageiro Bonzinho Fingindo Interesse #1 ] Foi mesmo?

[ Velhinho Bastante Invocado ] É… A gente tentamos argumentar, e ele ainda disse que ia me bater, esses baitola… Caralho…

(Eu nunca tinha ouvido um velho dizer caralho antes. Acho que caralho é um palavrão novo. Eles só conhecem feladaputa e corno)

[ Passageiro Bonzinho Fingindo Interesse #2 ] Mas que coisa… Eles não podem fazer isso não…

[ Velhinho Bastante Invocado ] Mas eu calei a boca daquele corno! Sabe o que eu fiz? Eu puxei minha… – aí ele se abaixou e passou a procurar algo dentro da mala. Nesse ponto todos já tinham sacado que o velho não ia lá muito bem da cabeça. O que ele estava procurando na mala? Os passageiros imaginavam que o Velhinho ia sacar um 38, ou uma bazuca.

Eu já estava achando que o Velhinho era um cara bacana, corajoso, um verdadeiro terrorista urbano e tudo mais. Ia até elogiá-lo. Aí ele finalmente achou o que procurava em uma das malas.

E puxa uma faquinha de manteiga da Tramontina

Sem ponta.

Tipo essa



A despeito do terrível perigo que o Velhinho se tornou nesse momento, uma sonora gargalhada dominou o interior do ônibus. Os passageiros, num coro de risadas, não respeitaram o terrível Velhinho armado. Este, achando por algum motivo que o motorista era o responsável pelas chacotas, ergueu sua lâmina em direção à frente do ônibus, em uma patética pose de ameaça. Eu não conseguia acreditar na cena. Os risos aumentaram em número e intensidade.

Alguém fez sinal pro ônibus parar logo em seguida. O velhinho, que estava em pé no corredor do ônibus, foi desequilibrado pela parada brusca do veículo. Ao tentar desesperadamente se agarrar a uma das barras de apoio, se descuidou e derrubou a sua arma mortal. E ele se pôs de joelhos pra procurar a porra da faquinha, que tinha ido parar EMBAIXO da cadeira do motorista. Imaginaí um velhinho com idade pra ser seu avô, tateando em busca de uma faca de manteiga e praguejando contra a criação divina.

Os passageiros deliraram em gargalhadas. Se risadas causassem orgasmo, estaríamos todos gozados. Acho que nunca ri tanto na minha vida.

E nesse ponto (literalmente, pois era um ponto de ônibus), eu tive que descer. Esse Velhinho deve ter aprontado mais alguma coisa lá, eu tenho certeza.

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