5 motivos pelos quais o Game Boy era uma merda

Eu não preciso te falar que sou fã do Game Boy. Mesmo que precisasse, eu ainda não falaria. Bastaria eu te mostrar essa foto:

Esses nem são todos os meus gameboys, aliás. Tenho outros 4, além de clones.

Tal qual o dilema Tostines, eu não sei se sou fanático por portabilidade POR CAUSA do meu fascínio pelo Game Boy, ou se queria tanto um Game Boy quando criança justamente porque já gostava da idéia de consoles portáteis. De qualquer forma, eu passei minha infância inteira desejando essa porra, e só pude finalmente satisfazer o desejo quando adulto quando comprei literalmente todos os modelos disponíveis do aparelho.1

Incluindo o famigerado Game Boy Light, uma versão do Pocket com retroiluminação que por motivos inexplicáveis da Nintendo só quis lançar no Japão.

Chore, Lucky

A minha obsessão pelo Game Boy é curiosa quando consideramos que ele sempre foi, objetivamente, o pior console portátil de sua geração em inúmeros aspectos. Demorou um bom tempo pra eu conseguir admitir isso pra mim mesmo, mas uma vez que cheguei nessa inevitável conclusão, não dá mais pra me enganar. O Game Boy era, hardwaremente falando, um belo lixo, porque…

A empunhadura não era a melhor

Os principais competidores do Game Boy eram o Game Gear, o Lynx, e o Neo Geo Pocket Color. Antes do Game Boy, a Nintendo fabricava os Game and Watch, uma série de minigames com preço mais acessível que tiveram inúmeros equivalentes paraguaios com os quais nós brasileiros somos mais familiarizados.

Eu tinha EXATAMENTE esse.

Sabe o que todos esses consoles não-Game Boys tinham em comum?

Orientação horizontal.

Orientação horizontal foi escolhida como um padrão não-oficial pra console portátil pelo mesmo motivo que todo controle de videogame na história 2 é também orientado horizontalmente — porque isso torna a jogatina muito mais confortável por longos períodos.

O Game Boy, com sua geometria que em muito lembra um tijolo — aliás, suas dimensões lembram mais um tijolo do que os celulares arcaicos que nós chamávamos de “tijolão”, veja você –, já não era a coisa mais confortável do mundo de segurar.

E a Nintendo ainda fez você segurar ele em pé.

Tinha uma injustificável tela monocromática

A gente tem que dar um desconto porque afinal de contas, nossas expectativas pra aparelhos eletrônicos portáteis era bem baixa em 19893.

Entretanto, os outros eletrônicos portáteis da mesma época só tinham que calcular e avançar faixas do CD. Jogos são entretenimento interativo que requerem uma apresentação num aparelho com capacidade gráfica maior do que o display de um microondas.

Jogos em preto e branco parecem uma proposição ainda mais estranha quando consideramos que todos os competidores do Game Boy (O Game Gear, o Lynx, e o TurboExpress) tinham telas coloridas, e ainda assim o Game Boy vendeu infinitamente mais.

Não tinha backlight

Eis outro aspecto em que o Game Boy apanhava — feio — pra competição. Ao contrário dos contemporâneos Game Gear, Atari Lynx e Turbo Express, o Game Boy não tinha retroiluminação. O que significa que pra jogar, você precisava manipular o Game Boy até criar um ângulo adequado para que o  reflexo da luz ambiente te permitisse ver o Mario pulando na tela.

A “solução” pra isso eram essas atrocidades vendidas por empresas third parties. A própria Nintendo, que fez vários acessórios pro Game Boy, jamais produziu algo pra aliviar esse problema — o que me faz pensar que a empresa simplesmente não via isso como um problema. A única forma de explicar isso é que ninguém na Nintendo jamais cogitou jogar Game Boy a noite.

Pelo menos a tela monocromática produzia um constrate grande o bastante pra que essa limitação funcionasse razoavelmente bem. O Game Boy Advance, por outro lado, com sua tela colorida, é quase IMPRESTÁVEL se você inclinar a mão meio grau em qualquer direção divergente da posição perfeita. Eu realmente não entendo como conseguíamos perdoar aquilo. Eu tentei jogar recentemente e, tendo sido mimado por mais de uma década jogando a biblioteca do GBA no PSP, não consegui aguentar nem 5 minutos de Pokemon FireRed no hardware original para o qual ele foi projetado.

Tire isso da minha frente AGORA.

Tinha um refresh rate asqueroso

Apesar de ser monocromática, a tela do Game Boy não era nem um respeitável preto-e-branco clássico; ao contrário disso, a Big N preferiu um painel verde-catarro que, embora tenha seu charme nostálgico, não era exatamente muito elegante.

A resolução de agenda eletrônica seria até perdoável se a tela não tivesse um refresh rate horrível que criava um insuportável efeito “ghosting” sempre que muitos objetos na tela se moviam:

Não sei COMO consegui zerar esse jogo

Qualquer jogo que não fosse um RPG em turnos era transformado pela tela do Game Boy numa infernal bagunça borrada. Considerando que aproximadamente um ano depois teríamos o Game Gear na cena, com um refresh rate notavelmente melhor, é impressionante que não apenas perdoamos isso, mas o transformamos num best seller.

Nem mesmo a posição dos botões fazia sentido

Como os meus Game Boys foram imortalizados em shadowboxes estilosíssimas que causam inveja a todos os meus colegas colecionadores, terei que ilustrar o ponto seguinte usando um dos meus clones.

Esse é o GB Boy Colour, um excepcional clone de Game Boy Color que vem com 188 jogos de Game Boy na memória, e também aceita cartuchos originais. Comprei esse bicho pra resenhar no canal e, como sou um procrastinador profissional, o vídeo nunca veio. Mas tenham fé, porque eu vou resenhar esse troço muito em breve. Já dou o spoiler — é excelentíssimo.

Sério mesmo, se você não tem frescuras em relação a jogar só no hardware original — uma limitação moral que eu, um aficcionado por emuação, jamais sofri –, o GB Boy Colour é a melhor forma de experimentar a biblioteca do Game Boy.

E sim, um daqueles 188 jogos é Tetris.

Enfim. Repare a posição dos botões B e A. Porque o A está à direita e acima do B, isso requer que sua mão aborde os botões num ângulo completamente não-natural:

Talvez pareça normal porque estamos acostumados à esse layout há anos, mas pare e pense em como a empunhadura do Game Boy seria melhor se o botão B estive ACIMA do A.

Não precisa imaginar, porque usei meus skills de MS Paint pra criar uma simulação computadorizada deste mundo ideal no qual a Nintendo nos impediu de viver:

ESSA deveria ter sido a posição certa dos botões do Game Boy. O polegar cairia muito mais naturalmente na diagonal criada por um botão B mais alto, e poderíamos segurar o bicho com as mãos numa posição mais simétrica, e portanto confortável.

Talvez pareça estranho que eu, um fanático pelo Game Boy, tenha escrito um texto de mais de mil palavras pra cagar em cima de todas as características do console. Entretanto, o que eu quero dizer com esse artigo é que todo e qualquer indivíduo que argumente que console X é melhor que o console Y porque (insira aqui a argumentação vazia de specs técnicos) está ignorando a história da indústria dos videogames.

Hardware nunca determinou qual console era “melhor”, a menos que na definição extremamente restrita de “qual desses dois poderia minerar mais bitcoins?“. O que determina o sucesso de um console, a sua longevidade, e o nosso apego a ele são os JOGOS.

Isso é um grande lugar comum, eu sei, mas acho que o Game Boy prova essa máxima de forma praticamente inegável.

Quando algum fanboy chato brotar nas suas mentions/comentários do FB insistindo que o console favorito dele é melhor porque ele consegue renderizar cinco quatrilhões de polígonos ou é capaz de 60 teraglubs de procesamento ou porque tem 237 gigabytes de RAM — lembre-se do Game Boy que, mesmo com sua tela bosta e botões em orientação errada, vendeu mais do que todos os competidores somados.4

E mande o fanboy tomar no cu. Não que você precisasse de todos esses argumentos, mandar fanboy tomar no cu é uma posição bastante segura de qualquer forma.

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6 comments

  1. Excelente texto, Izzy. Engraçado como lembramos das coisas com uma nostalgia tão positiva que deixamos algo melhor do que realmente era. Na minha memória, o game boy era um console topissimo para jogar. Obrigado por refrescar minha memória (cabeça e mãos), do sofrimento que era jogar GB por mais do que 20 minutos diretos. Talvez por isso ele sugava tanto as pilhas, impedindo a gente de jogar muito hmm.

  2. Verde-catarro é nostalgico hoje, naquela época era o que tinha. Peguei um gameboy usado uma vez numa troca e só tinha o Tetris de início. Cheguei no final do Tetris, e rolou uma animação da space shuttle decolando pra zerar o jogo. Muito foda.

  3. Um clássico e o verdadeiro pontapé inicial para a industria dos portáveis, porque após o Game Boy você poderia manter o videogame e levar vários jogos diferentes, fora isso, você esqueceu de criticar o alto consumo de pilhas.

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