A curiosa história dos cometas, parte 2: a seita Heaven’s Gate

Olhaí

Lembra desse texto? E que eu havia prometido uma continuação que trataria dos malucos que atribuem aos cometas significados esotéricos e tal? Então, aqui está.

Como eu havia mencionado, tem o tal cometa Hale Bopp, né. Em 1997, o cometa fez uma passagem pelo nosso planeta. Ele só passará de novo no ano 4385, e eu não acho que estaremos vivos pra presenciar, então se tu não era nascido naquela época ou era apenas um bebê você e fodeu.

Existia um grupo de malucos/religiosos na época chamado “Heaven’s Gate”, ou “Portão Celeste”numa tradução livre. Quando eu digo que eram malucos/religiosos, não faço isso por causa de algum preconceito contra pessoas de fé nem nada. É que o Heaven’s Gate era de fato 90% malucos, 10% religiosos. Vamos conhecer os caras.

Vamos concordar logo de cara que um logotipo em WordArt não inspira muita confiança.

O Heaven’s Gate era um grupo esotérico “milenarista”, que é o termo usado pra descrever a galera meio “Age of Aquarius” que acredita que estamos na beirada de alguma imensa revolução da consciência humana ou algum papo hippie assim.

E o Heaven’s Gate achava que nós, humanos, somos guiados espiritualmente por alienígenas ou coisa similar. Talvez fomos criados por eles. Talvez somos reencarnações deles. Se parece meio indeciso, é porque a doutrina dos caras realmente mudava constantemente.
Quem era o sujeito por trás do movimento? Era um camarada chamado Marshall Applewhite, que nos anos 80 era o portador de uma das maiores “caras de maluco” nos Estados Unidos:

Se você já achava que o logotipo da religiao não inspirava confiança…

Nos anos 70, o Marshall conheceu uma enfermeira chamada Bonnie Nettles. A mina era chegada numas viagens esotéricas, que era justamente a praia dele também, e rapidamente viraram grandes broders. Eles discutiam frequentemente suas teorias em relação ao universo e a alma humana, e aí decidiram (por que não?) que eram uma espécie de profetas do retorno dos alienígenas. Misturando teologia bíblica, ficção científica e provavelmente uma erva da boa, os dois bolaram o rascunho da sua religião e resolveram ir pregar as boas novas.

Não surpreendentemente, as igrejas evangélicas em que os dois foram pregar receberam suas teorias heréticas extremamente mal. A dupla de malucos não se desmotivou; em vez disso decidiram que estavem abordando o público-alvo errado. Eles começaram a publicar anúncios fora do círculos cristãos, procurando outros malucos mais receptivos às suas idéias de deuses alienígenas.

Mais ou menos nessa época eles lançaram outro patch na sua fé — os dois começaram a alegar que eles eram representantes terrestres dos tais alienígenas, e que estavam em busca de humanos para experimentos. Os que concordassem em participar fariam um level up para um nível evolucionário superior. Sabe os joguinhos freemium que te bonificam com algumas moedinhas virtuais se tu assiste uma propaganda ou manda invite pros amigos? Era mais ou menos isso, mas no nível espiritual.

A propósito, manja o naipe dos vídeos que ele gravava pros iniciantes na seita:

Repare que lá por volta dos 4 minutos ele começa a basicamente se declarar uma reencarnação de Jesus — mas sem falar isso diretamente; a impressão que dá, por causa da aparente confusão dele em explicar a “teoria”, é que ele havia acabado de bolar aquilo naquele exato momento, e surpreendeu a si mesmo com a “epifania”. Maluquice fode.

Então. Esse rapaz conseguiu convencer uns outros CINQUENTA malucos a adotar sua crença, o que é interessante porque eu não consigo convencer três amigos pra me ajudar na mudança ou uma amiga pra um menagezinho. Parte do dogma do sujeito é que o corpo humano era apenas um “veículo” para o espírito; todas as coisas materiais eram desimportantes. Não é exatamente original, mas o sistema de crença do Heaven’s Gate era uma colcha de retalhos mesmo. Ninguém espera que malucos inventem coisas coerentes, né?

Eventualmente o papo de “olha o planeta vai ser resetado, e os aliens estão vindo aí um dia pra salvar os Escolhidos!” se tornou mais emergencial. O grupo passou a empurrar mais a mensagem de “se arrependam todos, o fim está próximo!” e se mudou pra uma mansão alugada, onde passaram a viver como uma comunidade hippie — mas sem o tal “amor livre” que é característico tanto dos hippies quanto dessas seitas esotéricas.

Aliás, não tinha amor NENHUM no Heaven’s Gate. Como uma parte da doutrina era sacrificar todas as posses e prazeres terrenos, todos os membros masculinos da seita foram ao México para serem cirurgicamente castrados.

Por livre e espontânea vontade. Até o próprio Applewhite deu adeus ao seu bilal, ou seja — cê vê que chama-lo de maluco não era exagero meu.

PELO AMOR DE DEUS O QUE DIABO ESSE MALUCO DESPIROCADO AÍ (literalmente) TEM A VER COM COMETAS PORRA?!

Então. Os caras realmente achavam que o planeta seria formatado e reiniciado com uma cópia novinha do Windows, e que a única forma de se salvar era pegar uma carona com uma espaçonave que estaria escondida atrás do cometa Hale-Bopp. Então o pessoal começou a se preparar pro ritual de “partida”.

O grupo vestiu calças pretas de moletons e camisetas pretas, com uma insígnia no braço que dizia “Heaven’s Gate Away Team”. Era essa a insígnia:

heavens

“Away Team”, como quem manja de Star Trek deve lembrar, é o time que sai da nave pra fazer alguma missão de exploração. Como eles consideravam os próprios corpos “veículos”, ao se desencarnar, os membros do Heaven’s Gate se tornavam um Away Team.

E foi o seguinte. Ao longo de alguns dias, a galera se dividiu em 3 grupos. Os caras tomavam uma mistura de fenobarbital, suco de maçã e vodca; o grupo restante colocava sacos plásticos nas cabeças deles, pra finalizar a asfixia. Uma vez mortos, o pessoal restante colocava um pano roxo cobrindo o corpo dos defuntos.

Manja como era grotesca a parada:

heavens gate

Quando o primeiro grupo já tinha falecido, era a vez do próximo. O ritual se repetia, até que sobraram só duas mulheres. Essas foram as únicas que ficaram sem os sacos plásticos na cabeça.

Se você tiver estômago pra isso, aqui há um vídeo em que os membros da seita dando seus “Exit Statements”, ou seja, suas declarações finais antes do suicídio. Este outro é mais curtinho. Neste outro, o líder da parada dá suas considerações finais, e filma vários dos membros do negócio, usando os tais uniformes de “Away Team” nos quais eles foram encontrados sem vida.

Nesse último aí, há um certo tom de “você que está assistindo esse vídeo anos depois certamente já conhece esses caras, já que seremos os famosos salvadores da humanidade, mas vamos apresentar eles pra você assim mesmo”. E percebe-se também a curiosa nomenclatura pros membros da seita — todos abdicaram de seus nomes e adotaram alcunhas como “JMMODY” ou “PRESSODY” ou “DVVODY”. “Ody”, a propósito, era um honorífico lá deles; aos 1:07:20 ele explica a semântica por trás do tal sufixo ODY.

Em um momento o Applewhite fala “eles terão uma chance de mostrar que não são mudos nem coisa do tipo, eles conseguem controlar o veículo deles plenamente e tal”. Traduzido do Heaven’s Gatês, isso deveria significa algo como “quero deixar claro que estão todos aqui por plena e livre vontade”.

A parte particularmente tensa é o momento em 31:30, em que o Applewhite filma um dos membros e diz “que bom ter o fulano de volta em nosso meio, ele esteve longe de nós por um tempo mas o resgatamos”. Nas entrelinhas, é perceptível que o que deve ter rolado é que o sujeito teve uma crise de fé, mas foi convencido a retornar para o grupo. Ou seja — por pouco, poderia ter sobrevivido ao pacto de suicídio.

E é muito bizarro ouvi-los falando “não, de boa, a gente sabe o que está fazendo, e malucos são vocês por não aceitarem a Verdade”. Os caras estavam completamente convencidos de que o que estavam fazendo era perfeitamente lógico.

Acho esse tipo de seita morbidamente fascinante; é muito intrigante pra mim a mentalidade de estar tão firmemente convencido em uma certa filosofia ou ideologia que você está disposto a morrer por ela. Assim como é bizarro que o cara não está falando NADA COM NADA — sem exagero, a maioria das mensagens dele não faz o menor sentido –, mas que aquilo é recebido pelo grupo como uma mensagem coerente e importante.

O mais interessante sobre o Heaven’s Gate é que, ao contrário de muitos outras seitas suicidas, eles documentaram muitos das suas práticas e doutrinas, que nos permite compreender um pouco melhor a maluquice. Não que compreendamos muito — eu nunca conseguirei entender como que o sujeito vai pro México se castrar voluntariamente –, mas pelo menos serve como um fascinante registro histórico.

Ah, e não, não tinha nave espacial atrás do cometa e eles se foderam à toa. Tem isso também.

Ahhh, quase esqueço: o site dos caras ainda está no ar.

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9 comments

  1. Sabe aquela frase do Voltaire?
    “Nós nascemos sozinhos. Nós vivemos sozinhos. Nós morremos sozinhos. E qualquer coisa neste intervalo que possa nos dar a ilusão de que não estamos sós, nós nos agarramos a ela.”
    Pois é. O ser humano nada mais é do que um carente, que tenta durante toda a vida se ver como um ser especial. Triste e compreensível.

  2. Isso me fez lembrar de um psicólogo que se infiltrou em uma seita similar a essa (mas, inofensiva)que também pregava que o mundo iria acabar e os ETs viriam buscar os seguidores. A “profetisa”(veia doida) líder da seita Dorothy Martin falou que um disco voador os buscaria em certa data e els deviam se desfazer de todos os bens e cortar os laços sociais fora do grupo antes do evento. A data e hora chegaram, todos estavam reunidos, mas os aliens não vieram (Sim, eu juro). Resultado: os seguidores ficaram em angústia, mas a Dorothy veio e disse que eles a fé demonstrada por eles iluminou o mundo e o apocalipse foi cancelado. TODO MUNDO acreditou e apesar da profecia ter fracassado eles sairam com a fé renovada. Antes eles eram fechados, mas depois dessa sairam pregando pra todos os lados.

    É curiosa a semelhança dessa seita maluca com um grupo de judeus que a 2000 anos atras largaram os bens e as familias para seguir um homem que pregava uma versão bem diferente do judaismo. O líder morreu sem que as coisas que ele disse que aconteceriam tivessem se cumprido, mas dias depois sua tumba estava aberta e vazia. Ele ressuscitou, o que ele havia dito antes iria se cumprir, ele só havia sido mal interpretado, afé se renovou e eles sairam “pregando a todas as nações”. Mais curioso é que hoje esse grupo ri da seita mais nova e exige que todos dêem o braço a torcer para sua crença.

  3. Sobre a frase “ou uma amiga para um menagezinho”, uma coisa me perturbou um pouco.

    Se falta convencer uma amiga, assumo que a Bebba já topou. Cheers, mate! 🙂

    P.S.: Larga dessa mulher que eu vou pra Calgary te cobrir de porrada.

  4. Eu também acho fascinante pessoas que entregam suas vidas por algo que acreditam, mas em casos de seitas malucas como essas eu não vejo essa beleza. Não é por preconceito com formas de fé minoritárias ou ojeriza por gente que mistura espiritualidade com produtos do final do século XX, mas porque eu acho que elas tem uma pegada diferente das religiões mais tradicionais (mais especificamente, cristianismo). O que eu vejo (ou acho que vejo) nesse tipo de seita é mais uma necessidade de sair do comum ou de não se sentir excêntrico demais.

    Olha pra esse cara, velho. Ele tem um jeito de quem sofria bullying no colégio e era ostracizado no trabalho quando adulto. Não me admiraria se ele não tivesse namorado ou transado, e isso explicaria o porque da exigência da castração física. O suicídio foi só uma forma de dar um final em tudo e de ter a sensação que, ao menos na morte, não partiria sozinho e estaria rodeado por iguais. As incessantes gravações -- que você mesmo, Izzy, comentou ser desnecessária já que eles “dominariam a humanidade -- talvez fossem uma alternativa para, ao menos uma vez na vida, conseguir algum destaque.

    Era pra ser um texto engraçado e descontraído, mas tudo que eu consegui sentir foi pena do sujeito e de todas as pessoas que sujeitaram a isso, pois deviam estar em situação problemática como a dele ao ponto de fazerem um pacto de suicídio. Sérião, isso de certa forma me deixou arrasado.

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